Saudades: CD-ROM Universo dos Super-Heróis e a Revista HQ CD

Antes da Internet e antes da Wikipédia, como as pessoas ficavam sabendo sobre os inúmeros super-heróis que existiam nas diversas revistas em quadrinhos? Era bem difícil. Na década de 90, quando eu e meu irmão começamos a nos interessarmos por super-heróis, não havia tantas revistas e enciclopédias que falavam da diversidade de super-heróis. Havia sim, a revista Wizard e a revista Herói, mas elas não eram um compilado de diversos heróis, embora trouxessem matérias especiais sobre eles. Então, apareceu nas bancas uma coisa bem peculiar: um CD-Rom, isso mesmo, que trazia uma enciclopédia sobre super-heróis e é sobre ele que vou falar agora nesse post.

A reportagem da Folha de S. Paulo, na Ilustrada de 1 de julho de 1997, intitulada “Quadrinhos chegam à interatividade”, escrita por Pedro Cirne de Albuquerque, trazia o seguinte texto sobre a HQ CD, a revista que encartava o CD-Rom O Universo dos Super-Heróis:

O CD-ROM “O Universo dos Super-Heróis” é um destes filhos dos quadrinhos com a tecnologia. Nas bancas desde o início do mês de junho, ele integra a revista “HQ CD”, da editora Nova Sampa (92 páginas, R$ 9,90). Como propõe o título do CD, ele é um catálogo -uma enciclopédia, uma vez que é ilustrado-, relacionando mais de 300 super-heróis. “O impulso inicial para fazê-lo foi a absoluta inexistência de produtos deste tipo no mercado”, disse o jornalista Heitor Pitombo, responsável pelo CD-ROM. Após quatro meses de pesquisa e editoração, Pitombo levantou material para listar cerca de 500 verbetes, entre super-heróis, grupos, artistas do gênero e 50 capas de gibis, consideradas como mais importantes pelo jornalista. “Também estão listados os 50 momentos que considero dos mais importantes nos quadrinhos. Ele é um CD-ROM que é importante pelo conteúdo, com pesquisas aprofundadas.”

HQ_CDPitombo ganhou o prêmio de melhor adaptação para outras mídias no HQMix do ano de 1998 devido à criação do HQ CD. Este foi o primeiro CD-Rom de super-heróis feito e publicado no Brasil. Se tratava de um dicionário com mais de 600 verbetes de heróis, supergrupos, revistas, autores e etc. Heitor Pitombo escreveu tudo e coordenou uma equipe técnica que se encarregou da programação do projeto. Ele foi auxiliado por Franco De Rosa que foi o editor do projeto na Editora Sampa. Heitor não pôde receber o prêmio HQMix na época porque estava no pós-operatório de uma cirurgia na coluna. Quem foi receber o prêmio, então, foi a equipe de orgulhosos estagiários de informática que fizeram a programação da mídia digital.

A minha relação e a do meu irmão com o HQ CD foi a mesma que tínhamos com outras enciclopédias que possuíamos em CD-Rom: era muito mais divertido obter conhecimento dessa maneira do que em livros. Mas a diferença era que aquela “enciclopédia”, falava sobre super-heróis, algo descompromissado. Também, uma coisa que nem sempre tínhamos, naquela época de mídias físicas, era o acesso total às informações sobre quadrinhos.

Através do CD-Rom descobrimos muitos e muitos super-heróis que não sabíamos que existiam, principalmente de editoras fora do eixo Marvel e DC Comics. Alguns dos heróis que mais nos intrigaram eram os Guardiões da Galáxia. Não aqueles dos filmes, mas os Vingadores dos anos 3000, que eram personagens muito esquisitos para nós. Outra coisa  que o CD-Rom Universo dos Super-Heróis ajudou bastante foi na nossa garimpagem de revistas em sebos. Nos verbetes havia a primeira aparição dos heróis no Brasil e, naquela época, isso era de grande valia para verdadeiros fãs de super-heróis. Entretanto, por mais que voltássemos a ver e rever o conteúdo do CD, os computadores avançaram. Por mais que quiséssemos, o Windows XP já não deixava mais acessarmos o HQ CD.

heitorpitombo
Heitor Pitombo: músico, jornalista e colecionador de quadrinhos.

Resolvi entrevistar o idealizador do projeto, o jornalista Heitor Pitombo, para este post. Revivi aquela época da magia da descoberta e da pouca, mas suficiente, interação de imagens e textos de forma enciclopédica e única, para traçar as perguntas. Ele aceitou de bom grado nos conceder suas palavras sobre suas experiências e ideias desse projeto tão inovador para a época.

Splash Pages: Oi Heitor! Tudo bem? Gostaria que você comentasse um pouco sobre o contexto de publicações de quadrinhos daquela época e nos contasse como foi a gênese do projeto da HQ CD.

Heitor Pitombo: Olá Guilherme. Naquela época, nos anos 90, havia muito mais revistas nas bancas sobre quadrinhos do que se tem hoje. A internet estava começando e ainda era muito lenta. Naquela época, eu trabalhava com alguns projetos para o Franco de Rosa, e eu sugeri a ele que fizéssemos um dicionário com vários verbetes relacionados a super-heróis, porque isso absolutamente não existia. O CD-Rom, que hoje é uma mídia obsoleta, era a melhor forma de concentrar muitas informações em um formato só, naqueles tempos. O Franco encampou a ideia e o CD-Rom Universo dos Super-Heróis acabou saindo encartado dentro da revista HQ CD. Então eram dois produtos.

Franco_de_Rosa
Franco de Rosa, editor da Sampa.

Naquela época, as revistas se baseavam mais em notícias, em atualidades. Hoje, revistas como a Mundo dos Super-Heróis, que eu colaboro, precisam investir em um conteúdo que seja perene, para poder ser compradas a qualquer momento. Naquela época também havia um mercado mais restrito para que “especialistas em quadrinhos” surgissem. Na revista eu trouxe entrevistas com vários criadores dos quadrinhos internacionais e nacionais. Tem uma divertida entrevista com o Ziraldo, da qual me orgulho.

SP: Eu gostaria de saber, então, como foi esse processo de seleção do conteúdo. Que temas abordar e, dentro dos temas, quais verbetes escolher, por exemplo?

HP: Havia um certo prazo para a realização da revista HQ CD para sair nas bancas. Desenvolvi sozinho o conteúdo do CD, mas tinha como apoio jovens talentos da informática que me ajudaram na programação e no tratamento de imagens. Essa equipe foi bancada, na época, pela Editora Sampa. Eu defini o conteúdo da minha cabeça, mas se fossemos olhar hoje, muitas coisas estariam incompletas. Fui estabelecendo esse conteúdo conforme as coisas foram surgindo. Teve um fichamento de supergrupos, de edições raras, com autores… Não tinha como fazer uma coisa completa, com todos autores, todas revistas. Fiz uma seleção. Cheguei a 600 e poucos verbetes. Para a época, é uma marca que me causa orgulho, até pelo tempo em que foi produzido este CD-Rom.

SP: A terceira pergunta seria sobre a pesquisa que você fez para conseguir essas informações, pois eram muitas. Se ela foi realizada dentro da sua própria coleção ou se você buscou em outros lugares e acervos, tanto no caso de textos como de imagens, que também foi uma pesquisa impressionante para a época e meios disponíveis.

otamad1_link
Ota, eterno e memorável editor da MAD no Brasil.

HP: Utilizei a coleção de algumas pessoas que foram de grande valia. Posso citar alguns como o Ota (Otacílio Costa D’Assumção Barros), o Cláudio Fragnan, minha coleção era muito grande, hoje já está filtrada, já vendi muita coisa. Se eu tivesse a coleção que eu tinha, eu não teria mais uma casa, nem espaço para dormir. Algumas fontes busquei na internet, mas era um acervo muito irrisório. No CD-Rom existia uma lista de fontes consultadas. Apesar de o CD-Rom não rodar hoje em dia em nenhuma máquina moderna, pois foi feito para Pentium, é possível abrir os arquivos num processador de textos. As imagens também podem ser visualizadas. A animação e a programação é que não podem mais ser acessadas.

SP: Nossa última pergunta é sobre o público. Como foi a reação do público naquela época ao utilizarem o CD-Rom? Como as pessoas comentam hoje em dia sobre as experiências com o CD  e que, assim como eu, lembram com muito carinho de sua existência?

pentium
Qual é o Pentium que te penteia?

HP: Na época, as pessoas acharam uma inovação muito grande, era muito inovador expor sua pesquisa naquele tipo de mídia. Era como um brinquedo que as pessoas gostavam de brincar. Mesmo que tenha saído meio incompleto. Num mundo ideal, ele poderia ser atualizado todo ano, para que se mantivesse perene.

Quando a publicação saiu, as pessoas ficaram admiradas. Ele ganhou o prêmio HQMix sem ter muita divulgação, imagino que deva ter tido uma boa repercussão. Até hoje as pessoas me falam sobre aquele projeto. Acabou tendo uma boa duração na lembrança das pessoas, apesar da tecnologia ter se tornado obsoleta.

SP: Muito obrigado pelas palavras, Heitor!

HP: Obrigado pelo interesse! Valeu! Grande abraço!

Anúncios

2 comentários sobre “Saudades: CD-ROM Universo dos Super-Heróis e a Revista HQ CD

  1. A coisa mais incrível que existe hoje em dia pra mim é o site guia doa quadrinhos! Bendita hora que alguém resolveu fazer aquilo e tornar a vida de quem coleciona quadrinhos no Brasil infinitamente mais fácil. Eu nem sei se existe algo parecido com isso em outro país, o que me deixa mais orgulhoso ainda do Brasil.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s