A HQ de Diversidade Que Resolveu os Problemas do Mercado e Permitiu A Criação da Vertigo

Estamos encarando um sério problema com a Marvel. Ela está em cima do muro, ela não sabe mais a quem agradar. Um problema semelhante ao que ocorreu com o Santander e a exposição QueerMuseu. Ora, a Marvel apoia os conservadores, ora, apoia os liberais. Dessa maneira, assim como o Santander, todos vão parar de comprar suas revistas ou, no caso do banco, de ter conta, por causa de forças ideológicas. Mas o que eu quis trazer com este post não é pra levantar mais discussão de o que vende mais e/ou do que vende menos. É para aprender com a História com H maiúsculo. A Marvel já passou por problemas com revistas canceladas e diversidade. E como ela resolveu? Bem, você vai saber lendo isso aqui.

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Só criança viada que compra quadrinhos mesmo…

Nos anos 70 tivemos a terceira onda do feminismo, a mais poderosa de todas até a que  estamos vivendo hoje. Angela Davis foi presa e condenada, por defender os direitos das mulheres e dos negros. Mesmo com os Rolling Stones fazendo a música “Angie” para ela, não foi fácil tirá-la da prisão. Gloria Steinem, editora da revista feminista “Ms.”, no lado da DC Comics, fazia com que a editora abandonasse a nova roupagem de Diana. Ela era retratada como uma mulher sem poderes, dona de butique e exímia artista marcial ; mas teve de voltar às suas raízes criadas por William Moulton Marston. O feminismo francês florescia com Simone de Beauvoir que afirmava: “não se nasce mulher, se torna mulher”. Para quem gosta de pensar, reflita o peso dessas palavras. Luce Irigaray, Julia Kristeva e Monique Wittgenstein foram outros grandes nomes da crítica feminista na literatura, na psicanálise e na “escrita do corpo”.

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A enfermeira que o mercado de quadrinhos precisa, não a que quer…

Esses eram os anos 70, onde a representatividade estava em efervescência, em que os direitos humanos deveriam sim, ser ouvidos e respeitados. E, como tudo na história da humanidade é cíclico, hoje, nos anos 2010, estamos vivendo essa situação novamente. Marvel e DC Comics, claro, entraram nessa onda com o intuito de vender mais. Revistas de personagens negros, de mulheres, de asiáticos começaram a ser vendidas. Mas muitas delas não passaram de 6 edições. Stan Lee se perguntava se “os quadrinhos  não foram feitos para garotas, ou eram elas que não foram feitas para quadrinhos?”. Isso era uma inverdade. Poucas décadas antes, Jack Kirby e Joe Simon criaram Young Love e estrearam o nicho quadrinhos de romance que estiveram em voga durante um bom tempo, até mesmo na Marvel, que vendia revistas como Millie, a Modelo, Patsy Walker, além de Linda Carter, a garota enfermeira.

No início dos Anos 70, a Marvel lançou três revistas com protagonistas femininas. A primeira era As Garras da Gata, com Greer Nelson como personagem principal. Ela descobre um uniforme que a torna A Gata e passa a combater o crime depois que seu marido é morto por criminosos. Greer Nelson viria a se tornar a Tigresa dos Vingadores e deixaria o uniforme da Gata para Patsy Walker (ela mesma, Patsy Mello dos anos 50), que se tornaria a Gata do Inferno e amante de Daimon Hellstrom.

Outro gibi era Enfermeira Noturna, que acompanhava um grupo de três enfermeiras encarando os mais diversos perigos. Elas eram Christine Palmer, que apareceu recentemente em histórias do Noturno; Linda Carter (sim, ela mesma Linda Mello, da garota enfermeira dos anos 50), a protagonista que de loira virou morena no Demolidor de Brian Michael Bendis e Georgia Jenkins que inspirou a personagem de Rosario Dawson, Claire Temple, nas séries do Netflix. O último gibi era Shanna, a Mulher-Demônio, com uma agente da SHIELD perdida na selva africana cercada de crocodilos e leopardos. Shanna, mais tarde, seria trabalhada pelo polêmico Frank Cho e se tornaria símbolo sexual.

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Escolher entre o homem que eu amo e ser enfermeira? Ah minha filha, se ele te ama vai te deixar ser o que você quiser… Não é básico? Nos anos 70 não era. Era um grade dilema moral. Viram como evoluímos?

Como vocês podem ver, todas essas personagens tiveram seu espaço durante a longa cronologia da Marvel e mesmo hoje em dia, guardam certa significância. Umas mais, outras menos. Mas o timing da publicação delas foi ruim. Não só os tempos estavam a-changing, mas o mercado também mudava. A televisão ganhava força como o principal meio de comunicação do mundo. E os gibis não estavam mais na ordem do dia. Não como nos anos 50. Além disso, os filmes, como Star Wars, estavam trazendo para os anos 70 toda uma nova grandiloquência para o cinema, com uma nova geração de cineastas que incluía Steven Spielberg, George Lucas e Francis Ford Coppola. Agora, os filmes podiam trazer cenas tão embasbacantes como os gibis, e o público desses últimos diminuía.

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George Lucas depois de filmar o Episódio Dois, no ranço, opa rancho Skywalker.

A mídia de massa, a partir dos anos 70, começou a mirar cada vez mais em jovens, ricos, homens e brancos produzindo inúmeros filmes e séries de ação com personagens com o mesmo padrão. Portanto, não era de se estranhar que com essa situação, a iniciativa das três revistas femininas da Marvel, durasse apenas quatro edições. Mais do que isso, as farmácias e supermercados que antes vendiam quadrinhos pararam de vendê-los por quase um ano devido a uma nevasca no meio-oeste americano. Isso causou um prejuízo imenso pra DC Comics, no evento que foi conhecido como a Implosão DC. Nele, a editora cancelou mais de uma dúzia de títulos e nem todos ligados a diversidade.

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A primeira convenção de quadrinhos do mundo! UHUUU!

Nos anos 70, os fãs começavam a se corresponder cada vez mais. Um deles, chamado Phil Seuling, resolveu criar uma convenção para reunir fãs de quadrinhos. Nessa primeira convenção, além de muita alegria, se reclamava dos preços e da dificuldade de acesso às revistas em quadrinhos. Sim, hoje estamos vivendo algo bem parecido com todos os gibis e não só os de super-heróis. Então a Marvel se reuniu com a Diamond Comics, a toda-poderosa distribuidora de quadrinhos dos Estados Unidos, e resolveram criar o mercado direto. Uma coisa que por um tempo foi boa, mas que hoje em dia envenena o mercado de quadrinhos.

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Humm, será que foi a diversidade que fechou essa comic shop? Nem fudendo com dois homens.

Nos Estados Unidos, o mercado direto funciona da seguinte forma. As revistas não são vendidas em bancas como aqui, nem em livrarias e muito menos em supermercado, quiçá em farmácias. Se você quer um gibi da Marvel ou da DC você precisa procurar uma comic shop. Lá elas servem como termômetro do mercado. Pois é nela aonde os leitores compram suas revistas, como num sistema de encomenda, de assinatura e sob demanda. Se o lojista vê que uma revista está tendo muitos pedidos, ele encomenda mais. Ou seja, mais ou menos quem dita se uma revista vai ir bem ou mal é a Diamond Comics, a distribuidora,. Mas também os lojistas de comics shops. Na verdade não são os leitores.

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Foi por causa do mercado direto que hoje podemos ler Camelot 3000.

O que salvou o mercado dos quadrinhos, então, na longínqua década de 80? Foi uma mudança não de conteúdo, mas de posicionamento comercial e de marketing, principalmente de pontos de vendas das revistas. Hoje em dia vemos as pessoas migrarem bem mais para o comércio online quando se trata de quadrinhos. Mesmo aquelas que nunca ouviram falar de onde se vende quadrinhos compram online esses mesmos produtos. É mais fácil, é mais prático, é mais barato, e tem tudo que procuramos. Embora empresas online como a Amazon se utilizem de comércio predatório para acabar com a concorrência. Isso acaba não sendo bom nem para mim, nem para você. Apenas para o dono da Amazon, que duplicou sua fortuna em 2017.

Para se ter uma ideia de como uma mexida no mercado e na forma como o produto é vendido, eu vou trazer pra vocês o caso da Cristal. O quê? Cristal um case de marketing? Ela que é mulher e está associada à cultura gay da discoteca? Sim, ela mesmo Alison Blaire Mello.

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Dazzler #1 (1982), que vendeu 400 mil cópias. Te mete!

Cristal foi criada na década de 70 por John Romita Jr. e Tom DeFalco. No início era para ser chamada de Disco Queen e era inspirada na cantora Donna Summer. Tudo fazia parte de um acordo prévio com a Casablanca Records. O acordo acabou não dando certo. Mas a Marvel não desistiu da personagem. Em 1980, era lançado Dazzler#1 apenas para comic shops. Dessa vez Cristal era inspirada em Bo Derek. Ela foi a primeira revista lançada no mercado direto e o seu número um vendeu 400 mil cópias. Poucos gibis hoje em dia vendem 400 mil cópias. Isso é muito raro. Mas o gibi da Cristal vendeu. Quem diria, né? Reposicionamento de mercado. Logo, a DC Comics também lançou Camelot 3000 (que tinha duas lésbicas fazendo amor na cama) no mercado direto e foi um sucesso.

Em pouco tempo, o mercado direto se tornou o único canal de vendas de quadrinhos nos Estados Unidos e muito disso porque a partir dele, longe do Código dos Quadrinhos, ele permitia abordar temas antes não abordados. Por ele saíram Monstro do Pântano, Homem-Animal, Sandman e Constantine abordando temas bem cabeludos que uma comissão do senado americano nunca deixaria vender num supermercado ou numa farmácia. Então, em 1993 com o título Morte, Karen Berger a editora “dos ingleses” da DC Comics criou um selo de quadrinhos adultos na DC: o selo Vertigo Comics, que 9 entre 10 leitores de super-heróis adoram.

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A toda-poderosa Karen Berger.

Vamos fazer um adendo nessa história. Nos dias atuais, a Marvel Comics vinha com uma política comercial crocodilia e tubarônica capitalista para salvar seus gibis. A política que a Marvel vinha utilizando com os lojistas era de dar incentivos para que eles comprassem mais números 1.

Se você der uma olhadinha na nossa matéria sobre a Bolha Especulativa dos Anos 90, vai saber que esse tipo de política comercial deu início a uma das piores crises dos quadrinhos.

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A linda reunião da Marvel com os donos de comic shop na New York Comic Con.

Entretanto, após muitos vendedores terem acusado a Marvel de praticar tais ações, os executivos da Casa das Ideias vieram a público acusando a diversidade dos títulos como causa das baixas vendas. Não creio que seja o caso de culpar a diversidade, mas da política agressiva da editora Marvel em empurrar títulos para os lojistas e deixá-los descontentes com estoques de revistas em suas lojas.

A diversidade compra revistas sim, mas quem se arriscaria a entrar numa comic shop e ser julgado por comic book guys que acham que por você ser menina, gay ou negro você sabe menos que ele e por isso não merece estar ali? Eu, por um bom tempo, ao acompanhar fóruns da internet sobre quadrinhos tinha medo de encontrar na rua aqueles seres que comentavam na internet. Isso por causa de sua misoginia, seu preconceito e ranço total. Nunca havia ido a uma convenção por medo de ser destratado. Até que encontrei minha turma. A diversidade possui poder de compra maior que “a maioria”, mas é preciso dar vez e voz a ela. E não cuspir neles e mandá-los para fora de uma comic shop para que se coloque no seu lugar de pessoa ignorante da extensa cronologia dos quadrinhos.

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“Hey, você não é aquele cara que estava stalkeando a Lynda Carter?”

Por isso, não sei se você se lembra, antes da Marvel anunciar a iniciativa Legado ela vez uma extensa reunião com os principais comic shoppers dos Estados Unidos. Rednecks que não estavam gostando da presença de diversidade nos quadrinhos da Marvel e ameaçavam boicotar a empresa, ou seja, não compra mais nada dela se esse conteúdo não mudasse.  Xingamentos como Crioulos, Viados e Mulheres Bizarras foram ouvidos ano passado durante uma reunião dos lojistas com a Marvel, segundo o Bleeding Cool. Ou seja, a diversidade é só um bode expiatório da Marvel para não assumir sua parcela de culpa em sua política comercial.

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Come on, babe, light my fire!

Mas já se passaram quase 50 anos desde que o mercado direto foi criado e, com a passagem de tempo, mudaram os costumes de consumo. Hoje, graphic novels vendem mais que edições simples. As pessoas compram pela internet. Mas por algum raio de motivo os americanos continuam a vender e avaliar o mercado pelas comic shops. Seria o mercado americano conservador?

Não, que é isso… Será preciso uma nova nevasca cobrindo o meio-oeste para eles se ligaram que a terra não é plana, que o efeito estufa existe mesmo e que o mercado direto não é o canal? Quando será que as editora de quadrinhos americanas vão perceber que precisam mudar de estratégia de vendas para que os quadrinhos sobrevivam? Senão, que vivam só de filmes.  Se não tem pão, que comam brioches. Afinal, os filmes estão rendendo muito tanto para Marvel quanto para DC Comics. Mas até aí de onde eles vão tirar essas incríveis e ousadas ideias que alimentaram sua galinha dos ovos de ouro até hoje? Pois é. Um lástima. Uma grande lástima viver do passado.

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7 Comments

    1. Valeu, Marco Aurélio! Se você foi pela categoria História dos Quadrinhos, vai encontrar um monte de posts parecidos com este! Grande abraço! =)

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