Os Melhores Quadrinhos Estrangeiros Que Li em 2017

Passado o Natal (foi bom pra vocês?) vamos dar continuidade ao nosso projeto das melhores leituras do ano. O último foi a lista das piores, agora vamos para as HQ estrangeiras. Mas deixa eu explicar o que são HQs estrangeiras: são aquelas que não são produzidas nem no Brasil e nem nos Estados Unidos, já que temos uma classificação apenas para Brasileiras e várias para as produzidas nos States. Aqui, temos as HQs europeias, latinas, asiáticas e quetais. Bem, não quero deixar você esperando demais, vamos nessa!

TRArepetecoREPETECO, DE BRYAN LEE O’MALLEY (CANADÁ)

Mais uma obra de O’Malley digna de nota. De nota dez! Não tem como não se envolver com essa narrativa e ficar pensando o que faríamos se estivéssemos no lugar da protagonista. Katie é uma ótima chef de cozinha que está prestes a abrir seu novo restaurante. Enquanto isso não acontece, ela vive no segundo andar do seu velho trabalho. Uma noite ela é visitada por uma garota mágica que lhe confere um cogumelo e um bloquinho de notas. Comendo o cogumelo o acontecimento descrito no bloquinho será apagado da existência. Porém, existem algumas regras e Katie está disposta a pagar pra ver quando burla elas para atingir seu objetivo principal: o sucesso como dona de um restaurante premiado. O autor de Scott Pilgrim nos brinda dessa vez com uma graphic novel mais adulta mas com o mesmo estilo adorável que fez o mundo inteiro cair de joelhos por Scott, Ramona, seus amigos e seus namorados mal.

difrencaA DIFERENÇA INVISÍVEL, DE MADEMOISELLE CAROLINE E JULIE DACHEZ (FRANÇA)

O que me chamou a atenção para esse livro foi o fato de ele tratar sobre pessoas com autismo. Mas não qualquer tipo de autismo, mas o da Síndrome de Asperger, que pode, em determinados casos, parecer invisível para as pessoas e elas são tratadas de modo norma pelas outras. Seu quadro clínico – manias esquisitas e peculiares – podem ser mal vistas pelas pessoas como a boa e velha “frescurite”, o velho amigo “chilique” e a querida expressão “cheio de nove horas”. Coisas que eu tive de escutar durante toda a minha vida. Embora eu não seja autista e não tenha asperger (pelo menos não que eu saiba), mas tenho sim, fobia social, e muito muito tempo antes de eu me “consertar” todos me viam como uma cara fresco, chiliquento e “cheio de nove horas”. Essa expressão era do meu pai, e acho que só ele usa ela. Mas a verdade é que os aspies – os portadores de síndrome de asperger – são como os sociofóbicos: não suportam gritos, aproximações das pessoas, aglomerados de gente, e não gostam de que coisas os surpreendam e saiam do roteiro. Claro que estou lidando bem melhor com isso, fruto de muita leitura, exercícios, análise, terapia e o diabaquatro. Foi bom conhecer mais a síndrome de Asperger, porque pessoas próximas da minha convivência foram autodiagnosticadas com isso -por outras pessoas que não entendem nada dessa condição. Então, pra quem tem um quadro de fobia, é sempre bom saber mais sobre as coisas que ficam enquadrando as outras, porque já disseram que eu era esquizofrênico e estou bem longe disso. Ah, as pessoas leigas, burras e preconceituosas. Para combater isso, apenas com uma arma: o conhecimento!

MARnijigaharaNIJIGAHARA HOLOGRAPH, DE INIO ASANO (JAPÃO)

O criador de Solanin conseguiu produzir em mim uma inquietação que eu não sentia desde que li Watchmen, aos 14 anos. Esse mangá, com temática bastante adulta, apesar de apresentar a história de algumas crianças pode provocar um mindblowing em você. O próprio Asano declarou que não conseguiria fazer uma história parecida com essa. Tudo gira em torno da crueldade que o ser humano é capaz, seja enquanto criança ou enquanto adulto e por motivos banais. Junte a isso elementos fantásticos como borboletas que prenunciam o fim do mundo e lendas sobre monstros que vivem em túneis. Fora isso, a narrativa fragmentada de Asano, fornecendo pistas aqui e ali, tornam o mangá ainda mais inquietante. Se você quer ser tirado do seu lugar, leia esse mangá. Se não quiser, por favor, nem chegue perto. Obrigado!

MARunaDESCONSTRUINDO UNA, DE UNA (INGLATERRA)

Muitas histórias em quadrinhos tratam sobre estupro. Se você for parar para pensar, todas as histórias do Alan Moore tem estupros. Mas nenhuma delas, mesmo, são reais e são mostradas do ponto de vista da vítima. Em Desconstruindo Una ficamos conhecendo essa mulher que não quer se identificar que foi estuprada na infância, e duas vezes na adolescência, uma delas por um grupo de homens e como isso foi devastador para a sua vida. Desde ser rejeitada no colégio até a sua família que não estava nem aí para suas emoções ou para a sua situação. Mesmo assim, ela se reergueu. Há uma passagem muito importante para nós, leitores de quadrinhos, que diz o seguinte: “A fascinação cultural por homens violentos faz com que eles sejam exaltados pelas artes em documentários e ficção; livros e filmes, séries de TV, teatro, quadrinhos e músicas. Tantos monumentos da cultura popular para o estuprador de Yorkshire foram construídos por homens. Talvez seja mais fácil ver isso como apenas uma história se você não pertence ao grupo de pessoas que o estripador queria matar. Às vezes não vemos a floresta como um todo porque nos focamos nas árvores”. Fica a reflexão.

NOVguiaO GUIA DO PAI SEM NOÇÃO, DE GUY DELISLE (FRANÇA/CANADÁ)

Guy Delisle é um quadrinista conhecido por seus trabalhos descrevendo culturas diferentes em países diferentes que visita ao lado de sua mulher que trabalha para os Medicines Sans Frontiers. Ele já foi a Myanmar, Coreia do Norte, China e Israel, de onde teceu belos álbuns sobre os costumes locais frente a sua visão francófona. Neste novo álbum – TCHANS! – Delisle abandona os países por um outro terreno inóspito: o da paternidade. Isso me leva a crer que Delisle, mais que um viajante e cronista das culturas, também é um quadrinista da fronteira. Digo isso porque ele trabalha o entre-lugar, o estranhamento entre um território e outro. Aqui, neste Guia do Pai Sem Noção, ele percorre a linha fronteiriça entre a idade adulta e a idade infantil, entre os desafios da paternidade e a ingenuidade da dependência filial. O resultado é cômico, como toda comédia que apresenta visões diferentes de um mesmo caso e os encontros e desencontros que formas variadas de encarar o mundo suscitam. O quadrinho é rápido de ler, li em menos de uma hora, mas é simpático, querido e imediatamente identificador, seja para pais ou filhos. Eu adoro o Delisle, então tudo que sai dele eu leio. Até hoje nunca me arrependi.

NOVdylan

DYLAN DOG: MANCHAS SOLARES, DE PASQUALE RUJU E BRUNO BRINDISI (ITÁLIA)

Precisamos parabenizar a Editora Lorentz tanto por trazer Dylan Dog, o detetive do sobrenatural, de volta para as bancas brasileiras, quanto pela seleção de histórias que eles têm feito. Judas dançarino! Que quadrinho bom de ler! Neste Manchas Solares, Dylan se vê às voltas com um calor insuportável em Londres que faz com que as pessoas cometam atos insanos e a matarem a si mesmos e um monte de outros. Segundo um velho professor, são demônios vindos do sol que se apossam das pessoas pelas manchas solares que estão causando isso. Logo, o professor, sua filha e o Dog estão fugindo de zumbis em um hospital que não cura as pessoas, mas as mata e transformam em zumbis. Eu sei, eu sei, lendo assim parece BEM ridículo. Mas o fato é que funciona e que o detetive do sobrenatural tem um sex appeal que poucos personagens tem. Isso – para alguns – também vale a leitura. Esperando pelo terceiro volume aqui.

ABRalenaALENA, DE KIM S. ANDERSSON (SUÉCIA)

Uma menina sueca que é atormentada não apenas pelas meninas que fazem bullying com ela no seu time de lacrosse na sua escola, mas pela fantasma da sua melhor amiga que se matou na escola anterior. Alena não se ajusta à escola, mas logo um garoto vai se interessar por ela, despertando a ira da líder do time de lacrosse. Então, Alena é perturbada pela fantasma, que quer a induzir a torturar e despedaçar o time de lacrosse e o menino que a admira. Assim, a fantasma e a Alena sugerem uma relação homoafetiva destrutiva que busca fazer com que as duas amigas e/ou amantes se reúnam novamente. Mas que preço Alena terá de pagar para que esse encontro se realize. Um terror climático com desenhos e roteiros bastante competentes, em um quadrinho vindo de um país que tem pouca tradição com esse tipo de mídia: a Suécia.

ABRcaixoes

QUARENTA CAIXÕES, DE RODOLFO SANTULLO E JOK (ARGENTINA)

Já havia lido essa HQ ainda quando fui à Argentina pela primeira vez. Li ela em espanhol e achei muito legal. Uns cinco anos depois, ela chegou no Brasil pela Editora Jambô. A HQ conta como Drácula saiu dos cárpatos e chegou à Londres. Essa é a história de sua viagem. Entretanto, ela é narrada pelo ponto de vista do capitão do navio encarregado de levar quarenta caixões cheios de terra. Lá pelas tantas, a tripulação do navio vai presenciando fenômenos estranho e seus marujos vão desaparecendo um a um. Um quadrinho de atmosfera, que mostra o terror crescente entre os marinheiros do navio que carrega Drácula para lá e para cá. Uma leitura rápida, afinal o quadrinho não possui mais do que uma centena de páginas.

JULisaacISAAC O PIRATA, DE CHRISTOPHE BLAIN (FRANÇA)

Um quadrinhos muito premiado lá fora, Isaac o Pirata conta a história de um pintor de retratos que, inadvertidamente se torna um pirata. No navio ele tem de enfrentar saques, motins, tempestades marítimas, além de travar diversas aventuras monetárias e sexuais em terras tropicais. Ao mesmo tempo, acompanhamos em paralelo, as desventuras de sua então noiva, que acaba se tornando cozinheira e depois secretária de um nobre por quem se apaixona e passa a viver junto. Um quadrinho bastante aventuroso e bem-humorado, com desenhos bastante undergrounds e alternativos, em uma história européia bastante produtiva.

HALmetamorfoseUMA METAMORFOSE IRANIANA, DE MANA NEYESTANI (IRÃ)

Se lembram daquele cartunista dinamarquês que foi perseguido por muçulmanos por ter feito uma caricatura do profeta Maomé? Bem, essa HQ conta uma história por outro ponto de vista. A de um cartunista iraniano que fez uma charge que acabou envolvendo a minoria curda (turcos, mas não bem turcos) no irã. Por causa dessa controvérsia, Mana Neyestani acabou indo para uma cadeia secreta no Irã. Commano a charge envolvia uma barata, Mana compara a si mesmo com Gregor Samsa, o personagem do celebrado livro A Metamorfose, de Franz Kafka. A barata acaba perseguindo Mana por todas as partes em suas tentativas de fuga do Irã, da cadeia e da perseguição política, como uma metáfora daquela pessoa que não é bem-vinda, nem bem é quista e muito menos aceita entre seus iguais (humm, tenho esse sentimento frequentemente, será que sou uma barata? Acho que sim. Pelo menos gostam de pisar em mim). Mana era tão indesejado quanto Samsa quando virou o “terrível inseto”. Uma história autobiográfica na melhor tradição de celebradas graphic novels como Persépolis, Retalhos e tantas outras, que usa da linguagem gráfica para acentuar as sensações na cabeça dos leitores.

arabeO ÁRABE DO FUTURO: UMA INFÂNCIA NO ORIENTE MÉDIO (1978-1984), DE RIAD SATTOUF (FRANÇA)

Tenho uma teoria de que os quadrinhos autobiográficos produzem uma conexão maior com o leitor do que os quadrinhos mainstream por causa de seu efeito de autenticidade. Embora muitos dos fatos ali contados não seja bem reais ou bem sejam meias-verdades, apenas o fato de um autor se dispor a contar sua história de vida com detalhes já estabelece um elo com quem está lendo. Riad Sattouf, que já trabalhou para o polêmico jornal francês Charlie Hebdo, conta a história de sua infância transitando por países como a Líbia, a França e a Síria. Acaba chocando a sociedade ocidental com os hábitos dos árabes, como, por exemplo, maltratar filhotes de cachorro porque o cachorro é um animal imundo. Veganos, tremei! Os desenhos de Riad são muitíssimo expressivos e envolventes, com as cores trabalhando para narrar cada lugar em que o protagonista se encontra. Mas a coisa que mais me revoltou foi a atitude passiva e indulgente do pai de Riad que faz a família ir pra cá e pra lá ao seu bel-prazer e sempre com pensamentos diminutos de como o mundo funciona. Sim, dá muita vontade de bater no pai de Riad para ele deixar de ser tanso – olha aí o vínculo emocional que a autobiografia produz – mas como eu sou um cara phyno, eu evito a violência e, então, escrevo textinhos. =)

enterroO ENTERRO DAS MINHAS EX, DE ANNE-CHARLOTTE GAUTHIER (FRANÇA)

Neste quadrinho muito bonito e bem-humorado, a quadrinista francesa Anne-Charlotte Gauthier conta como se descobriu lésbica e como foram suas primeiras experiências com garotas. Seja o primeiro beijo com a melhor amiga da escola, seja com as transas na adolescência com a amiga descolada, nenhuma delas aceitava sua condição de homossexual e depositava essa responsabilidade em Charlotte. Um quadrinho feito com traços infantis, sim, mas com colorização em preto e branco, dando um tom mais frio e mais adulto para a história. O Enterro das Minhas Exs pode servir como um paralelo com Fun Home enquanto autobiografia que fala sobre a descoberta da sexualidade LGBT.

mosntroMONSTRO, DE ALAN MOORE, JOHN WAGNER, ALAN GRANT, HEINZL E JESUS REDONDO (INGLATERRA)

Ok gente, já vou dar a real. Apesar do nome do Moore estar escrito grandão na capa desse quadrinho, ele só escreve as primeiras oito páginas. Quem dá continuidade é a dupla Wagner e Grant sob um pseudônimo. Isso não quer dizer que as histórias sejam ruim, pelo contrário, é uma road trip muito bem construída e instigante. A história nos põe questionar força e aparências, embora, claro, não possua o eruditismo de Alan Moore. Por outro lado, os desenhos de Heinzl e Jesus Redondo são muito bonitos e funcionais, deixando a HQ mais redondinha e interessante. Não é uma história sensacional como costumam ser as de Alan Moore, mas vale a conferida.

E vocês, caros mergulhadores, quais as melhores leituras do ano que fizeram em quadrinhos que não são nem dos states e nem tupiniquins? Comentem aí e contem para nós! Abraços submersos!

 

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