DC Comics Vai Vender Revistas Exclusivamente Através do Walmart. Será Que Isso é Bom?

Essa semana a DC Comics anunciou uma nova estratégia de vendas para suas revistas. Novos títulos de 100 páginas focando os principais heróis e equipes da editora fazem parte da iniciativa Giant. O título trará três histórias que serão republicações e uma história inédita. O interessante é que a DC Comics chamou medalhões para cuidarem das histórias de Superman e Batman a partir da edição 3 dessas revistas. A venda dos quadrinhos será de exclusividade da rede de lojas Walmart. Neste post vamos discutir essa nova jogada de marketing da DC, o quanto ela é importante para o mercado de quadrinhos como um todo e, claro, também o conteúdo dela com histórias antigas e inéditas.

Desde a década de 80 quem toma as rédeas do mercado de quadrinhos estadunidense é o mercado direto. Ele funciona através de um sistema de encomendas das comic shops que recebem apenas a quantidade desejada, evitando, assim, os encalhes. Até o início dos anos 90, era comum encontrar gibis nas farmácias e nos supermercados dos Estados Unidos. Hoje, até se encontra essas revistas, mas não existe grande variedade como nas comic shops. O mercado direto também serviu como uma alternativa para vender títulos menos procurados, que não dariam tão certo no mercado comum.

Mario Beauregard-Montreal Quebec Canada
Loja do Walmart no Canadá.

Porém, as circunstâncias do mercado de entretenimento mudaram. Hoje, a grande porta de entrada para a compra de quadrinhos é, sem dúvida, as produções audiovisuais. São elas que atraem um novo público, um novo tipo de colecionador e consumidor que foi atraído pelos heróis das telas e quer conhecer mais a respeito deles nos quadrinhos. Eles acabam encontrando seu heróis nas livrarias físicas e online. Esse é um dos motivos porque o consumo de compilados e graphic novels cresceu mais nos últimos anos do que a venda de quadrinhos pelas comics shops. Some-se a isso a crise financeira mundial e o fechamento de diversas comic shops ao redor dos Estados Unidos. Os novos consumidores de quadrinhos mal sabem da existência de comic shops, quiçá o endereço delas. Esse, então, é o grande problema do mercado direto.

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Ao tentar puxar a alavanca para outra direção, com a sua iniciativa de vender quadrinhos nas lojas da rede Walmart – que é muito mais poderosa fora do Brasil, onde a qualidade de seus serviços deixa muito a desejar -, a DC Comics aproxima os quadrinhos do consumidor trivial. O consumidor esporádico é uma peça importante para o mercado de quadrinhos. Quantas vezes os atuais colecionadores de quadrinhos encontraram gibis perdidos na casa dos tios, primos e avós e, por causa deles começaram a ler quadrinhos? Todo mundo que coleciona quadrinhos deve ter tido um momento mindblowing que o fez investir na compra de várias e várias edições de HQ ao longo dos anos. Tudo isso porque um dia foi um consumidor esporádico. Apenas estava no lugar certo no momento certo e, o mais importante, com o gibi certo.

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Por isso, as edições Giant de 100 páginas da DC Comics sendo vendidas nas lojas da rede Walmart são um movimento peculiar e interessante, principalmente levando-se em conta a configuração dos pontos de vendas dos quadrinhos nos Estados Unidos, mercado-mãe dos super-heróis. Pode até ser considerado por alguns, uma jogada que vai na contramão do enxugamento e contração do mercado que estamos vivendo. Mas não costumam dizer que é necessário ousar na crise? Estou sendo irônico. Porém, isso até pode funcionar para grandes empresas monopolizadoras e detentoras de todo o capital cultural e econômico de um nicho. Além disso, a DC Comics é dona da Diamond Comics, a maior distribuidora de quadrinhos daquele país. Eles não tem nada a temer com essa iniciativa.  

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“Estamos extraordinariamente empolgados em trabalhar com o Walmart para expandir o alcance de nossos livros”, disse o editor da DC Dan DiDio em um comunicado. “Esses novos livros mensais combinam histórias novas e acessíveis com reimpressões de séries clássicas de quadrinhos. É uma ótima maneira de os novos leitores entrarem nos quadrinhos e seguirem os personagens que eles amam na TV e no cinema”. Os quadrinhos “100 Page-Comic Giant” seguem uma tradição de 20 anos de publicações como essa, que era populares nos anos 60 a 80, lá em terras estadunidenses. Eles seguem a mesma forma de como são, ou melhor, costumavam ser,  os nossos almanaques de republicações ou ainda o Almanacão de Férias da Turma da Mônica, que fazia a alegria da garotada na minha época. Os quadrinhos da linha Giant vão ser distribuídos por mais de 3000 lojas da rede Walmart participantes.

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OS TÍTULOS

Os grandes sites de quadrinhos estrangeiros estão noticiando mesmo é a inclusão de grandes nomes como o de Brian Michael Bendis e de Tom King em arcos que irão acontecer dentro do mix dessas revistas exclusivas. Mas é importante dizer que esses arcos apenas começarão a partir das edições de número 3 da iniciativa Giant. Nas duas primeiras edições, equipes rotativas irão fazer o papel de fillers ate que os novos arcos fiquem prontos.

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Arte promocional de merchandising da Liga da Justiça, por Jim Lee.

Mas antes de falar das histórias novas e das republicações, gostaria de chamar a atenção dos meus leitores para as capas dessas revistas, que você viu ao longo dessa matéria. Tentem imaginar as capas que vocês costumam ter em revistas regulares de super-heróis. Elas não possuem um design menos, como direi… com menos esmero do que os gibis que costumamos ver por aí? Reparem na paleta de cores: todas elas chapadas e todas elas com apenas cores básicas. Os desenhos utilizados são artes de merchandising, que vemos em diversos produtos da DC Comics por aí. Tudo leva a crer que essa foi uma decisão de última hora, provocada pela saída de Diane Nelson da presidência e que, por alguma razão permitiu esse movimento.

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Diane Nelson se afastou temporariamente da DC Comics em maio de 2018 e deixou-a definitivamente no mês seguinte. 

Vejam também as caixas e balões nas capas, que chamam para as republicações e também para “novos” heróis da editora como os The Terrifics, Sideways e… bem, Arlequina. E os personagens da revista no topo da capa? Tudo isso denota que esse quadrinho é descartável, um mero produto, algo para ser vendido à rodo e baratinho. Eu tenho uma filosofia que costumo seguir. Se eu quero saber se uma empresa ou produto é bom ou confiável, eu costumo olhar seu site e seu logo. Se parecer que foi feito pelo sobrinho do dono no fundo do quintal, bem, eu não vou comprar com ela. E infelizmente, é bem isso que essas revistas estão me passando. Essas revistas, definitivamente não são para colecionadores, mas para o público ocasional. E eu acho isso ótimo, mesmo não sendo pra mim.

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Sample de uma página de Superman Giant por Andy Kubert.

O que me leva a pensar é que o mesmo vai acontecer com as histórias feitas por Brian Michael Bendis e Tom King. Vale lembrar que os dois estão fazendo uma dança das cadeiras nos dois grandes heróis da DC Comics que escrevem regularmente para a linha dos – caham! – colecionáveis. Bendis ficará com o Batman ao lado de Nick Derrington e King pegará o Superman junto com Andy Kubert. E aqui temos mais um indício do teor dessas histórias. Tanto Bendis como Kubert fizeram parte da Onda 1 do Universo Ultimate da Marvel, outra iniciativa para renovar o público das editoras. Como DiDio falou acima, as histórias serão descompromissadas e livres de continuidade – fator que a DC Comics vem flertando há muito, muito tempo, desde a linha All-Star, passando por Terra Um e chegando em Black Ink.

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O Batman de Nick Derington que estará nas histórias escritas por Brian Michael Bendis em Batman Giant.

A grande e, talvez, a principal e essencial diferença é que finalmente eles se deram conta de que não adianta mudar o conteúdo do produto para um novo público se esse novo público não tem acesso a ele. Portanto, a mudança do ponto de venda e sua promoção a preços acessíveis (US$ 4,99 dos 100 pages contra US$ 3,99 dos gibis comuns de 20 páginas) pode ser de uma importância vital – veja bem a palavra – para a indústria moribunda de venda de quadrinhos no mercado estadunidense.

AS REPUBLICAÇÕES

A maioria das republicações das revistas traz um mix bem caótico. Além dos novos “features” da DC Comics, temos uma confusão entre cronologias pré e pós-Novos 52. Odeio dizer isso, mas a DC Comics precisa aprender a fazer mixes com a Panini. Para se ter dois exemplos, a revista do Batman traz o arco Silêncio, que é de antes da iniciativa Os Novos 52. A revista do Superman, traz o Lanterna Verde de Ivan Reis e Geoff Johns, a revista que veio depois da minissérie Renascimento.

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Não é só a maneira de FAZER quadrinhos que precisa mudar com os tempos, mas a maneira de VENDER quadrinhos também.

Mas o caso que faz mais arregalar os olhos é a revista dos Novos Titãs, que também traz a equipe criada por Johns e Mike McKone e que, depois do Flashpoint, foi apagada da continuidade e substituída pela versão de Scott Lobdell que a DC Comics faz tudo para varrer para debaixo do tapete. Vale dizer que as histórias inéditas do Novos Titãs serão escritas por Dan Jurgens e desenhadas por Scott Eaton e vão apresentar um novo vilão, o Disruptor. Entretanto, não sabemos qual formação os integrantes da equipe seguirão, apenas que, a partir da imagem da capa, Mutano estará presente.

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Os Novos Titãs de Johns e McKone voltaram ao cânone?!?!

A Mulher-Maravilha, por sua vez, pode não ter recebido uma Giant própria, mas ela vai “morar” com histórias inéditas na Giant da Liga da Justiça. Da mesma forma que Superman e Batman, ela irá ter duas histórias fill-inns e, no número 3, iniciará um arco de 12 partes pelo time criativo de Arlequina, Amanda Conner e Jimmy Palmiotti. Aliás, todos os arcos das Giants, com exceção ao dos Titãs, são de 12 partes. Isso quer dizer que a ação de marketing deve durar pelo menos um ano, começando em julho deste ano. Se for bem fadada, quem sabe, dure muito mais.

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Anúncio de pacotes de comics vendidos na Walmart antes do acordo de exclusividade. O famoso “pacote-surpresa”.

Outros artífices dos quadrinhos que estão envolvidos com essas publicações, nas histórias tapa-buracos são Tim Seeley, o brasileiro Felipe Watanabe e os veteranos Rick Leonardi, Patrick Zircher, Wayne Faucher e Tom Derenick, entre outros. O que todos esses artistas têm em comum? Eles são renomados por trabalharem rápido e estão várias vezes creditados em edições tapa-buracos, o que denota outra vez que essa não foi uma decisão que demandou muito planejamento da DC Comics (e, provavelmente, nem do Walmart). Os outros títulos de republicações que estarão nas revistas incluem Flash e Aquaman (Liga da Justiça), Super Filhos (Novos Titãs), Superman/Batman (Superman) e Asa Noturna (Batman).

Enfim, vejo essa ação com bons olhos, tendo ela sido feita às pressas e de última hora ou não. Faz tempo que venho insistindo na tecla de que o mercado americano não tem que mudar seu conteúdo para acessar novos públicos, mas sim adequar seu ponto de venda. Vocês podem ler mais sobre aqui e aqui. Se adequação é uma palavra-chave no marketing, ela deve ser levada em consideração em todos os aspectos dessas ações e não apenas em um deles. É, amigos mergulhadores, quem diria que uma decisão editorial tão despercebida poderia render tanto falatório? É porque dizem que Deus e o diabo estão nos detalhes. Ou seja: é lá que eles brigam. Espero que tenham curtido a análise! Abraços submersos!

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