Afinal, os Super-Heróis São Guerreiros da Justiça Social (SJWs) ou Não?

Essa semana os tweets do desenhista de Thunderbolts e Cable, Jon Malin deram o que falar na internet. Ele comparava os X-Men a Judeus e os SJW (Social Justice Warriors, ou em português, Guerreiros da Justiça Social) aos nazistas. Acho que alguém andou perdendo muitas aulas de História para jogar videogame. Comparações históricas como essa, só fazem envergonhar a classe dos desenhistas de quadrinhos, como as declarações de Ethan Van Sciver, ardoroso apoiador de Trump. Mas será que, pensando bem, não são todos os super-heróis SJW? Até mesmo gente como o Batman e o Justiceiro? Vamos discutir isso nesse post.

Segundo o Urban Dictionary, SJW significa: “Um termo pejorativo para um indivíduo que, repetidamente e com veemência, envolve argumentos sobre justiça social na Internet, muitas vezes de maneira superficial ou não bem pensada, com o objetivo de aumentar sua própria reputação pessoal. Um guerreiro de justiça social, ou SJW, não acredita firmemente em tudo o que eles diz, ou mesmo se preocupa com os grupos que estão lutando por essas causas. Eles geralmente repetem pontos de quem é o blogueiro e comentarista mais popular do momento, esperando que ‘obtenham pontos SJ’ e se tornem populares em troca. São muito seguros de adotar posições que são ‘corretas’ em seu círculo social. A atividade favorita de todos os SJW é causar confusão. Seus sites favoritos são o Livejournal e o Tumblr. Não possuem lugares favoritos do mundo real, porque os SJWs são principalmente ativistas de direitos civis apenas online”.

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O tweet polêmico do desenhista Jon Malin. Todo dia um desenhista diferente passando vergonha na internet.

Por essa definição, então, eu não posso ser enquadrado como SJW, por exemplo. Minhas opiniões são sempre embasadas, com citações de dados e com teóricos da “justiça social”. Elas nunca seguem o que a maioria das pessoas diz, mesmo no meio da defesa dos direitos humanos, por vezes até confrontando algumas dessas opiniões. Não posso acreditar firmemente em nada, mesmo em casos de valores, pois a vida já me provou que não vale a pena ser leal a nada por muito tempo, pois não ganhamos nada em troca com isso. A não ser frustração e decepção. Também não prego a “justiça social” somente na internet. Estudo sobre identidade de gênero no mestrado que faço, participo de mesas redondas e palestras sobre o assunto, principalmente no tocante aos quadrinhos, também participo de colóquios e seminários sobre o tema, vou a eventos da diferença, diversidade e LGBT.

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Cable #150, capa por Jon Malin.

Feita a minha mea culpa e justificativa, posso dizer que existem os contra-SJW muito mais  baderneiros, confusos e difíceis de explicar a existência, do que os tais SJW.  Os contra-SJW são  gente que só repete o que blogueiros e comentaristas, jornalistas reacionários dizem, num discursinho rançoso pronto. E quando se põem a elaborar um pensamento próprio, saem coisas como a declaração de Malin, totalmente infundadas e ridículas. Essas pessoas também não fazem nada para mudar o mundo, fora compartilhar fake news e atrapalhar o progresso humano (e dos direitos dos mesmos). E eles têm as suas certezas e elas não são nunca abaladas por nada. Estão muito certos que o seu é o único e correto caminho. Esses são os contra-SJW. Oi, gente!

Mas vamos falar dos super-heróis. Se não tomarmos a acepção pejorativa da internet e usarmos a etimologia da junção dessas palavras, os super-heróis são os próprios lutadores pela justiça de uma sociedade igualitária. Afinal, o Superman sempre lutou por isso: Justiça está entre um dos seus três mantras, embora os outro dois sejam bastante questionáveis. Vamos pegar um dos álbuns feitos por Paul Dini e Alex Ross. No Superman: Paz na Terra, o homem de aço buscava por “justiça social” ao tentar achar uma solução para a fome no mundo. Já na clássica história “Precisa haver um Superman?”, de Elliot S! Maggin, o herói possui uma visão meritocrata para a sociedade, achando que os humanos devem conquistar sua igualdade por si mesmos.

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Superman: Guerreiro da Justiça Social

Depois, no arco Reinado do Superman, dos Anos 90, o Superman é manipulado por uma entidade interdimensional que o faz se tornar um control freak sobre o destino da humanidade, produzindo a Liga dos Super-Homens da América e um exército de robôs para atender todas as necessidades humanas ao redor do globo. Vale ainda lembrar que nas suas primeiras histórias, lá no final dos anos 30, o Super era o próprio guerreiro da justiça social, combatendo maridos que batem em mulheres, lobistas, mafiosos, contraventores, escravistas, e toda uma série de seres humanos que desequilibraram a balança da justiça social.

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Presidentes Vilões

Sobre desequilibrar a balança da justiça social, podemos falar sobre riqueza? Essa semana, a empresa de pesquisa Oxfan, às portas do Fórum Econômico Mundial, de Davos, na Suíça, trouxe um relatório sobre acúmulo de capital. Esse relatório declarava que as oito pessoas mais ricas do mundo adquiriram a MESMA renda de metade da população do planeta em 2017. São essas pessoas que os contra-SJW defendem. Eles não querem distribuição de poder econômico e nem mesmo impostos mais altos para grandes fortunas. Eles querem que os pobres continuem mais pobre e os ricos, mais ricos. Bon Xi Bon Bon Bon, pra eles!

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O discurso sobre mutação e judaísmo da Guerreira da Justiça Social Kitty Pryde.

“Há maneiras diferentes de gerenciar o capitalismo que poderiam ser muito, muito mais benéficas para a maioria das pessoas.”, disse Max Lawson, chefe de políticas da Oxfam, em declaração para a agência de notícias Reuters. “Se bilionários escolherem dar seu dinheiro, essa é uma coisa boa. Mas a desigualdade importa e você não pode ter um sistema onde bilionários estão sistematicamente pagando menos impostos do que suas secretárias ou seus faxineiros”, Lawson completou. Os oito indivíduos nomeados no relatório são Bill Gates, da Microsoft; Amancio Ortega, fundador da Inditex; o investidor veterano Warren Buffett; o magnata mexicano Carlos Slim; o chefe da Amazon, Jeff Bezos; Mark Zuckerberg, do Facebook; Larry Ellison, da Oracle, e o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg.

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Problemas de Gênero na revista do Justiceiro do selo para adultos, MAX.

E se falarmos de gente rica nos quadrinhos, como não lembrar de Lex Luthor, que já foi presidente dos Estados Unidos como uma pequena prévia do que veríamos com Donald Trump hoje em dia? Desenhistas como Jon Malin e Ethan Van Sciver são ferrenhos defensores de Trump, como se pode ver na timeline deles no Facebook e no Twitter. O mesmo Trump que, logo no início do seu governo bloqueou a entrada de imigrantes muçulmanos nos Estados Unidos, está construindo um muro na fronteira do México, negou ajuda aos Porto Riquenhos (que sim, faz parte dos Estados Unidos) após o furacão Maria, que provocou um êxodo de 150 mil habitantes da ilha, além de suspender os subsídios para o Obamacare, plano de saúde que garantia que pessoas de baixa renda nos Estados Unidos tivessem acesso gratuito a hospitais pela primeira vez.

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O mais recente Artbook de Ethan Van Sciever fazendo referência ao livro supremo do nazismo, escrito por Adolf Hitler, Mein Kampf.

Quase todos esses bilionários, incluindo Trump e Lex Luthor fazem parte dos WASP (ou seja White, Anglo-Saxon and Protestant; Brancos, Anglo-Saxões e Protestantes), um resumo para uma classe de pessoas que, geralmente, não sentem a opressão do mundo em suas carnes e mentes e, possivelmente não sentirão. São pessoas que, em grande maioria, não se importam com o sofrimento dos outros, pois não precisam. E mesmo super-heróis milionários como o Batman, ou sanguinários como o Justiceiro, já se mostraram sensíveis para o sofrimento de outros serem humanos diferentes deles. Para o Batman podemos citar outro álbum de Dini e Ross, Guerra ao Crime. Para o Justiceiro, podemos citar o arco de Garth Ennis e Lan Medina, chamado Fazedor de Viúvas. Um arco incrivelmente bem produzido do anti-herói que trata de assuntos como escravidão e venda humanas, feminismo, identidade e problemas de gênero. Estas muitas coisas que adultos estão (na maioria das vezes) tendo de lidar no seu dia-a-dia. Absorver, avaliar e compreender essas questões nas histórias em quadrinhos, muitas vezes, pode resultar em efeitos como sentir empatia por aqueles que sofrem.  (Já pensou? =P) Assim como faz todo bom super-herói, defensor dos FRACOS e OPRIMIDOS.

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Blablabla whiskas sachet dos contra-SJW.

E se os super-heróis defendem os fracos e oprimidos, os injustiçados e depauperados, buscam o equilíbrio e a igualdade, eles poderiam ser tidos como guerreiros da justiça social. Não, claro, do modo pejorativo como os SJW do Mondo Bizarro usam essa expressão. Se você é contra isso tudo da primeira frase, então por que mesmo você gosta de super-heróis se não é pela justiça social? Gostaria de saber a resposta. Obrigado.

3 comentários sobre “Afinal, os Super-Heróis São Guerreiros da Justiça Social (SJWs) ou Não?

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