A Nova DC/Vertigo e Um Escopo Mais Político Para Seus Quadrinhos

A DC Comics já havia anunciado um renascimento da linha adulta Vertigo através de um novo universo das revistas do Sonhar, com o Sandman criado pelo escritor Neil Gaiman. Essa semana, a editora surpreendeu a todos, anunciando novos títulos para esse selo DC Vertigo. Os títulos, assim como os da linha do Sonhar, não trazem artistas consagrados, mas novas abordagens para problemas e situações existentes em nossa sociedade. A nova DC/Vertigo traz realidades imaginadas a partir de situações políticas. E é sobre essas revistas e as promessas que elas trazem que vamos falar neste post.

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Neil Gaiman já deu sua bênção para a nova linha do Sonhar, que começa com um especial retratando Daniel, o Sandman que ficou no lugar de Morpheus no reino do Sonhar. Os desenhos serão da maravilhosa brasileira Bilquis Evely que fez um trabalho incrível com a Mulher-Maravilha. A esse especial se somarão mais quatro títulos. O Sonhar, por Si Spurrier, focando no bibliotecário Lucien e demais personagens do reinado, enquanto Daniel se vê perdido. A Casa dos Sussurros, escrita por Nalo Hopkinson, que foca em uma mulher negra comatosa e sua namorada. Uma nova série do sucesso da TV, Lúcifer, escrita por Dan Watters, em que o príncipe das mentiras precisa recuperar sua memória. E, por fim, uma nova série de Livros da Magia, escrito por Kat Howard, acompanhando Tim Hunter na sua adolescência mágica.

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Mas, embora o anúncio no novo Sonhar e do novo selo DC/Vertigo veio acompanhado de caras familiares e de um universo de personagens familiares, o mesmo não pode ser dito dos novos novíssimos títulos que comporão o selo daqui por diante. Mark Doyle, o novo diretor executivo do selo, cargo que já foi da sensacional Karen Berger e da sua substituta, Shelly Bond, afirmou que quer fazer uma estrondosa comemoração dos 25 anos do selo, fundado em 1993 com a minissérie Morte: O Preço da Vida, de Neil Gaiman e Chris Bachalo. “Está na hora de reconstruir a DC Vertigo. Estamos voltando às nossas raízes ao dar destaque para novas vozes dos quadrinhos, assim como trazer novas vozes PARA os quadrinhos”. Vamos aos novos títulos:

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BORDER TOWN, DE ERIC M. ESQUIVEL E RAMON VILLALOBOS

Repare que os responsáveis pelo título possuem raízes latinas em seus nomes. Ramon Villalobos vinha fazendo trabalhos curtos na Marvel revelando seu estilo à la Frank Quitely em títulos como Secret Wars: E for Extinction. A premissa do título é que monstros da cultura mexicana saem de uma rachadura numa cidade fronteiriça entre os Estados Unidos e o México e isso começa a tornar o cotidiano da cidade de Devil Fork’s (o tridente do diabo) diferente, com assassinatos e mutilações de crianças. Um menino e seus amigos, então, começam a investigar o ocorrido. Essa se torna uma HQ muito política devido às associações com a política anti-imigrantes de Donald Trump, que está construindo um muro na fronteira entre os EUA e o México. Os monstros mexicanos, aqui, representam os imigrantes, o que vem de fora e, que segundo o presidente causam o caos no país. Mas muitas vezes o caos pode vir de dentro e não de fora.

hex-wives-1-1528320828868HEX WIFES, DE BEN BLAKER E MIRKA ANDOLFO

Ben Blacker já escreveu diversos filmes de comédia e esteve ligado a algumas histórias do Deadpool com o passar dos anos. Já Mirka Andolfo, trabalhou com títulos como DC Comics; Bombshells, Arlequina, Miss Marvel, Mulher-Maravilha, sendo uma das artistas femininas mais prolíficas dos últimos anos. Neste título, mulheres bruxas acabam sofrendo lavagem cerebral por uma conspiração de homens que acreditam que mulheres são malignas e elas devem ser domadas. Por isso, elas acabam se tornando subservientes a eles. Hex Wifes bebe na fonte de muitas obras pós-apocalípticas feministas como O Conto da Aia e as Esposas de Stepford, mas também entra na onda de demonização das mulheres liberadas que acontece desde a Idade Média com a caça às bruxas, mas que tem reflexo hoje, como por exemplo na vinda ao brasil da teórica de gênero Judith Butler. Outro quadrinho antenado politicamente com as discussões atuais.

american-carnage-1-1528320472430AMERICAN CARNAGE, DE BRYAN HILL E LEANDRO FERNANDEZ

O argentino Leandro Fernandez já é conhecido do leitor adulto de Vertigo e Marvel MAX, por sua passagem pelo título MAX do Justiceiro de Garth Ennis. Bryan Hill vem dos games e roteiros para cinema, e está escrevendo a atual fase de Batman em Detective Comics ao lado do herói Raio Negro. Esta HQ, Carnificina Americana, trata de crimes raciais, outro ponto político forte que vêm mexendo com os Estados Unidos nos últimos anos. Acompanhamos o detetive “biracial – seja lá o que isso signifique” do FBI, Richard Wright, que se infiltra em um grupo de supremacistas brancos para descobrir quem assassinou sua parceira, uma policial negra.

goddess-mode-1-1528320787848GODDESS MODE, DE ZOE QUINN E ROBBIE RODRIGUEZ

Zoe Quinn é conhecida por seu trabalho no mundo dos videogames independentes, tendo criado Depression Quest, um dos poucos games que lidam com a depressão. Já Robbie Rodriguez é conhecido tanto dos leitores da Vertigo, onde desenhou e criou a série FBP: Federal Bureau of Physics (ao lado de Simon Oliver) e da Marvel, onde criou a Gwen-Aranha ao lado de Jason Latour. Goddess Mode parece o mundo de sonhos de um programador digital. Se trata de um mundo onde todas as necessidades humanas são programadas e geridas por uma espécie de Deus, mas cabe a Cassandra o trabalho de consertar essa tecnologia quando algo dá errado. E quando algo dá errado, ela é sugada para um outro mundo tecnológico, virtual, físico e tudo mais, em que se depara com coisas nunca antes vistas. Essa HQ discute os limites entre o real e o virtual, que em anos com tamanha dependência das tecnologias, internet e redes sociais como os atuais, nos fazem pensar até onde nossa vida é realmente nossa.

high-level-1-1528320863506HIGH LEVEL, DE ROB SHERIDAN E BARNABY BAGENDA

Esta HQ lembra muito o plot de um videogame. Depois de o mundo acabar e ter sido construído novamente, um contrabandista que está sendo caçado pelo que sobrou do mundo tem uma nova missão. A ele é entregue uma criança dita uma nova messias. Ele, então precisará atravessar um continente desconhecido para chegar a High Level, uma cidade misteriosa no topo do mundo de onde ninguém jamais voltou. Rob Sheridan é um produtor, designer gráfico e fotógrafo associado à banda de rock Nine Inch Nails. Já Bagenda é mais conhecido por seu trabalho com Tom King na premiada série Omega Men, inédita no Brasil. Esse, talvez, seja o quadrinhos menos político anunciado nessa onda. mas é esperar para ver.

safe-sex-1-1528320883502SAFE SEX, DE TINA HORN E MIKE DOWLING

Mike Dowling é o artista virtuose responsável pela série UnFollow, ao lado de Rob Williams. Já Tina Horn é uma especialista em identidade de gênero, ativista, jornalista, educadora e crítica cultura, cujo trabalho está relacionado à valorização da comunidade queer.  Neste novo trabalho dos dois, que se trata de um suspense num futuro distópico e científico, acompanhamos pessoas que trabalham com sexo – aka prostitutas, travestis e michês – em um mundo em que, por virtude do seu trabalho, são impedidos de amar. Neste mundo, o prazer sexual é monitorizado, policiado e regulado pelo governo. A ficção científica sempre foi uma ótima maneira de trabalhar o que a desigualdade de gênero e de direitos sexuais pode provocar no mundo, vide os trabalhos de Ursula Le Guin e de Margaret Atwood, Horn e Dowling dão continuidade à melhor forma de discussão de políticas sexuais que é mostrando o lado negro de um mundo onde o sexo e a liberdade de expressão sexual são constrangidos seja por órgãos públicos ou privados.

second-coming-1-1528320922394SECOND COMING, DE MARK RUSSELL E RICHARD PACE

Por fim, temos Second Coming, escrita pelo excelente Mark Russell que já causou imenso bafafá com sua “versão moderna e política” dos Flintstones e do Leão da Montanha, versão atualizada dos personagens da Hanna-Barbera, nova linha da DC Comics. Se os super-heróis, são hoje o símbolo da esperança e da salvação humana, Deus resolve mandar seu filho, Jesus Cristo, para se espelhar em um deles, durante a sua anunciada Segunda Vinda, para aprender como se relacionar com a humanidade novamente, servindo, mais uma vez como símbolo de esperança e redenção. Porém, assim que chega à Terra dos Homens, Jesus Cristo fica abismado com as distorções da Bíblia e da palavra feitas em nome Dele Mesmo e de seu pai todo-poderoso. Então, Jesus Cristo promete corrigir tudo, seguindo ou não a cartilha do super-herói que Deus solicitou que imitasse. Uma bela crítica política à religião cristã que distorce a palavra de Deus para comprir seus propósitos espúrios.

sandmanuniverseEntão, como vimos, praticamente todos estes novos títulos possuem um fundo político, com exceção de High Level que, aparentemente não vende nenhum posicionamento. Novos tempos pedem posicionamento das editoras e dos criadores de conteúdo e de entretenimento. Ficar em cima do muro, como já vimos em muitos cases de empresas, editoras e outros segmentos da sociedade acaba afastando o público e o alienando, deixando prejuízo tanto para as empresas como para o público órfão. A Vertigo, enquanto selo voltado para adultos, ao tomar essa decisão, acaba aproximando mais ainda aqueles que sempre valorizaram seu posicionamento de seriedade e de discutir temas difíceis na forma de quadrinhos. Longa vida à nova DC/Vertigo!

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