Como Funciona Uma Adaptação DE Quadrinhos e Uma Adaptação PARA Quadrinhos?

Hoje temos uma explosão de adaptações de quadrinhos para o cinema, para a televisão, para os videogames e também para os livros. Ao mesmo tempo, vemos um movimento contrário: de filmes para quadrinhos, mas principalmente da prosa escrita para a arte sequencial. Claro, não existe uma fórmula mágica para uma adaptação boa ou correta, mas deve-se focar nos pontos fortes de cada mídia e em suas particularidade. Se isso não for levado em conta, a adaptação fracassa. Nesse post vamos discutir um pouco sobre conceitos e formas de adaptações que envolvem quadrinhos e porque podemos nos frustrar tanto quando nossas expectativas não são atendidas nesses trabalhos. Vem comigo!

Linda Hutcheon, linguista e teórica literária escreveu o livro A Theory of Adaptation, sobre transposições de mídias. Eu gostaria de falar aqui sobre as adaptações que envolvem, é claro, quadrinhos. O grande crítico de artes e historiador Walter Benjamin falou que “storytelling sempre será a arte de repetir histórias”. Quando falamos que um trabalho é uma adaptação, já atestamos que ele possui relações com outra ou outras histórias. Isso quer dizer que as adaptações podem ser encaradas como algo autônomo ou como algo ligado a outras obras. Para Hutcheon, a adaptação sempre envolve um processo criativo que consiste em REinterpretar e REcriar. Resumindo, Hutcheon define a adaptação nesses três termos:

  • Uma transposição consciente de um outro ou outros trabalhos reconhecíveis;

  • Um ato criativo ou interpretativo de apropriação ou resgate;

  • Um envolvimento extensamente intertextual com o trabalho adaptado;

Assim, a adaptação é uma derivação que não é derivativa – um trabalho que não vem em segundo lugar sem ser secundário. (HUTCHEON, 2006, p. 9)

Walter Benjamin declarou em seu texto “A tarefa do tradutor” de que a tradução não é somente melhorar ou envernizar algum significado não-textual para ser copiado, parafraseado ou reproduzido; ao invés disso, é um envolvimento com o texto original que nos faça ver esse texto de formas diferentes. As teorias da tradução recentes acreditam que  esse ato envolve uma transação entre textos e entre linguagens que seja uma ato de comunicação que seja ao mesmo tempo intercultural e intertemporal.

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Os heróis do Marvel Studios.

Nos quadrinhos, sempre temos aquele lado negativo das adaptações pois elas precisam se encaixar com as expectativas dos leitores e espectadores e, lidar com expectativas, sempre é complicado, seja nas artes ou na vida. Os fãs sempre pressionam por fidelidade, mas a verdade é que nem todo tipo de texto – num sentido amplo – serve para todo tipo de mídia. Para Hutcheon, parte do prazer de uma adaptação vem da repetição com variação, “do conforto do ritual com uma pitada de surpresa”, afinal nada mais chato de, por exemplo, ler uma adaptação de livro em quadrinhos que é ipsis literis a mesma história.

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Still comparando o quadrinho e o filme de Sin City.

Contudo, relembrar e fazer ligações fazem parte do prazer da adaptação. Assim como identificar suas mudanças. “A persistência da narrativa e da temática combinada com a variação material, resulta que as adaptações nunca são simplesmente repetições que perdem a aura de Benjamin” (HUTCHEON, 2006, p. 4). Por essa razão que não só aqueles que estão acostumados com a narrativa das franquias, como da Marvel, por exemplo, são atraídos a esses filmes, mas um público novo, por isso que as franquias utilizadas para cinema também são reaproveitadas em videogames e na televisão.

A série noir em quadrinhos de Frank Miller chamada Sin City (1991-1992) foi transformado em um filme visualmente espetacular por Robert Rodriguez (2005) com atores em live action mas criando cenários digitalmente que relembram os quadrinhos. Mas quando Mundo Fantasma, de Daniel Clowes (1998) foi transferido para as telas pelo diretor Terry Zwigoff em 2002, os fã sentiram que foi perdido no processo algo que era considerado perfeito, mesmo que seja de uma forma doente, a analogia para duas garotas revoltadas com vidas super-autoconscientes e irônicas: as quase desbotadas cores verde-azuladas das páginas dos quadrinhos. (HUTCHEON, 2006, p. 43)

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Página de David Mazzucchelli para a linda adaptação da novela A Cidade de Vidro, de Paul Auster.

Além disso, para Hutcheon, nenhuma linguagem possui um modo inerentemente bom ou melhor que outra mídia para fazer uma coisa ou outra, mas cada um tem à sua disposição diferentes significados de expressão – mídias e gêneros – dos quais se pode usufruir para mirar e ajustar para acertar algumas coisas melhores do que outras. Essas maneiras e essas escolhas significam canalizar algumas expectativas e comunicar o significado da narrativa para alguém em algum contexto, e que são criados para alguém com alguma intenção. Basicamente Hutcheon aqui descreve o esquema básico da comunicação, seja ela qual for.

Existe um problema de adaptação que acontece na maioria das mídias: como tematizar ou representar a dobra do tempo, a elipse, algo que pode ser feito facilmente na produção em prosa. Isso é um problema nos filmes, mas talvez não para as graphic novels, uma vez que vemos esse hiato acontecer, dentro das sarjetas dos quadrinhos, sem que ocorra perda de significado ou de ritmo da história.

Quando Paul Karasik e David Mazzucchelli adaptaram uma novela de Paul Auster, que era complexa tanto verbal quanto narrativamente, A Cidade de Vidro (1985) em uma graphic novel (2004), eles tiveram de traduzir a história naquilo que Art Spiegelman chama de “a ur-linguagem dos quadrinhos”- “um restrito e regular grid de painéis” com “o grid como uma janela, uma porta de cela, uma quadra da cidade, um jogo de amarelinha; o grid como um metrônomo dando a medida das mudanças e ajustes da narrativa”. Como todas convenções formais, o grid proíbe e permite; ele ao mesmo tempo limita e abre possibilidades. (HUTCHEON, 2006, p. 35)

O quadrinista Cameron Stewart, que fez a quadrinização de Clube da Luta 2, uma continuação em quadrinhos de um livro de Chuck Palahniuk que virou filme de sucesso, reparou que ‘Muitos quadrinhos estão sendo feitos para chamar a atenção de Hollywood – eles estão sendo escritos e ilustrado como um pitch para um filme… Os quadrinhos estão sendo escritos em antecipação àquilo que pode ser feito nos cinemas com grande orçamento… como resultado, você tem quadrinhos de super-heróis que não mais parecidos com nenhum super-herói”. Esse fenômeno é fácil de se notar na produção de Mark Millar e seu Millarworld, que não tem vergonha de admitir que seus quadrinhos são feitos para serem vendidos para Hollywood. O último trabalho de Millar, em parceria com o desenhista francês Olivier Coipel, The Magic Order, possui um acordo com a Netflix para ser transformado e adaptado em série para televisão.

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Uma das páginas de Cameron Stewart para Clube da Luta 2.

Entretanto, ter isso em mente, nem sempre é salvaguarda para tudo. O caso do filme Kick-Ass 2 é um exemplo. O final do quadrinho, que ficou pronto alguns meses depois do filme sair, é bem diferente do final do filme. De qualquer forma tanto os quadrinhos quanto o filme são apelativos da mesma forma que deixariam corar um Jerry Bruckheimer e um Michael Bay. Ou seja, algumas vezes a adaptação depende também do ritmo de produção muito mais do que a narrativa para que tenha consonância com o trabalho original. Ah, e nesse caso, o trabalho original precisa existir e estar acabado e encerrado, pronto para ser consumido.

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O filme Kick-Ass 2 saiu antes dos quadrinhos homônimos.

Por fim, os fãs também costumam fazer suas próprias adaptações dos personagens através de fanarts e fanfictions, que possuem uma necessidade de se apropriar do material cultural para dar um significado próprio. Assim, os fãs demonstram, através de seus trabalhos, como gostariam que seus heróis fossem ou se comportassem. Muitos desses fãs,artistas ou escritores de material adaptado para uso pessoal, acabam se tornando profissionais da indústria, seja de quadrinhos, seja do cinema ou da ficção. E. L. James, por exemplo, a autora de 50 Tons de Cinza, começou seu livro como um fanfiction de Crepúsculo, série de livros de Stephenie Meyer. James queria dar um tom sexual e sadomasoquista para Bella, Edward e Jacob. Esse fenômeno dos fãs criando seu próprio material com trabalhos conhecidos e reconhecidos demonstra a importância de que existam modos interativos para que os fãs construam seus próprios mundos e histórias dentro do universo de seus ídolos.

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As adaptações de 50 Tons de Cinza, Azul é A Cor Mais Quente e Crepúsculo para os cinemas.

Toda adaptação é uma espécie de “pacto” entre produção e público, como o pacto autobiográfico de Philippe Lejeune. Desde o princípio, o público assume que vai ser exposto a uma obra preexistente e é esse fator que dá autenticidade a qualquer adaptação. O ‘jogo limpo” com as expectativas do público. Ao experimentar e experienciar uma adaptação, o público pode interagir com o produto cultural, comparando-o, vendo o que sobrou e o que faltou, reinterpretando, criando um jogo, que se assemelha entre a relação de diferença e identidade entre o “eu” e o “outro”.

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