O Que Faz Um Bom Quadrinho?

Volta e meia surge uma discussão, seja entre amigos, entre leitores, nas redes sociais, sobre que conjunto de elementos fazem um bom quadrinho. Seria usar mais palavras que imagens? Seria usar bem o ritmo? Ou então, será que é por quanto tempo essa HQ dura e nos prende dentro dela? Sempre tive comigo que uma leitura valiosa seria aquela capaz de nos transformar, de mudar nosso pensamento, de abalar nossas certezas, de nos despedaçar para nos reconstruir de novo. Mas eu não tinha minha certeza. Então fui pesquisar o que grandes nomes falam sobre grandes leituras. E o resultado está aqui.

Bem, na verdade eu procurei também sobre o que faz uma grande obra de arte, mas nesse caso entramos num campo mais pantanoso, uma vez que a arte é ainda bem mais subjetiva do que a linguagem. E muitas coisa que alguns consideram arte, outros não consideram. Então vamos deixar essa discussão específica para outra hora. Também tentei buscar depoimentos mais específicos sobre quadrinhos. Mas como sabemos, tanto os estudos como a crítica profissional sobre quadrinhos ainda está engatinhando comparado a outras artes e mídias. Portanto, resolvi recorrer à literatura que, ao menos em suporte físico é muito parecida com os quadrinhos.

GOODshaz

O escritor de A Metamorfose, O Castelo, O Processo e Carta ao Pai, Franz Kafka, em uma carta para seu amigo de infância e colega de classe Oskar Pollak, fala sobre o impacto que um bom livro tem nele. Ele faz esse relato após ler um livro de 1800 páginas, os diários do poeta alemão Christian Friedrich Hebbel. Essas impressões de Kafka foram publicadas em Letters to Friends, Family and Editors:

“Eu acho que deveríamos ler apenas o tipo de livros que nos ferem e nos curam. Se o livro não nos despertar com um golpe na cabeça, para que o estamos lendo? Então, isso nos fará feliz, como você descreve? Bom Senhor, seríamos felizes, precisamente, se não tivéssemos que ler livros; e o tipo de livros que nos fazem felizes são o tipo que escreveríamos se tivéssemos de o fazer. Mas precisamos dos livros que nos afetem como se fossem um desastre, que nos aflijam profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que nós mesmos, como ser banido para florestas longe de todos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado sobre o mar congelado dentro de nós. Essa é a minha crença”.

GOODdeadpool

Portanto, essa crença de Kafka vai ao encontro da minha, que uma boa leitura, seja de um livro ou de um quadrinho deva transformar a pessoa de dentro para fora, que provoque alguma disrupção nela para que tenha valido a pena ser sida. Nem que seja um sorriso ou um sentimento de nojo profundo. Mas, como se diz, nem toda leitura é para todo mundo. Como diz Kafka, a leitura que nos faz felizes é aquele que poderíamos ter escrito. Então isso depende muito do leitor. Vejam o que Ralph Waldo Emerson, em seu livro Sociedade e Solidão sobre o bom livro e o bom leitor. Emerson era o autor preferido dos hippies, ligado ao movimento do transcendentalismo, através do qual o indivíduo deve chegar à essência do eu:

“É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a ideia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração  afins”.

GOODbatsy

Acho que todo mundo que já leu um bocadinho na vida já teve esse sentimento de identificação com as palavras dos autores e, por isso, eles acabaram se tornando os seus preferidos. Eles mexem com nossas ideias ou paixões mais profundas. Portanto, às vezes o livro encontra seu leitor e não o leitor encontra seu livro. Mas, e o que faz um bom leitor? Dessa vez então, recorremos a um dos pais da literatura moderna, Vladimir Nabokov, o autor de um dos grandes clássicos do século XX, o livro Lolita:

“Um bom leitor, um leitor importante, um leitor ativo e criativo é um releitor. E vou dizer por quê. Quando lemos um livro pela primeira vez, o próprio processo de mover os olhos da esquerda para a direita, linha após linha, página após página, esse trabalho físico sobre o livro, o próprio processo de aprendizagem em termos de espaço e tempo que o livro causa, está em nós como apreciação artística. […] No entanto, não vamos confundir o olho físico, uma obra monstruosa de evolução, com a mente, uma conquista ainda mais monstruosa. Um livro, não importa o que é, uma obra de ficção ou uma obra de ciência (a linha de fronteira entre os dois não é tão clara como geralmente acreditamos), pois para a mente, antes de tudo, um livro possui recursos de ficção. A mente, o cérebro, a parte superior da coluna que nos dá arrepios, é, ou deveria ser, o único instrumento utilizado em cima de um livro”.

Aqui, em seu ensaio publicado no livro Lectures on Literature, Nabokov retorna ao sentimento descrito por Kafka, mas de uma maneira mais, digamos, científica. O aparato da mente e dos olhos que nos provocam um frio na espinha é o que nos torna bons leitores. Por isso, nossa capacidade de submergir numa leitura, de nos identificarmos com a história e os personagens nos transformam em bons leitores. Cada vez que sentimos isso novamente, seja no nosso cotidiano ou na leitura, na arte ou na vida, na realidade ou na ficção, estamos fazendo uma releitura e a partir dela vamos ter novas impressões sobre as letras gravadas sobre o papel do livro que já lemos a tempos atrás. Assim, vamos tirar uma nova impressão e, possivelmente seremos abalados novamente por ela, seja para o bem ou para o mal de nossos egos.

GOODcapa

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