A Ascensão dos Monstros Internos – Monstress: Despertar, de Marjorie Liu e Sana Takeda

Marjorie Liu e Sana Takeda já trabalharam juntas na revista da X-23 para a Marvel. A partir dessa experiência e de algumas outras a nível pessoal, resolveram criar o universo e os personagens de Monstress, um quadrinho que foi bastante premiado no ano de seu lançamento, 2016. A Pixel Editora lançou o quadrinho no Brasil ano passado. Depois de lido, eu saí de um mergulho em um universo mágico e sobrenatural como eu nunca vi antes e numa história com fôlego e estofo para ser comparada a outras histórias de alta fantasia como Senhor dos Anéis e Game of Thrones. Gostei tanto desse quadrinho que resolvi dedicar um post no blog só para ele. E é isso que você vai ler a partir de agora.

 

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Espelho Negro, o livro em prosa que Liu lançou com os X-Men.

Marjorie M. Liu é mais conhecida fora dos Estados Unidos por sua passagem pelo título Astonishing X-Men, onde desenvolveu o casamento de Estrela Polar com Kyle Jinadu. Antes disso, ela já tinha participado das revistas Viúva Negra, Wolverine Sombrio, escreveu também a segunda minissérie de NYX e, por fim, a série de Laura Kinney, a X-23. Foi lá que fez parceria com Sana Takeda e sua arte primorosa por algumas edições. Ela também é conhecida pela série de fantasia urbana e paranormal Tiger Eye, que esteve na lista de best-sellers do The New York Times. O livro em prosa X-Men: Espelho Negro, que saiu no Brasil pela Editora Novo Século também é de autoria dela. Antes ainda disso, ela era web designer e escritora de fanfics em um site dedicado a Wolverine e Jubileu.

 

Marjorie Liu afirma que Marvel e DC Comics têm muito a aprender sobre diversidade.

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X-23 e Wolverine pelo traço de Sana Takeda.

Sana Takeda é uma artista japonesa, que começou sua carreira trabalhando como artista de CGI para a Sega criando imagens de jogadores famosos de futebol da FIFA e de basquete da NBA. Ela foi descoberta pelo então caça-talentos da Marvel, C. B. Cebulski, hoje editor-chefe da Marvel, após enviar seu portfólio para a editora. Trabalhou em vários títulos da editora como X-Men, Venom e Ms. Marvel. Durante os anos de 2006 a 2008 trabalhou no projeto autoral de Cebulski chamado The Drain. Depois de trabalhar com Marjorie Liu em X-23, as duas resolveram criar Monstress. Os desenhos de Sana Takeda são deleites visuais, com uma arte e pintura que bebe em tradições humanas asiáticas, como a egípcia, a chinesa, a mesopotâmica e a japonesa, nos colocando num mundo ancestral e arcano, que elevam nosso senso de fantasia.

Editor-chefe da Marvel já se passou por autor japonês para pegar mais trabalhos. Leia aqui.

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Maika Halfwolf

Monstress conta a história de Maika Halfwolf, uma menina de feições asiáticas que guarda um grande poder – ou então, um grande mal – e está destinada a mudar o mundo. Ela faz parte da raça mestiça dos arcanos, seres híbridos entre humanos e deuses que dominam metade do mundo em que ela vive. A outra metade é governada pelos humanos e gerida pela classe de freiras-bruxas das Cumaea, uma ordem de mulheres dotadas de poderes psíquicos que manipulam o mundo em direção à guerra com os arcanos. Depois de um assalto para reaver crianças escravizadas, Maika entra em contato com uma máscara ancestral e um monstro passa a morar dentro dela, vindo a se manifestar no que resta do seu braço que foi cortado. Essa relação, segundo Liu, é a base da história que ela quer contar em Monstress: “como alguém que a história transformou em monstro escapa da sua monstruosidade? Como alguém supera a monstruosidade dos outros sem sucumbir à sua própria monstruosidade interior?”.

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Kippa, a adorável sidekick rapisinha de Maika. Seguindo a tradição japonesa de história com raposas e gatos e de seres híbridos entre eles.

Algo fascinante nesta HQ é que ela tem um força feminina por dentro e por trás de tudo que acontece na história. Sejam suas autoras, como todo o universo, que é constituído praticamente de mulheres, como regentes, sacerdotisas, soldados. O mundo de Monstress é inspirado em uma Ásia matriarcal com histórias que ocorrem num mundo de tecnologias desenvolvidas por volta dos anos 1900. Os homens aparecem aqui e ali, claro, mas como personagens terciários, ao menos neste primeiro volume. Há, claro, alguns seres masculinos que aparentemente terão importância no futuro. Mas o mundo de Monstress é das mulheres e feito por e para elas, a meu ver. Isso, claro, não impede que homens se identifiquem com o mundo e com as histórias, afinal, elas são universais.

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Seria Maika a grande salvadora?

Algo que se pode notar na série e na personagem principal é o Complexo de Messias atuando em Maika Halfwolf. O Complexo de Messias compreende alguns fatores narrativos presentes em heróis ocidentais como Harry Potter, Superman, Goku, Naruto, Seiya, Luke Skywalker e, claro, Moisés e Jesus Cristo. Vou citar algumas dessas características:

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O deus arcano e lovecraftiano que mora dentro do braço de Maika.
  • Nascimento anunciado;
  • Alguém que virá ao mundo para trazer uma nova ordem;
  • Não conheceu o verdadeiro pai;
  • Mas se descobre que esse pai era alguém muito poderoso;
  • Infância difícil em que é discriminado;
  • Guarda em si uma força oculta que pode sair de controle e causar algum mal;
  • Luta internamente para controlar essa força (confrontar seus demônios);
  • É alguém que se sacrifica para proteger seus companheiros;
  • Começa a inspirar outras pessoas.
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A edição brasileira de Monstress, pela Pixel Editora.

Maika possui todas essas características e mais a impulsividade para fazer o que acha correto – que muitas vezes pode não ser o bem à primeira vista – custe o que custar. Monstress recebeu várias indicações ao Prêmio Eisner em 2016 e 2017. Também foi indicada a Melhor Nova Série no Eisner de 2016. Em agosto de 2017 ela ganhou o Prêmio Hugo – um dos maiores prêmios de fantasia do mundo – como Melhor História Gráfica. Monstress é uma HQ que nos arrebata pela sua crueza e monstruosidade, nos sentidos de crueldade e de grandiosidade, de epicidade e de maquiavelismo. Com certeza, Monstress é uma das melhores obras dos últimos anos, unindo a tradição ocidental e oriental de fazer quadrinhos e que eu ousaria comparar em inventividade com Saga de Brian K. Vaughan e Fiona Staples. Portanto, se ainda não leu, corra e vá ler!


Agradeço à Carol Costa por me enumerar as características do Complexo de Messias.

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