A História dos X-Men Acaba Nos Anos 90?

Se você gosta dos X-Men, tem muito a agradecer a um cara de cabelo e barba grisalhos que se chama Christopher Claremont. Ele vinha de uma escola de teatro shakespeariana e conferiu essa teatralidade às histórias dos mutantes quando evoluiu na Marvel de estagiário para roteirista nos anos 70. Foram mais de 17 anos ininterruptos na revista Uncanny X-Men e demais títulos, criando uma imensa mitologia para esses personagens. Claro que Claremont voltou mais tarde, mas o cenário já não era o mesmo. Por isso eu pergunto: com a saída de Claremont no início dos anos 90, a história dos X-Men acabou?

XNObishop
Roubaram a cueca do Ciclope! Santa viagem no tempo, Batman!

Eu falo História aqui com H maiúsculo, como uma sucessão de acontecimentos pretéritos que moldam o presente. O descendente direto de Claremont, Scott Lobdell, até tentou manter essa coesão, mas também vieram grandes incongruências, como a nova história de Cable, agora ligado a Nathan Summers, o filho de Ciclope. Depois de Lobdell foram tantos os escribas, editores e sem falar em desenhistas e equipes, que o negócio degringolou de vez. A cronologia mutante não era mais respeitada, se é que havia alguma.

O ápice dessa crise de personalidade dos X-Men se deu quando Grant Morrison assumiu a revista New X-Men nos anos 2000. Apesar das histórias serem boas, nesse momento tudo podia e Morrison recebeu carta branca para “brincar” com os personagens da maneira que bem entendesse. Isso prejudicou de forma significa o entendimento posterior das histórias dos mutantes, seja para novos quanto para velhos leitores. Um exemplo disso é o caso “Xorneto”, em que não sabemos até hoje quem era Xorn e qual sua relação com Magneto.

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Xorneto was right?

Mês passado, o site Comic Books Resources publicou uma lista de As 15 Piores Coisas Que a Marvel Já Fez com os X-Men. Dessas quinze, duas delas foram criadas por Claremont, entretanto dão origem às duas incontestáveis maiores sagas da equipe: A Saga da Fênix Negra e Dias de Um Futuro Esquecido. Então será que complicar as coisas para os leitores, estaria no DNA da produção das histórias dos X-Men? Talvez sim, talvez não.

Outro ítem estabelecido na lista era “viagens no tempo demais”. Aqui entramos em conflito com Rachel Grey, Cable, Bishop, e os Cinco Originais apenas para citar alguns. Entretanto, na minha visão, o que a fase de Brian Michael Bendis fez foi resgatar os elementos que fazem dos X-Men os X-Men. Além do conflito acerca do preconceito com a raça mutante, as viagens no tempo são elementos essenciais não apenas do universo mutante, mas como de todo universo Marvel.

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Os X-Men do final dos Anos 80.

Entretanto, três fatores desta lista escapam do escopo da criação pelos roteiristas e desenhistas e vão ao encontro de decisões muito maiores: as dos executivos da Marvel. O primeiro item da lista, ou seja, o de número 15, conta como a decisão de vender os direitos dos X-Men para a Fox como uma das piores decisões tomadas pela Marvel. Então que esse último ponto leva ao de número 1, que é trocar os X-Men pelos Inumanos em importância dentro do Universo Marvel. Tudo isso devido a perda de direitos sobre os mutantes e boicote à Fox por uma decisão errada tomada lá atrás pela Marvel para se recuperar da bancarrota que ela mesma tinha se enfiado por causa da bolha especulativa dos quadrinhos que ela e os desenhistas da Image Comics produziram.

Ou seja, mais um sinal de que a História, ou seja, aquela condução de fatos mais ou menos coerentes que levam um personagem do ponto A para o ponto B, passou a ser desrespeitada quando o mercado – essa entidade também conhecida como “o sistema” nas empresas de telemarketing – solicitou que houvesse uma mudança de  rumos no editorial dos X-Men. Que se tirasse Chris Claremont e se colocasse artistas que enchem as páginas de belos desenhos, mas que não se importassem muito para onde os personagens estavam indo quando deixassem o título para uma próxima equipe criativa.

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Com vocês, Senhor Chris Claremont!

Ao mesmo tempo que essa onda acontecia, personagens como Wolverine, Cable e Deadpool começaram a tomar uma importância muito maior do que deveriam ter dentro do universo de histórias, apenas porque tinham mais apelo com o público. Isso gerou uma over exposição desses personagens – que é mais um item dessa lista. No início dos anos 2000, era quase impossível uma revista não trazer o Wolverine. Hoje, estamos vendo quase a mesma coisa com Deadpool que, se bobear, participa até de uma revista da DC Comics.

XNOdeadpool
Too many Deadpools! 😮

Então podemos chegar à conclusão de que quando o “mercado” agarra com unhas e dentes uma franquia de super-heróis, para sugar até o último centavo de seus consumidores, é o momento em que a História acaba. As histórias continuam a serem contadas, mas a continuidade se perde. Não precisamos de coesão narrativa quando podemos colocar o Deadpool abanando para os leitores, afinal, vai vender assim mesmo. Não precisamos que nossos leitores entendam a história que estamos escrevendo, precisamos do dinheiro deles.

Apesar de eu ter escrito esse post desolador, ainda continuo curtindo algumas histórias dos X-Men, entre elas aquelas que sabem inovar respeitando os elementos cruciais dessa franquia. Mas que tem horas que quero mandar tudo pro Stan Lee que pariu… dá muita vontade! Respeitem as mina! Opa… respeitem os leitores! (e as mina leitora também!)


Agradeço ao Felipe Borges por suscitar esse questionamento em mim.

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6 comentários sobre “A História dos X-Men Acaba Nos Anos 90?

  1. “Esmagados pelo próprio peso”. Durante a “Era Claremont” os X-Men se tornaram uma franquia, que cresceu de forma orgânica, natural. Novos Mutantes, X-Factor, Wolverine, Excalibur… todos esses títulos tinham características próprias e uma razão de ser. O grande sucesso deles fez a coisa toda descambar. Equipes azul e dourada, X-Force, Cable, X-Man (o Cable da Era do Apocalypse)… qualquer vírgula do universo mutante passou a ganhar revistas próprias. Impossível manter a coerência ou a originalidade nesse quadro. É algo semelhante aos N títulos do bat-verso em vários momentos. Muitos personagens parecidos, num mesmo cenário, enfrentando praticamente as mesmas ameaças. Some-se a isso os já conhecidos problemas dos anos 90 e pronto, temos um nó que até hoje não conseguiram desfazer. Pra mim, o mais perto de se reorganizar o universo mutante foi com O Cisma. Os títulos passaram a fazer mais sentido, embora ainda tivesse alguns bem dispensáveis. (Wolverine e os X-Men, do Jason Aaron foi o melhor daquela safra pra mim.) Mas antes que a coisa ganhasse forma, veio Vingadores vs X-Men e atropelou com tudo. Enfim, os maior inimigos dos mutantes continuam sendo os editores…

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    1. “O maior inimigo dos mutantes continuam sendo os editores”. Eu sempre digo isso sobre a indústria de quadrinhos de Supers e parece que sou doido. Basta uma comparação com o mercado europeu (em termos de conteúdo e coerência, e não números e cifras) para ver que isso que você falou faz sentido. Particularmente, acho boa parte dos Supers interessante. O que estraga são os roteiros, que tornam os personagens incoerentes e fazem a história parecer mais um carnaval. Alguns personagens funcionam bem em seu próprio universo, se misturar, viram bobos fantasiados ou megalomaníacos.

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  2. Muitas estórias boas aconteceram após a saída de Claremont. O próprio hype dos anos 90 se deve a uma tendência de época e por mais que isso não seja entendido para muitos, se trata de uma fase de uma década em que muita coisa boa podemos destacar daí como a consolidação da franquia X-Men, sagas como a Era do Apocalipse e o 1° filme da franquia que abriu este mercado em Hollywood. A fase do Morrison nos X-Men foi o que a franquia precisava no momento, após estórias terríveis como a Saga dos Doze e apesar de alguns lapsos do roteirista (Xorn/Magneto), foi uma fase empolgante sem desconstruir os personagens. Some-se a isso a fase do Joe Kelly em Uncanny X-men que complementou essa dobradinha. Ao meu ver, a coisa começou a se degringolar em AvsX, na tentativa da Marvel de depreciar os X-Men em prol do sucesso da Marvel Studios e a briga com a Fox. Bendis até que tentou trazer um pouco da essência dos X-Men, mas bagunçou ainda mais a cronologia. Espero não um reboot da franquia, mas sim o estabelecimentos de novos e antigos conceitos que possam trazer grandes estórias, sendo que não precisa de muito, mas sim respeito a toda esta mitologia.

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  3. O Claremont não tem tanta relação assim com o sucesso dos X-Men. Os roteiros dele só prestavam porque o Jim Shooter cortava os excessos de texto e as idéias mirabolantes(E nem Shooter salvou a ressureição da Jean Grey) e porque o Claremont tinha desenhistas de primeiro nível. Quando o Shooter saiu e o Claremont começou a ter desenhistas mais limitados como o Marc Silvestri a qualidade das histórias foi pelo ralo.

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  4. Os arcos atuais (que são publicados agora no Brasil) estão muito interessantes! Dessa família, Velho Logan está fantástico, o fino da boa leitura. Contudo, nada disso tira minha concordância com o texto. Muito bom, muito lúcido

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