Super-Heróis e o Mito da Violência Redentora

Não podemos negar que as histórias de super-heróis estão recheadas de violência. Aliás, é praticamente impossível encontrar uma história de super-herói em que não haja uma luta – como num tipo de regra de ouro da indústria. De uma forma, ou de outra, os super-heróis acabam sempre resolvendo suas questões com a troca de socos e sopapos. Essa forma de acabar com os problemas é chamado pelos estudiosos de Mito da Violência Redentora e é sobre ele que vamos falar mais a partir de agora.

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O Mito da Violência Redentora faz parte das convenções do gênero de quadrinhos de super-heróis, segundo Randy Duncan e Matthew Smith, no livro The Power of Comics. Esse mito, para eles, é uma das formas mais dominantes e destrutivas da sociedade ocidental. Também essa ética de vigilante é vista com estranheza por estudiosos, pois ela coloca em contraste suas missões em prol da sociedade. O historiador W. Dalton também observa que “nós deveríamos nos questionar sobre toda essa premissa de histórias em que nossos problemas são resolvidos quando alguém em um uniforme colorido vem e destrói vilões com a desculpa de preservar a ordem”, porém, ao mesmo tempo, ele vê que “ao mesmo tempo, o leitor comum pode se identificar com o esforço do herói para fazer as coisas certas e perseverar em meio às adversidades”.

VIOarmyA força de vontade do super-herói e seu senso de dever, além da prática da violência, também estão associados à ligação dos super-heróis com um militarismo latente. Como podemos comprovar, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto imenso sobre o que sabemos dos quadrinhos de super-heróis hoje em dia. Muitas equipes de super-heróis são vistas como soldados e seus líderes, como comandantes de alta patente. Outros heróis, como o Capitão América estão associados ao exército ou a organizações paramilitares como a SHIELD.

Na introdução do encadernado de Orquídea Negra, o então editor da revista Rolling Stone, Mikal Gilmore, falou um pouco sobre a violência nos quadrinhos como uma espécie de prazer estético para os leitores. Ele declara o seguinte:

“(…) no mundo dos quadrinhos – assim como no do cinema, da literatura e da política internacional –, qualquer conto que começa com violência necessariamente deve terminar com violência (afinal, fora matar o oponente, são poucas as táticas que resolvem uma disputa com a mesma eficácia). Além disso, a violência tem ganhado certo prestígio estético nos quadrinhos. Há momentos em que parece que a mídia foi projetada para fazer convite à contemplação de atos brutais e conflitos físicos. Numa página de quadrinhos, você pode congelar um ato enquanto ele acontece ou mesmo antes de ele acontecer; pode estudá-lo em detalhe, sua lógica e sua arte, e ao fazê-lo talvez possa conjecturar quanto aos mistérios da violência – ou seja, entender não apenas como ela acontece, mas também por quê. Se estudarmos tais momentos por tempo o bastante, talvez possamos encontrar uma maneira de impedir que os mesmos se repitam no mundo ao nosso redor – ou talvez simplesmente fiquemos com tamanha repulsa a tais atos que a violência real nos intrigue menos. Ou ainda, quem sabe, o inverso: ao congelar um instante de violência na página, talvez queiramos apenas encontrar uma maneira mais eficaz de curtir a violência, de examiná-la em minúcias e nuances, demorada e prazerosamente”.

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Esse prazer da violência estética poderia mostrar que leitores de quadrinhos teriam pendor para se mostrarem sociopatas ou psicopatas ao se regozijar com a violência sobre o outro. Claro, que isso também gera discursos bastante questionáveis como “bandido bom é bandido morto”. Contemplar atos brutais pode se tornar chocante para alguns e catártico e aliviante para outros, em meio às agressões que sofrem diariamente ao estarem inseridos em sociedade. Talvez por isso, Grant Morrison em seu livro Superdeuses, classificou os quadrinhos de super-heróis atuais como “um mundo nojento de ética dúbia, paranóia, ultraviolência e abuso sexual”.

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Para completar, gostaríamos de citar em contraste, David A. Pizarro e Roy Baumeister que afirmam que “os heróis modernos dos quadrinhos (e dos filmes que eles inspiraram) são contos morais com esteróides”, como se fossem as fábulas dos novos tempos que apresentem modelos de conduta humana que satisfazem a inclinação humana em direção à moralização”. `Portanto, o Mito da Violência Redentora é, como todo mito, possui os seus seguidores e seus detratores. Há aqueles que acreditam nele com força e aqueles que os vêem apenas como diversão frívola.

E você? O que acha de tudo isso? Comente! Abraços submersos!

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5 Comments

  1. “Afinal, os contos de fadas eram histórias de horror e suspense com moral da história.”
    O problema é que hoje em dia não temos mais a moral, nem de quem escreve, nem de quem desenha, nem de quem publica, e muito menos de quem tenta aplicar essa violência em nossas vidas.
    Se ainda ficasse só na ficção… tudo bem…. mas o problema é que estão tentando inserir essa violência em nosso cotidiano.

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