Escrevendo Diálogos Para Quadrinhos x Para Cinema, por Jules Feiffer

Jules Feiffer é um dos mais renomados cartunistas americanos, tendo trabalhado como braço-direito de Will Eisner, criador do Spirit, nos anos 40. Ele é ganhador de muitos prêmios e possui um Pulitzer por quadrinhos editoriais (charges e cartuns). Um dos seus últimos trabalhos publicados no Brasil foi Mate Minha Mãe, publicado aqui pela Companhia das Letras. Ele também trabalhou como dramaturgo e como criador de roteiros para cinema, escrevendo os diálogos do filme live-action do Popeye. Ele também foi um dos primeiros a escrever livros teóricos sobre super-heróis, em 1965, com o livro The Great Comic Book Heroes. Aqui, Feiffer dá dicas da escrita de diálogos, tanto para quadrinhos como para teatro e cinema. Dê uma checada!

“Quando passei dos quadrinhos para o teatro e, mais tarde, para o cinema, descobri que os diálogos para cada tipo de mídia são extremamente diferentes.No teatro e no cinema, quando se lida com relacionamentos, você tem que apresentar o início, meio e fim, ou seja, todas as fases, e não apenas o final, que é o que faço nos quadrinhos. Os diálogos nos quadrinhos são bastante curtos e assumem uma forma elíptica. tem que ser assim devido à escassez de espaço. no palco, especialmente, você sempre dispõe de mais nuances, e pode lançar mãos de formas muito mais sutis e indiretas. O diálogo do teatro pode ser muito mais sutis e indiretas. o diálogo do teatro pode ser muito mais completo e expositivo – e também bem mais gratificante para o ego – do que o diálogo do cinema. Já nos filmes, você pode se dar ao luxo de utilizar bem mais a comunicação não verbal – trocas de olhares, gestos, etc.

greatcomicbookheroes
O livro pioneiro de Jules Feiffer sobre super-heróis, escrito em 1965.

[…] Para começar, não penso em termos de diálogos. o diálogo é algo que surge naturalmente, depois que você criou a personagem e a colocou dentro de uma determinada situação. uma vez que você coloque duas ou mais pessoas juntas num tipo de situação, e já tenha decidido quem elas são e o que fazem, elas automaticamente vão dizer certas coisas. Uma coisa puxa a outra e você irá descobrir, juntamente com seu público, sobre o que elas estão falando. Eu sempre me surpreendo com o que minhas personagens têm a dizer umas para as outras. Você dá início ao diálogo, e elas criam vida própria, e é aí que as coisas se tornam realmente divertidas. Descobri se eu seguir um esquema fixo, não consigo obter algo interessante, cheio de vida, pois muito do que as personagens dizem é o que fornece energia para a peça. E energia é o que de fato importa nos relacionamentos. mesmo que a situação seja de passividade, é necessário que haja algum traço concreto de energia.

[…]Se o quadrinho tiver um caráter mais pessoal que político, ele em geral trabalhará o subtexto. Se for político, pode ser mais direto, mas, mesmo então, uma vez que normalmente [um cartum] é sempre irônico, terá que trabalhar com o subtexto. Pelo menos na minha área, a maioria das pessoas que falam estão na verdade evitando se relacionar. Em geral, tanto na vida pública como na privada, as pessoas dizem exatamente o oposto do que pensam, ou disfarçam o que querem dizer com todo o tipo de rótulo. Desde o início, este tem sido o foco do meu trabalho: remover esses rótulos e mostrar o ponto essencial.

popeye1980
O filme Popeye(1980), que Jules Feiffer escreveu o roteiro.

[…]Se você conseguir captar a noção desse processo de pensamento e traduzi-lo na sua linguagem cotidiana, já terá dado um grande passo. No próximo esboço que fizer, revise o que escreveu, imprimindo-lhe traços diferentes e mais apurados de linguagem ou conversação, para caracterizar certas personagens. Em muitas peças e roteiros de cinema as personagens soam todas iguais. Gosto que minhas personagens sejam tão bem individualizadas, que se torne desnecessário escrever seu nome para o leitor – pois ele já sabe quem está falando. oc~e precisa treinar o ouvido para perceber certos traços de comportamento na conversação. Porém, acima de tudo, você tem de ouvir a sua própria voz interior”.

FEIFFER, Jules. Estudo de caso “Jules Feiffer”. In; SEGER, Linda. Como escrever personagens inesquecíveis.São Paulo: Bossa Nova, 2006. p. 184-186.

Anúncios

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.