O Que Significa Ser um Super-Homem em Tempos de Crise de Virilidade?

Sempre que se discute a virilidade surge à baila a figura do Super-Homem como epíteto de masculinidade. Mas se formos ver nos quadrinhos, apesar de forte, o Superman não tem nada a ver com essa imagem viril que fazem dele, pelo contrário, poderia se dizer até que o Superman apoia o feminismo. Por isso, através dos estudos de virilidade e de representação do gênero masculino, resolvi colocar essa questão em discussão. Até porque ela se faz muito presente no dia a dia daqueles que discutem quadrinhos de supers na internet.

Pra começar, eu queria explicar o que quero dizer com “tempos de crise de virilidade”: “A razão pela qual estudamos a masculinidade – ou, numa outra perspectiva, a razão pela qual os outros carregam o luto de uma “verdadeira” virilidade, ou querem encontrar nela a essência perdida – se deve ao fato de que as críticas feministas da masculinidade se infiltraram profundamente na vida universitária e cultural […]. A ‘masculinidade’ que foi recentemente submetida a um exame tão minucioso é objeto de tantas teorizações feministas, que a resposta à questão ‘O que, então, a masculinidade tem a ver com o feminismo?” deve ser “Tudo”. Foi o pensamento feminista que inventou  essa masculinidade que estudamos, desconstruimos e nos esforçamos para reconstruir agora, e essa masculinidade é tudo, menos invisível”. (ROBINSON in GARDINER apud FORTH in COURTINE, 2013, p. 185 e 185).

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Portanto, o feminismo apesar de não parecer, acua a virilidade exatamente pelo questionamento de papéis de gênero. A mulher nada tem a temer da identidade de gênero feminina ser desconstruída, porque ela é praticamente uma não-identidade, ela é o espelho torto da masculinidade, a diferença na identidade. Ou como coloca sabiamente Guida Diehl, “Enquanto o homem se torna um ser humano pela afirmação de si mesmo, a mulher se torna humana renunciando a si mesma”. (DIEHL, 1932, p.73). Essa afirmação encontra eco na máxima da feminista das feministas Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, se torna mulher”. Ao mesmo tempo que para o homem, “não se nasce viril, se torna viril”. Mas a forma com que se torna viril é o que queremos questionar: ela se faz através da submissão e da inferiorização de outros gêneros e não por mérito da masculinidade.

“Nenhum destino biológico, psíquico, econômica é capaz de definir a forma que assume dentro da sociedade o macho humano; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o homem e o super-homem que chamamos de viril”, nos diz Beauvoir (1972, p. 497) novamente. Portanto, não existe uma “destino manifesto” que confirme que o homem seja “super” e a mulher seja “infer”. Mas, claro, existe – pasmem – movimentos antagônicos ao feminismo que precisam afirmar a superioridade masculina. A existência de movimentos como estes, por si só, já apontam a tal crise mencionada.

SUPdoitO movimento antifeminista, feito pelos homens, é chamado de masculinista. Para chamar a atenção da mídia, por vezes eles aparecem vestidos de Batman, Homem-Aranha e, é claro, Superman. Shame on us, comic fans! Entretanto essa cultura do cosplay para emular virilidade tem respaldo por um lado na origem do Superman, por outro, não. O Superman, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938, foi inspirado nas ideias de Friedrich Nietzsche para o übermensch, uma ideia que era praticamente um meme, que estava muito em voga na Alemanha e veio solapar movimentos totalitaristas como o fascismo e o nazismo. Afinal, Joseph Goebbels, ministro da propaganda alemã uma vez afirmou que “o nazismo é um movimento essencialmente masculino”, assim como todas as guerras o são.

Os nazistas deturparam o conceito de übermensch, usando-o para seus propósitos, como em todo ato seu, adotando o filósofo como pensador oficial do nacional-socialismo. a. Eles ocuparam o termo übermensch e usaram para designar a raça germânica superior que tinha o direito de dominar as raças inferiores. Mas isso é uma distorção grosseira de ideal de Nietzsche. O super-homem idealizado por Nietzsche deveria ter uma educação eugênica, no sentido de melhoria da condição humana, condição subordinada às mais intensas responsabilidades e à cobranças por melhorias constantes, onde o corpo e a alma aprenderiam a obedecer e a subordinar-se a disciplina.

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A característica dominante do super-homem de Nietzsche seria o amor pela luta e pelo perigo, deixando a felicidade para os meros humanos normais. A ele caberia o dever de elevar-se além dos limites estabelecidos pela normalidade, pois não havia nada mais terrível do que a supremacia das massas, segundo Nietzsche. Ironicamente o Superman, criado por Siegel e Shuster, estava inserido numa cultura de massas maior impossível para o tempo em que foi criado, vendendo mais de 2 milhões de exemplares por mês, muito longe da alta cultura que o übermensch deveria almejar. Além disso, em suas primeiras histórias, o Superman da Era de Ouro dos quadrinhos lutava contra contraventores, estelionatários e também homens que praticavam violência contra as mulheres. Logo, ele está muito longe da superioridade de gênero apregoada pelos masculinistas.

As atuais histórias do Superman, no advento do Renascimento DC Comics, que começou em 2016, está se dando o destaque ao papel de pai do herói. Mas um pai que é muito mais “doce”, que “duro”, muito menos “autoritário” e mais “companheiro”. Entretanto, esse papel, apesar de estar em conformidade com os preceitos da desconstrução da virilidade, ele ainda guarda resquícios da cultura patriarcal – patris, do latim, significa pai. A figura paterna é algo muito questionado em tempos em que as mulheres são chefes de família e que encontra essa crise exatamente na falta de responsabilidade dos ditos pais de sustentarem seus rebentos. Esse mito do poder do pai vem do século XIX, em que o pai deveria ser o bastião dos direitos políticos e sociais da família.

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“Assim, tal como a educação de uma criança justificava uma correção, o que era um pensamento razoável e no interesse dela , esta se impunha às vezes para ‘conter’ a própria mulher, fazer respeitar sua posição de chefe de família e sua honra de macho. O adágio popular ‘quem ama muito castiga muito’ justificava para o senso comum o emprego da força a serviço do poder patriarcal”. (VIRGILI in COURTINE, 2013, p. 86). Portanto, mais uma vez vemos a necessidade de se provar um super-homem frente a não-necessidade de se mostrar uma super-mulher. Super-mulheres são todas aquelas que, por uma razão ou outra precisaram lutar – sem socos, pontapés, raio lasers ou invulnerabilidade – para garantir que seus direitos fossem respeitados e sua condição de igualdade enquanto ser humana fosse garantida. Não existem super-mulheres, porque elas não têm necessidade de sublinhar sua feminilidade. Já pretensos Super-Homens, inseguros de seu papel na sociedade, abundam em todos os cantos, mas principalmente na covardia distante da internet.

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Finalizo, com versinhos meigos da música T.N.T. da banda de metaleiros mucho machos AC/DC:

Então tranque sua filha

Tranque sua esposa

Tranque sua porta de trás (eu ouvi furico?)
E corra pela sua vida

O homem está de volta à cidade

Não venha mexer comigo

So lock up your daughter
Lock up your wife
Lock up your back door
And run for your life
The man is back in town
Don’t you mess me ‘round

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