A Diferença na Representação dos Gêneros nos Quadrinhos

Já falamos e muitas outras pessoas, sites, trabalhos de conclusão, artigos acadêmicos, personalidades dos quadrinhos já falaram a respeito da sexualização da mulheres (e também dos homens) nos quadrinhos. Mas como isso se aplica para os desenhistas e para as desenhistas de quadrinhos? Como essa dinâmica das diferenças nas retratações dos gêneros masculino e feminino nos quadrinhos mudou ao longo dos tempos, se é que mudou? Vamos pegar emprestado um artigo de uma das maiores teóricas do gênero nos quadrinhos, Trina Robbins, para discutir essas mudanças.

GENpafunciomarocasO artigo de Trina Robbins que vamos discutir se chama Gender Differences in Comics, publicado originalmente em 2002, na revista eletrônica belga Image and Narrative. Nele, Trina começa uma narrativa do início dos quadrinhos pegando como exemplo as tirinhas Pafúncio e Marocas (Bringin’ Up Father), de George McManus (que até os anos 80 ainda era publicada nos jornais brasileiros). Nessas tirinhas, Pafúncio, o protagonista era um homem gordo e careca, enquanto sua mulher, Marocas, era esguia e curvilínea. A mesma coisa, podemos perceber na capa ao lado, se espalhava para outros personagens da série.

GENbrucutuOutro exemplo que a autora usa é Brucutu (Alley Oop), criado por Vincent T. Hamlin. Não por acaso o personagem se tornou sinônimo de macho ogro, porque é feio, barbudo, atarracado, com jeito e hábitos de Homem de Neanderthal. Enquanto isso, as fêmeas das histórias dos homens das cavernas são lindas em comparação com eles. Todas elas elegantes, e os rostos são belos, em relação aos homens. O terceiro exemplo que Trina Robbins usa é a turma do marinheiro Popeye, criado por E. C. Segar. Apesar de os homens serem feios e, de certa forma deformados, Olívia Palito, por exemplo, exibia um corpo diferente dos homens. Mas nem por isso era longilínea. Era, como o nome diz, um palito de magra. E, claro, ainda tínhamos a Alice…

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Por outro lado, as mulheres cartunistas da época, como J. T. Mills, a primeira mulher criadora de uma super-heroína, a Miss Fury, por exemplo, desenhava homens e mulheres com igualdade de interesse e sensualidade. Os corpos podiam não ser semelhantes aos da realidade, contudo, ambos tinham o mesmo peso de atração para os olhos, diferente de seus contemporâneos artistas masculinos. Trina Robbins lança algumas hipóteses para esse tipo de diferenciação de retratação dos gêneros, embora sabemos que estão calcadas na construção sócio-cultural da nossa realidade.

 

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Quadrinhos da Miss Fury pela artista Tarpé Mills. 

Só se pode  tentar adivinhar as razões dessa disparidade em ambos os sexos, desenhados por ambos os sexos. Se os cartunistas masculinos se identificassem com seus personagens masculinos, eles se consideravam, e possivelmente seus semelhantes, feios, raquíticos, criaturas irremediavelmente nerds, enquanto pensavam nas mulheres como a outra incrivelmente bela e inatingível? Quando as mulheres caricaturistas desenhavam homens e mulheres como seres atraentes, eles estavam, de uma maneira mais realista, simplesmente aceitando homens e mulheres como seres humanos iguais? (ROBBINS, 2002)

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Aprenda a desenhar quadrinhos à maneira da Marvel!

Os quadrinhos de super-heróis, desde antes dos anos 60, quando a Era Marvel já despontava, as editoras usavam manuais de design para seus personagens. Assim era que a DC Comics e Marvel lançaram livros que ensinavam aos aspirantes a desenhistas que um dia queriam trabalhar com ele a desenhar do seu modo. Mas no final dos anos 80 e início dos anos 90, os estilos de desenhos começaram a se sobressair e fugir dos manuais de estilo. Se o traço ficava estilizado, os corpos masculinos e feminino seguiam uma diferenciação para que seus atributos mais visados pelo olhar se tornassem ainda mais exorbitantes.

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Os músculos desproporcionais do Hulk de Mike Deodato.

Os machos se tornaram progressivamente mais musculosos, seus pescoços se espessaram, enquanto suas cabeças ficaram menores. As fêmeas, por outro lado, desenvolveram pernas mais longas, enquanto seus seios atingiram proporções incríveis, perfeitamente redondas e muitas vezes maiores que suas cabeças. Para exibir esses corpos bizarros e meticulosos, os artistas vestiram as mulheres com biquínis, com o mínimo possível em cima. (ROBBINS, 2002)

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Os personagens da HQ indie de Daniel Clowes, Eightball.

Ao mesmo tempo em que o mainstream fervilhava, surgia a cena independente, os quadrinhos indies, uma derivação entre o underground e o mainstream, mas que acima de tudo não dependia de personagens criados por outros ou de editoras para serem publicados. Trina Robbins, então, comparou as representações dos dois gêneros no mainstream e nos quadrinhos independentes. [Nos independentes,] como era antes, as mulheres criadoras de quadrinhos provavelmente representarão os homens e as mulheres como seres humanos iguais. Mas os cartunistas independentes do sexo masculino também parecem representar as mulheres como iguais (ROBBINS, 2002).

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A pioneira nos estudos de gênero nos quadrinhos e desenhista, Trina Robbins.

Mas a configuração do mercado indie, por ser diferente do mercado mainstream e permitir mais mulheres tanto no seu público quanto naquelas que editam e produzem revistas também acabam definindo os contornos dos corpos com mais igualdade. Possivelmente pelo fato de que hoje, mais mulheres estejam desenhando mais histórias em quadrinhos do que nunca, e desenhando-as no âmbito indies, o campo de quadrinhos de editoras pequenas ou independentes se tornou um lugar bem vindo para as mulheres (ROBBINS, 2002). Ao findar seu artigo, Trina Robbins lança uma provocação:

Enquanto isso, nos quadrinhos americanos de super-heróis, as mulheres leitoras são raras e as artistas que trabalham lá podem ser contadas nos dedos de uma mão. Que pena para os artistas do mainstream, que poderiam deixar seus estúdios e suas histórias em quadrinhos se quiserem encontrar mulheres reais! E até que esse dia aconteça, os principais artistas de super-heróis continuarão expondo suas fantasias pessoais no papel. (ROBBINS, 2002).

 

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Mulher-Maravilha e Steve Trevor no traço da desenhista Nicola Scott.

 

E hoje? Como os corpos masculinos e femininos estão sendo definidos nos quadrinhos? Com a influência e confluência dos quadrinhos independentes no mercado das grandes editoras americanas, os traços começaram a variar. Eles já não seguem manuais de estilo, mas também nem todos exageram nos músculos, seios, coxas e bundas. Muitos são estilizados, são cartunescos, são sujos, usam pontilhismo. Estamos vivendo um tempo em que não existe mais um estilo de fazer super-heróis como antigamente. Hoje, é o tom da revista e do personagem que ditam o estilo do desenho. Tem lugar na indústria mainstream para todos os estilos de desenhos. Essa conquista só foi possível por causa de uma maior aceitação das histórias independente e, talvez, principalmente numa virada na editora Image Comics, que começou como o epítome dos estilos extravagantes dos anos 90 e hoje é a editora mainstream que mais se aproxima do estilo indie.

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Faith Evans, a Zephyr, heroína plus-size.

Outro fator que auxilia essa mudança na retratação dos corpos dos gêneros é uma presença maior, mas ainda não ideal, de mulheres na indústria mainstream e nos quadrinhos em geral. Além disso, com a popularização das redes sociais, foi possível às mulheres reivindicarem mais espaço para si, seja como leitoras e consumidoras, seja como representadas em histórias e em revistas-solo de personagens femininas. A nova onda do feminismo garantiu maior visibilidade e representação para as mulheres, bem como um design mais apropriado e realista para seus corpos. Um exemplo é a heroína Zephyr, a Faith Evans, da Valiant, que já tem um filme sendo produzido por Hollywood.

Não apenas as mulheres, mas as pessoas que se importam com a igualdade de gêneros, iniciaram movimentos para que as principais editoras de quadrinhos de super-heróis, a Marvel e a DC Comics, para que mais mulheres escrevessem ou desenhassem suas revistas, principalmente aquelas com protagonistas femininas. As mudanças foram feitas, e hoje, vemos bem mais mulheres no mainstream do que na época em que Trina Robbins escreveu seu artigo.

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Shanna, a mulher-demônio, de Frank Cho. 

Alguns exageros perseveram, como no caso de Frank Cho, Mike Deodato, Ed Benes, Terry Dodson, entre outros. Contudo, comparado com os anos 90, estamos vendo o surgimento e estabilização de um outro tipo de público, outro tipo de quadrinhos, com preocupação maiores do que armas grandes, músculos de tanquinho, boob windows, e Shannas. A mudança, hoje, contudo, ocorre não só por causa de uma presença maior de criadoras mulheres, mas por uma maior estilização dos traços, que acaba trazendo em sua barca mais diversidade dos corpos. Quanto mais diversidade nos quadrinhos, mais gente sai satisfeita no final das contas, não é mesmo? Abraços submersos.

 

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5 comentários sobre “A Diferença na Representação dos Gêneros nos Quadrinhos

    1. Pois é, mas no Japão tem os hentais, yuri e yaoi, que fazem coisas parecidas. E tem uns mangás mesmo que sexualizam bastante as mulheres. Até Sailor Moon é exemplo! Abraços! =)

      Curtido por 1 pessoa

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