Desvendando o Pensamento do Charlie Hebdo

Se você estava vivo e consciente no mundo planeta Terra nos últimos cinco anos, certamente conhece ou já ouviu falar do jornal humorístico francês Charlie Hebdo. O jornal publica charges e quadrinhos polêmicos principalmente envolvendo religiões fundamentalistas como o islamismo e o cristianismo. A sede do jornal em Paris foi alvo de um ataque terrorista no início de 2015, matando vários de seus colaboradores, inclusive o diretor da época, Stéphane Charbonnier, o Charb. É dele o livro Pequeno Tratado da Intolerância, que li essa semana e trago um texto para vocês falando um pouco das ideias que o jornal queria passar.

Stéphane Charbonnier, o Charb, nasceu em 1967 e foi jornalista e caricaturista. Charb foi diretor do jornal satírico Charlie Hebdo, de 2009 a 7 de janeiro de 2015, quando um ataque na sede do jornal matou 12 pessoas que faziam parte da publicação. Ele ficou conhecido na França por suas palavras e desenhos ácidos, críticos e bem-humorados. Seus personagens de maior sucesso são Maurice e Patapon, uma tira de humor protagonizada por um cachorro bissexual anarquista e um gato assexuado fascista.

CHAcharb
Stéphane Charbonnier, o Charb

Usei meus créditos de trocas no sebo e peguei esse livro junto com alguns outros de design gráfico. Nunca consegui tomar uma posição no caso do Charlie Hebdo e quando um ser humano, o animal dos mais julgativos, insatisfeitos e críticos da face da terra não consegue ter uma opinião sobre uma coisa, é preciso tomar uma atitude: estudar. Apesar das capas e charges polêmicas do jornal, eu resolvi tentar entender uma coisa que pra mim não fazia sentido, se é que tinha algum: as propostas e intenções desse polêmico jornal francês dedicado ao escárnio de tudo e de todos sem papas na língua./

CHAmaurice
Maurice e Patapon

Todos os pequenos textos/crônicas de Charb começa com o título: “Morte ao…” e ele completa com temas polêmicos. Como se aqui no Brasil fosse algo como “Morte à Lava-Jato” ou “Morte à Criança Viada”. E ele sempre termina os textos/crônicas com um resuminho do seu pensamento na crônica, sempre na mesma estrutura. Ele começa com “Você há de concordar, é preciso…”, como uma solução para erradicar o problema que coloca, seguido da expressão “Amém!”. Algumas vezes eu não consigo entender se ele está sendo irônico ou sardônico ou sarcástico ou se é mesmo a opinião dele, por outras uma das três classificações citadas serve muito bem.

O texto é muito engraçado e é de dar gargalhadas – eu ri alto pelo menos umas cinco vezes, sendo que em uma vez eu explodi rindo – ou seja, não me senti ofendido nem um pouquinho com o texto dele e muitas vezes concordei com a opinião dele. Então, eu que estou pesquisando a teoria queer, políticas de construção e desconstrução de identidade, percebo que o Charlie Hebdo é uma espécie de “pedagogia do assombro”, que usa o choque para chamar atenção para coisas que deveríamos estar pensando e discutindo, provocar uma consciência crítica na população, mesmo que leve isso às últimas consequências. Porque às vezes somente levando às últimas consequências é que somos respeitados e respeito é uma coisa rara nos dias de hoje. Portanto, agora sim eu posso ter um posicionamento sobre o jornal Charlie Hebdo. Ao menos do seu diretor durante uma das fases mais polêmicas da publicação.

CHAtratado
O livro Pequeno Tratado da Intolerância. (Planeta, 2015)

Para finalizar, gostaria de citar pequenas partes do texto que refletem a opinião (seja ela satírica, sardônica, irônica, sarcástica ou verdadeira) do diretor do Charlie Hebdo e que se estende à política de conteúdo do jornal:

Sobre os teóricos do riso:

“O riso é como a pornografia, tem sempre algum autoproclamado padre tentando impor seus próprios limites. O amor na ponta do pipi tudo bem, mas não no bumbum” (CHARB, 2015, p.12)

Sobre os devotos sem fé:

“Alguém que faz o trabalho de Deus não é nada menos do que alguém que se toma por Deus. Haveria blasfêmia pior que esta de se tomar por Deus? É um erro o fiel matar o infiel, não porque Deus é amor, mas por estar dando razão ao incréu: Deus não existe. Ao massacrar o infiel, é a ideia de um deus todo-poderoso que o devoto megalomaníaco massacra. E o que seria um deus que não é todo-poderoso?” (CHARB, 2015, p. 250)

Sobre o medo islamita:

“É o medo que dá importância a esses lamentáveis fascistoides. E o ridículo, ao contrário do que se diz, acaba de vez com eles”. (CHARB, 2015, p. 274)

Sobre os falsos anarquistas:

“Por que o sistema anarquista não triunfou sobre os demais sistemas políticos e nunca triunfará? Porque assumir sua liberdade é um peso além da conta para a maioria dos neuróticos que somos. Durante séculos nos fizeram acreditar ser preciso ter competências particulares para assumir a própria vida. Mostre os pampas a um democrata, ele vai ter vertigem e náuseas. Prefere estar preso numa gaiola e dar as chaves ao vizinho a dar dois passos sem suas bengalas institucionais. Não estou debochando, é meu caso também. São  raros e pouco numerosos os verdadeiros anarquistas”. (CHARB, 2015, p. 280 e 281)

Sobre os escroques do Politicamente Incorreto:

“É como os bichas. Não se pode mais insultá-los publicamente sem ser mal visto… Ontem ainda o bicha da família ficava de boca calada quando, na mesa, diziam cobras e lagartos da bicharada. Agora que o bicha ousa responder ao tio Marcel e manda ele se foder, dizem que está certo. Se a homossexualidade tivesse se tornado politicamente correta, há muito tempo os homossexuais teriam direito de se casar e adotar crianças. E defender a aposentadoria aos sessenta anos obviamente é correto politicamente! No entanto, nunca termos de volta a aposentadoria aos sessenta anos. Nunca! Pode-se ver a delirante influência do politicamente correto… O politicamente correto domina o mundo! Querer mostrar que o oprimido é o opressor e que o sem-poder é o que a todos monopoliza é a tática de quem se diz politicamente incorreto. O escroque do politicamente incorreto não sacode a ordem reinante, ele é a encarnação da ordem!” (CHARB, 2015, 207 e 208)

Sobre os “não cedemos nada”:

“”Não cedemos nada’ me desanima geral. É ‘vamos pegar tudo’ que devemos gritar!”. (CHARB, 2015, p. 216)

E você, mergulhador, o que acha (ou achou) de toda essa polêmica que envolve (ou envolveu) o jornal Charlie Hebdo e suas opiniões e escárnios radicais e polêmicos? Não deixe de comentar! Abraços submersos num lugar polêmico e gráfico!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s