Uma Visão Sombria dos Super-Heróis Além dos Tempos | Black Hammer: Origem Secreta, de Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart

Jeff Lemire é um dos autores de quadrinhos mais incensados dos últimos tempos, não apenas no mercado mainstream, como no circuito independente. Mas é bem perceptível que ele sente mais liberdade para desenvolver suas histórias em seus quadrinhos independentes, já que nos mainstream ele deixa muito a desejar. Este quadrinho que vos apresento, Black Hammer: Origem Secreta, acabou resultando numa mistura fortuita dos dois estilos que Lemire está acostumado a lidar: os heróis e o independente familiar interiorano disfuncional. Lemire acaba tecendo uma bela homenagem à história dos quadrinhos de super-heróis, em um dos seus melhores trabalhos. Em seguida, falarei de influências e referências para esta obra e como ela dialoga com as eras dos quadrinhos de heróis.

BLHintrrinsecaHomenagens às eras dos quadrinhos de super-heróis começaram a pulular no mercado depois da invasão inglesa nos anos 80 e uma abordagem desconstrutivista e pós-moderna nessas histórias. Alan Moore pegou o personagem Supremo, de Rob Liefeld, que era uma cópia deslavada do Superman e construiu uma bela homenagem à construção da mitologia do Homem de Aço ao longo dos anos. Um quadrinho must read para todo fã de todos os tipos de super-heróis. Depois, Moore fez algo semelhante com A Liga Extraordinária. Warren Ellis também produziu sua homenagem aos super-heróis com várias vertentes da Liga da Justiça e o Quarteto Fantástico tornados vilões em Planetary. Por fim, Grant Morrison também fez isso em Flex Mentallo, de uma forma um pouco mais sutil.

BLHhome

Portanto, Jeff Lemire não será o primeiro e nem o último a fazer uma HQ com uma homenagem desse tipo. Black Hammer conta a história de um grupo de super-heróis exilados em uma realidade que não é sua. Numa fazenda interiorana onde são tratados como outsiders, bizarros, estranhões e, segundo um pacto que fizeram, não podem sair da cidade, pelo bem do mundo e da realidade. Lemire, que viveu boa parte da vida em uma cidade nos rincões do Canadá conhece bem essa realidade. O isolamento e a alienação que as cidades do interior sofrem e suas reações a tudo aquilo que sai do prumo de suas vida bem controladas. Será que quem pensa diferente no interior é um robô, um alienígena, uma bruxa, ou quem sabe é até mesmo um super-herói?

BLHmino

A resistência em sair de um recôndito e expandir suas fronteiras mentais, mesmo que isso possa significar o fim das barreiras e da “realidade” como a maioria das pessoas e você mesmo conhece pode meter um medo paralisante nas pessoas. Os heróis confinados na fazenda Black Hammer possuem esse medo de que, ao se exporem, acabarão com a ilusão. Mas não só com a ilusão dos habitantes da cidade que os “acolheram”, mas a deles próprios, construídas em cima de suas certezas insustentáveis. Mas tudo isso vai mudar quando o elemento “comum” vai adentrar o aspecto “bizarro” da família da fazenda de Black Hammer.

BLHabraham

Mas, para não dar spoilers, vamos falar sobre os integrantes da família. Abraham Slam é uma versão meio Capitão América meio Batman daquele universo. Um cara normal, mas que treinou muito e é ótimo em quase tudo, mesmo tendo sido negado para servir o exército por ser fracote. Na minha opinião ele é o personagem mais chato da história desse encadernado, o único que não revela imperfeições, mas a função do personagem mais evidente é a de servir como cola para que a família disfuncional funcione. Ele também é um personagem ousado pelo fato de ter arriscado se envolver com uma pessoa que está além da fazenda e, provavelmente, provocar um chacoalhão no status quo de vários personagens e da narrativa em si.

 

BLHgailTambém vinda de uma bricolagem da Era de Ouro, temos a Garota de Ouro, inspirada na Mary Marvel do universo do Shazam!. No seu universo original, toda vez que gritava o nome do mago que lhe concedeu poderes, Gail se convertia em uma menina superpoderosa. Mesmo quando cresceu, amadureceu e envelheceu. Mas no universo da fazenda Black Hammer, Gail é uma idosa presa no corpo de uma criança. O que cria muitas situações complicadas para Slam, mas hilárias para o leitor. A Garota de Ouro acaba sendo um Shazam! investido tanto em gênero com em idade. Essa é mais uma maneira de Lemire destacar o desajuste em outro nível. É outra analogia. O corpo infantil de Gail é fazenda. Limitadora em forma, espaço e possibilidades. Seus poderes e suas vontades são as pessoas que moram naquele recôndito e desejam, mas não podem, ir além.

BLHmeet

Depois temos os heróis emulados da Era de Prata. O que eu mais gostei foi o Barbalien, que é a versão Lemire para J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, querido pelos brasileiros como Ajax, o Marciano. Mas ele também guarda semelhanças com os inimigos arbóreos do primeiro número da Liga da Justiça e com o Guerreiro de Mike Grell. A analogia do forasteiro que Barbalien traz é dupla. Ele não é apenas alienígena, mas um alienígena gay. E como um gay não se identificar com a história de outro, das paixões platônicas, dos fracassos, do preconceito, da violência física e verbal, dos arreios pessoais e sociais? A situação do alienígena serve para todos esses super-heróis no caso dessa história. Mas se formos pensar, Ajax sempre foi um símbolo para os excluídos que tentam se misturar. Tanto os negros, quanto os gays ou outras minorias. Ele pode assumir qualquer forma, mas decide se apresentar como a forma dominante da Terra: um homem, branco, que faz parte da manutenção da lei e da ordem.

BLHweird

Outro herói calcado em uma maravilha da Era de Prata é o Coronel Weird. Ele é baseado no explorador espacial Adam Strange, que através dos raios Zeta se transportava para o planeta Rann. Weird, contudo se transporta aqui e ali, ora e outrora para a Antizona, mas diferente de Rann, as viagens à Antizona acabaram modificando o pensamento do Coronel, deixando ele, ao ver dos demais, fora da realidade. Weird faz duas analogias de não-lugar, de pertencimento e não-pertencimento. Uma delas é a mente. A mente nos pertence ou nós pertencemos a ela? Será que nós guiamos nossos pensamentos ou somos guiados, manipulados, iludidos e sequestrados por eles? O quanto dos nossos pensamentos se encaixam com o que está posto e o quanto deles se encaixam com o que os outros pensam e esperam de nós? É essa impalpável alteridade que o explorador dimensional representa. Ao mesmo tempo ele questiona a realidade, porque apesar de ele estar preso na fazenda, ele é o que consegue viajar mais longe de todos seus companheiros. A razão é porque ele está disposto a comprometer a realidade e mais ainda, comprometer a si mesmo, sua própria noção de individualidade, livre arbítrio e estabilidade para fazer o que precisa ser feito.

BLHmonstro

Pulando para os anos 70, temos os personagens do revival do horror nas editoras Marvel e DC Comics e uma homenagem também às bruxas anfitriãs das antologias da EC Comics, como Contos da Cripta. Eles são representados por Madame Libélula, uma mulher que está acorrentada magicamente à sua cabana. Olhando pela ótica do interior de Jeff Lemire, encontramos o caso do “você pode tirar a mocinha do vilarejo, mas não tira o vilarejo da mocinha”. Mais uma vez, o elemento lar está envolvido profundamente em outro personagem, mas de uma maneira mais explícita. Pertencimento é uma palavra forte neste quadrinho. Os personagem arrastam consigo reminiscências de suas vidas proscritas e esse fator pode salvar ou estragar tudo.

Mas Madame Libélula também pode ser associada à personagem feiticeira da DC Comics Madame Xanadu. E seu amado, o Monstro da Lama, é uma óbvia referência ao Monstro do Pântano, até porque os dois caçadores que catalisam sua origem se chamam Lenny e Bernie (de Len Wein e Bernie Wrightson, os criadores do Monstro do Pântano). Por fim temos Walky-Talky, a parceira robô do Coronel Weird que curte estranhos e apaixonantes sentimentos por ele, inspirada em robôs como os de séries de ficção científica como Perdidos no Espaço e em filmes como O Dia em Que a Terra Parou.

BLHantideus

Resolvi apresentar os personagens e suas análises dessa maneira porque é assim que Lemire também os demonstra, fazendo com que, de certa forma, cada edição enfoque em um personagem e seus conflitos internos e externos. Resta falar sobre o grande vilão que forçou o desaparecimento dos heróis de seu mundo e os exilou em outro espaço de onde não podem se libertar. Ele é o Antideus, um vilão mais poderoso do que tudo que já enfrentaram, fazendo necessário o sacrifício dos heróis. Ele é baseado em Massacre, a fusão de Professor Xavier com Magneto na saga Massacre Marvel, do final dos anos 90, e que causou o evento Heróis Renascem, em que Quarteto Fantástico e os Vingadores habitavam uma realidade à parte.

Claro, existem muitas mais referências que podem ser desvendadas aqui e ali, como na caso do herói das ruas Black Hammer, que surgiu nos anos 70 e era negro. Semelhanças com Luke Cage, a Gangue da Demolição e Thor são evidentes. Mas esse quadrinho tem muito mais graça do que ficar catando referências, mas as análises psicológicas, sociológicas e filosóficas que podemos traçar a partir dele, se estivermos dispostos a tanto. Afinal, a história da história em quadrinhos, sua análise e sua crítica, não é nada mais do que uma análise e uma crítica da nossa própria cultura e sociedade, de como ela muda e se transforma, às vezes indo parara no mesmo lugar de onde começou. Por isso também é importante estudar os quadrinhos como uma dimensão cultural dos desejos, dos destinos, dos problemas e das soluções encontradas para fazer girar toda uma civilização. Leiam Black Hammer!

 

Anúncios

3 comentários sobre “Uma Visão Sombria dos Super-Heróis Além dos Tempos | Black Hammer: Origem Secreta, de Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart

  1. muito interessante! fiquei com vontade de ler, não só pela estranheza dos personagens, mas por ser de uma cidade do interior também. devo me identificar com muitos desses personagens uhuhuhu

    Curtir

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.