Os Melhores Romances Que Li em 2017

Ahá, mergulhadores! Eu disse que teria um surpresinha sobre os Melhores do Ano esse ano. Me ferrei nas leituras de livros neste ano do mestrado, mas também consegui ler uns romances e posso indicar os melhores que li para vocês. Quem gosta de ficção literária vai gostar dessa iniciativa. Quem não gosta… bem, não posso fazer nada. Não sabem o que perdem. Então, começamos a lista!

1Q84A TRILOGIA 1Q84, DE HARUKI MURAKAMI
Eu comecei a ler a trilogia 1Q84 em 2009 e só agora, em 2017, portanto, oito anos depois que eu consegui acabar de ler. Também pudera: são três livros com mais de quatrocentas páginas e uma história que exige bastante do leitor, não pelo estilo de escrita, pois Murakami é um escritor bem fluido, mas pela complexidade dos personagens e da trama. São personagens belamente construídos como os protagonistas Aomame e Tengo ou ainda os personagens secundários bastante peculiares como Tamaru e Fukaeri. E ainda seitas secretas que evolvem magia, seres pequeninos em cadáveres e duas luas parecendo aos céus. Tudo isso temperado com um ghost writer de uma ficção que não é tão ficção no mundo de 1Q84, em que ao atravessar uma estrada vamos parar nele. Esse terceiro volume só não me agradou mais porque achei que ele poderia ser mais enxugado e um pouco menos prolixo. Tinha horas que queria parar de ler, mas nada como viagens de avião para te fazerem persistir num livro. Então, oito anos depois, fico feliz de ter acompanhado o crescimento e o desenvolvimento desses personagens nesta trilogia de Haruki Murakami.

meninaA MENINA QUE TINHA DONS, DE MIKE CAREY
Pra começar, esse foi o primeiro livro que adicionei no Goodreads. E hoje, quase três anos depois, é que eu acabei ele. O motivo é que entre a primeira e a segunda metade do livro, ele dá uma queda no ritmo tanto da história quanto das coisas que descobrimos sobre o universo. O que me levou a esse livro foi ele ser escrito por Mike Carey, um escritor de quadrinhos que gosto muito e produziu uma HQ que curto muito que é O Inescrito (The Unwritten). Ele também já escreveu X-Men, Constantine e Quarteto Fantástico, além de uma aclamada passagem por Lúcifer. Imaginava que o livro seria bom, mas não imaginava que seria tanto. Carey cria uma atmosfera e um universo para o seu livro, que vai além da ficção especulativa tradicional, se aproximando – mas não tanto – de um Kazuo Ishiguro. A tal “Menina que tinha dons” é uma criança zumbi. Mas diferente dos zumbis tradicionais, seus “dons” são fala e inteligência, pois ela é ensinada em uma escola para crianças zumbis dentro de uma instalação militar. Sim, meio louco, né? Mas incrivelmente interessante em possibilidades narrativas. E é isso que o livro oferece. Não por acaso ele virou filme para sair esse ano (se é que já não saiu). Ainda quero ver o filme.

Leia uma resenha completa desse livro neste link.

aiaO CONTO DA AIA, DE MARGARET ATWOOD
Um livro MUITO bom, daquele tipo de livro que você quer ler mais quando acaba, mas não só isso. Você quer saber mais sobre a realidade que ele trata – no caso do Conto da Aia, uma distopia – sobre o mapa do lugar, sobre o que a autora falou sobre suas criações e de onde ela tirou essas inspirações. Não é por acaso que a adaptação em série de TV de O Conto da Aia para a plataforma de streaming Hulu recebeu diversos prêmios televisivos este ano, inclusive vários Emmys. O Conto da Aia também tem uma pavorosa semelhança com a nossa realidade, principalmente depois da vitória de Donald Trump e da ascensão da extrema direita nos países da Europa Ocidental, com destaque para a França e a Alemanha, que elegeram seus novos chefes de estado em 2017. A sociedade da história de Margaret Atwood, além de colocar as mulheres como pivotais, também as relega ao posto de mera carne, meras escravas feitas apenas para a reprodução. Naquele mundo as taxas de natalidade estão muito em baixa e todos culpam as mulheres por causa disso – claro. Depois de um atentado jihadista que mata o presidente dos EUA, uma elite bélico-religiosa de evangélicos instaura um novo governo: a República de Gilead, baseada em preceitos interpretados do Antigo Testamento. No Brasil vemos como a religião está tolhindo a sexualidade, a educação e a política, apenas nesse último mês de setembro, pelo menos três ações fazem conexão com essa realidade nacional. Toda distopia é um conto de advertência, do que nossa sociedade pode vir a se tornar. Mas também é um conto de esperança, que das trevas, às vezes pode surgir uma luz insurgente e mudar todo o cenário.

indiceÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE, DE DAVID MACHADO
Fazia muito tempo que eu não lia livros de literatura. Peguei esse livro para escrever uma coluna no Medium sobre felicidade e nossas definições sobre ela. Imaginava que o livro seria bom, mas não imaginava que fosse tanto. Uma trama muito bem construída, bem escrita e cheia de reviravoltas. os personagens são muito particulares, interessantes e o fato de a editora ter preservado a linguagem de Portugal dá um gosto mais especial à narrativa. Se a imagem da capa pode sugerir um road trip book, talvez a viagem mais interessante aconteça dentro e ao redor da vida de Daniel, o protagonista, embora sim, haja uma viagem de carro na história. A discussão sobre conceitos de felicidade e, se conceituar e quantificar felicidade é importante, entra em choque com a realidade de um país e uma população em crise econômica e de valores. Esse é o caso não apenas de Portugal, país de origem do livro, mas uma extensão para quase todos os países globalizados atingidos pela bolha imobiliária de 2008 nos Estados Unidos. Um momento para relaxar, refletir e repensar nossos movimentos e atitudes perante a vida e, quiçá, a felicidade. Seja lá o que ela signifique.

paipaiPAI, PAI, DE JOÃO SILVÉRIO TREVISAN
“Meu pai existiu. Meu pai me deu um espermatozoide, e assim eu gerei um pai”. Essa foi a frase que mais me marcou neste livro. Afinal, são mesmo os pais que geram os filhos ou são os filhos que geram os pais? Me parece que a segunda oração é mais correta. Afinal, nem todo pai é pai se tem um filho, mas todo filho é filho se tem um pai. Nem todos os pais possuem a consciência de sua responsabilidade sobre a vida dos seus filhos e como as suas ações podem influenciar de forma muito positiva ou muito negativa as vidas de sua prole. Parece ser o caso dessa “inconsciência seletiva”, o caso do pai de João Silvério Trevisan, um autor brasileiro importantíssimo e pioneiro para o cenário e o estudo da literatura LGBT. Entretanto, pela minha experiência e a de meus amigos gays, muitos de nós tem a “paternidade inconsciente seletiva” como um fator aglutinador e importante para a formação de nossa identidade sexual e de gênero, geralmente se afastando da masculinidade autoritária, segregadora, preconceituosa e violenta. O papel distante e negador da identidade do filho por parte do pai, seja reprimindo, mandando, forçando e obrigando a determinados comportamentos ditos “viris” faz com que seus filhos quebrem a identificação com a masculinidade e a virilidade percebendo-as como perniciosas e destruidoras. Essa hipótese portanto, vai contra a tese popular que “tem que apanhar para ser homem”. Quanto mais essa virilidade for exigida da criança, mais desgosto ela vai ter desse modelo de gênero e, portanto vai se aproximar de seu binário social, a feminilidade, mais sensível e compreensiva, mais criativa e artística. Trevisan traça muitas hipóteses para corroborar essa tese no seu livro usando sua situação como estudo de caso, mas sem chegar a nenhuma conclusão, deixando a “identidade queer” como algo que construído de maneira independente por cada pessoa, porém com alguns pontos em comum, como os que citei acima. Um livro que vem muito a calhar quando se pensar que as pessoas “se tornam” LGBTs através de uma “ideologia de gênero”. Tolinhos… Sabe de nada inocente!

mitologiaMITOLOGIA NÓRDICA, DE NEIL GAIMAN
Sempre fui muito fã de mitologia. Mas, na verdade, a mitologia que sempre me atraiu foi a clássica, a greco-romana. Mais tarde, só com uns 12 anos, eu fui descobrir as outras mitologias: egípcia, africana, amazônica, da cavalaria e, lá, bem por último, quando lia as histórias do Thor, da Marvel, a Mitologia Nórdica. Então poder ler um livro que compile as principais histórias desse povo, os nórdicos, ou os vikings, como queiram chamar, é bastante recompensador e me faz entender muitas referências de várias histórias que tenho lido ao longo dos anos. Ter essas histórias contadas por Neil Gaiman, um dos meus escritores referência é duplamente recompensador. Pois assim eu também posso entender melhor as histórias dele, que são cheias de idas e voltas por dentro e por fora da Mitologia Nórdica, tanto nos quadrinhos quanto na sua obra de prosa. Estou incluindo aí o livro e a série de TV Deuses Americanos. O livro possui um pequeno senão que é a tradução. Por vezes as frases ficam confusas e não se sabe a quem ou a o que se está referindo. Uma boa preparação de originais aliada a uma boa revisão teria sanado estes problemas.

enclausuradoENCLAUSURADO, DE IAN MCEWAN
Uma ideia muito boa, contar um livro inteiro através do ponto de vista de um feto que está no útero da mãe e suas impressões do mundo durante uma tentativa de assassinato. Mas precisamos usar de muita suspensão da descrença para acreditarmos em um bebê, erudito, literato que já sabe tudo sobre a vida e o mundo. Talvez um exercício maior do que esse e do que o velho mote “o que você contaria do mundo para um bebê recém nascido”, seja mostrar as descobertas, pouco a pouco de cada sentido despertado de um bebê, seja ele no útero ou recém saído dele. Mesmo assim, McEwan faz um trabalho prodigioso, um dos seus melhores livros desde Reparação, com sua prosa poética e deliciosa de ler, revigorada com um protagonista inusitado.

cartaaopaiCARTA AO PAI, DE FRANZ KAFKA
Em seus diários Kafka escreve: “Os pais que esperam gratidão de seus filhos (inclusive há os que exigem) são como agiotas; eles até gostam de arriscar seu capital, contanto que recebam juros por ele”. Essa frase resume muito a relação de Kafka com o pai, mas também a relação que enxergo em mim com meu pai e muitos amigos e conhecidos meus tem com os seus. Esse texto vai ao encontro a uma teoria que tenho de que as figuras de autoridade – sejam elas pais, chefes, pessoas da família que influenciam demais na vida dos outros e assemelhados – são perniciosos e nocivos para a construção do ego da pessoa. A autoridade cria algumas coisas deprimentes nos âmagos das pessoas: primeiro a culpa por não atingir os altos parâmetros exigidos; segundo, um complexo de inferioridade que a faz “se colocar no seu lugar” e se resumir em atitudes, atos e falas e, por fim, criar em si um superego que, na falta da figura de autoridade, o próprio ser assume esse papel de um enorme autocensura. Essa ruptura acaba tendo dois caminhos: ou o sujeito negará tudo que se relaciona com essas figuras de autoridade ou acabará por se anular da vida social e entrará em profunda depressão por não conseguir se encaixar nos altos padrões que a sociedade, aqui representada pela crítica figura de autoridade causa nele. Carta ao Pai é um sinal de aviso para as figuras de autoridade em como elas podem mitigar o gênio de uma pessoa como Kafka, que queria que suas obras fossem queimadas quando morresse, pois não acreditava em seu potencial. Também é um aviso para os que sofrem os abusos morais da autoridade e refazem seu ego através delas, para que não se autossuprimam e sejam manipulados por elas, como dinheiros nas mãos de avaros agiotas.

suiteSUÍTE EM QUATRO MOVIMENTOS, DE ALI SMITH

Eu adoro a prosa da Ali Smith. Adoro o estilo de escrita inovador e refrescante dela e da maneira como ela narra a história. Este Suíte em Quatro Movimentos lembra um dos meus livros favoritos dela, o Hotel Mundo. Entretanto, no Hotel Mundo eu gostei mais dos personagens que neste. O primeiro e último movimento do livro são muito bons, enquanto o segundo e o terceiro, não falaram muito para mim. De qualquer forma, o jeito inventivo de Ali Smith nos contar histórias sem se preocupar com um desfecho, mas com o coração dos personagens é que torna sua prosa única e certeira. Ela emociona e faz rir e ao mesmo tempo reinventa a roda. E isso é ótimo!


barulhoMUITO BARULHO POR NADA, DE WILLIAM SHAKESPEARE
Como toda comédia de Shakespeare – embora não seja assim tão engraçada – Muito Barulho Por Nada tem sua marca de estilo bem presente. Assim como em outras comédias como A Megera Domada e Sonho de Uma Noite de Verão, esta peça também trabalha com a confusão, tanto se sentimentos como de atores sociais para explorar a narrativa. Entretanto, apesar de ser uma peça que aborda e se passa durante um casamento, são os solteirões convictos Beatriz e Benedicto aqueles que roubam a cena e trazem um pouco de cinismo à trama. Mas ao mesmo tempo em que são cínicos, também são iludidos pelas promessas de amor eterno que um casamento traz. Essa ironia no papel que os personagens desempenham para si e para os outros e, também, que desempenham na trama é que são uma das marcas de estilo mais forte do William Shakespeare e que por isso faz de seu trabalho e suas peças tão contundentes até o dia de hoje. Embora já tenha lido e visto peças de Shakespeare mais interessantes e complexas, essa foi um bom retorno para a narrativa do bardo inglês.

MLRcapa

E então, mergulhadores, que acham de falar de livros aqui no blog? Tudo a ver ou nada a ver! Comentem o que acharam das resenhas e o que acham dessa ideia! Abraços submersos!

 

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