Melhores e Piores Leituras de Maio de 2018

Realmente maio foi um mês do cachorro para nós, brasileiros. A greve dos caminhoneiros deixou nosso país e nossas certezas – que já era poucas – de uma melhora na economia em frangalhos. Isso certamente se abaterá ainda mais nas vendas de quadrinhos pelo país, principalmente naquilo que depende das rodovias para ser entregue. Contudo, esse mês, trazemos quase 25 mini resenhas dos mais variados tipos de quadrinhos para vocês lerem, avaliarem e se divertirem, já que a crise não deixou ninguém se divertir. Muito antes pelo contrário.

MELstarwarsinfSTAR WARS INFINITOS: O RETORNO DE JEDI, DE ADAM GALLARDO E RYAN BENJAMIN

A intenção da coleção Star Wars: Infinitos é agir como as histórias do “O que aconteceria se…!”, da Marvel: uma ação desencadeia várias ações que mudam o curso de uma narrativa como a conhecemos. Da série Star Wars saíram volumes modificando as histórias da trilogia original dos anos 70. Mas aí vem um problema. Parece que, conforme vamos avançando nos episódios de Star Wars, tanto a qualidade do roteiro como a da arte vai decaindo. Enquanto o primeiro volume é bem legal e o segundo é legazitcho, esse terceiro é bem MEH, bem qualquer coisa. Os desenhos então, são muito muito feios, com exceção às capas fotorrealistas do italiano Rodolfo Migliari. Na verdade parece que a Dark Horse e a Lucas Films investiram muito mais nas capas das edições dessa série do que no seu próprio conteúdo. Contudo, é interessante ver como algumas coisas dos filmes são modificadas por causa de uma mudança no escopo. Menos, claro, esse terceiro volume, que não tem pé e nem cabeça com a história que é contada no filme VII, o Retorno de Jedi. Se eu tivesse começado a comprar a série por esse encadernado, nunca teria comprado as demais.

MELragnarok2RAGNARÖK – O SENHOR DOS MORTOS, DE WALTER SIMONSON

Neste segundo volume, Walter Simonson continua seu intuito de trazer uma história muito sua de um Thor zumbi após o Ragnarök, o dia do juízo final viking. O volume começa com Thor honrando os mortos não-enterrados de Asgard. Logo em seguida ele se depara com pai elfo-negro que jurou protegeu sua filha da morte ao assassinar o deus do trovão. Contudo, após uma batalha, os dois acabam se dando conta que querem ajustar as contas mesmo é com o Senhor dos Mortos, que passou a reinar nas Terras do Crepúsculo após o Ragnarök. O volume acaba prometendo mais histórias, mas mais delas não forma lançadas há muito tempo nos Estados Unidos, epla editora IDW onde saiu originalmente. Nesta empreitada Walter Simonson mostra que está atualizado e antenado no novo “pace” – o ritmo da narrativa – dos comics atuais, tanto na sua narrativa visual como nos diálogos que se utiliza. A história, nesse volume, se torna um tanto mais envolvente e chama mais a atenção, já que muitas “lendas” do Ragnarök são contadas nela e envolvem a história de nossos três protagonistas. Como já falei na resenha do primeiro volume, fãs de Thor e Simonson não devem perder.

Leia uma resenha completa desse quadrinho neste link

MELrollingROLLING STONES: VOODOO LOUNGE, DE DAVE MCKEAN

Esse quadrinho “dos Rolling Stones” escrito e desenhado por Dave McKean é difícil de definir. Mesmo enquanto quadrinho. Foi uma jogada de marketing da Marvel que lançou o álbum simultaneamente com o álbum homônimo Voodoo Lounge. Esse álbum é tido como a volta ao topo da “maior banda de rock de todos os tempos”, lançado em 1995. Neste ano, os Stones também fizeram um mega show no Brasil imortalizando canções como “Start Me Up” e “Sparks Will Fly” na memória do brasileiro e deste que os escreve. O quadrinho, então, era para ser baseado nas letras de Mick Jagger e Keith Richards para o álbum. Mas sabemos como a narrativa de McKean – em seu primeiro e único trabalho para a Marvel – pode ser surreal e também onírica. São splash pages duplas com suas fotomontages hiperreais. Além disso, a publicação no Brasil tem uma história curiosa. Para pegar a onda dos shows no Brasil e do lançamento do álbum, a Abril mandou imprimir a HQ nos Estados Unidos, importando-a. As úncias mudanças ocorreram nas capas internas do quadrinho e no logo da editora na capa e contracapa. Por tudo isso, Rolling Stones: Voodoo Lounge é difícil de definir. Para mim, estaria mais como uma publicação de divulgação do álbum e da turnê do que um quadrinho propriamente dito. Mas valeu a tentativa.

MELpaiDEMOLIDOR: PAI, DE JOE QUESADA, DANI MIKI E RICHARD ISANOVE

Essa HQ tem uma lenda. Achava que nunca ia conseguir completar essa minissérie e que o número que a conclui nunca havia sido lançado no Brasil. Então encontrei a minissérie completa no sebo online Mercado do Gibi e pude, finalmente, ler toda ela. Eu não tenho certeza se cheguei a ler os dois primeiros volumes ou não, o certo é que se passaram doze anos desde o lançamento até agora. Mas superou minhas expectativas. A trama é bem construída – com exceção das citações dos Orixás caribenhos que, para mim, foi um desperdício – e a arte é ótima. Claro, algumas muitas vezes vários painéis da memória de Matt Murdock se repetem. Mas é importante ressaltar que eles tem seu papel na narrativa. Quesada brinca com as nossas expectativas e, apesar de entregar um criminoso fácil de desvendar de certa forma, a mudança que ele faz no final da minissérie é muito boa e, também, dá todo um novo sentido para a origem do Demolidor. Por isso, o nome da mini, “Pai”, tem mais a ver com esse fator do que com as ações do pai de Matt, Jack ‘Batalhador” Murdock. E por quebrar toda essa expectativa, esse quadrinho se torna intensamente empolgante.

MELhulkCHM: O INCRÍVEL HULK – VOLUME UM, DE ROGER STERN, JOHN BYRNE, PETER B. GYLLIS, JOHN E SAL BUSCEMA

Faz muito tempo que não leio boas histórias do Hulk. Talvez as últimas boas que li foram as feitas por Mark Waid. Mas a verdade é que desde Peter David, o verdão vem amargando em histórias muito muito ruins. Esse encadernado resgata um tempo em que as histórias e a vida eram mais simples para Bruce Banner pelo simples fato de a mitologia e a psique do Hulk não haviam se desenvolvido tanto. O momento histórico escolhido pela Panini foram as histórias publicadas logo durante a série de TV do Hulk estrelada por Lou Ferrigno e Bill Bixby. Esse encadernado começa a fase de Roger Stern, que faria uma bela passagem pelos Vingadores mais tarde. Essa primeira coleção deve cobrir quase toda a passagem do escriba. Para os fãs do Universo Marvel é aqui que a Dra. Carla Sofen, a Rocha Lunar dos Thunderbolts faz sua primeira aparição. Há um belo arco envolvendo o Lider e o Dr. Leonard Samson. E, para os fãs dos X-Men como eu, há a publicação de um Anual do Hulk que envolve os mutantes e John Byrne. Nele, o Hulk ajuda o Homem de Gelo e o Anjo a lutarem contra o maligno Molde Mestre, o criador dos sentinelas que teria muita importância no futuro dos X-Men. Histórias empolgantes, boas de acompanhar e intrigantes. Você não vai se arrepender.

MELmarchaA MARCHA: LIVRO UM, DE JOHN LEWIS, ANDREW AYDIN E NATE POWELL

Depois de quase dez anos sem grandes premiações externas aos quadrinhos para os quadrinhos, A Marcha deu um novo start para esse re-reconhecimento. Esta graphic novel foi a primeira série em quadrinhos a receber o National Book Award e, claro, seguiram-se as velhas e chatas polêmicas se quadrinhos são ou não são literatura. Não são, mas são livros, afinal são vendidos nesse formato. Outra polêmica que o livro ressignificou foi a do racismo, numa época em que assassinatos de negros por policiais varriam o país dos Estados Unidos, porém continuavam impunes. Este quadrinho fala da luta dos negros por direitos iguais, isso sob a óptica do parlamentar demoracrata John Lewis, que conta a sua história para duas crianças e, de que maneira a sua vida acabou se cruzando com a do pastor Martin Luther King Jr.. É um quadrinho lindo pela maneira como a luta silenciosa de não-violência dos negros soou e repercutiu país afora, mas também é um quadrinho triste porque a gente percebe o quanto a sociedade foi e ainda é segregada de maneira inaceitável. Um coisa que eu não conhecia dessa parte dos movimentos foram os “sit-ins” em que dezenas de negros sentavam-se em balcões de lanchonetes – em que não servia-se “pessoas de cor” – e ficava lá esperando até que alguém, ou a polícia os pusessem para fora. Ou então, alguém se dignasse a servi-los da mesma forma que os brancos. Isso é que é coragem. Isso é que é luta por direitos igualitários e humanos. E sem violência. Bem, essa foi apenas a primeira parte desta HQ, ainda tem mais duas. Só não posso acabar essa miniresenha sem antes exaltar a narrativa dos layouts e desenhos de Nate Powell que conferem uma dinâmica ainda mais dinâmica à leitura.

MELdemolidorDEMOLIDOR: DECÁLOGO, DE BRIAN MICHAEL BENDIS, ALEX MALEEV E OUTROS ARTISTAS

Provavelmente sua “run” no Demolidor seja a melhor história mainstream de super-heróis que Brian Michael Bendis produziu até então. Muito disso tem a ver com a colaboração com Alex Maleev, onde os dois conferiram ao herói um tom noir. Esse tom, por pelo menos cinco anos, ditou o clima de diversas outras publicações Marvel e DC Comics, inclusive do Capitão América de Ed Brubaker que cunhou o personagem Soldado Invernal. Neste encadernadaço da linha Marvel Deluxe feito pela Panini Books são compilados três arcos. O primeiro deles, A Viúva, que foca em Natasha Romanoff, a Viúva Negra, é o mais normal dos três. Normal, claro, dentro do escopo da revista. Natasha se usa da notoriedade da identidade secreta do Demolidor para tomar abrigo em sua casa. O segundo, arco, A Era de Ouro, conta a história do Rei do Crime anterior a Wilson Fisk e sua relação com o Demolidor e o ex-vilão Gladiador. Aqui Maleev usa de colorizações e estilizações para situar a história, que vai e vem no tempo. O encadernado, então, encerra com o melhor arco, Decálogo, onde Bendis mostra toda sua verve experimental e independente, seguindo um estilo Marvels e Astro City para mostrar o impacto do Demolidor na vida do cidadão comum de Nova York. Um encadernado sensacional, que, como toda boa história, nos faz largar só quando acaba mesmo. Eu não ia ler ele “todo numa sentada”, como dizia meu pai, mas foi inevitável. Uma leitura absorvente e hipnotizante, Bendis na sua melhor forma e que merece meu total respeito.

MELragnarok1RAGNARÖK – O ÚLTIMO DEUS, DE WALTER SIMONSON E LAURA MARTIN

Walter Simonson é um dos melhores – senão o melhor – artista de quadrinhos que já passou pela história do Thor. Em suas mais de trinta edições com o Deus do Trovão da Marvel ele definiu muito da sua mitologia – e não estou falando da mitologia nórdica. Ausente da Marvel desde os anos 90, Simonson aos poucos foi trabalhando na sua própriaversão do deus nórdico. O resultado foi essa HQ aqui, Ragnarök. Essa palavra, para aqueles que não conhecem a mitologia nórdica, significa o fim dos deuses, o fim do mundo. Sim, ela também é o subtítulo do último filme do Thor e de um game muito popular na internet. Nesta HQ, que se passa após o evento derradeiro, encontramos uma família de elfos negros indo em busca da morte definitiva de Thor, que se tornou um zumbi sem maxilar preso em uma fortaleza. Ao mesmo tempo em que conta a jornada da família de elfos assassinos, Simonson mostra a busca de Thor por conhecimento e pela redenção de seus pares, os deuses da doirada Asgard. Ragnarök mostra que Simonson não perdeu o viço da narrativa nem o afã pela mitologia dos vikings. Seus desenhos, abrilhantados pelas sensacionais cores da premiada Laura Martin captam toda a aridez de um mundo devastado e desolado que são as Terras do Crepúsculo. Portanto, Ragnarök é uma bela homenagem ao Thor da Marvel e das lendas e também uma ótima forma de matar a saudade daquelas histórias épicas dos anos 80. E agora preciso ler o volume 2!

Leia uma resenha completa desse quadrinho neste link.

MELmariaMARIA CHOROU AOS PÉS DE JESUS, DE CHESTER BROWN

Chester Brown com certeza é um artista desafiador de muitas certezas. Em seu desafio ele costuma se voltar contra a moral e os bons costumes principalmente naquilo que se refere ao sexo. E ele usa os quadrinhos como essa ferramenta. Quem lê uma obra de Brown vai ter a certeza de quadrinhos não são coisa de criança. Muito antes pelo contrário. Em seu primeiro quadrinho, chamado A Playboy, Chester contou a sua relação com o título epítome do erotismo e como ele lidava com a masturbação tendo sido criado em uma família extremamente cristã. Essa criação cristã ao extremo o perseguiu em outro livro em quadrinhos que fez sobre sexo, Pagando Por Sexo, em que analisava sua relação de mais de uma década somente se relacionando com prostitutas esporádicas, escrevendo praticamente um tratado de defesa da prostituição, com um terço do livro feiro de notas. Este seu terceiro livro, Maria Chorou aos Pés de Jesus, mais uma vez é um tratado sobre a prostituição, porém, esse encara a prostituição que é mencionada na Bíblia. É um livro de leitura rápida, pequeno, mas mesmo assim não deixa de ter um terço dele feito das notas de sua pesquisa. Neste livro, Brown defende a prostituição pelo ponto de vista da Bíblia, desde a escrava Tamar até Maria Madalena/Maria de Betânia. Mesmo que esse livro seja menos intenso que os outros dois anteriores, ele também serve como um rompedor de paradigmas e de certezas, principalmente nos ensinamentos da “palavra de Deus”, tidos como dogmas na Bíblia seguindo sempre a mesma interpretação. Neste livro, Brown dá uma nova interpretação polêmica sobre eles. E o faz de maneira cuidadosa, respeitosa, porém inquietante. Muito bom!

MELsuperwomanSUPERWOMAN: VOLUME 2, DE PHIL JIMENEZ, K. PERKINS, STEPHEN SEGOVIA, JACK HEBERT E JOSÉ LUIS

Se teve uma coisa que me cansou no primeiro volume de Superwoman foram os longos diálogos e as páginas cheias de quadros de Phil Jimenez. Nesse volume, nos dois números em que Jimenez escreve, além de tudo isso, ele ainda conseguiu colocar reflexões dramáticas internas para a Superwoman, indo do nada para lugar nenhum. Para piorar, dentro do arco Superman: Renascido, que eu não entendi muito bem para que serviu para o Superman, a Superwoman Lana Lang ficou ainda mais perdida no Universo DC. Depois, ainda, quando K. Perkins assume o título, as histórias ficam mais leves, mas eu acabei me perdendo em que momento do tempo elas estão ocorrendo. Seria no passado? Seria no presente? Qual a ligação entre Lana Lang e John Henry Irons e quando realmente eles começaram a se relacionar? Se o Superman dos Novos 52 foi apagado da continuidade como Lana ainda retém partículas dele? Uma pena, uma personagem com tanto potencial ser desperdiçada por pura desorientação editorial. Por isso, não me surpreende, do rumo que as coisas tomaram, que o título tenha sido cancelado e o próximo encadernado ser o último. Uma pena. Mesmo.

MELjeremiasJEREMIAS: PELE, DE RAFAEL CALÇA E JEFFERSON COSTA

Posso dizer que essa é minha nova Graphic MSP favorita. Não por causa da sua história, não por causa do personagem, do desenho e do roteiro, mas porque o Estúdio Mauricio de Sousa finalmente se posicionou numa das questões mais críticas do nosso país: o racismo. Também pelo empoderamento que essa revista traz para as milhares de crianças negras que leram e para as que continuam lendo a Turma da Mônica e sempre viram o Jeremias como um personagem de canto, por vezes até portando a infame “black face”. Essa revista também falou fundo para a minha criança, sempre sofrendo bullyng por não se ajustar, por preferir estar com as meninas que com os meninos e seu futebol – isso é abordado de uma forma branda na HQ, mas seu discurso serve para todas as minorias sociais de certa forma. O pai de Jeremias fala que, nesse mundo, você tem que criar uma casca e ser duas vezes mais forte e melhor que as outras pessoas para sobreviver e conseguir respeito. É isso, mas não é só isso. Cascas deixam a gente insensível e força não leva a nada. É preciso acumular sim, conhecimento sobre as falhas – das pessoas e da sociedade – e tentar criar pontes e não cascas, embora sempre batamos de cabeça no muro da falta de respeito e da falta de educação e ética entre as pessoas. Portanto, essa se tornou minha HQ da Graphic MSP favorita, por posicionamento, por LUTAR A BOA LUTA e não brigar para conseguir vender mais só por vender ou por ser bonitinha e cuticuti sem agregar uma mudança social. Essa mudança é um dever os meios de comunicação sociais – e principalmente aqueles de grande alcance e circulação como a Turma da Mônica – têm. Ninguém gosta de ser excluído e de ser marginalizado, de ser xingado e desrespeitado por ser o que quer que seja e é preciso educar as pessoas desde pequenas a aceitar as diferenças, algo que até então os Estúdios MSP tinham se mantido muito em cima do muro quando as questões são mais polêmicas, mesmo numa questão que é considerada um mal universal como o racismo. Quem dirá nas questões de gênero. Mas, uma jornada de mil léguas começa com o primeiro passo.

Leia uma resenha completa deste quadrinho neste link.

MELcenasCENAS MARCANTES, DE DAVE MCKEAN

Dave McKean é um artista inglês conhecido por seu fotorrealismo e seu irrealismo fotográfico, tendo colaborado inúmeras vezes com o escritor best-seller Neil Gaiman. Ele é o destaque do FIQ 2018 – Festival Internacional de Quadrinhos, que ocorrerá em Belo Horizonte/MG entre maio e junho deste ano. Esse trabalho, que em inglês se chama Pictures That Tick (algo como Imagens em que se pode confiar), teve dois volumes, mas apenas um saiu no Brasil pela editora New Pop. Esse livro, não possui um fio condutor que estabeleça a que ele veio. É mais um compilado de várias histórias – muitas delas algumas pessoas não consideram quadrinhos – com um impacto irregular no leitor. Tanto visual como em conteúdo narrativo, existem muitas discrepâncias entre o que se está vislumbrando nesse livro. Algumas histórias são geniais como o conto de Ash, uma menina que tem uma planta crescendo dentro dela, e a bela história muda (o) – símbolo de um olho -, mas outras são pura e simplesmente um laboratório de experimentos que explodiu. Aqueles que gostam de experimentos visuais e narrativos, entretanto, poderão se deleitar com a narrativa visual pós-moderna de McKean.

Leia mais sobre o trabalho e a obra de Dave McKean neste link.

MELgaviaoA MORTE DO GAVIÃO NEGRO, DE MARC ANDREYKO, AARON LOPRESTI E RODNEY BUSCEMI

De vez em quando, personagens que já foram populares retornam aos holofotes em minisséries e edições especiais. É o caso de Gavião Negro e Adam Strange. O primeiro apareceu em Legends of Tomorrow e o segundo co-estrelará a vindoura série Krypton. Embora a DC tenha trazido vários especiais com eles ao longo dos anos, a Panini Comics Brasil praticamente ignorou a maioria. Os dois são os maiores heróis de dois mundo em constante tensão bélica:o planeta Tanaghar, lar dos homens-gaviões e planeta o Rann, os portadores da tecnologia de teleporte dos raios zeta. Entretanto, nessa edição, em que os dois heróis desbaratam um plano do monstro Despero, não taz nada de novo. Embora a primeira edição traga um trabalho de narrativa interessante por parte do roteirista Marc Andreyko e o desenhista Aaron Lopresti, a história parece uma repetição da mesma história que Rann e Tanaghar vêm vivenciando há anos, tanto no universo diegético como no extradiegético. “Un déja-vu que nunca llega a su final”, como diria Shakira. Uma pena, pois gosto dos personagens e dos artistas envolvidos. Mas desta vez não foi, IMHO.

MELzenZEN EM QUADRINHOS, DE TSAI CHIH CHUNG

A filosofia/religião zen-budista é algo muito bonito. Diferente das religiões ocidentais que estão tempo todo julgando o que é bom e o que é ruim, quem é bom e quem é mau, o zen-budismo é uma crença de aceitação, de tolerância e de compreensão do mundo. Enquanto as religiões ocidentais pensam que para se realizar tem de seguir uma moral, precisa se pagar dízimos e cotas religiosas em valores materiais, o zen-budismo acredita que o que não pagarmos nessa existência, pagaremos na próxima, afinal, nós também constituímos a natureza e, de uma forma ou de outra, continuaremos assim até o fim dos tempos. Enquanto as religiões católico-judaicas-cristãs acreditam que a culpa move as pessoas e que todos temos que sofrer pelos pecados, o zen-budismo oferece caminhos de iluminação. Não são dogmas, não são mandamentos, mas uma forma de compreender nossos atos e que motivos nos leva a tomá-los, tentando, assim, romper com o egoísmo. Dito isso, os ensinamentos desse Zen em Quadrinhos são muito valiosos. Contudo, a forma como eles são apresentados, em várias histórias curtas, geralmente de uma página, acaba prejudicando o ritmo da leitura. Também a reação dos personagens quando se percebem iluminados é sempre a mesma, o que contesta um pouco a diversidade de apresentações, seja do homem, da natureza e do próprio budismo, que prega o zen. Porém, é um bom caminho de entrada para se entender a doutrina. Uma pena que esteja fora de catálogo há muito tempo.

MELflashBATMAN/FLASH: O BÓTON, DE TOM KING, JOSHUA WILLIAMSON, HOWARD PORTER E JASON FABOK

Diferente do que os hyperistas nutella querem, este não é um “novo clássico definidor de uma era dos quadrinhos”. Aliás, já reparou como eles tem essa tendência de achar que tudo é um “novo clássico”? Para se tornar um clássico, uma obra primeiro precisa envelhecer e aí ser avaliada, não existem “novos clássicos”. Mas enfim, longe dos alvoroços de fanboy tarja preta, esse quadrinho é uma leitura bem divertida, bem escrita e bem desenhada, principalmente nos títulos do Batman, a cargo de King e Fabok, que trabalham a narrativa de uma forma entusiasmante. Contudo, títulos como esse acabam trazendo mais dúvidas e questionamentos do que respostas e abre as portas para a saga O Relógio do Juízo Final, iniciada no one-shot Universo DC Renascimento. Talvez o mais legal nesse encadernado seja o paralelo feito entre as origens de Flash e Batman, heróis que tiveram os pais assassinados e de como uma mudança nesse fato poderia afetar suas vidas e todo o universo em que estão inseridos. Por fim fica o pedido do pai de Batman, Thomas Wayne para que ele desista de ser o Batman e tenha uma vida normal. Mas ele é o Batman e ele não é assim, ele não tem piedade nem mesmo do seu pai morto.

MELluciferLÚCIFER: PAI LÚCIFER, DE HOLLY BLACK, LEE GARBETT E ANTONIO FABELA

Holly Black continua fazendo um ótimo trabalho no novo volume do título do príncipe das mentiras, do diabo, do anjo caído, do estrela da manhã, Lúcifer. Neste segundo volume, um pouco inferior ao primeiro, ela amarra as pontas soltas deixadas na sua compilação de estreia. Lúcifer, Mazikeen, o anjo Gabriel e seus aliados precisam enfrentar não só a ameaça do filho de Lúcifer – a nomeada besta do Apocalipse -, como a vinda de uma nova versão d’ A Presença, ninguém mais ninguém menos do que o Pai Supremo, Deus. Entretanto, desde que Deus abandonou a criação e, posteriormente foi morto por alguém se passando por Lúcifer, ele retornou de outra forma, muito mais impiedosa e cruel do que sua versão do Antigo Testamento. E agora Lúcifer precisa convencer a única pessoa que pode fazer frente a esse poder, que é Elaine, a criança que herdou todo o poder da criação e d’ A Presença. Realmente tem sido uma grata surpresa ler esse novo volume de Lúcifer, uma leitura instigante e recompensadora. Contudo, apesar de ser uma boa história, o próximo volume encerra essa fase e promete uma batalha apoteótica entre o Deus e o Diabo. Resta perguntar: De que lado você está? OPA! Quadrinho errado!

MELbatmanfuturoBATMAN DO FUTURO: VOLUME 2, DE DAN JURGENS, BERNARD CHANG E MARCELO MAIOLO

Batman do Futuro tem sido uma ótima surpresa desde que comecei a acompanhar suas aventuras ainda no último encadernado da sua fase Novos 52. Desde lá o trio Jurgens, Chang e Maiolo vêm fazendo um trabalho bem divertido e instigante, talvez melhor do que os títulos regulares do Batman por terem concedido a eles todo esse desprendimento, já que a saga se passa em um universo alternativo. Nesse encadernado, depois que Terry McGinnis recuperar o manto de Batman (que era de Tim Drake), ele e seu mentor Bruce Wayne vão se deparar com ninguém mais ninguém menos que Damian Wayne, o filho do Batman. Damian, porém, abandonou a luta contra o crime e agora comanda a Liga dos Assassinos de seu avô Ra’s Al Ghul. Um arco bem empolgante e emocionante, embora não tanto quanto o primeiro. De qualquer forma, vale muito mais a pena de acompanhar que inúmeras séries do Universo regular do Renascimento DC, como por exemplo, Batrgirl, Arqueiro Verde, Arlequina e Esquadrão Suicida. Então, pra quem não se arriscou pela vida de Terry McGinnis e seu mentor Bruce Wayne, fica a dica para ler e acompanhar essa série!

MELthanosTHANOS: THANOS RETORNA, DE JEFF LEMIRE E MIKE DEODATO JR.

O grande astro do filme blockbuster e hit atual, Vingadores: Guerra Infinita, ganhou novamente uma série regular pela Marvel, que saiu esse ano em 2016. Certamente, os colecionadores Nutella de quadrinhos estavam esperando que fosse outra megassaga cósmica, uma leitura bombástica e arrasadora. Mas nós, macacos velhos das leituras de quadrinhos, sabemos que uma série regular não tem essa função a cumprir, mas a de manter um personagem em evidência, principalmente em uma era em que as produções audiovisual dão o tom das publicações de quadrinhos. Neste quadrinho, Thanos está morrendo e ele precisa se curar logo. Ao mesmo tempo, seu filho, Thane, planeja a sua definitiva destruição. Para isso, ele reúne um time para atingir seus objetivos e o da Senhora Morte, que deixou de amar Thanos e foi buscar o poder nos braços de seu filho – levando a máxima de trocar um de 40 por dois de 20 a sério. Jeff Lemire faz um trabalho bom, regular, o esperado de uma série mensal. Mike Deodato arrasa nos desenhos, dando toda uma dimensão para a história. O enredo é bem construído e nos deixa curiosos para a sua continuação, algo que toda revista regular que se preze deve fazer. Portanto, não vá esperando a leitura de quadrinhos cósmicos de super-heróis da vida, mas uma trama bem trabalhada e que entrega o que promete – ninguém aqui nunca prometeu uma estrondosa saga cósmica, não é mesmo? Isso foi sua cabecinha hyper que criou. Falou? Valeu!

MELcapuzRENASCIMENTO DC: CAPUZ VERMELHO E OS FORAGIDOS – VOLUME 2, DE SCOTT LOBDELL, DEXTER SOY E KENNETH ROCAFORT

Surpreendentemente Scott Lobdell vem fazendo um trabalho bem interessante nos Foragidos. Diferente do que ele fez nos Novos Titãs dos Novos 52 que completamente estragou a franquia e afastou leitores. Neste segundo volume, curtíssimo, quase não se consegue fazer uma lombada quadrada com ele, é explorada a história de Ártemis. Para quem não sabe, Ártemis surgiu nos anos 90, na época em que Mike Deodato desenhava a Mulher-Maravilha. mas ela já era decalcada em outra história, a de Orana, que nos anos 70 substituiu a Mulher-Maravilha por uma mísera edição. O reinado de Ártemis nos anos 90 durou um tantinho mais. Lobdell então refaz a origem de Ártemis, continuando a deixá-la ligada à tribo perdida das amazonas de Bana-Midgal, porém explicitando que essas amazonas seguem os deuses egípcios e não os gregos. Ele também inventa uma ex-amante para Ártemis que se torna sua inimiga e a nêmese deste encadernado. Acaba sendo um bom encadernado para os fãs da Mulher-Maravilha e da noventista Ártemis, por mais corpo de seriema que ela tivesse quando desenhada por Mike Deodato.

MELexcaliburEXCALIBUR: UMA AVENTURA NO TEMPO – VOLUME 2, DE CHRIS CLAREMONT, ALAN DAVIS, CHRIS WOZNIAK E OUTROS ARTISTAS

Outro revival que a Panini vem fazendo um ótimo serviço ao trazer de volta. Isso porque sua antecessora, a Editora Abril, picotou ou ignorou a maior parte das histórias do Excalibur. Para se ter uma ideia, quase metade do material desse encadernado em questão é inédito no Brasil, como por exemplo uma história desenhada por Barry Windsor-Smith e finalizada por Bill Sienczewicz. Excalibur é sinônimo de diversão, de histórias descompromissadas e personagens simpáticos e divertidos. É impossível ficar indiferente. Essa edição também abre espaço para outros argumentistas na equipe mutante inglesa como Michael Walsh e Terry Austin, outras histórias ignoradas pela Abril. Claro, também tem espaço para deslizes da Panini, como quando chama a guardiã omineversal Roma, filha de Merlin, de O Roma, mudando, assim, seu gênero e demonstrando que, ou o tradutor ou o editor desconhecem a personagem. nada que estrague sua diversão, mas que fica feio para a Panini. Mas feio por feio, a Panini já está um Deviante. Então temos de apreciar as coisas boas que ela faz.

MELdeadpool

DEADPOOL CLÁSSICO: TERAPIA DE CHOQUE – VOLUME 7, DE JOE KELLY, PETE WOODS, SCOTT MCDANIEL E JAMES FELDER

A Panini vem fazendo um ótimo serviço aos leitores ao trazer essa fase “clássica” do Deadpool, escrita por Joe Kelly para os leitores brasileiros que nunca tiveram a oportunidade de lê-la na íntegra. Assim, eles podem traçar um parâmetro com a péssima fase de Daniel Way que foi muito popular no Brasil. Neste volume, Wade Wilson se vê às voltas com Mercedes, uma mulher que clama ser a Senhora Wilson. Mas por que o mundo todo (menos o Deadpool) se esqueceu dela? Para Deadpool sua patroa estava morta e enterrada. Como ela voltou à vida? Alguém está mexendo novamente com a vida e a sanidade de Wade Wilson. Esse volume também contém um encontro com o baixinho canadense que gosta de pipocar nas revistas de todo mundo e um especial que traz uma versão assassina e infantil de Deadpool criada por um laboratório japonês. O legal dessas histórias do Deadpool é que elas não eram só nojeiras, matança e piadinhas, ela também tem um enredo muito legal que faz com que o leitor se prenda nos mistérios da vida de Wade Wilson. Diferente, é claro, do que o porcaria do Daniel Way fez com o personagem e os leitores brasileiros adoraram. Uma lástima. O Wade Wilson de Kelly é o Deadpool que vale!

MELaquamanRENASCIMENTO DC: AQUAMAN – VOLUME 4, DE DAN ABNETT, SCOT EATON E PHILIPPE BRIONES

As histórias do Aquaman no Renascimento DC estavam vindo num ritmo bem marromenos, mas também não era nada tão ruim quanto as histórias do Arqueiro Verde, que eu desisti. Então, neste volume, o trio de artífices faz um trabalho muito legal, daqueles que desperta sei sentido de aventura e maravilhamento. A fórmula é isolar um grupo de pessoas numa ilha junto com um monstro que não se sabe a origem e nem como controlar. Para piorar, ele pode aparecer do nada a qualquer momento. Claro que isso lembrou filmes renomados como Aliens e Predador. Mas também lembra um dos meus filmes preferidos que é Segredo do Abismo, em que as profundezas escondem um mistério muito assustador. Claro, por fim, não teria como não comparar com o lindo Namor: As profundezas, só que no caso do Aquaman, o rei dos mares é o herói e não o tal do “monstro” que se esgueira pelo local isolado. Logo depois desse arco, se segue uma inssurreição pela Coroa de Atlântida – é, mais uma. Isso já está ficando bem chato nas histórias do Aquaman, mas nada que interfira na qualidade do encadernado. Pode comprar sem medo.

MELmonstroMONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES DO MAL – RIO ACIMA: VOLUME 3, DE MARK MILLAR, PHIL HESTER, KIM DEMULDER E TATJANA WOOD

Eu não havia gostado nem um pouquinho dessa fase de Mark Millar no Monstro do Pântano. Por isso que demorei para pegar esse terceiro volume para ler (a Panini já anunciou o quinto e penúltimo desta fase). Mas tenho de dar o braço a torcer e dizer que, dessa vez, o escocês malandrão acertou na mão. No melhor estilo Notes na Taverna, de Álvares de Azevedo e os Contos de Canterbury, pequenas histórias são interligadas por um elemento em comum, que são a narradora, Anna, e o próprio Alec Holland. Assim, enquanto em cada conto de Anna, Alec viaja Mississipi acima, ele vai se deparando, a cada história, em mundos diferentes. Um desses mundos, ilustrado pelo sempre competentíssimo Russell Braun, imagina um lugar onde os nazistas venceram a guerra (uma baita história), outro desse mundo mostra a Terra 3, do Sindikato do Crime. Já outro, conta a história do Pântano da Chacina, de Solomon Grundy – aqui chamado de Pântano da Matança. Enfim essa fase provou a que veio. Resta a esperança de que ela mantenha esse ritmo e não involua para a “qualidade” dos volumes anteriores.

BLHintrrinsecaBLACK HAMMER: ORIGENS SECRETAS, DE JEFF LEMIRE, DEAN ORMSTRON E DAVE STEWART

Fazia tempo que eu não lia um material realmente bom de Jeff Lemire. E digo isso me referindo mais ao seu material colorido, que não é independente, que é mainstream. Este quadrinho fica no meio termo entre as duas modalidades, como ele mesmo atesta no epílogo. É uma grande homenagem aos super-heróis de todas as épocas. Grande parte desse tipo de homenagens, seja feitas por Alan Moore, por Warren Ellis ou outros artífices, costumam lograr grande êxito. Claro, existem também as evidentes exceções. Na história de Black Hammer, uma “família” formada por super-heróis deslocados no tempo e no espaço tenta conviver numa fazenda no interior escondendo seus segredos e seus poderes da população em geral. O mais legal de se trabalhar super-heróis para um público adulto são as ambiguidades e as analogias que podem ser traçadas e nisso, Jeff Lemire se sair extremamente bem. Na verdade, a HQ toda é muito muito bem construída – nem parece o mesmo Lemire de Extraordinários X-Men. A arte de Dean Ormston fica num algo entre Mike Mignola, Frank Quitely e Francesco Francavilla e sua narrativa segue um ritmo ótimo de acompanhar. Portanto, ler Black Hammer é garantia de satisfação para fãs novos e antigos de super-heróis numa linda e tenebrosa homenagem.

Leia uma resenha completa deste quadrinho neste link.

É isso aí, mergulhadores! O que leram de bom neste mês que passou? Alguma coisa desta lista por acaso? Não deixem de comentar e contar para a gente!

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