Demasiado Humano. Horácio: Mãe, de Fabio Coala

O último lançamento da graphic MSP foi o tão aguardado Horácio. O personagem não havia ganhado uma nova versão porque o criador, Mauricio de Sousa, nutria um afeto especial pelo dinossauro e não deixava mais ninguém escrever. Demorou, mas acabou cedendo para o Fabio Coala, famoso pelas tiras publicadas no mentirinhas. Coala escreveu e desenhou Horácio – Mãe (2018) e, depois de tanta expectativa, chegou a hora de saber se a espera valeu a pena. Fizemos uma resenha com aquilo que pode ter passado despercebido pelo seu olhar durante a leitura. Isso, se você já leu. Caso não tenha lido, vem com a gente  pra pré-história que não vamos estragar sua experiência!

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Não é novidade que as graphic novels da MSP apresentam reinvenções interessantes para os clássicos personagem do Maurício de Sousa. No entanto, Horácio era um trunfo que, desde o início, permaneceu resguardado pelo criador do dino vegetariano. Seu envolvimento com a personagem reflete muito bem a devoção que grande parte dos fãs do Maurício nutrem pelo tiranossauro. Figura poética, o pequeno dinossauro era o personagem que melhor correspondia à uma visão filosófica e delicada sobre a natureza e nossa relação com a vida.

Todo esse carisma sensitivo está presente em Horácio – Mãe, do Fabio Coala. Suas escolhas de enredo favorecem bem a atmosfera contemplativa do protagonista, que procura a mãe por uma aventura que o leva a construir outros laços inesperados, todos advindos da sua forma de sustentar sua filosofia altruísta de vida.

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É interessante a escolha de um narrador fragmentado, que mostra três momentos separados historicamente, mas que se conectam pelo constructo narrativo. Um dos tempos é contemporâneo, com o que parece ser uma arqueóloga e um menino que “invade” a descoberta de um grande fóssil. Outro nos apresenta o drama de uma tiranossauro-mãe que luta bravamente para manter seus ovos seguros. E por último, a busca e aventura do pequeno Horácio em busca da mãe.

HORcapaEsta divisão do enredo possibilita uma compaixão natural do leitor para com o protagonista, semelhante àqueles dramas gregos, em que os cantos anunciam parte da narrativa e temos revelado aquilo que o herói da história não sabe. Por exemplo: Édipo (na peça de Sófocles) em sua trajetória, acaba cumprindo a profecia e casa-se com a mãe, ao passo que nós, leitores, já sabemos que ela é sua mãe. Mesmo assim, nada impede que as coisas aconteçam e nada podemos fazer para auxiliar o herói para que não cometa o erro que tanto teme.

O mesmo vale para Horácio – Mãe. Nós acompanhamos o drama da mãe-tiranossauro e, mesmo que não saibamos o fim, é possível perceber que ela não o abandonou. Horácio ainda não o sabe e nada podemos fazer para privá-lo de tal procura e nem de tal dor.

De qualquer forma, a parte da narrativa que conta sobre o menino e a arqueóloga parecem cumprir esse papel metafísico de unir mãe e filho. Funcionando como um prólogo e epílogo, o pequeno trecho cumpre a expectativa do encontro e emociona ao unir órfão e “dinossaura”, mesmo que distantes cronologicamente.

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Este bom movimento narrativo tem o privilégio de contar com uma arte muito eficaz. Cada período narrativo parece ser composto por uma coloração diferenciada. A narrativa do menino conta com cores mais claras e  tons mais terrosos, enquanto a narrativa protagonizada pelo dino Horácio conta com uma palheta mais variada, que muda de acordo com a luz ou ambiente.

No entanto, (e aqui eu separo um parágrafo exclusivo para este momento narrativo) o enredo que conta os dramas da mãe de Horácio apresentam uma construção estética muito bonita. Cada movimentação e cor enriquecem a luta da mamãe jurássica para guardar os ovos dos predadores e dos perigos que podem enfrentar. Essas cenas são tão bem construídas que o retorno às cores da narrativa vivida pelo Horácio parecem até menos vívidas, se apresentadas num comparativo.

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Outro valor da obra está no layout e enquadramento. A cena em que Horácio se sente abraçado pela mão/montanha é de uma sensibilidade absurda. O mesmo vale para o layout da cena em que a mãe luta contra alguns velociraptors. É bem executada e com um domínio da arte sequencial muito característico daqueles que têm experiência no ramo.

Coala já havia mostrado destreza com a produção de quadrinhos quando lançou O monstro (2013). A história do monstro tem elementos que podem se conectar com aquilo que vemos em Horácio. A relação infantil com aquilo que é visto como monstro (o menino Horácio chora ao encostar em Gaia, a mãe do dino Horácio), a transformação da vida das pessoas que passam pelo caminho do monstro de pelúcia (o mesmo vale para aqueles que conhecem o pequeno Horácio, que muda a perspectiva de todos com sua visão sobre a vida) e a conexão de todos os personagens por um movimento afetivo, que os liga, mesmo que não se conheçam. A emoção é forte em todos os trabalhos do senhor Coala!

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Em suma, Fabio Coala parece dominar não só a linguagem dos quadrinhos como o personagem com quem brinca. As visões de mundo e de sonhos do Horácio, bem como a aventura por ele vivida, tem um subtexto expressivo que rompe com o tempo e conecta a condição dos seres ancestrais ao sentimento afetivo/maternal que pode ser sentido e compartilhado por todos nós. Lutar pelo vegetarianismo, pelo altruísmo e por sentimentos verdadeiramente humanos são características de mais uma história que nos ensina que a natureza das conexões habita o mundo desde sempre.

 

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