Uma Análise de Grid nos Quadrinhos: Gavião Arqueiro

O Gavião Arqueiro, cuja identidade civil é Clint Barton, personagem de grande destaque em outras mídias – cinema e animações –, vem angariando fãs seja no audiovisual ou nos quadrinhos pelo seu jeito worry free. Essa característica do personagem combina e muito com experimentações na forma que Matt Fraction, o desenhista David Aja e demais artistas retrataram-no em sua revista mensal. A revista brincava com a linguagem, a narrativa, a forma, os desenhos, as cores. 

Matt Fraction, um roteirista vindo da cena independente dos quadrinhos estadunidenses veio para a Marvel Comics em 2007 para escrever a equipe de super-heróis californianos batizada de The Order. Utilizando um estilo experimental, Fraction acabou não agradando o público com a série que acabou cancelada após dez edições. Isso não quer dizer que a série não tenha sido aclamada pela crítica, que avaliou Fraction como um escritor à frente de seu tempo. Como veio a ser comprovado anos depois, Fraction estava mesmo à frente da época quando escreveu The Order. Em 2012, ele assumiu a revista solo do Gavião Arqueiro, integrante da superequipe dos Vingadores. O sucesso de crítica e de público foi imediato, tornando a revista cultuada mundialmente, inclusive no Brasil. 

hawkeye02O Gavião Arqueiro começa sua revista defendendo um prédio de seu proprietário e acaba adquirindo-o e passa a morar lá. As histórias da revista começam, então, a girar ao redor do prédio e seus moradores. Um exemplo é a história tocante que se passa durante a passagem do furacão Sandy por Nova York e cuja venda arrecadou fundos para os desabrigados: a reunião de um pai e um filho em tempos de desespero.

Mas o ponto focal da série não é ser tocante, ainda que haja momentos bonitos, como a união dos irmão Clint e Barney Barton. O destaque da série é que ela serviu de laboratório para seus autores, tanto em linguagem como em layout. Temos uma história toda em “linguagem canina”, em que o cachorro Sortudo mostra como funciona seu raciocínio através de infográficos. Também há a história em que Clint está surdo e precisa se comunicar em linguagem de sinais. Ainda, ocorre o uso de expressões peculiares pelos personagens.

HAWinititiveO layout de Aja também merece destaque. Nas últimas histórias do título, ele consegue desenvolver um diálogo em um grid de 24 quadros por página. Existe também, em certo ponto das histórias, uma brincadeira com o rosto mascarado do Gavião para tampar suas partes pudendas. Nesse meio tempo e, talvez por causa disso, surgiu a Hawkeye Initiative, cujo papel era satirizar as poses sensuais de mulheres nos quadrinhos e aplicá-las ao Gavião Arqueiro. Isso acentuou o status de Clint Barton, o Gavião Arqueiro, como um personagem que circula entre a contracultura e o mainstream. Devido a esse status do personagem, a revista do Gavião se tornou um espaço para abordar temas pouco convencionais, como, por exemplo, o Gavião ser uma espécie de outsider, mendigo, pária da superequipe dos Vingadores e da sociedade, que defende gente como ele sem ter poder algum, apenas a habilidade com arco e flecha.

É um tempo de tratar de tópicos importantes para a sociedade e, assim como Arqueiro Verde/Lanterna Verde fez nos anos 1970, esse foi o desempenho da série do Gavião. Não fala apenas dos sem-teto, dos desabrigados dos desastres, dos surdos. É bom lembrar que a série, em inglês, se chama Hawkeye, nome utilizado por dois heróis, Kate e Clint. Ambos são seus protagonistas. Kate Bishop é a pupila de Clint Barton, a Gaviã Arqueira. A história de Kate, que se passa em Los Angeles, tem como alguns motes a necessidade de defender um casal gay, proteger um músico de um sucesso só e enfrentar a mafiosa Madame Máscara com unhas e dentes.

GNVgaviaoA série dos Gaviões conquista o leitor não só pelo conteúdo dos temas abordados e a maneira como eles são abordados, mas pela forma. Neste artigo analisaremos e traçaremos comparações entre o layout de páginas das edições número 6 e 11 de Hawkeye, que podem ser encontradas no encadernado Gavião Arqueiro: Pequenos Acertos (2016). Enquanto a edição número 6 é contada através de um grid de 30 quadros por página, que se aproxima da grade democrática, a edição número 11, é contada do ponto de vista de um cachorro e narrada toda em “linguagem canina”. Nesta última, podemos perceber a influência da desconstrução do grid e dos trabalhos de Chris Ware.

A edição 6 tem como título Seis dias na vida de, e conta exatamente isso, seis dias na vida do herói Gavião Arqueiro. Seguindo o grid de 30 quadros, a primeira página apresenta uma conversa entre o Gavião e Tony Stark, o Homem de Ferro. O importante a destacar aqui é a utilização do espaço não-visual no grid, que ao mesmo tempo dá uma impressão de ausência, também causa a sensação de unidade, provocada pelo grid. Ao mesmo tempo, percebemos a utilização do tempo e a sensação de perda de tempo com os quadros sem requadro em branco. Isso é acentuado pela presença de um ícone de relógio na página.

HAKvcrNa página seguinte, talvez tenhamos a construção de página mais ousada da edição, lembrando uma composição de Chris Ware. No quadro maior, Tony Stark conversa com o Gavião enquanto esse instala componentes eletrônicos. Ao redor do quadro grande, como uma moldura, componentes eletrônicos ligados por cabos VCR. A sensação que provoca é que assim como os componentes audiovisuais, os quadrinhos também precisam de conexões para “funcionar”. Além de possuir essa carga subjetiva a página também explicita o caráter experimental desta revista.

A página três da edição 6, tenta emular um jogo de vídeo game estilo arcade, em que Gavião, Homem-Aranha e Wolverine lutam com capangas da I.M.A. ( o grupo de terroristas tecnológicos cuja sigla significa Idéias Mecânicas Avançadas). As demais páginas seguem o grid de 30 quadros, ora aumentando sua modulação tanto vertical como horizontalmente. Se trata de uma grade democrática, como estabeleceu Brunetti (2013), mas alterada em forma de células, o que vai encontro do conceito de grid modular proposto por Samara (2013, p. 28): “Um grid modular é, essencialmente, um grid de coluna com muitas guias horizontais que subdividem as colunas em faixas horizontais, criando uma matriz de células chamadas módulos. Cada módulo define um campo de informação”.

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O grid modular deriva da concepção racionalista da Bauhaus e do Estilo Internacional elucidados anteriormente. Através da teoria da Gestalt também podemos interpretar os espaços não-visuais da página como elementos de fechamento e continuidade, se transformando-se, assim, em elementos visuais, já que são “reparados” pelo leitor, dando a sensação de peças faltantes no tempo e no dia a dia do Gavião Arqueiro durante a história.

Vale destacar que o relógio está presente durante boa parte da narrativa, ressaltando a sensação da passagem/perda de tempo junto com os espaços em branco no grid. Da mesma maneira, outros elementos visuais vão dando a sensação de obstrução de espaço, como os fios emaranhados da página 2, a neve que assola a cidade, os pequenos problemas cotidianos de ser ao mesmo tempo síndico, dono e defensor de um condomínio. Isso leva ao Gavião concluir, no último quadro da última página: “Não vou a lugar nenhum mesmo”.

A edição de número 11 da revista do Gavião Arqueiro traz a história de um assassinato pela visão do cachorro Sortudo/Mozzarella, assim como mostra como o canino auxiliou na investigação sobre o ocorrido e a combater a milícia que quer desapropriar o edifício onde mora o Gavião Arqueiro. Na primeira página da edição 11, temos uma discussão entre Clint Barton e Kate Bishop, que é interpretada em “linguagem canina” pelo cão Sortudo. Enquanto a linguagem humana é toda borrada, a não ser por algumas palavras, vemos através de um infográfico composto de ícones e imagens interligadas o que o cachorro entendeu da conversa. Um infográfico é um elemento característico da linguagem jornalística que se popularizou a partir da década de 80:

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O que vai diferenciá-lo (o infográfico) é a ausência do texto/narrativa convencional (colunas de texto) que é substituído por cotas, legendas e blocos de texto em tópicos e o uso intensivo de diagramas —representação gráfica de fatos, fenômenos ou relações por meio de figuras geométricas (pontos, linhas, áreas etc.). (KANNO, 2013, p. 10)

Na segunda página da edição 12, Sortudo percorre os apartamentos do prédio onde o Gavião Arqueiro mora, e cada porta de apartamento ganha um fluxograma com ilustrações e ícones correspondentes a cada um de seus moradores. Através delas ficamos conhecendo um pouco melhor sobre os habitantes do prédio. Aqui, fica estabelecido que a “linguagem canina” se dá através de diagramas denominados fluxogramas:

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Eles (os fluxogramas) permitem que os blocos de texto que descrevem cada passo do processo sejam dispostos de maneira orgânica, de preferência com setas e cores resultando numa forma gráfica diferenciada e mais interessante que o texto corrido. O fluxograma deve criar uma figura única que permita a imediata compreensão de todo o processo, destacando o título e os intertítulos de cada item. Quando trata de uma descrição mais linear do processo, cada etapa pode ser ilustrada, completando e esclarecendo o texto criando um infográfico do tipo “passo a passo”, onde cada quadro funciona como um fotograma de um filme, permitindo ao leitor visualizar o processo. (KANNO, 2013, p. 105).

Os elementos do fluxograma na “linguagem canina” de Sortudo também se tornam “unidades de atenção” e, por conterem informações visuais podem ser considerados quadrinhos que formam a página ao mesmo tempo que podem ser considerados linguagem como substitutos de balões de fala ou de pensamento. Essa ênfase na linguagem pictorial em detrimento da linguagem textual, é definida por Timothy Samara como desconstrução linguística do grid:

Podem-se usar indicações verbais ou conceituais dentro do conteúdo para quebrar uma estrutura de grid. […] Dar “voz” à linguagem visual ajuda a alterar a estrutura de um texto, puxando palavras para fora do parágrafo ou forçando relações entre módulos ou colunas, onde a lógica natural da escrita cria uma ordem visual. (SAMARA, 2013, p. 124)

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Mas a utilização dos recursos de infográficos por Fraction e Aja não se encerra nos fluxogramas. Na página cinco da edição 11, a dupla se utiliza de mapas munidos de fluxogramas para gerar uma desconstrução linguística do grid. Já na página 11 desta mesma edição, os autores usam uma splash page para demonstrar a profusão de sentidos que Sortudo absorve na frente do prédio, utilizando ícones para substituir as sensações de olfato, audição e paladar. Esse mesmo recurso se repete na página 17, quando Sortudo está descendo as escadas do prédio.

Após analisarmos dois exemplos de edições da revista Gavião Arqueiro, podemos afirmar que enquanto a edição de número 6 se utilizar de elementos de construção do grid e se orientar por ele, a edição de número 11, por outro lado, se utiliza de elementos de desconstrução da orientação visual e ainda apela para recursos jornalísticos para narrar sua história. Ao mesmo tempo, a edição 6 também possui alguns elementos desconstrutivos, como os espaços em branco e a edição 11, por sua vez, é orientada visualmente por outro tipo de forma: o fluxograma. Isso prova que a melhor forma de se fazer experimentações e inovações é conhecer a fundo como o sistema funciona, para depois, então, formar novas relações entre os seus elementos componentes, desconstruindo-os.

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2 Comments

  1. Guilherme, salve! Tempos que não comento. Por acaso, estou lendo o terceiro encadernado da Kate em LA, e que refresco de leitura e visualização das pages. E parabéns pelo tapa no site ficou moderno. Leitor assíduo! e Splashpages, sempre nos favoritos, como um dos melhores sites, desse universo nosso.

    Igor,

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    1. Oi Igor! Verdade! Faz tempo que não comentas! O encadernado da Katé é ótimo! Mudei o visual porque estava cansado do velho. De vez em quando eu mudo. Valeu pelo apoio e feedback! Abraços! =)

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