Quadrinho Brasileiro com Brasilidade

“O Brazil não conhece o Brasil”, diria a letra de Elis Regina. O quadrinho brasileiro viu um boom em sua diversificação e nas suas produções, por volta de duas décadas. Entretanto, vamos concordar, nem todos esses quadrinhos possuem brasilidade.  Claro, não necessariamente necessitam ter. Longe da discussão da legitimidade dos super-heróis nacionais, mas indo além. Pensando na representação do país sem ufanismo, sem maneiras pejorativas, sem comemorações e sem condenações, quais são os quadrinhos brasileiros que contém essa tal brasilidade? É sobre isso que vamos falar nesse artigo.

Já estamos cansados de ver quadrinhos americanos ou europeus retratando nosso país de um jeito que nos deixa envergonhados, que não é fiel à nossa realidade. Eu até já escrevi um artigo sobre como os americanos veem a América Latina nos quadrinhos de super-heróis aqui no blog. Mas é pergunta é, será que nós, tupiniquins, estamos fazendo o trabalho direito quando se trata de mostrarmos as “coisas do Brasil”? Será que quando os quadrinhos de super-herói nacional se apoderam de uma determinada brasilidade, eles não o fazem de uma forma pejorativa e superficial? Ou ainda, apenas enxergam corrupção e roubalheira, políticos fora de lei e justiceiros autoproclamados? Será que nosso país é isso?

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O Abaporu, de Tarsila do Amaral.

Para discutir isso, queria chamar a atenção para o Manifesto Antropofágico, que você já deve ter ouvido falar nas artes de história, artes e literatura e que fez parte da Semana de Arte Moderna de São Paulo, de 1922. Esses artistas e essa proposta serviu como uma revolução para como as artes e a literatura, e quiçá até o Brasil era visto aqui dentro e lá fora. Esse manifesto, escrito por Oswald de Andrade, predispunha que “só o antropofágico nos une”. Oswald teria se inspirado no ato de canibalismo dos índios do descobrimento que teriam comido e digerido o Bispo Sardinha. Com, isso Oswald queria dizer que sim, era útil e promissor “devoramos” a cultura de fora do nosso país, mas que mais importante de tudo era “deglutir e digerir”, transformando aquilo em nosso e nos apropriando dele. Propunha a “Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”.

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Os Tropicalistas.

Então, eu pergunto, quais dos quadrinhos produzidos no Brasil exalam brasilidade a ponto de transformá-los em “produtos de exportação”, como algo que nosso país tenha orgulho de ter produzido e que se identifique com ele? A antropofagia desenvolveu um outro movimento popular brasileiro nas artes e na música, que foi o Tropicalismo. Capitaneado por Gilberto Gil e Caetano Veloso, ele tinha como marca o inconformismo, o protesto, a “saída da zona de conforto”. As letras das canções eram inovadoras, criando jogos de linguagem, se aproximando da poesia dos concretistas.  A intenção era chocar e, por meio de performances caracterizadas pela violência estética, protestar contra a música brasileira bem comportada. Influenciados pela contracultura, se apoderaram da linguagem da paródia e do deboche. E mais uma vez pergunto, existem quadrinhos brasileiros que debochem do Brasil? Que o parodiam como faz o humor televisivo? Que inove criando jogos de e na linguagem do próprio quadrinho? E que, com a soma de tudo possam ser produtos de exportação com o orgulhoso selinho “MADE IN BRAZIL” estampado?

Tungstênio, de Marcello Quintanilha e Cumbe, de MArcelo D' Salete, ambos pela editora Veneta.
Tungstênio, de Marcello Quintanilha e Cumbe, de Marcelo D’ Salete, ambos pela editora Veneta.

Tanto Antropofagismo como o Tropicalismo, hoje, são sinônimo do Brasil para exportação, da excelência da produção feita aqui “pra gringo ver”, qualidade internacional. E o quadrinho brasileiro? Tem representantes assim? Tem sim, mas não são muitos deles. Por exemplo, as obras de Marcelo D’Salete e de Marcello Quintanilha respiram brasilidade. Não é por acaso que quase todo o corpus das obras deles foi publicada ou está em processo de publicação por países gringos. E, o mais engraçado, como acontece com certos músicos, escritores e artistas, talvez os dois sejam mais conhecidos e reverenciados “lá fora” do que “aqui dentro”.

Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, também são um exemplo de brasilidade “para gringo ver”, ainda que, no caso destes irmãos, talvez seja uma brasilidade mais higienizada ou, porque não dizer, eugenizada. Ou ainda, como meus amigos negros costumam dizer “white people problems”. Contudo, apesar desse pesar, o quadrinho não pesa a mão e nem celebra o Brasil por demais, como se fosse um panfleto do governo federal.

Estórias Gerais, Wellington Srbek E Flávio Colin
Estórias Gerais, Wellington Srbek E Flávio Colin

Lembrando as histórias de Guimarães Rosa, um escritor modernista da literatura brasileira, talvez o mais inventivo e celebrado por isso do gênero, temos Estórias Gerais, de Wellington Srbek e a lenda Flávio Colin. São “estórias” – assim grafada da maneira antiga que diferenciava a narrativa dos acontecimentos humanos – , porque elas têm aquele gostinho de cousas antigas, de causos que nossos avós contavam. Nesse quadrinho temos uma homenagem ao neologismo de Guimarães Rosa e a seus personagens peculiares, caricatos e memoráveis. Entretanto, por outro lado, a inovação linguística de Guimarães Rosa na prosa não é utilizada na inovação da linguagem dos quadrinhos.

Enquanto quadrinho de contestação, ao estilo dos Tropicalistas e além, talvez para algo nihilista e com certeza escatológico, temos uma vasta produção underground dos anos 80 e alguns fanzineiros atuais como Diego Gerlach e o coletivo Beleléu. Temos a obra provocativa de Wagner Willian que nos choca com suas imagens regurgitadas e mescladas de Lobisomem sem Barba, ou do baralhamento sensorial que é Bulldogma. Mas é no seu último quadrinho, O Maestro, o Cuco e a Lenda, que encontrei a tal brasilidade do jeito que eu penso ela. Poderia dizer que este quadrinho é uma espécie de Alice nos País das Maravilhas, mas com uma dose porreta de brasilidade. E foi esse elemento que mais me encantou no quadrinho, que se passa no interior mineiro. Para quem teve a oportunidade de passar a infância no interior, sabe que não existe lugar melhor para ativar nossa imaginação do que esse cenário: de causos, histórias, natureza à mil e grandes espaços abertos para inventarmos toda uma miríade de brincadeiras em que podemos ser quem quisermos.

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O Maestro, o Cuco e a Lenda, de Wagner Willian.

Outro quadrinho que eu gosto muito é o Sabor Brasilis, de Hector Lima, Pablo Casado, George Schaal e Felipe Cunha. Neste quadrinho, os autores fazem uma homenagem ao maior produto cultural de exportação dos brasileiros e que não é o carnaval, são as novelas. Os quatro autores trazem para o papel um enredo digno de novela, com reviravoltas, vilões, mocinhos e a dubiedade entre eles, tão normal hoje em dia como atestam A Favorita e Avenida Brasil. A trama gira em torno da velha pergunta “Quem matou (insira o nome aqui)?”, que fez famosas as novelas O Astro, Vale Tudo e A Próxima Vítima (para citar as principais), o negócio é que nem os roteiristas da novela que está sendo escrita dentro da história de Sabor Brasilis sabem onde é que vai dar tudo isso e, às pressas, precisam terminar os roteiros dos últimos capítulos. E quem não gosta, ou pelo menos acompanhou religiosamente uma novela no Brasil?

Sabor Brasilis, de Pablo Casado e Hector Lima e Felipe Cunha e George Schall
Sabor Brasilis, de Pablo Casado e Hector Lima e Felipe Cunha e George Schall

Talvez o quadrinho brasileiro que eu busque, seja aquele que nós brasileiros, de alguma forma nos identifiquemos profundamente com ele, a ponto de acharmos que pertencemos àquele espaço narrado na história. Que, de alguma forma fazemos ou fizemos parte daquele lugar, servindo essa palavra lugar para vários sentidos da leitura. Talvez, seja um quadrinho que nos provoque um sentido de unidade, de identidade nacional, ainda que esse termo seja bastante perigoso. Um quadrinho que não nos envergonhe e nem nos revolte no sentido de que digamos “eu não sou essa porra que está aí e não tenho nada a ver com isso”. Lidar com a identidade é algo difícil, pois ela não é, como a maioria pensa, uma coisa fixa, mas algo fluido, que muda, se transforma, como a cultura, com algo produzido por seres vivos. Se o país está sempre mudando, se nós estamos sempre mudando, os quadrinhos estão numa plena mutação, de que forma poderíamos dizer o que é brasilidade e o que não é? Essa pergunta eu deixo para vocês.

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2 Comments

    1. É algo a ser levado em conta sim, mas se é um tema histórico, ou que envolva a cultura brasileira em si, é preciso fazer uma boa pesquisa antes de sair escrevendo e desenhando! Abs! =)

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