Artistas Transexuais dos Comics Que Você Precisa Conhecer

Hey, mergulhadores! Estamos em junho e esse mês é muito importante para nós do blog, pois é o mês da representatividade e orgulho queer (vou usar queer ao invés da sopa de letrinhas, ok?). Para fazer parte do movimento, além de alguns posts que já fizemos, eu gostaria de dar visibilidade à letra T da sopinha, que é tão violentada, desprezada e silenciada. Por isso, preparei uma listinha com dez artistas transexuais ao redor do mundo que trabalham com quadrinhos e uma mini lista com artistas brasileiros também. Aposto, que você não pensava que tinha tantos artistas transexuais nos quadrinhos assim, certo? Bem, então está na hora de conhecer esse pessoal!

LILAH STURGES

Lilah estreou nos quadrinhos ainda quando se chamava Matthew. Ela era uma exímia colaboradora de Bill Willingham em séries relacionadas com o universo de Fábulas. Ela co-escreveu com ele toda a série de João das Fábulas. Mais tarde, como fim da série de Fábulas, Lilah co-escreveu seu spin-off, Para Sempre, que durou apenas 12 edições. Mas o maior feito de Lilah foi a elogiada série, aplaudida por público e crítica, Casa dos Mistérios. Uma bela HQ surreal e reflexiva, que nos faz pensar na existência por horas e horas. Escrevemos uma matéria mais completa sobre Lilah quando ela começou a fazer sua transição para o gênero feminino. Você pode ler mais aqui.

RACHEL POLLACK

Depois que Grant Morrison deixou o renovado título da Patrulha do Destino, já no selo Vertigo, a pessoa que o substituiu foi Rachel Pollack, nos roteiros. Rachel foi uma das pessoas trans pioneiras nos quadrinhos de super-heróis, tendo começado nos anos 90. Ela era uma exímia taróloga, tendo prestado consultoria para Neil Gaiman e Grant Morrison. Dizem que ela foi recebida como roteirista da Patrulha do Destino por causa de suas cartas extensas e dedicadas para a revista. Entretanto, não sabe-se se isso é lenda ou verdade. também escreveu algumas edições de Novos Deuses. Pollack faleceu em 2015 vítima de um câncer linfático.

MAGDALENE VISAGGIO

Magdalene Visaggio é um dos nomes mais promissores da indústria dos quadrinhos. Depois de ter agradado muito à crítica especializada com seu quadrinho avant-garde Kim & Kim, sobre mulheres trans cowboys interdimensionais, ela foi chamada pela Marvel. Magdalene também escreveu uma minissérie da série animada Rick and Morty. Ela colaborou prolificamente na linha Young Animal, do vocalista do My Chemical Romance, Gerard Way, em títulos como Shade, a Mulher Mutável e Garota Eternidade. Neste último, elogiadíssimo pela crítica, ela tratou do tema da depressão. Magdalene também ajudou no crossover da linha Young Animal contra a Liga da Justiça. Agora, na Marvel, acabou de lançar um one-shot da cantora mutante Cristal.

AS IRMÃS WACHOWSKI

Bem, eu não preciso explicar muito quem são as irmãs Wachowski, certo? Apenas que quando eles fizeram a trilogia Matrix, V de Vingança e A Viagem, eram Andy e Larry. Hoje em dia, atendem pelos nomes de Lilly e Lana Wachowski. As irmãs assumiram sua “nova identidade” com quatro anos de diferença. Lana, em 2012 e Lilly, em 2016. A partir de então, elas produziram a série Sense 8, que fala – e muito – com o público queer. Nos quadrinhos, elas trabalharam em séries mais obscuras como Doc Frankenstein e quadrinhos derivados dos livros de Clive Barker (também um autor queer), além, é claro, de participarem da antologia The Matrix Comics.

sophielabelle

SOPHIE LABELLE

Sophie é uma cartunista trans canadense que possui uma webcomic sobre sua vida como mulher trans chamada Assigned Male (um jogo de palavras com assinar e ser designado, ordenado). Labelle disse que, enquanto trabalhava com crianças transgêneras, “notou como tudo o que diziam sobre seu próprio corpo era negativo, então eu queria criar um personagem que pudesse responder a todas essas coisas horríveis que as crianças trans ouvem o tempo todo”. Ela fez guias educacionais através quadrinhos, para promover espaços mais seguros para os jovens trans. Claro que desde então, Sophie vem sofrendo boicotes, ataques físicos e ciberbullying. Você pode ler seu quadrinho aqui: https://www.assignedmale.com

VAUGHN BODE

Vaughn foi um artista underground de estilo impressionante que influenciou diversos artistas de sua época e além. É conhecido como criador do personagem cult Cheech Wizard. Nos anos 70, depois dos contatos com o guru Prem Rawat e de dividir um estúdio e outras experiências com o amigo Jeffrey Catherine Jones (de quem falaremos abaixo), Vaugh começou a fazer experimentações com sua sexualidade que incluíam crossdressing, travestismo, sadomasoquismo e um breve período em que começou a tomar hormônios femininos. Faleceu em 1975 por causa de uma asfixia autoerótica. Deixou um filho, Mark, que também trabalhou com quadrinhos.

JEFFREY CATHERINE JONES

O grande artista de fantasia Frank Frazetta considerava Jeff Jones “o maior de todos os pintores vivos”. Nos quadrinhos, Jeff fez diversas capas para diversas editoras, mas seus trabalhos com narrativa da arte sequencial foram mais recorrentes na National Lampoon, na Warren Publishing e na Heavy Metal americana. Contudo, existe outra ligação de Jeffrey com os quadrinhos. Por um período de tempo, ele foi casado com Louise Jones, que editou a revista dos X-Men e que, depois de um tempo viria a se separar de Jone e se tornar a escritora dos mutantes e dos Supermen, Louise Simonson. Em 1998, Jeff começou a terapia de substituição de hormônios, mudando seu nome para Jeffrey Catherine Jones. Lidando com suas questões de gênero, ela sofreu um colapso nervoso em 2001, somente retornando à pintura em 2004. Jeffrey Catherine Jones faleceu em 2011 vítima de um severo enfisema e de bronquite associado a uma arteriosclerose perto do coração.

KYLIE “SUMMER” WU

Autora trans de uma autobiografia em forma de webcomics, Kylie Summer Wu começou seus quadrinhos em 2013 como forma de expressar e processar seus sentimentos depois que começou a sua transição. Kylie nasceu na China e foi para os Estados Unidos ainda adolescente. Lá foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção Com Hiperatividade (TDAH). Embora o webcomic lide com assuntos como dismorfia corporal, leis anti-transexuais, discriminação e problemas relacionados a partes do corpo, ele o faz por meio do humor. Seu webcomics se chama Trans Next Door, que poderia ser traduzido como A Trans Comum. Um título irônico, com certeza. Você pode conferir seus quadrinhos aqui: http://www.transgirlnextdoor.com

MIA ROSE ELBO

Mia Rose Elbo é uma mulher lésbica trans, ou seja, ela se identifica corporalmente como mulher, porém possui atração por outras mulheres. Ou seja, sua sexualidade é homossexual. Mia é chilena e vive em Santiago. Em entrevista para a revista Caras chilena, Mia contou que embora sempre tivesse para si que era mulher, seguiu sua vida como Raimundo para não desagradar aos pais. Porém, foi selecionada para ir estudar no Japão. Dias antes de partir, sua mãe perguntou se era gay. Mia respondeu: “Não, sou mulher”. Sua mãe ficou com medo. “Ela me disse que eu teria que deixar o Chile. Ninguém ia me aceitar”. Mia voltou e iniciou sua terapia hormonal, embora seu pai a ignorasse porque naquela casa ela precisava ser homem. “Na verdade, acho que ele ainda não assume isso. ” Para completar “o processo” de transição, pegou suas coisas e saiu de casa. Seus quadrinhos, autobiográficos, claro, se chamam Becoming Me (algo como Me Tornando Mim Mesma). Você pode conferir seus quadrinhos neste link aqui: http://bmcomic.tumblr.com

E no Brasil?

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LUIZA LEMOS

Conheci a Luiza na primeira CCXP que fui, em 2016 e, quando fui comprar o quadrinho dela, me disse que todos tinham esgotados. Luiza, que antes era o quadrinista Luiz Lemos, metaleiro e barbudo, mora em Paraty e namora uma menina, pois se identifica como mulher trans lésbica. Ela publica seus quadrinhos, que se chamam Transistorizada. Luiza sofreu muito bullying na infância por causa de seu jeito feminino. O jeito era se fechar em si mesma com muitos desenhos e leituras dos gibis da Marvel. Na internet, Luiza foi muito bem recebida em grupos de trans e LGBT, mas a recepção em grupos de nerds e geeks dos quadrinhos foi muito diferente. Luiza foi hostilizada e banida de um grupo. Este ano ela inciou uma campanha no Catarse para a publicação de Transistorizada. Você pode conferir seu trabalho em: https://www.facebook.com/transistorizada/

LINO ARRUDA

Já Lino Arruda é um homem trans e sua produção se encaixa muito mais com os quadrinhos undergrounds e os fanzines. Lino recebeu uma bolso Fullbright do governo dos Estados Unidos para fazer seu doutorado em estudos LGBT na University of Arizona. Vindo da Universidade Federal de Santa Catarina, Lino estuda representações de trans/travestis ao lado de bestialidades e monstruosidades. Lino está atualmente desenvolvendo um capítulo de fanzine / dissertação intitulado Monstrans: experimentando horror, no qual ele combina ilustrações, autoficção e teorias antropocênicas para situar a incorporação trans * sudaca no (in)espectro humano. Alguns dos fanzines publicados por Lino são euaindafui e Quimer(D)a, explorando a sexualidade e as aberrações mescladas com a realidade trans. Agradeço ao meu co orientador Steven Butterman por me apresentar ao trabalho do Lino e prometo ainda fazer um belo review dos seus fanzines. Você pode conhecer mais do trabalho de Lino aqui: https://lgbt.arizona.edu/events/outside-event-lino-arruda-institute-visiting-scholar-lecture-saberes-do-cu-do-mundo

LAERTE

Ela é diva divina maravilhosa. Laerte é um marco na sociedade brasileira ao demonstrar que pode se assumir sua identidade de gênero trans depois da meia-idade e sim, isso pode ser feito quando você é um dos cartunistas mais famosos do Brasil. Essa mulher tem peito! Essa mulher tem bagos! Mas mais do que tudo, essa mulher tem coragem de enfrentar um país dominado pela politicalha interesseira, pelos religiosos mais interesseiros ainda, por uma onda militar reformista, e os defensores da moral e dos bons costumes de sempre. Falar bem de Laerte é chover no molhado porque todo mundo que ama quadrinho tem o dever de conhecer seu trabalho. Mas caso ainda não conheçam o trabalho dela com viés queer, eu deixo a sequência de tirinhas da Polícia da Ditadura Gay, uma sátira àqueles que afirmam que vivemos numa tirania gayzista: https://splashpages.wordpress.com/2014/02/24/a-policia-da-ditadura-gay-por-laerte/

Bem, se você já respeitava as pessoas trans, agora pode respeitar ainda mais. E se não respeitava, que vergonha! Mas agora tem ainda muitos mais motivos para respeitar e aprender que pessoas trans não trabalham apenas com prostituição. Ela também trabalham com a divina e preciosa arte de fazer quadrinhos. E não são quadrinhos comuns. São quadrinhos aclamados pelo público e premiados pela crítica. Então vai deixar de ser crítico com a maneira como as pessoas vivem e se identificam e comece a apreciar o trabalho de uma pessoa trans. Não precisa nem ser na seara dos quadrinhos. Pode ser em qualquer lugar, contanto que esses lugares, seus públicos e seus colegas de trabalho estejam de braços abertos para permitir que pessoas trans possam trabalhar em paz e com o respeito que todos merecemos.

 

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