Quadrinhos e Memória: Uma Aproximação

Quadrinhos e memória são muito próximos. Ambos são formados de fragmentos e, para serem entendidos, é preciso que a pessoa que os utiliza, dê uma forma e um sentido para eles. Senão sua “leitura” não é capaz de ser feita. Aqui, tentaremos analisar algumas aproximações entre memória e quadrinhos e como um auxilia o outro.

A história em quadrinhos só é uma comunicação eficiente porque os autores usam a narrativa como uma transferência como mediação entre o mundo e o leitor. Essa mediação é efetuada pela memória, seja através do inconsciente coletivo, da bagagem cultural ou dos comportamentos e associações que o leitor pode depreender. O autor de quadrinhos reconfigura o mundo para o leitor, de uma forma a dar ordem a ele, fazendo uma “superdeterminação”, dentro de um mecanismo de transferência e projeção.

A repetição se manifesta com uma força particular na forma híbrida, visual-verbal da narrativa gráfica onde o trabalho de (auto)interpretação é literalmente visualizado; os autores nos mostram a interpretação como um processo de visualização. A forma dos quadrinhos tem uma relação peculiar não só com as memórias e à autobiografia em geral, mas também com as narrativas de desenvolvimento. Além disso, nos quadrinhos, o movimento, ou o ato de memorizar compartilham semelhanças formais que sugerem memória, especialmente na escavação da memória infantil, como tema recorrente neste formato. […] Imagens em quadrinhos aparecem em fragmentos, assim como acontecem as lembranças; esta fragmentação, em particular, é uma característica proeminente da memória traumática. A arte de criar palavras e imagens justapostas em uma narrativa pontuada por pausa ou ausência, como nos quadrinhos, também imita o procedimento da memória. (CHUTE, 2010, 4)

REMbendisalias

A pintura e o romance também têm suas elipses. “A arte é essencialmente seleção, mas é uma seleção cuja preocupação é ser típica, inclusiva. Para muitos, arte significa janelas róseas, e seleção significa pegar um buquê para a Sra. Grundy” (JAMES, 2011). E é isso que torna a arte rica. Não é apenas a visão do autor sobre sua obra, mas a troca entre fruidor e fruído: aquilo que o autor pode receber quando sua obra é interpretada e aquilo que o leitor/observador/espectador pode tirar como novas interpretações para sua vida e o mundo em que está inserido. “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade, uma espécie vasta de teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto de nossa consciência, apanhando qualquer partícula de ar no seu tecido. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa – muito mais quando acontece de ela ser a mente de um gênio ela leva para si mesma os mais tênues vestígios da vida, ela converte as próprias pulsações do ar em revelações” (JAMES, 2011). Ler um quadrinho pode ser uma dessas experiências. Interpretar quadrinhos, pode ser uma dessas revelações.

REMreading

As histórias em quadrinhos, assim como a memória, não são mais do que a soma entre a paisagem mental e o tempo fracionado. “Vários outros modelos de leitura se constituíram através de pesquisas ligadas à psicologia, alguns  convergindo em alguns pontos, outros caminhando em direções antagônicas. Goldman sistematizou um deles, definindo a leitura como um processo seletivo, onde através mínimos indícios de linguagem percebidos, o leitor segue o caminho mais econômico: seleciona a informação relevante utilizando unidades preferencialmente de nível elevado, por exemplo, palavras em vez de grafemas, frase em vez de palavras; selecionar fontes concorrentes de informação (redundância); usa da informação anterior remota ou próxima para compreender a seguinte” (GRUSZYNSKI, 2007, p. 142)

Ao utilizar a memória como ferramenta para entender e ordenar a narrativa dos quadrinhos, volta à mesma soma citada anteriormente, da paisagem mental com o tempo fracionado. Brunetti explica essa aquisição de informações na seguinte citação: “A página de HQ aparece para nós tanto como um todo completo como a soma de suas partes; além disso ‘forma’ e ‘conteúdo’ não somente são inseparáveis como também se originam de modo interdependente”. (BRUNETTI, 2013, p.49)

REMeisner

Um dos efeitos importantes do “tempo” dos quadrinhos, então, é abrandado lendo e olhando. Os quadrinhos subvertem o que o cartunista Will Eisner, ao falar depreciativamente do cinema, nomeou como “ritmo de aquisição”. O horizonte diegético de cada página é constituído de coisas que são essencialmente caixas de tempo, que prestam  às narrativas gráficas um modo de representação capaz de autoconsciência política e histórica em um grau explícito e formal. […] Ao representar o tempo como espaço, o quadrinho situa o leitor no espaço, criando uma perspectiva em e através de painéis. Mila Bongco, então, oferece uma visão de que os quadrinhos transmitem uma narrativa política afirmando que nos quadrinhos, literalmente, ‘o discurso se transforma em uma série de visões’, situando o leitor como um espectador de leituras participativas […] Assim, enquanto a forma visual da narrativa gráfica permite um excesso de representação, também oferece uma constante desmistificação auto-reflexiva do projeto de representação. Na narrativa gráfica o espectador é um ‘convidado’ necessariamente gerador, construindo significado sobre e através do espaço da sarjeta. (CHUTE, 2010, 9)

A eficiência da comunicação e da linguagem está na sua força de sedução e enigmaticidade, quando aproxima a obra do indecifrável e faz o leitor empreender uma busca pela decifração. Nos quadrinhos, o espaço em branco contribui em muito para essa força interrogativa, afinal, eles são construídos de momentos. Mas o que acontece entre um momento e outro? Por que o autor escolheu trazer aquele momento cristalizado para o leitor e não um outro? O que a calha, a sarjeta, ou o gutter dos quadrinhos esconde e revela ao mesmo tempo? A sarjeta, então, acaba compondo um espaço extralinguístico, que assim, como o espaço em branco é essencial para o entendimento dos quadrinhos como narrativa.

Esse ato de manipular o leitor através de “cortes” nos quadros de um quadrinho se dá através da performance do mesmo. Talvez, o que torna a efetividade da linguagem dos quadrinhos maior do que a linguagem apenas textual seja o fato de que ela amplia o perceber através de suas propriedade icônicas sublinhadas pelas imagens. Afinal a seleção feita pela linguagem, seja ela textual ou imagética, acaba travestindo a percepção através da ordem da narrativa. Isso retrai, atenua e diminui a insuficiência do dizer em oposição à plenitude vasta do perceber. Já as imagens possuem uma subjetividade menor em relação ao que está retratado pelo autor ao leitor. Entretanto isso não pode ser aferido se julgarmos a escolha e/ou seleção arbitrária entre um momento espaço-temporal e outro.

REMmosaic

As memórias autobiográficas, assim como os quadrinhos, são formadas por fragmentos de espaço e de tempo que, juntos, são ordenados em uma sequência que cria uma percepção e uma conclusão àquele que se utiliza deles (MCCLOUD, 2005). Tanto a memória autobiográfica quanto a autoficção em quadrinhos são processos de escolha – de mostrar e esconder, de selecionar e dispensar o que é útil naquele momento – para intuir uma intenção daquele que a produz.

Em seu livro, A Cultura do Espetáculo, o escritor peruano, Mario Vargas Llosa (2012), reafirma a tese de Nietzsche de que Deus está morto. Ainda mais, ele diz que hoje cultuamos um “deus-mosaico”, um imbricado de imagens e conceitos que são o que chamamos hoje de cultura. A cultura, assim como os quadrinhos e a memória, acaba fazendo sentido nas identidades em constante mutação de quem os absorve, utiliza e consome. É a cultura, junto com as ferramenta menemônicas que acabam fazendo a construção de sentida na vida de um indivíduo e direcionando suas ações, como por exemplo, a escolha do próximo quadrinho que irá ler e utilizar mecanismos tanto da cultura como da memória para entender suas mensagens.

REMcapa

Naquilo que se convencionou como Quadrinhos de Memória, temos três figuras essenciais: o eu experimentador, o eu narrador e o eu autor. Eles se diferenciam entre si, mas são basicamente três formas de aquisição e transposição da memória em si: experimentando, narrando e “se tornando”, trazendo assim mais uma aproximação com a memória latu sensu. Na verdade, não passa de uma via de mão dupla, uma faca de dois gumes, afinal, “Quando totalmente envolvido com uma obra de quadrinhos, o leitor tem tanto uma resposta cognitiva – perceber, organizar e interpretar as imagens na página, a fim de construir significado – como uma resposta afetiva, reações emocionais (por exemplo, empolgação, piedade, medo) que surgem sem esforço consciente”. Esse é o poder da narrativa dos quadrinhos, pois seja o leitor ou o quadrinista modelo, empírico ou ideal, “a compreensão dos leitores e as reações ao trabalho são o resultado de uma série de inferências sobre funções das imagens em painéis e as relações entre e com os painéis”. (DUNCAN e SMITH, p. 154)


Bibliografia:

BRUNETTI, Ivan. A arte de quadrinizar – filosofia e prática. São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2013.

CHUTE, Hillary L., Graphic women: life narrative and contemporary comics. Nova York: Columbia University Press, 2010.

DUNCAN, Randy. SMITH, Matthew J..The power of comics. History, form, and culture. Londres/Nova York: Continuum Books, 2009.

EISNER, Will. Quadrinhos e arte sequencial: princípios e práticas do lendário cartunista. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. A imagem da palavra: retórica tipográfica na pós-modernidade. Teresópolis, Novas Idéias, 2007.

JAMES, Henry. A arte da ficção. São Paulo: Novo Século, 2011.

LLOSA, Mario Vargas. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro, Objetiva, 2012.

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo, M.Books, 2004.

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