Jodie Foster Destilando o Hate e a Shade nos Filmes de Super-Heróis

Pegue sua pipoca e seu refri, senta que lá vem a história, pois vai começar a sua, a nossa, a preferida entre 10 e 10 leitores de quadrinhos, a Sessão Treta da Semana. E a baguncinha mental dessa semana foi iniciada pela atriz, diretora, lésbica e prostituta mirim (calma, foi só um papel num filme – mas por que não inflamar mais a treta, né?) Jodie Foster. Jodie disse que os filmes de super-heróis não fazem ninguém pensar e só servem para enriquecer os estúdios de Hollywood? Estaria ela certa ou errada na visão deste polêmico blogueiro gay que vos escreve? Ah, você só vai saber acompanhando a treta! Venha mamar na minha treta que você gosta!

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Jodie Foster em “Taxi Driver”

Jodie Foster começou o ano dizendo que “Ir ao cinema hoje em dia é como ir ao parque. O fato de as produtoras criarem material ruim para chamar atenção da grande massa e dos empresários é algo que pode ser comparado com o desmatamento – você consegue lucrar, mas estraga o ambiente ao redor. É um problema que está arruinando os hábitos do povo americano e, consequentemente, os hábitos do resto do mundo.” Além disso, Foster afirmou que para ela “interessa fazer filmes porque há coisas que ela tem de dizer para descobrir seu lugar no mundo, para melhorar como pessoa” e que, portanto, não faria parte de um filme multimilionário sobre super-heróis, a menos que neles houvesse profundidade psicológica. Será que um filme do Batman tem profundidade psicológica? Pra mim, não.

O que eu acho? Eu concordo com ela. Mas calma, pera, antes de ir me xingar nas redes e nos comentários, me deixa explicar meu posicionamento. Ah, o cinema. Embora ele seja a sétima arte, ele tem a pachorra de achar que é a primeira. Antes de colocarem o cinema como o último bastião da cultura, pessoas como Jodie Foster deveriam olhar para o lado e ver a evolução e involução de diversas artes que vieram muito, mas muito antes do cinema.

64th Annual Cannes Film Festival - "The Beaver" Photo Call (USA ONLY)
Um dos maiores conservas do cinema e Jodie Foster que se diz liberal. ATA!

O cinema, hoje, é uma arte em decadência. Isso significa que ele vai continuar em decadência para sempre? Não sabemos. O negócio é que críticos e estudiosos de arte e cultura já repararam há muito tempo é que a criatividade e o Conteúdo com C maiúsculo está migrando do cinema para a TV. Até as séries de TV da Marvel são superiores em Conteúdo do que os filmes de cinema da Marvel. O cinema é um negócio moribundo, pois as pessoas pirateiam em massa por torrents e quetais. A TV conseguiu dar um pequena volta sobre o conteúdo digital pirateado pelos serviços de streaming como o Netflix e ainda assim, não deixam de serem pirateados. Portanto, os estúdios têm de se virar em mil pra chamar a atenção dos espectadores com qualquer porcaria que dê dinheiro. E a porcaria do momento são os filmes de super-heróis.

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O preconceito no filme dos X-Men, representado pela criança Magneto nos campos de concentração.

Filmes de super-heróis são legais. Mas fora uma diversão supérflua, será que eles fazem pensar mesmo como um drama, uma biografia, ou até um suspense ou filme de guerra? A triste verdade é que, ao menos no formato em que se encontram, a resposta é não, não fazem pensar porcaria nenhuma. No máximo, eles levantam questões importantes, como o preconceito nos filmes dos X-Men ou a situação da mulher como feito em Mulher-Maravilha. Mas discutir o assunto com a profundidade que merecem? Os filmes de super-heróis estão longe disso. Por exemplo: a série de TV de Jessica Jones discute muito melhor a condição feminina do que o filme da Mulher Maravilha. E não só porque ele tem mais tempo de duração. Jessica Jones enfia o dedo bem fundo na ferida social que é a situação das mulheres.

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A manipulação do sexo feminino pela dominação masculina: Killgrave e Jessica Jones.

Agora, é difícil imaginar que um estúdio tipo a Disney ou a Warner vá fazer um lobby tremendo sobre um filme sobre a situação feminina em qualquer instância, com a profundidade que Foster deseja.O Lobby é a coisa que Foster deseja para os filmes dela. Como ela disse lá em cima, para os filmes que interessam a ela. Porém, esses não demandam uma produção de milhares de dólares. Portanto, não terão o investimento de marketing que ela quer para que o dinheiro arrecadado consiga compesar o dinheiro gasto com sua produção.

É só fazer as contas, cara Jodie. Infelizmente nesse mundo ou somos pobres e não nos dobramos às normas do sistema, ou somos ricos e fazemos todas as vontades dele, beijamos os seus pés e nos vendemos por qualquer trocado. É difícil conseguir sobreviver no mundo capitalista sem se vender ao menos um pouquinho, muito infelizmente. É a lógica de mercado que TODOS NÓS somos culpados e alimentamos todos os dias.

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A famosa cena do barco no filme da Mulher-Maravilha: uma cena improvisada nas entrelinhas é o suficiente?

Jodie não pode se dizer altruísta, pois seu discurso acaba no momento em que ela mesma precisa pedir patrocínio para suas obras, por mais que seus temas sejam bonitos e redentores da humanidade. Como retrucou James Gunn, diretor de Guardiões da Galáxia, no Twitter, “Sinceramente, a partir do que Foster disse, parece que ela vê o cinema apenas como algo pro crescimento pessoal dela. Para mim, parte do trabalho é isso, mas gastar tantos milhões de dólares num filme deve ser um pouco mais – deve ser comunicação – então a minha experiência pessoal é apenas mais uma. Respeito muito Jodie Foster, seu talento e sua contribuição para o cinema, gosto muito da visão dela sobre o contexto hollywoodiano.”.

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Guaxinim é um animal que revira o lixo, cerrrrto? Ou errrrado?

Comunicação, amigos. Aqui o Gunn falou tudo – embora eu não curta muito a visão de mundo que ele tem e eu prefira a que Foster tem, complicado né? Somos nós.

Mas voltando à vaca fria, se não fosse a comunicação, você não estaria lendo essa matéria. Se não fosse a comunicação você viveria numa cabana no meio do nada e cozinharia sua comida numa fogueira. Portanto, principalmente nos dias de hoje, é preciso comunicar. Contanto que seja com respeito. Pois sem respeito há ruído na comunicação e qualquer produto – uma notícia, um site, um político, um filme, sua mãe te pedindo um favor – fica desacreditado.

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A Bíblia de Gutenberg, à disposição do entretenimento do “cidadão de bem” dos dias de hoje. Aproveite e compre logo a sua. Em breve, nos cinemas!

Apesar de não desacreditar Jodie Foster por completo, James Gunn acha que “Foster olha para os filmes de forma retrógrada, pois um filme apelativo para ela não pode instigar um pensamento além. Normalmente isso é verdade, mas não sempre. Esse ponto de vista é bem comum e não é infundado”.

E aqui voltamos para o início dessa conversa. Os livros existem desde o século XV, quando Gutenberg inventou a prensa. Desde aquela época coisas que eram tidas como baixas, vis e mesquinhas eram feitas. Isso não impediu que, por outro lado, se visse florescer uma cultura que valorizava os livros como a fonte última do conhecimento e que neles se encontra a saída para a ignorância e a pobreza (de posses e espírito).

Contudo, desde aquela época se publicaram fotos pornográficas, contos eróticos, folhetos detratando pessoas, magia negra, revistas pulp, quadrinhos, livros de RPG, piadas sujas, e todo um montante de coisas que os “cidadãos de bem” acham por melhor erradicar da existência. Nenhum desses foi responsável por massacres e holocaustos da sociedade. Por vezes, até a tal da “alta cultura” é a que foi responsável por isso.

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Ooops! Foi o Deadpool! Não me culpe porque eu não faço isso!

Portanto se o “nível” dos filmes está baixando é porque existe procura por eles. Se não há procura, não há oferta. Sim, Jodie Foster tem razão: filmes de super-heróis são uma bela porcaria como conteúdo. Mas são uma linda lindeza em diversão. E quando a realidade assoberba as pessoas, deixando elas fartas de tanta guerra, corrupção, política tacanha, economia em depressão vertiginosa e gente rasa, nada melhor do que a ficção e escapismo para aliviar as pessoas desse corroer da alma.

Como justificou Gunn: “A maior parte dos filmes de franquia são fracos – o que é um perigo sério para o futuro do cinema, mas há exceções. Para que o cinema sobreviva, acho que filmes mais chamativos devem ter uma visão que tradicionalmente eles não têm. E temos feito o nosso melhor para irmos nesse caminho, criando filmes chamativos, mas que sejam inovadores, humanos e que estimulem o público a pensar além. Isso é o que me motiva a trabalhar”.

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O problema não está só no cinema, pois tem público para tudo. Tem quem goste dos dois personagens desta imagem. Quem não entendeu, é claro!

Portanto. para que o “cinema” “sobreviva”, é primeiro preciso descer dos tamancos. O cinema não é a arte suprema e nem nunca foi. Ele está vulnerável a mudanças como toda arte, como toda sociedade. É preciso, dessa forma, fazer um jogo de duas frentes: mudar a sociedade para mudar o conteúdo do cinema e mudar o conteúdo do cinema para mudar a sociedade. A responsabilidade não está só do lado que transmite, mas do lado que recebe. Do mesmo jeito que toda boa comunicação, como falei acima.

Se um dos lados não compreende bem a mensagem, ocorre o ruído e muito se perde. Não adianta fazer um V de Vingança e um Watchmen se a sociedade está preparada para venerar o Coringa e o Capitão Nascimento. Portanto é preciso saber O QUE se comunica e PARA QUEM se comunica, Mas mais importante é saber COMO se faz isso. Em épocas em que o cinema está totalmente alquebrado, o meio é a mensagem, como diria Marshall McLuhan. Contudo, ainda mais importante nos dias de hoje, a mensagem diz muito sobre a situação do meio.

Agradeço ao Matheus Freitas do site Jamesons por ter trazido essa questão à baila.

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2 Comments

  1. Li numa reportagem que dizia “existem filmes bons e ruins desde sempre”. Mas isso é relativo, porque o que agrada uns, desagrada outros. A formação intelectual e/ou cultural de qualquer público não é igual (que bom, senão, seria um tédio dos infernos!).
    Houve épocas em que filmes de guerra, musicais, de terror e faroestes saíam até gritarem “CHEGA!”

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