1972: O Ano do Start dos Quadrinhos Autobiográficos

Se 1986 foi o ano que alavancou os quadrinhos mainstream dos Estados Unidos para um outro patamar com a publicação de Watchmen e Cavaleiro das Trevas, com certeza sem o anos de 1972 isso não teria acontecido. 1972 foi o ano em que os quadrinhos undergrounds americanos encontraram um caminho que viria a fazer eco ainda hoje: a verve autobiográfica. Vamos saber um pouco mais porque esse ano foi tão importante.

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A maioria dos livros que falam das histórias das histórias em quadrinhos estabelecem Binky Brown Meets The Holy Virgin, de Justin Green como o primeiro quadrinho autobiográfico. Green se diz muito inspirado pelos quadrinhos undergrounds como os de Robert Crumb. Neste quadrinho, Green utiliza o personagem Brown como um alter-ego seu para expressar sua voracidade por sexo como, por exemplo, enxergar pênis em todos os lugares. Os estudiosos consideram esta obra como pioneira pois “tanto Robert Crumb, como Aline Kominsky-Crumb e Art Spiegelman, creditam o livro de Green de 1972 como transformador da sua visão sobre o potencial de se contar histórias na forma de quadrinhos” (WITEK, 1989, p.227).

Robert Crumb, em si, só teria começado a escrever suas memórias em obras curtas como “As Confissões de R. Crumb” e “As Aventuras do Próprio R. Crumb”, respectivamente de 1972 e 1973, entretanto essas narrativas, muitas vezes deixam para trás qualquer semelhança com a realidade e se tornam fantasias sexuais violentas. Então, vamos para, no mesmo ano, aquela que se tornaria a parceira de Crum, Aline Kominsky, depois, Aline Kominsky-Crumb, ou simplesmente, a Bunch, como ela gosta de ser referenciada. Seu primeiro quadrinho autobiográfico foi “Goldie”, publicado em Wimmen’s Comix#1 (1972).

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Também com a história curta Maus, publicada em Funny Aminals #1 (1972), Art Spiegelman fez sua estréia nos quadrinhos autobiográficos, plantando a semente daquilo que se tornaria sua premiada obra Maus, uma graphic novel que ganhou o Prêmio Pulitzer. Entretanto foi a história Prisioneiro do Planeta Inferno, publicada em Short Order Comix #1 (1973), em que Spiegelman exploraria mais os sentimentos de memória, falando sobre seus sentimentos acerca do suicídio de sua mãe, Anja.

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O ano de 1972 também via despontar a estrela de Harvey Pekar, quadrinista que, posteriormente foi interpretado por Paul Giamatti e por si mesmo no filme Anti-Herói Americano. Pekar publicava histórias autobiográficas sobre sua experiência com quadrinhos undergrounds tais como Os Quadrinhos do Povo e Sexo Bizarro. Com a intenção de publicar quadrinhos contando suas experiências pessoais, Pekar criou em 1976 a publicação American Splendor, na qual, com a ajuda de uma equipe de desenhistas rotativa, contava partes de sua vida. Pekar nem sempre aparecia nas suas histórias, mas estava lá presente como voz narrativa delas, portanto “presente por implicação seja como ouvinte ou observador” fazendo deste trabalho uma documentação de sua experiência direta. (WITEK, 1989, p. 123)

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Vale citar, entretanto, o caso de Gen: Pés Descalços, em japonês Ore Wa Mita, publicada no Japão em forma de mangá no mesmo ano de 1972, de Keiji Nakazawa. A princípio, era uma pequena autobiografia que culminou com sua experiência na explosão da bomba atômica que devastou Hiroshima. Em 1973, o autor expandiu sua história para dez volumes de mangá. Entretanto, desta vez a história assumiu traços de autoficção – com partes inventadas – e passou a se chamar Gen de Hiroshima. A obra foi publicada em muitos países, inclusive no Brasil, pela Editora Conrad.

Ou seja, se não fosse por um carinha que via pintos por todos os lugares, os quadrinhos nunca teriam atingido um patamar de arte séria. Que coisa, não?


Fontes:

DUNCAN, Randy. SMITH, Matthew J. The power of comics: history, form and culture. Second edition. London, Bloomsbury, 2015.

WITEK, Joseph. Comic Books as history: the narrative art of Jack Jackson, Art Spiegelman e Harvey Pekar. Jackson, MS: University Press of Mississippi, 1989

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