Futebol é Coisa de Gay? “O Outro Lado da Bola”, de Ale Braga, Álvaro Campos e Jean Diaz

Estamos todos em clima de Copa. É FIFA pra cá, figurinhas autocolantes da Panini vendendo que nem picolé no deserto, gente aprendendo russo só pra passar uma semana no país-sede da Copa. É, legal… pra quem gosta. Mas tem uma coisa que precisamos falar quando falamos de futebol. A homofobia presente no esporte, na torcida, nas práticas. No Brasil, futebol é esporte de machão. Nos Estados Unidos, é esporte de menininha. Tudo depende de ponto de vista. E o excelente trabalho de ponto de vista sobre gays no futebol é feito em O Outro Lado da Bola, em que os autores trabalharam um “o que aconteceria se…”, um dos maiores jogadores de futebol brasileiro saísse do armário e se revelasse gay em rede nacional de televisão. Vamos, com certeza, trazer uma resenha detalhada sobre o quadrinho nas linhas a seguir.

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O Outro Lado da Bola, de Alvaro Campos, Ale Braga e Jean Diaz (Editora Record, 216 páginas, R$ 54,90), 2018.

Antes de ler este quadrinho, eu considerava o melhor roteiro de quadrinho nacional, mas nacional com brasilidade, a HQ Sabor Brasilis, que tratava de outra paixão nacional, as telenovelas. Esse quadrinho tem bolas, mas não porque fala só sobre futebol, mas porque fala sobre um assunto do futebol que é sempre varrido para debaixo do tapete: a homossexualidade nesta “paixão nacional”. O futebol é realmente uma “caixinha de surpresas”, principalmente no que tange às atitudes que provoca nas pessoas, no caos que provoca, na imbecilidade que ele traduz. Mas também tem o seu lado bom, um lado que eu nunca encontrei, pois sempre sofri por não gostar do esporte, tendo sofrido uma espécie de rejeição até do meu próprio pai por causa disso. Isso sem falar da maneira como brasileiro te trata quando diz que não é ligado em futebol.

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O mergulhador campeão olímpico inglês Tom Daley, gay assumido. 

Mas a verdade é que todo esporte de grupo tem um pezinho na homossexualidade. As comemorações, os vestiários, os fetiches esportivos. Não é por acaso que existe uma categoria no pornô gay dedicada a esportes, pois eles atiçam a testosterona, seja dos heterossexuais ou dos homossexuais. O esporte tem seus ícones gays. O saltador Tom Daley e o mergulhador Michael Phelps foram alguns dos últimos a saírem do armário e continuam tão populares em seus países como se não tivessem se assumido. Nos Estados Unidos, em 2013, o jogador Robbie Rogers, aos 25 anos se assumiu gay. Algo assim no futebol brasileiro seria impensável. Pergunta: existe algum atleta gay brasileiro assumido? E no futebol, existe algum? Imagina a bomba que isso cairia no nosso país. Isso porque a homofobia está incrustada e escondida no Brasil e principalmente nos meios que envolvem o esporte – e o esporte de grupo, onde política, religião, celebridades e muito, muito dinheiro está envolvido. O irônico é que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016 foi destacado como a Olimpíada mais gay de todas. O Brasil tinha apenas 6 gays assumidos em seus ranks, sendo que apenas um era homem.

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O jogador de futebol Robbie Rogers, americano e gay assumido, destaque da capa de informação gay Attitude.

Em entrevista para o Globo Esporte sobre o assunto, Julio Moreira, fundador do Grupo de Defesa LGBT Arco-Íris, declara o seguinte sobre homossexualidade no futebol: “ Há uma cultura machista no Brasil que envolve principalmente o futebol. Existe uma cultura machista que se reproduz até na forma como a gente comemora nos jogos, com xingamentos. Se o juiz roubou, ele é ladrão, ele é veado. A sociedade pensa que é pecado, doença, crime, e isso faz com que atletas que atuam em times profissionais não possam se assumir. Tem o constrangimento que eles sofrem no meio e na torcida e também o reflexo de patrocínio. No futebol, acho que ainda é muito difícil (a pessoa assumir que é homossexual). Claro que tem, mas ele precisam viver se policiando. E é difícil viver uma homossexualidade escondida num ambiente assim”.

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Jogadores de Futebol Gay, participantes da Ligay, campeonato de clubes de futebol gays do Brasil.

Em entrevista para o LANCE!, o jogador, técnico e gay Eric Najib afirma o seguinte sobre homossexuais no futebol: “Vamos falar a verdade. Qual a chance não haver jogadores homossexuais em todos os principais campeonatos do mundo? É matematicamente impossível que não existam. Existem e são muitos”. Ele comanda o Stonewall FC, um time da Inglaterra 100% Gay, que completou 25 anos de existência em 2016. Najib considera que seu time nada tem a dever aos outros e que acha que o Stonewall é que nem a Seleção Brasileira, pois quando os outros times os enfrentam, têm na cabeça que vão perder. No Brasil, este ano, Porto Alegre sediou a Champions Ligay, campeonato de times de futebol 100% gay. A diferença é que os times são mistos, admitindo lésbicas e pessoas transexuais em suas fileiras. A Ligay e seu campeonato comportavam 12 times que se enfrentavam em chaves de competição. Depois do jogo, haviam festas gays agendadas onde jogadores e públicos poderiam confraternizar.

Nos anos 90, muitos jogadores brasileiros posaram para a extinta revista G Magazine, como é o caso de Vampeta, Dinei, os goleiros Roger  Noronha e Rafael Córdova, Túlio Maravilha, Bruno Carvalho, Alexandre Gaúcho e muitos outros. (preparamos até uma galeria de imagens para @s curios@s). Existem casos de pelo menos dois jogadores de futebol que se tornaram atores do pornô gay, como é o caso do belga Jonathan Falco e do goleiro americano Anthony Reichwaldt (também em fotos). E o que dizer de casos como os dos jogadores Richarlyson, do São Paulo e de Sheik, do Corinthians? E quando Ronaldo Fenômeno foi pego com duas travestis e disse “que não sabia”?

Muitos não sabem, ou não desconfiam, mas a palavra “shemale” é a mais procurada por brasileiros em sites de streaming de pornografia. Shemale significa travesti em inglês. Ou seja, na hora que esquenta, vale tudo. Menos na “vida real”. É isso que Braga, Campos e Diaz nos levam a imaginar em O Outro Lado da Bola. A vida real em que um jogador tem as bolas necessárias para assumir quem é e o que sente pelos homens ao seu redor, mas, em especial por um homem. Seu namorado desde a adolescência, que é espancado até a morte por membros da torcida organizado do próprio time que o idolatra e o chama de Maestro.

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O cognome Maestro nos remete a outro jogador que esteve envolvido em polêmicas sobre sua sexualidade: Adriano, o Imperador. Mas essas pequenas relações estão bem latentes no quadrinho O Outro Lado da Bola, que apresenta os Falcões como alusão à torcida organizada Gaviões da Fiel, uma das maiores, mais perigosas e violentas do Brasil ligada ao Sport Club Corinthians. Outra alusão feita no quadrinho é ao programa Encontros, de Fátima Bernardes, onde supostamente o jogador Cris faz seu outing. A apresentadora se chama Fátima Lima, mas Jean Diaz a desenhou com as feições de outra apresentadora, Sandra Annenberg.

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O desenhista Jean Diaz leva boa parte do mérito deste quadrinho funcionar. O roteiro de Braga e Campos era, anteriormente uma série de TV, mas por variados motivos, os treze episódios da série elaborada para um grande canal de entretenimento brasileiro teve de ser tornado em série de quadrinhos, que foi editado pela Editora Record. Jean fez um trabalho de Jack Kirby, decupando argumento e roteiro de TV dos escritores e transformando na narrativa funcional dos quadrinhos, Um ótimo trabalho sobre uma história potente e cheia de reverberações e ramificações. Muitas personalidades tornadas roteiristas de quadrinhos não conseguem fazer um trabalho tão bom e competente de adaptação de mídia do audiovisual para os quadrinhos, por mais que sejam incensadas pela mídia de dentro e de fora dos quadrinhos.

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A HQ era para ter sido lançada durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro, mas acabou ficando pronta para a Copa da Rússia. Na minha opinião um timing melhor, principalmente porque na Rússia a homossexualidade é ilegal. No primeiro dia da Copa, um manifestante pró-LGBT e contrário aos campos de concentração de gays feitos pela Rússia na Chechênia foi preso. Portanto é preciso falar de homofobia no futebol na Copa da Rússia também. Mesmo que a HQ não aborde de forma direta a Copa do Mundo, ela é política por outras razões, porque os cartolas dos clubes de futebol estão envolvidos com a política, como é o caso do personagem Freitas, o Padrinho, que quer lucrar com o outing do jogador Cris. Ele também é deputado federal e precisa lidar com a pressão da bancada evangélica para desmentir a homossexualidade do jogador, como a de um tal deputado e pastor cujo nome começa com Silas, mas o sobrenome não é igual ao do mundo real.

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Outro ponto importante que a HQ traz é a família. No caso, a família de fachada do jogador Cris, que é composta pela esposa Suzana e pela enteada Kika, que não sabe da “condição” do pai até ele revelar-se publicamente. A maneira como os autores tratam essas duas personagens é magistral. A maneira esférica, bolística como a personagem de Suzana é construída é de se tirar o chapéu. Você consegue odiar ela e simpatizar ao mesmo tempo. E, no fim, a compreender. O mesmo acontece com Kika e com o trabalho dos pais de mentirinha dela de convencencerem-na a entender o caso e ficar do lado deles, por mais ases nas mangas que a menina tenha para manipular os dois.

GAY100Eu quase não parei de ler O Outro Lado da Bola desde que comecei a ler dentro do ônibus indo para casa. Só parei um pouco a leitura para jantar. E em várias situações a minha emoção foi crescendo, crescendo com as declarações e situações em cada parte. Não que eu tenha vivido situações parecidas. Talvez, com minha experiência de homem gay, a história tivesse ido para outro caminho do que ao ser produzida por uma equipe heterossexual, como é esse caso. Mas minha emoção foi crescendo e quase verteu uma lágrima, quando Cris, ao salvar o time num jogo levanta a camiseta e mostra outra por baixo escrito “100% GAY”. Algo que eu nunca vi. Nem na vida real e nem na ficção. Pelo menos não no esporte.

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Como eu disse antes, O Outro Lado da Bola escrito, desenhado e produzido por héteros não possui nenhuma falha ou desvio que seja ofensivo aos homossexuais. Isso é uma vitória enorme. Pelo contrário, vemos personagens no vestiário, exibindo seus corpos e rolam até bumbuns e bilaus de fora. Em outro tipo de HQs nacionais estaríamos vendo peitos e xanas de fora a rodo, além de uma bela exploração de bundas e coxas de mulheres voluptuosas em roupas curtíssimas. Um quadrinho nacional que mostra homens pelados também é uma vitória. Vai no movimento contrário da objetificação da mulher.

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O Outro Lado da Bola é um trabalho competentíssimo, de personagens multifacetados, com camadas, com a mesma esfericidade de uma bola, embora os torcedores de futebol possam custar para entender que a vida não é só amigos e rivais, time da casa e time visitante. Essa é a mesma forma que somos obrigados socioculturalmente a encarar a homossexualidade num eterno “nós versus eles”, como se fosse uma peladinha de moleque, como é o futebol para muitos. Como se fosse algo que desse significado a uma vida medíocre que nada mais faz além de torcer para seu time “do coração” e sair matando e ferindo gente por causa disso. E aí entra a homofobia. Respeito, atitude perante a vida, maturidade, não são coisas de moleque. Mas para aqueles que encaram a vida como um eterno “nós contra eles”, a própria existência nunca vai passar de criancice e da mais pura ignorância. O Outro Lado da Bola é uma leitura que todas as torcidas organizadas deveriam ler. Mas se eles não leem nem os álbuns de figurinhas que compram, é um sonho que ponham a mão em um livro em quadrinhos com mais duzentas páginas.

O Outro Lado da Bola pode trazer uma grande mensagem contra a homofobia, sobre o fair play em todos âmbitos da vida, mas a sua mensagem principal está no seu título. Bolas não têm lados. O Outro Lado da Bola, portanto, é o mesmo que o seu e que o meu. E se o mundo também é uma bola, temos que cuidar para que todos nós tenhamos os mesmos direitos e deveres, vivendo em harmonia para que todos possamos sair vitoriosos dessa partida contra as adversidades que é a vida. Esse jogo não é fácil pra ninguém.

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