Por Que Os Balões de Pensamento Foram Praticamente Extintos?

Se você pegar uma revista em quadrinhos nas bancas ou nas livrarias que sejam de pelo menos dez anos atrás de lançamento vai perceber que os balões de pensamento estão praticamente ausentes dessas publicações. Principalmente nas revistas mainstream de super-heróis. Na revistas infantis, eles continuam, de certa forma, mais comuns. Mas o que foi que fez o pensamento desaparecer praticamente dos quadrinho que lemos e que mecanismos se colocaram no lugar dele? É o que vamos saber neste artigo.

PENspider

Quando estudamos quadrinhos na escola – isso quando estudamos – conhecemos os tipos de balão. Em primeiro lugar vem o balão normal, o de fala. Seguido a ele vem o nosso caso de estudo, o balão de pensamento. Depois, ainda temos outros famosos como os balões de grito e de cochicho. Os balões de pensamento eram, portanto, os segundos mais comuns. Stan Lee foi um cara que deixou os balões de pensamento cada vez mais inócuos. Repetindo a própria ação e o pensamento óbvio do herói em diversas situações. Um justaposição de palavras e imagens desnecessária. Era apenas uma necessidade que os editores da época achava que todo quadrinho deveria ter um balão de texto.

PENclaremontism

Nas histórias dos X-Men de Chris Claremont, a indecisão dos heróis era quase sempre marcada por seus dramáticos pensamentos sobre a vida. Essa forma de encarar as coisas, a super adjetivação e o drama teatral nas histórias do escriba dos X-Men acabou dando um nome para esse estilo: os claremontismos. Claremont também repetia coisas básicas que os leitores já estavam cansados de saber nos seus balões de pensamento. Mas com o findar dos anos 90 e o iniciar da influência de Watchmen e de Cavaleiro das Trevas e suas narrativas em off e o contar de histórias descomprimidas à forma dos autores indies como Mark Millar e Brian Michael Bendis fizeram o balão de pensamento se tornar algo em desuso.

PENbendis

Mas esse não é um acontecimento relegado apenas aos quadrinhos, ou aos comics. Você se lembra daquelas novelas mexicanas em que a Maria do Bairro escorregava porta abaixo pensando no seu amor Luiz Alfonso que a havia deixado, enquanto se debulhava em lágrimas? Ou o vilão do filme pensando consigo mesmo que o herói não iria se dar bem daquela vez? Pois é, revelar os pensamentos acabou se tornando uma cafonice. Mais legal é induzir o leitor por um caminho de pensamento através das ações de um personagens. De como ele age, manipula, o que escolhe para usar, onde ele vai e com quem convive. Às vezes mostrar essas coisas é muito mais rico do que mostrar o personagem pensando algo.

PENvendetta

Escritores e artistas podem não querer usar balões de pensamento, expressando a ação através do diálogo falado e do desenho. Às vezes os balões de pensamento são vistos como um método ineficiente de expressar porque estão diretamente ligados à cabeça do pensador. Isso se coloca em oposição às captions, narrações em off ou de métodos como caixas de legenda, que podem ser usados ​​tanto como uma expressão de pensamento quanto de narração. Estes últimos, diferente dos balões de pensamento, são mais versáteis, pois podem existir em um painel completamente diferente daquele do o pensamento do personagem. No entanto, eles são restritos ao ponto de vista atual do personagem. Um exemplo é o V de Vingança de Alan Moore e David Lloyd, em que, durante um capítulo inteiro, um monólogo expresso em legendas serve não apenas para expressar os pensamentos de um personagem, mas também o humor, o status e as ações de outros três.

PENasterios

Além disso, como os quadrinhos são um meio e um sistema de representação da narrativa que acontece de formas e combinações únicas, ele também pode recorrer a analogias e metáforas para designar os pensamentos, frustrações, desejos e intenções dos personagens. É o caso do magnífico Asterios Polyp, de David Mazzucchelli, que se utiliza de inúmeras metáforas, da arquitetura ao teatro para escrever a história a partir da visão do irmão gêmeo natimorto de Asterios, Ignatius. Assim, às vezes até mesmo uma composição de layout pode traduzir melhor os pensamentos de um personagem e o clima da história do que o pensamento do personagem em sim dentro daquele balão todo recortadinho que parece uma bolachinha de leite da vaquinha.

PENcapa

Outra  explicação que eu li para usar captions no lugar de balões é que as caixas de legenda podem se ocupar as palavras palavras com mais eficiência do que os balões ovais, permitindo que os escritores coloquem mais texto em uma página. Além disso, a falta de rabicho das caixas aumenta a flexibilidade na colocação de textos. A diferença básica entre os dois é a seguinte:

  • Balões de pensamento estão na ação. Os personagens respondem ao que está na sua frente através de balões de pensamento, e seus pensamentos são parte da ação;

  • Legendas estão fora da ação. Os personagens da narração em primeira pessoa descrevem a ação através de um contexto visto de fora, possivelmente fornecendo contexto ou significado externo.

Ou seja, quando você lê “Meu nome é Wally West. Eu sou o Flash. O homem mais rápido do mundo”, está lendo um pensamento, mas também um convite para saber o que aconteceu com Wally West naquelas 22 páginas e acompanhar suas aventuras através de seu olhar. Ser capaz de ver o coração de um personagem, entender a diferença entre o eu interior e exterior deles, nos liga a esse personagem. Um narrador em primeira pessoa com essa mesma perspectiva se sente como um comparsa, um amigo próximo que compartilha confidências, alguém como nós.

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O balão de pensamento também pode fazer isso, mas a caixa de legenda, com sua sugestão de estar e não estar naquele tempo e espaço ao mesmo tempo, é uma ferramenta superior para esse trabalho. O balão de pensamento, enquanto um monólogo dentro da ação, pode apenas sustentar esse status por curtos períodos. A narração em primeira pessoa em caixas de legenda pode estabelecer a vida interior do personagem por edições inteiras.

PENmonica
Os quadrinhos são particularmente adequados para dramatizar as diferenças entre os aspectos internos e externos de um personagem. Podemos não apenas ver o personagem agindo no mundo, algo que a prosa não permite. A prosa, entretanto permite que devastemos a vida do personagens dentro de seus pensamentos. Nos , como na prosa, podemos ver os pensamentos desses personagens. Algo que o teatro, o cinema e a televisão não conseguem, a não ser nas formas toscas como citei acima.


Agradeço ao amigo e parceiro de maquinações quadrinísticas Romi Carlos por ter levantado esta questão.

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