Conheça a HQ em que o Estrela Polar se Assumiu Gay

Sempre ouvimos aqui no Brasil de que Jean-Paul Beaubier, o Estrela Polar, integrante da equipe canadense Tropa Alfa, foi o primeiro herói da Marvel a se assumir como gay. O fato é que os brasileiros nunca puderam ler essa história, pois a Tropa Alfa, havia anos, não era mais publicada no Brasil quando essa história saiu. Por isso, resolvi dar uma lida nessa edição e ver como essa revelação é feita, já que ela envolve muita polêmica nos bastidores da Marvel e também falava sobre AIDS e heróis da Era de Ouro. Então, sem demora, vamos à história!

A revista Alpha Flight #106 saiu em março de 1992, bem na época da Bolha Especulativa dos quadrinhos, quando os futuros fundadores da Image Comics estavam em alta na Marvel e as revistas em quadrinhos de super-heróis vendiam milhões. Nessa época quem escrevia as histórias da Tropa Alfa era Scott Lobdell, um comediante e roteirista freelancer. Mais tarde ele teria uma grande importância para o Universo dos X-Men. Quando entrou na revista, ele colaborou com o futuro super astro Jim Lee. Lee, logo foi para o Justiceiro e foi substituído por Mark Pacella, que tinha um traço que mesclava influências artísticas tanto de Lee como de Rob Liefeld, como era o costume para todo e qualquer desenhista que queria se dar bem na Marvel naquela época. Mark Pacella é o desenhista dessa revista, que é editada por Bobbie Chase e pelo editor-chefe Tom De Falco.

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A história mostra uma luta da Tropa Alfa contra o Mister Hyde, que resolveu atacar o Canadá ao invés de sua base, os Estados Unidos. No meio da luta, Jean-Paul, o Estrela Polar, ouve um choro. Indo na direção do barulho ele encontra uma bebê abandonada numa lixeira, fragilizada. Ele corre até um hospital para deixar a menina aos cuidados dos médicos. Depois de vencerem o vilão estadunidense, a Tropa Alfa vai ao hospital e recebe uma triste notícia. A menina era filha de uma mulher HIV positivo e havia sido infectada no útero. A criança possuía AIDS. Jean-Paul, então, resolve adotar a menina, que batizou de Joanne Beaubier.

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A notícia corre a nação e o mundo e a mídia busca esforços para sensibilizar a população para as condições do bebê Joanne. Isso, entretanto enfurece o Major Mapleleaf (algo como Major Folha de Plátano, o símbolo da bandeira do Canadá), um herói canadense da Era de Ouro, que lutou ao lado dos Invasores durante a Segunda Guerra Mundial. O Major, então, ataca o hospital, na intenção de matar Joanne. Enquanto luta com o Estrela Polar, o Major revela seus motivos: o seu filho, Michael, que era gay assumido, foi vítima da AIDS. Mas nem por isso ele se tornou um “queridinho da mídia”, como era o caso da bebê Joanne. O Major afirmou: “por ele ser gay, ele não importava”.

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Então, Jean-Paul replica enquanto desfere socos e golpes no Major Mapleleaf:

“Não presumo que você vá me ensinar sobre as agruras que os homossexuais têm de enfrentar. Ninguém sabe disso melhor do que eu. Por enquanto não estou inclinado a discutir minha sexualidade com pessoas que não têm nada a ver com isso… EU SOU GAY! Seja lá o que for, a AIDS não é uma doença restrita aos homossexuais. Por mais que pareça que às vezes o resto do mundo deseje isso!

Sendo atirado contra um caminhão, o Major Mapleleaf dá sua tréplica para Jean-Paul, o Estrela Polar, chamando sua alienação para a realidade:

“Seu filho da BLABAM egoísta! Como membro da Tropa Alfa, você é uma das figuras mais proeminentes do Canadá, tanto dentro como fora do país. Antes disso era um atleta olímpico renomado! Você não percebe o BEM que faria! Ao não falar do seu estilo de vida… se mantendo no armário… você é responsável pela morte do meu filho da mesma forma que os políticos homofóbicos que se recusam a lidar com a crise da AIDS!”

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Estrela Polar então, percebe o que vinha fazendo e como seu esforço para salvar Joanne acabava sendo inócuo, já que a menina tinha poucos dias de vida pela frente, mas que haviam muitos gays, sofrendo de AIDS ou não, que poderiam ter nele uma influência positiva para se afirmarem no mundo. Esse é um dos problemas de várias figuras públicas brasileiras e internacionais, principalmente atores de Hollywood, que preferem botar sua carreira à frente de servir como um símbolo contra o preconceito. É, de certa forma, um egoísmo e também uma negação de si mesmo.

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Ao mesmo tempo, existem correntes na teoria queer que citam essa situação com o problema do “pós-gay”, ou seja, pessoas que não viveram a época pós-Stonewall (a rebelião que deu início aos movimento dos direitos gays) e pós-epidemia de AIDS. A geração pós-gay acredita numa suposta “higienização” dos gays:

A assimilação pode emudecer a identidade assim como a diversidade pode amplificar ela ao destacar distinções. Na sabedoria convencional, o nós interno (o grupo de dentro) é solidificado contra um eles externo (o grupo de fora). Esse enquadramento dado por certa, “nós versus eles”, serviram para a construção da identidade coletiva gay durante as eras de armário e coming out [anos 1970 a 1990], mas acaba fornecendo um enquadramento conceitual inadequado para dar conta das mudanças que transpiramos hoje. Se a identidade requer diferença, então qual é a forma como ela é construída durante momentos em que tais diferenças são menos enfatizadas, ou seja, quando os ativistas gays irão definir suas similaridades, em lugar das diferenças, em comparação com os heterossexuais? (GHAZIANI, 2011, p. 100)

Outro ponto polêmico dessa história é a motivação que também é egocêntrica do Major Mapleleaf em chamar Jean-Paul de egoísta quando ele mesmo vai na direção de matar um bebê, e ainda, um bebê moribundo com AIDS, porque não deram atenção ao seu filho que sofria. Nesse sentido, o discurso do Major cai num vazio tão grande, por mais que seja nobre e altruísta, quanto a atitude do Estrela Polar a respeito de sua própria homossexualidade. Mesmo assim, Jean-Paul acaba perdendo Joanne e declarando sua homossexualidade para a imprensa. A notícia saiu na capa de um jornal fictício que encerra a edição. No texto, o jornal fictício cita as declarações de Jean-Paul:

“Dizem que o silêncio é igual à morte, não quero mais ser parte da morte que é a crise da AIDS. […] É meu fervoroso desejo que a expressão de minha homossexualidade abra as portas para conversação”.

Para saber como a Marvel lidou com a epidemia de AIDS nos anos 90, leia este post.

Antes de ler essa história eu questionava a forma como o Estrela Polar havia saído do armário: por conta da epidemia de AIDS, fato que os ignorantes chamavam de “câncer gay” e eu já tive que ouvir de um amigo essa expressão. Agora, depois de ler essa história, ela me divide. Eu acho que é motivo de aplausos todo a discussão entre o Major, pois esse é o grande embate entre os gays assumidos e os “Bill do Armário”, que escondem sua orientação por medo de represálias, enquanto poderiam fazer a diferença numa época em que um LGBT é morto por dia no mundo, e não por motivos de DSTs, mas por violência homofóbica. Como diz o Major, eles acabam sendo cúmplices dessas mortes, por não representarem, por não causarem, por não lacraram.Ou, pior ainda, por sofrerem internamente com esse estigma para si mesmos, tendo sempre de passar uma imagem, uma máscara do que não são.

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Por outro lado, as motivações do pseudo-vilão-herói, são ridículas e típicas das motivações dos anos 90, onde necessariamente cada edição precisava de uma luta. Claro, poderia haver uma luta, mas por outras motivações. Como, por exemplo, o Major pedir eutanásia para a menina para que não sofresse da mesma maneira que ele viu o filho sentir dores e definhar pouco a pouco pela AIDS. Mas era os anos 90, pessoal, e histórias coerentes não estavam na ordem do dia, quiçá supervisão editorial.

Isso nos leva para a história de bastidores da criação desse enredo na Marvel. Naquela época, a Marvel estava sob posse de um executivo da Revlon, uma marca americana de cosméticos, concorrente da Avon. Seu nome era Ronald O. Perelman e ele havia ficado enraivecido com a publicação desta história, segundo conta Sean Howe. O departamento de relações públicas da Marvel havia mandado uma série de sem comentários para a CNN e aos jornais. O novo editor da Tropa Alfa, que substituiu Bobbie Chase, após essa edição, Rob Tokar, foi convidado a se justificar na sala do CEO da Marvel, Terry Stewart.

“No 12º andar, Tokar discutia com Stewart, Tom DeFalco e um RP descontente da Marvel sobre como a editora tinha lidado mal com o rebuliço e como distanciar-se da homossexualidade ia contra o progressismo histórico que a Marvel tinha. “Toda a vez que eu dizia a palavra gay’, lembrou Tokar, ‘eu os via ter um calafrio. Então comecei a dizer mais , ao ponto de ficar debruçado na mesa do Terry, apontando o dedo na cara dele. Acabei perdendo as forças e o Tom disse para eu me sentar” (HOWE, 2013).

Toda essa situação de bastidores lembra alguma coisa, não é mesmo? Sim! isso mesmo, hoje em dia quando a Marvel cancela revistas de diversidade. A história se repete e a Marvel não aprendeu que o seu histórico progressista é o que fez ela quem ela é. O filme do Pantera Negra está aí para provar isso. E se na época da criação de T’Challa existisse um editor que vetasse sua publicação? Pois é. Dar uma olhada na História, seja ela a da humanidade ou mesmo um histórico empresarial, pode ajudar a resolver os problemas atuais e moldar um crescimento tanto econômico como de importância no coração e nas mentes dos leitores.
Referências:

GHAZIANI, Amin. Post-gay collective identity construction. Social Problems, Vol. 58, Número 1, Society for the Study of Social Problems, University of California Press, 2011, p. 99-125.

HOWE, Sean. Marvel Comics: a história secreta. São Paulo, LeYa, 2013.

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6 Comments

  1. O que é BLABAM que o major folha da bandeira fala na sua tréplica ao estrela polar?

    Essa história é super famosa mas acho que a maioria das pessoas que a comenta ou fala sobre ela nunca a leu nem sabia muito sobre esse contexto. obs: os desenhos são horríveis.

    Não sei se é da mesma época, mas dos anos 90 lembro daquela história do hulk que um rapaz com aids morre, acho que era sobrinho do Falcão… o hulk luta contra um cara que corre e tem uns espetos e chicotes na mão, e machuca um cara e ninguém quer ajudar ele pq ele tem aids. ou algo assim, não lembro bem hehehe.

    Valeu!

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    1. Oi Rodolfo! O “BLABAM” é a onomatopéia do som do Major batendo de costas no caminhão. Também foi uma maneira que o Lobdell encontrou de censurar o xingamento.

      Sim, os desenhos são bem ruins. E sim, a história do Jim Wilson eu falei naquele link ali sobre a Marvel e a AIDS nos Anos 90. Dá uma olhada que vai saber mais sobre isso!

      Abraços!
      =)

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  2. Parece que depois tentaram justificar e voltar atrás com uma justificativa absurda, dizendo que o Estrela Pilar era meio elfo, RS… procede isso?

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    1. Sim, teve isso sim, que ele e a Aurora eram meio-elfos, e por isso eram mutantes. Parece o mesmo “whitewashing” que fizeram com a Wanda e o Pietro alguns anos atrás! Abraços! =)

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