O Design dos Super-Heróis: Identidade, Cores e Uniformes

Descubra como o design de um personagem pode auxiliar a maneira como uma história é contada e como ele pode reforçar sentimentos e qualidades de suas identidades. Saiba por que identidade pessoal e identidade visual não estão ligadas. Entenda por que a identificação visual de um personagem é importante e como isso faz com que seu direcionamento na história se torne mais claro. Veja como os símbolos e as histórias que eles contam e que contam sobre eles possuem um poder imenso sobre nós.

Qual o papel do uniforme para um super-herói? E as cores a que ele está associado? Como isso ajuda ou atrapalha na sua escolha de agira como um defensor dos fracos e dos oprimidos no seu dia-a-dia de combate ao crime e na defesa da lei e da justiça? Por que os heróis usam sempre a mesma roupa? Como a identidade visual dos super-heróis interfere na sua identidade pessoal? Essas e outra perguntas, nós tentaremos responder nesse artigo.

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Seleção Canarinho! Pra frente, Brasil! #sqn

Para começar, uniformes vem sendo usados desde a Grécia e Roma antiga e, indefinidamente, estão associados à vida militar. Isso acontece por duas razões: para poder identificar seu aliado durante uma guerra – e daí a origem dos uniformes esportivos, os aliados e os adversários -, como também para entender a graduação das patentes dentro de uma equipe, de uma tropa ou infantaria. Portanto, algumas equipes de super-heróis, como o Quarteto Fantástico, os X-Men e os Desafiadores do Desconhecido possuem, por veze, uniformes de equipe, ou seja, que são parecidos entre si. Mas a maioria dos heróis não segue essa cartilha.

O que temos nos super-heróis é que por mais que algumas vezes seus uniformes mudem, muitos elementos se mantém. Pegue por exemplo o “S” do Superman, ou as “orelhas” do Wolverine, os Círculos Peitorais dos Thors, o raio ou estrela da Miss/Capitã Marvel. Claro, há casos radicais como os da Mônica e do Pato Donald, que abrem seus guarda-roupas, e lá estão todas as mesmíssimas roupas guardadas. Ou seja, isso é uma característica bem própria de personagens de quadrinhos, certo? Mas por que isso acontece nos quadrinhos?

Por duas coisas: identidade visual e identificação. Identidade visual são os elementos que queremos que sejam associados à personagem criada. Isso inclui as cores, o estilo, a forma, o design, entre outras. Esses elementos, uma vez repetidos, servem de identificação para o leitor. Ele saberá que a Mônica veste vermelho e então o leitor fará a associação à força, à violência e à raiva, características da personagem e da cor vermelha. Já o Pato Donald vestirá um terninho de marinheiro porque essa é a profissão do nosso disneyneano irritadiço. Com a diferença que ele usará um terninho azul quando é produzido nos Estados Unidos e um terninho preto quando é feito na Dinamarca. Ahá! Essas são as cores da marinha nesses países. Sacou a identificação?

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Vovó! Pra que essas veias tão saltadas? E pra que essa espada tãooo grandeeee???

Já os super-heróis usam roupas coladérrimas nos seus corpos, isso também já é uma simbologia, mas também uma forma de associar isso à sua identidade e à identificação dos leitores. Como define Klein (apud CORTINE, 2013, p.577) “Assemelhava-se a um desenho da anatomia humana. Sua pele era tão transparente quanto um papel de arroz, e sob essa gaze percebemos uma treliça de vasos, de veias e artérias. Sua quantidade de gordura corporal era tão monstruosamente baixa que víamos cada fibra muscular sobressaltar e se deslocar sob a pele”. Os super-heróis são os avatares da onipotência masculina e representam a perseguição de sonhos de potência corporal.

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Queima de estoque na butique da Canário!

Lembram-se que quando os super-heróis foram criados, eles representavam a força durante a depressão econômica de 30, e que uma guerra mundial se desprendia do horizonte europeu. Portanto, para os homens comuns, que liam esses gibis, uma força onipotente que derrotaria todos inimigos imaginados era preciso para gerar identificação e a força interna necessária para um povo inteiro de americanos recomeçar.

Mas ao mesmo tempo que os heróis são musculosos e poderosos, simbolizando autoridade, seus antagonistas, os vilões, também o são. E como os criadores iriam diferenciar heróis coloridos e musculosos de vilões também coloridos e musculosos? Durante uma época os vilões eram desenhados como pessoas defeituosas, feias, corcundas, sem algum dos membros ou olhos, mas isso foi abandonado. Um padrão que se estabelece ferozmente nos quadrinhos de super-heróis é que os mocinhos vestem cores primárias (azul, amarelo, vermelho) e os vilões secundárias e terciárias (verde, roxo, laranja, marrom). Essa diferenciação chegou até a ser citada pelos autores Matt Fraction, Mike e Lee Allred em uma edição de Fundação Futuro.

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Me. Good. You. Bad.

Ou seja, a utilização de cores e de formas nos uniformes dos heróis tem a função de contribuir mais para a história, uma das funções-base do design gráfico, conforme explica André Villas Boas (2003, p.30): “tem como função transcrever a mensagem transmitida – seja de qual enfoque for – para o código simbólico estabelecido, sob pena de não se efetivar enquanto prática comunicacional”. Essa padronização é uma consequência da comunicação de massas, na qual os quadrinhos estão inseridos, e que surge a partir da industrialização e da necessidade de comunicar a muitas pessoas ao mesmo tempo de forma eficaz. Para que um design seja bom, ele precisa seguir os seus quatro princípios básicos (WILLIAMS, 2005, p. 13):

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Não pode repetir o vestido, Batsy!

Repetição, como no Pato Donald e na Mônica (e também nos símbolos dos heróis), é um dos elementos básicos do design em geral, ele serve para dar coesão ao objeto ou comunicação e também para reivindicar ordem, ou seja, se já vimos antes é porque é confiável. Nos dias de hoje isso seria bem contestável, mas é assim que funciona pra todo mundo não é mesmo? Essa é a base de todo preconceito e de toda segurança humana.

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Ésse ou ésse?

Ao mesmo tempo temos o Contraste, heróis que vestem primárias, não vestem secundárias. Além de ser de segunda classe, isso é coisa de vilão. Assim, heróis vestem cores reluzentes, solares, brilhosas, coladas enquanto os vilões ficam se esgueirando nas sombras com trapos e tecidos carcomidos, esvoaçantes. Você pode reparar que heróis que usam roupas de cores secundária geralmente são anti-heróis ou transitam entre o bem e o mal. Batman, Wolverine, Justiceiro provam isso. Claro, há exceções.

Galeria de vilões de Dick Tracy (Chester Gould, 1931).
Galeria de vilões de Dick Tracy (Chester Gould, 1931).

Temos o Alinhamento, o terceiro elemento básico do Design. Enquanto os heróis andam por ai de coluna reta, com os braços estendidos, em poses belas e harmônicas, os vilões ficam por aí tramando embolados em seus corpos. Eles estão encolhidos tramando uma nova cilada, torcem seus braços e pernas de maneira vil e torpe. Os heróis são limpos, sofisticados, suaves. Os vilões são sujos, rebuscados, bruscos.

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Legião da Boa Vontade

Por fim, temos a Proximidade, ou o agrupamento. Elementos parecidos costumam andar juntos, certo? Por isso tantas Ligas, Sociedades, Legiões. O velho diga-me com quem andas e te direi quem és. Também serve para o design. Agora repasse esses quatro elementos e pense neles utilizando cores. Pense em como as cores mais chamativas estão com os super-heróis e como isso ajuda eles a se destacarem não apenas como protagonistas, mas como símbolos da verdade, da justiça e do modo de vida corretos.

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Seja seu próprio herói!!!

Dito isso, não podemos jamais confundir os preceitos de identidade visual com identidade pessoal. São opostos radicais. Enquanto a identidade visual é estanque e serve para identificação, a identidade pessoal, de uma pessoa ou de um personagem de ficção está em eterna construção. Mesmo quando a sua história é encerada. Sim, isso serve para pessoas de carne e osso e de papel. Muitos personagens históricos mudaram durante os tempos na percepção das pessoas, certo.

Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy (Vertigo, 2013)
Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy (Vertigo, 2013)

Peguem Jesus Cristo como exemplo. Começou como um falso profeta, depois como criminoso, foi um santo pagão e, hoje em dia é o redentor da humanidade e, ainda assim esse papel é contestado por muitas pessoas que não seguem os preceitos cristãos. E essa imagem que temos de Jesus ainda mudará muito com a passagem dos tempos. O mesmo acontece com a Chapeuzinho Vermelho, que era uma coisa nos contos de  Charles Perrault, se modificou para os contos de fadas, para os desenhos animados (Deu a Louca na Chapeuzinho), para os games, para os quadrinhos. Existem inúmeras versões da identidade da Chapeuzinho Vermelho.

Jesus está dentro de você!
Jesus está dentro de você!

Entretanto a identidade visual de Jesus Cristo sempre estará associada à cruz e a coroa de espinhos. A da Chapeuzinho Vermelho, sempre estará associada a um capuz e à cor vermelha. O Superman pode ser repórter de jornal, de rádio, de TV, de um blog, ser um pai fazendeiro, mas ele sempre usará o “S” como símbolo essencial e as cores vermelho, azul e amarelo. Diferente das marcas pessoais, as marcas visual são mais poderosas, elas duram mais, as histórias mudam, fluem, divergem, mas os símbolos possuem um poder muito mais forte. Eles duram e representam. Porém, como toda história pode ser manipulada, toda história sobre a representação de um símbolo pode ser adulterada.

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A louca deu na Chapeuzinho.

Certamente, os cristão não foram os primeiros a usar a cruz, a coroa de espinhos e as chagas. Nem Perrault foi o primeiro a usar a cor vermelha para uma menina (vide Mônica) e todas as associações que a cor de sangue a virgindade tem. Muito menos o Superman e seu “S” no peito musculoso e saliente serão os primeiros e únicos a usarem da virilidade de um homem que pode tudo para redimir um povo enfraquecido e combalido que precisa de forças para se mostrar superior e triunfar sobre os outros. Aquele que souber usar bem o poder dos símbolos e das histórias será o senhor da humanidade e da História da humanidade.

FONTES;

COURTINE, Jean-Jacques. Robustez na cultura: mito viril e potência muscular. In: COURTINE, Jean-Jacques (org). História da virilidade: 3. a virilidade em crise? Séculos XX-XXI. São Paulo: Editora Vozes, 2013.

WILLIAMS, Robin. Design para quem não é designer. São Paulo: Callis, 2005.

VILLAS BOAS, Andre. O que é e o que nunca foi design gráfico? Rio de Janeiro: 2AB, 2003.

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