A Leitura dos Quadrinhos: Mito, Ritual e Realidade

Acho que vocês, leitores inveterados de quadrinhos, já devem ter percebido que fazemos da nossa leitura, do nosso contato com os quadrinhos, um ritual. Todos visitamos um templo: uma banca, uma livraria, uma loja virtual. Todos comungamos da mesma história, do mesmo enredo, se lemos a mesma publicação. O ato ritualístico da leitura envolve sentidos e sentimentos, a visão, o toque das páginas, o peso do quadrinho, o cheiro do papel e da tinta. Nos acomodamos para poder nos sentir melhor ao ler quadrinhos. Entre muitas outras similaridades com um culto religioso. Afinal, muitos tratam Marvel e DC, e alguns criadores como verdadeiros e veneráveis deuses. Mas eu gostaria de analisar esse fenômeno um pouco mais a fundo e, por isso, fiz uma pequena pesquisa. Venham praticar esse rito comigo, sem cerimônia, por favor!

Já se falou diversas vezes que os personagens de quadrinhos possuem um viés de mitos modernos. Eu mesmo já abordei esse assunto há muito tempo atrás aqui no blog. Mas e quanto ao aspecto ritualístico do mito? Pensadores como Pierre Bourdieu afirmam que a prática dos ritos acabam criando os mitos e, portanto, geram aquilo que ele chamou de habitus, gestos repetidos que geram uma sensação de segurança. Outros pensadores como Umberto Eco, já discorreram sobre a natureza mítica dos super-heróis, como em seu texto, “O Mito do Superman”, queria aqui citar Mircea Eliade em seu livro Mito e Realidade para sublinhar essa consideração:

Os personagens das histórias em quadrinhos apresentam a versão moderna dos heróis mitológicos ou folclóricos. Eles encarnam a tal ponto o ideal de uma grande parte da sociedade, que qualquer mudança em sua conduta típica ou, pior ainda, sua morte, provocam verdadeiras crises entre os leitores; estes reagem violentamente e protestam, enviando milhares de telegramas aos autores dos comic books e aos diretores dos jornais. […] O mito do Superman satisfaz às nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limitado, sonha em revelar-se um dia um “personagem excepcional”, um “herói”. (ELIADE, 1994, p. 159)

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O maior mito do Superman é se confeccionar uma origem nova para ele a cada cinco anos!

Se os mitos nos levam a encarar um personagem como herói, isso só é possível porque o poder dessas histórias se encontra na repetição. Foram contadas ao pé da fogueira, ou das lareiras, durante as refeições por anos a fio e se tornaram patrimônios da humanidade. Mas os mitos também servem para explicar as coisas que não conseguimos explicar e, através dos ritos, ganhamos a segurança para poder enfrentar o que nos é desconhecido dia após dia. Mesmo as histórias de super-heróis de hoje em dia possuem essa função moral e encorajadora que os mitos e os contos maravilhosos possuíam no passado.

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Jack “O Rei” Kirby: Criador de Mitos!

Em suma, as experiências religiosas privilegiadas, quando são comunicadas através de um enredo fantástico e impressionante, conseguem impor a toda a comunidade os modelos ou as fontes de inspiração. Nas sociedades arcaicas como em todas as partes, a cultura se constitui e se renova graças às experiências criadoras de alguns indivíduos. Mas, como a cultura arcaica gravita em torno dos mitos, e como estes últimos são continuamente reinterpretados e aprofundados pelos especialistas do sagrado, a sociedade em seu conjunto é conduzida para os valores e as significações descobertas e veiculadas por esses poucos indivíduos. (ELIADE, 1994, p. 129 e 130)

Essa citação comprova que não só os super-heróis, heróis e mitos devem ser reformulados para novas audiências, mas como as ideias daqueles que estão por trás de suas histórias é que movem essas transformações. Cada contexto cultural da sociedade irá procurar um formato de sacralidade. Não obstante, muito dessa transição dos super-heróis dos papéis para o audiovisual acontece por esse motivo. Os aspectos essenciais dos super-heróis são preservados, mas alguns detalhes são modificados através de espectros de novos valores e significados dados pelos novos “especialistas do sagrado”. Esses aspectos essenciais, são os arquétipos que guiam os super-heróis, que também já abordamos aqui no blog.

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Chris Pratt e James Gunn, os novos “especialistas do sagrado” para toda uma geração.

Ir ao cinema regularmente para ver o novo filme de super-heróis, a nova adaptação de quadrinhos, comprar quadrinhos, sejam eles com histórias contínuas ou não, em um ato contínuo, pode se caracterizar em um ritual. Para Claude Rivière (1996), existe pouca diferenciação entre rito, ritual e cerimonial, uma vez que todos esses conceitos envolvem atos, gestos e práticas repetidos em intervalos de tempo constantes, para um fim determinado. Essa finalidade tem a ver com a sua função de utilidade social, que é a de estabelecer a ordem através da regulação dos símbolos, pois a utilização de utensílios materiais acabam dando forma às atividades mentais.

Com função muitas vezes catártica e, em geral, redutora da agressividade, o rito pode, por descarga emocional ab-reativa, resolver ou impedir explosões de violência, ao transferir os problemas internos de um grupo para uma vítima expiatória que não tem condições de se vingar; Mecanismo de defesa, age como uma forma de esconjuro nos casos de conflitos recalcados. Sublimador, pode também fazer reviver fantasmas que proporcionem satisfações simbólicas (RIVIÈRE, 1996, p. 71).

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O ritual de ler quadrinhos também ajuda a experimentar e enfrentar a vida!

Ler quadrinhos e experimentar da violência entre um benfeitor e um malfeitor pode trazer para o leitor a sensação de justiça feita que ele não possui na vida real, experimentando, então, uma sensação de expiação, de catarse. O rito também possui a função de agregar uma sensação de segurança para aquele que o pratica, garantindo assim, uma estabilidade em momentos de conflito que, de outra maneira, não poderia ser encontrada. O Superman foi criado às vesperas da Segunda Guerra Mundial e durante a depressão econômica após a Crise da Bolsa de Valores nos Estados Unidos, mirando-se num ser humanos que pode se tornar “super”, muitos americanos saíram da depressão econômica em que se encontravam, após, talvez, ler repetidamente histórias do Homem de Aço. Mais do que tudo, para Rivière, a natureza do rito é se utilizar de códigos de comunicação, ou símbolos, para produzir uma emoção numa espécie de efeito catártico.

É através da experiência do sagrado, portanto, que despontam as ideias de verdade, realidade e significação, que serão ulteriormente elaboradas e sistematizadas. […] O valor apodíctico do mito é periodicamente reconfirmado pelos rituais. A rememoração e a reritualização do evento primordial, ajudam ao homem “primitivo” a distinguir e reter o real. Graças à repetição contínua de um gesto paradigmático, algo se revela com fixo e duradouro no fluxo universal. Através da repetição periódica do que foi feito in illo tempore, impõe-se à certeza de que algo existe de uma maneira duradoura. (ELIADE, 1994, p. 124)

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Desde aquela época os heróis de quadrinhos já combatiam os malfeitores da vida ficcional e as adversidades da vida real.

Portanto, o rito ajuda na perpetuação do mito e, o mito, na confirmação e nos procedimentos ritualísticos. Assim, a função dos ritos, calcadas nos mitos é a de entender a realidade e aprender a lidar com fenômenos e acontecimentos que se encontram fora do alcance humano, ou então, de uma classe da sociedade. Muitos reclamam das fórmulas prontas dos filmes do Marvel Studios, mas elas só estão reafirmando a velha utilização de mitos e de lições para sobrepujar as dificuldades humanas. A diferença entre os mitos clássicos e as produções do Marvel Studios é que as velhas lições foram ressignificadas e moldadas para uma nova realidade e um novo tipo de público, com dificuldades e peculiaridades próprias, diferentes dos antigos sumérios, gregos, egípcios e vikings.

 

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Ritual é com o Doutor Estranho, e ele já se rendeu à mitologia dos quadrinhos há muitas eras antigas atrás!

Outros, contudo, poderão dizer que o sucesso atual das histórias de super-heróis reside no fato de eles se usarem de arquétipos, modelos universais e subconscientes da conduta humana. Isso pode ser considerado ou não. Para os mitologistas, como Mircea Eliade, arquétipos junguianos até podem ser utilizados para analisar quadrinhos, mas esses estudiosos destacam que numa história, seja ela arte sequencial, conto ou romance, os arquétipos não aparecem instantaneamente do subconsciente, como Carl Gustav Jung decodificou ao analisar os sonhos através do inconsciente coletivo.

Nessas produções como as histórias em quadrinhos, filmes, séries e animações, a utilização dos arquétipos dentro dos modelos dos super-heróis é pensada, de forma consciente ou não, para atuar de determinada forma na narrativa. A psicologia, portanto, não resolve o problema do folclorista ou do mitologista que é a origem e transformação dos mitos. A psicologia mede apenas a escala que os mitos criam a partir de seu fenômeno.

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Os arquétipos, mitos, memes e símbolos dos heróis que tanto amamos! É fácil defini-los a partir de conceitos básicos!

Embora os quadrinhos e os contos maravilhosos, hoje em dia terem assumido uma característica de diversão e de escapismo, “eles ainda apresentam a estrutura de uma aventura infinitamente séria e responsável, pois se reduzem, em suma, a um enredo iniciatório” (ELIADE, 1994, pgs. 173 e 174). Isso pode ser conferido em vários filmes de origens de heróis – nem sempre apenas os supers – ou ainda quando um novo personagem é inserido em uma trama contínua, como em seriados de televisão ou ainda em histórias em quadrinhos.

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O prazer de se ler quadrinhos todo mundo junto reunido!

Essas histórias podem até terem finais felizes, com a ameaça debelada (ainda que retorne muitas e muitas outras vezes), “seu conteúdo propriamente dito refere-se a uma realidade terrivelmente séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da imaturidade e da ignorância para a idade espiritual do adulto” (1994, p. 174). Para Eliade, o grande mistério reside em saber quando essas narrativas mitológicas e aventurescas passaram do nível de histórias de superação e seriedade para mera diversão escapista.

Se o ritual transformado em mito da leitura das histórias em quadrinhos representa um divertimento ou um escapismo, “é apenas para a consciência banalizada e, particularmente, para a consciência do homem moderno; na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem, a produzir mutações. Sem se dar conta e acreditando estar se divertindo e evadindo, o homem das sociedades modernas ainda se beneficia dessa iniciação imaginária”. (ELIADE, 1994, p. 174)

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Quadrinhos: inspiração para todos! Mesmo os vilões…

A iniciação ritualística da leitura da história em quadrinhos não existe e persiste somente dentro do universo da história, mas também toda a vez em que abrimos uma publicação para encarar um novo enredo de tramas, suspense e aventuras. “Começamos hoje a compreender que o que se denomina “iniciação” coexiste com a condição humana, que toda existência é composta de uma série ininterrupta de “provas”, “mortes” e “ressurreições”, sejam quais forem os termos de que serve a linguagem moderna para traduzir essas experiências (originalmente religiosas)” (ELIADE, 1994, p. 174 e 175).

 

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3 comentários sobre “A Leitura dos Quadrinhos: Mito, Ritual e Realidade

  1. “Superman foi criado no início da Segunda Guerra Mundial e após a Crise da Bolsa de Valores de 1933 nos Estados Unidos”. Não sei se entendi bem, mas… o Super foi criado antes do início da Segunda Guerra, cuja data padrão aceita é 09/1939. A Crise da Bolsa ocorreu em 1929. É isso? Texto muito legal, com tema cativante. Abraço.

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