Melhores e Piores Leituras de Julho de 2018

O mês de julho foi bem propício para ficar em casa, debaixo das cobertas e lendo um bom dum gibizinho, não é mesmo mergulhadores? Até por que, se pudéssemos, não faríamos mais nada nesse tempo modorrento. Ah, e também teve a Copa, que não deixou as pessoas quietas e fez com que todo mundo se agitasse, gostando ou não de futebol. Infelizmente ninguém passa incólume pelo campeonato mundial do esporte bretão. Então, esse mês trazemos mais de 25 mini resenhas para vocês se divertir com bons quadrinhos e se afastar das más leituras. Em julho, em especial tivemos muitas más leituras, como você vai ver. Mas você vai ver muito mais coisas aqui, eu prometo!

Melhores

JULdobraUMA DOBRA NO TEMPO, DE HOPE LARSON E MADELEINE L’ENGLE

Antes de começar a escrever essa resenhinha, preciso dizer que não li o livro e nem vi o filme de Uma Dobra no Tempo. Dito isso, a história me pareceu semelhante em essência com a de O Doador de Memórias, que também não vi o filme. Contudo, Uma Dobra no Tempo possui mais elementos fantasiosos que levam o enredo mais para o infanto do que para o juvenil. Embora como diálogos bem trabalhados, um belíssimo tratamento gráfico tanto pela Darkside como pela adaptação e desenhos em duotone feitos pela experiente quadrinista Hope Larson, algumas coisas me incomodaram. O que me incomodou foi o patriotismo imbuído na história – e fatores como esse tem me incomodado bastante conforme eu fui crescendo como leitor – e um pouco da doutrinação religiosa. Existe muito de citação da Bíblia, de anjos e Deus, como se a autora quisesse dizer que, no final das contas, é Deus quem está por trás de toda a história. É uma aventura deliciosa de se acompanhar, contudo, e deve agradar muito mais às crianças e jovens que ainda não tem os filtros que o “mundo cinzento” aplicou nas pessoas que supõem-se adultas.

JULhotelHOTEL CALIFÓRNIA – VOLUME UM, DE CLEBER AUGUSTO E FELIPE DIAS

Dia 13 de de julho é dia de rock, bebê! E nada mais justo que nesse dia resenhar um quadrinho inspirado em rock, não é mesmo? É o caso de Hotel Califórnia, de Cleber Augusto e Felipe Dias cujo nome homenageia uma das músicas de rock mais tocadas e mais amadas de todos os tempos. Na Vila Eagles crianças foram raptadas há dez anos, mas sobrou Benz, a única criança que não foi enfeitiçada e sequestrada naquele dia fatídico. Então, ele resolve empreender uma jornada com o intuito de libertar seus amigos perdidos. O quadrinho se assemelha muito à linguagem de mangá, ainda que também pegue aqui e ali coisas de Scott Pilgrim Contra o Mundo. Como você pode perceber, temos muitas homenagens a outras canções e pessoas famosas do rock. Temos também Jude, Eleanor, e o vilão se chama Dylan! Os fãs de rock deverão gostar e os fãs de quadrinhos também. Mas vale avisar que esse é apenas o primeiro volume e a história não é autocontida. Vamos aguardar os próximos volumes!

JULoutroHOMEM-ARANHA: O OUTRO: EVOLUÇÃO OU MORTE – VOLUME UM, DE PETER DAVID, REGINALD HUDLIN, J. M. STRACZYNSKI, PAT LEE, MIKE DEODATO JR. E MIKE WIERINGO

Sempre tive curiosidade sobre esse arco de histórias do Homem-Aranha, uma das razões é que marcava o retorno de Peter David para as histórias 616 do herói aracnídeo. Também havia a parte da magia totêmica que me interessava. No final, lendo essa HQ, não era nada daquilo que eu pensava, mas mesmo assim não me decepcionei com ela por completo. São histórias bem cerzidas do Homem-Aranha, dentro daquele escopo de sofrenildo que está sempre numa maré de azar. O revés da vez é “apenas” que Peter percebe que está perdendo seus poderes ao mesmo tempo em que sofre de envenenamento radioativo. Em poucas semanas ele irá morrer. Pior que isso, Morlun, o devorador de totens retornou para acabar com a vida do Aranha de vez. No final do encadernado do volume um, ele inclusive devora um de seus olhos. Esse é o mote da história. Vale falar da arte. A de Pat Lee e de Mike Deodato Jr. está bastante bizarra. É o falecido e saudoso Mike Wieringo quem salva o encadernado, com sua narrativa e personagens esplendorosos. Se Ringo! tivesse vivo hoje, certamente estaria fazendo grandes crossovers na Marvel e na DC Comics, bem como sendo valorizado como o grande desenhista que é – coisa que não foi feita durante sua vida. Agora é aguardar o segundo volume de O Outro e ver se a história conclui satisfatoriamente.

JULlegacySUPERMAN: O LEGADO DAS ESTRELAS, DE MARK WAID E LEINIL FRANCIS YU

Superman: O Legado das Estrelas foi mais uma tentativa de readaptar a origem do Superman para novas gerações. Era a época das Crises (Infinita e Final) na DC Comics e o seriado Smallville despontava na televisão e o filme Superman: Returns recém chegava aos cinemas. Contudo, Legado das Estrelas, apesar de uma ótima história não deixou tanto Legado como seu título brasileiro diz. A história dessa graphic novel é muito bem desenvolvida e adaptada para os dias de hoje – como Clark e Martha se comunicando por e-mail e uma espécie de messenger e Martha Kent pesquisando em sites de ETs e UFOs à procura de informações sobre o filho. Os “momentos quietos” dessa graphic novel são mais interessantes que os “momentos barulhentos” e é aí onde os personagens são mais desenvolvidos. Também é nessa graphic novel em que Lex Luthor é colocado na continuidade de Smallville, tendo convivido com Clark e Lana na adolescência. Lana, por sua vez, não tem quase nenhum destaque – lembrando da importância dela em Smallville – em Legado das Estrelas. Apesar de ter se perdido com o tempo na continuidade da DC Comics, talvez O Legado das Estrelas seja a melhor releitura da origem do Superman feita até então nos quadrinhos. Se a equipe da Warner e Scott Snyder tivesse feito o tema de casa direitinho, eles teriam em Legado das Estrelas um baita e lindo filme para o Superman.

JULdeadpool

DEADPOOL CLÁSSICO: MORTES & REVELAÇÕES (#8), DE JOE KELLY, CHRISTOPHER PRIEST, PETE WOODS E PACO DIAZ LUQUE

Quando a Panini começou a publicar essa coleção do Deadpool Clássico, meu desejo era de que pelo menos a fase do Joe Kelly, que é tão bem arranjada e construída para a mitologia do Deadpool fosse completada. Não apenas foi completada, como também já começou, nesse encadernado a fase do elogiado Christopher Priest e mais um volume já foi anunciado. Sinal de que a publicação foi bem recebida pelos leitores e que Deadpool vende mais que picolé no deserto! A primeira parte encerra os imbróglios de Wade Wilson com… Wade Wilson. Que na verdade é T-Ray, que na verdade é Deadpool que na verdade é T-Ray. Só lendo pra entender. Já o arco de Priest, conta, digamos assim, o primeiro capítulo na vida do Mecenário Tagarela e o que ele fez no seu, digamos, Ano Um, antes de Wade Wilson todo fudido pelo Departamento H e o Programa Arma X, se tornar conhecido como o Comediante Carmesim Deadpool. Não sei vocês, mas eu adoro essas histórias. Um ponto que as histórias do Deadpool tem em relação às outras (menos as do Daniel Way) é que elas constroem um universo e estabelecem um enredo que vai se espalhando por várias edições. Do jeitinho que eu gostcho!

JULhoracioHORÁCIO: MÃE, DE FABIO COALA

Dentre todas as Graphic MSP que li – não li umas duas ou três -, Horácio: Mãe é a que possui a melhor narrativa. Ao dizer isso não significa que ela é a minha Graphic MSP favorita ou que considero ela a melhor ou a mais emocionante, quer dizer que ela é a obra dessa coleção que melhor se utiliza do formato, sistema e mídia, do fato de ser uma obra em quadrinhos. Fabio Coala constrói um enredo muito aventuresco e bem estruturado, com diálogos bem concatenados, lembrando histórias como a animação Em Busca do Vale Encantado e os quadrinhos de Ferdinando no Vale dos Shmoos. Aqueles que são fãs de Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros, também não vão se arrepender da leitura com as cenas da Tiranossaura Rex, a mãe do Horácio defendendo seus ovos dos predadores. As cenas são mudas. Essa é só uma parte que confirma e revela a grande ferramenta de narrativa que Coala utilizou nessa Graphic MSP. Mas você pode perceber essa interação entre palavras e imagens no caminho da leitura. Então, como eu disse antes, Horácio: Mãe, não é a HQ mais cuti-cuti, nem a mais massavéio, nem a mais socialmente relevante, mas ela é, de longe, a que usa a narrativa dos quadrinhos com mais eficácia entre as suas irmãs da coleção.

Leia uma resenha completa de Horácio: Mãe, por Phellip Willian aqui neste link.

JULdraculaCHM: A TUMBA DO DRÁCULA – VOLUME 6, DE MARV WOLFMAN, GENE COLAN, DAVID KRAFT E VIRGIL REDONDO

É muito bom que essa coleção tenha continuado. Espero que, um dia, tenhamos todo o título publicado. Depois de um embate com seu mais novo nêmese, o Doutor Sun, Drácula quer frustrar os planos de sua derrota ao viajar para os Estados Unidos. Mas claro que antes o Príncipe das Trevas vai causar num avião para chegar até lá. Enquanto isso, vemos seus descendente e inimigo, Frank Drake treinando com o Irmão Vodu no Brasil. O que é estranho porque o lar do Irmão Vodu é o Haiti. Na verdade essa parte da história que se arrasta por algumas edições, parece bem encheção de linguiça. Ao mesmo tempo ficamos sabendo um pouco mais sobre o passado de Taj, o mordomo mudo indiano e do caçador de monstros Quincy Harker e de como ele ficou paralítico e perdeu sua família. Essa, então, acaba sendo a melhor história deste encadernado. Agora, tenho mias dois encadernados dessa “temporada” de CHM: A Tumba de Drácula me esperando para serem lidos!

Leia mais sobre A CHM: A Tumba do Drácula neste link. 

JULdemolidorDEMOLIDOR: SUPREMO (#16), DE CHARLES SOULE, GORAN SUDZUKA, RON GARNEY E ALEC MORGAN

Depois de fazer um ajuste na cronologia do Demolidor, fazendo o mundo esquecer a sua identidade através das Crianças Púrpura, dessa vez Charles Soule está em seu terreno. Explico. Antes de ser roteirista de quadrinhos, Charles Soule trabalhava como advogado. Neste arco, Matt Murdock e o Demolidor querem levar à Suprema Corte a possibilidade de que vigilantes mascarados e superpoderosos possam depois em audiências de crimes que serão julgados. Acompanhamos, então, Demolidos e Matt Murdock mexendo mundos e fundos para que essa ideia seja concretizada. Um arco ok, mas o encadernado anterior foi bem melhor. Esse volume também traz o mini-arco Terra de Cego. O arco conta o paradeiro do Ponto Cego, discípulo do Demolidor, que foi cegado pelo Muso e levado pela mãe à China. Lá, ele e o Demolidor vão precisar lutar contra a besta-fera que lhe concedeu a visão em troca da vida do Demolidor. Outro arco ok, que ao menos aprofunda um pouco a mitologia do Ponto Cego. Estou mesmo mais ansioso pelo próximo encadernado, da fase Legado, em que vemos Wilson Fisk, o Rei do Crime ascender ao cargo de prefeito de Nova York.

JULwytches

WYTCHES – VOLUME UM, DE SCOTT SNYDER, JOCK E MATT HOLLINGSWORTH

Sem dúvida, Scott Snyder é um autor de quadrinhos polêmico. Suas HQs em personagens medalhões e em grandes eventos acabam envelhecendo muito mal. Mas a força de suas narrativas está no inesperado, isso quando ele pega títulos menos visados, como no caso do seu Monstro do Pântano, ou ainda no trabalho de terror e sci-fi que ele fez na série O Despertar. O que tem em comum essas duas narrativas? Muita e muita pesquisa, que a gente vê brotar pelas páginas dos quadrinhos. É assim que ele se dá bem e produz histórias consistentes e intrigantes. É o caso desse Wytches – uma outra forma de ver as bruxas, ou melhor, as brvxas. É uma história de terror bem enredada, inesperada, bem pesquisada, e que o clima do lidar ou não saber lidar com o desconhecido pesa bastante. As cores de Matt Hollingsworth dão um espectro surreal, difuso, narcótico para as histórias, parecndo que estamos sempre banhado por um raio de sol sobre vitrais de igrejas. Vale destacar a edição caprichada publicada no Brasil pela Darkside Books, em que usaram um papel couchê mais poroso no miolo, que deu um toque diferente para a revista: mais leve, porém ainda luxuoso. Então se você é meio desconfiado com os trabalhos de Snyder que nem eu, pode ler/comprar essa HQ sem medo, que o resultado é positivo.

JULcaixeta

QUEM MATOU O CAIXETA?, DE RAINER PETTER

Quem Matou o Caixeta?, de Rainer Petter, é uma crua retratação dessa geração que quer mais postar sem realmente refletir o que está fazendo e quais as responsabilidades desses comentários. Quem Matou o Caixeta? vem, então, para implantar essas dúvidas que falta para os youtubers celebridade. O próprio título já é uma pergunta. Assim como a vida é uma busca, estamos sempre atrás das respostas. Ninguém às serve numa bandeja para nós todos os dias num videozinho. Quem Matou o Caixeta? é um retrato certeiro das discussões das redes sociais, dos youtubers, mas muito mais de como essa realidade virtual vêm fazendo vítimas e desestruturando a realidade real pela falsa sensação de segurança que provoca. Rainer Petter concebeu um bela crítica para despertar o sentimento e a consciência crítica das pessoas. Então, no fim da história só não vai entendê-la quem não quer ou quem não desenvolveu o sentimento crítico necessário para atuar de forma interdependente com o mundo. E não depender de respostas prontas para tudo, como muitas narrativas, incluindo a dos “digital influencers”, fornecem.

Leia uma resenha completa de Quem matou o Caixeta? aqui neste link.

JUlmosntroMONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES DO MAL – VOLUME 5, DE MARK MILLAR, PHIL HESTER, KIM DEMULDER E CURT SWAN

Realmente, eu estava errado sobre essa fase de Monstro Pântano. Pelo jeito o problema maior era o primeiro volume mesmo e a culpa era do senhor Grant Morrison, que coescreve ele. A partir do segundo volume, a história começa a engrenar de uma maneira até agradável, indo num crescendo de poderes semidivinos que Alec Holland/Monstro do Pântano vai adquirindo. Depois de adquirir os poderes dos Parlamentos das Rochas e das Ondas, agora, aqueles que estão por trás do crescimento de seus poderes – que não entendi patavinas qual é a deles – querem que Alec se junte ao Parlamento dos Vapores. Nesse volume, Abby Cable retorna para tentar reativar seu relacionamento com o Monstro, mas nem tudo sai como nenhum dos dois espera. A mesmo tempo temos a participação de Jim Rook, o Senhor da Noite do Pacto das Sombras. Por fim, uma história extra e imaginativa sobre o amigo hippie do Monstro do Pântano, Chester Williams se tornando um policial ultra conservador de direita. Uma crítica que poderia ter sido feita agora, durante o governo Trump, que cabe muito bem, mas não, a história foi escrita nos anos 90. Isso só comprova que quanto mais as coisas mudam mais continuam as mesmas..

Preparamos um Guia de Leitura do Monstro do Pântano para você acompanhar nosso Bon Gumbo!

JULunicornioCARA-UNICÓRNIO: VOLUME UM, DE ADRI A.

Super-heróis gays não são algo muito comum. Super-heróis gays que são metade unicórnio são ainda mais incomuns, principalmente aqueles picados por unicórnios radioativos, como é o caso de David. Um dos problemas dos quadrinhos gays, em geral, que se veêm hoje em dia é que eles se levam a sério demais, talvez, negando a queerness do segmento. Mas esse não é o caso de Cara-Unicórnio de Adri A., que tem um enredo surreal e provocante ao mesmo tempo que gera boas gargalhadas brincando com o gênero de super-heróis. Que Deadpool e que Arlequina, despirocar com as expectativas do mundo e do gênero de super-heróis tem que ser missão de um escracho gay. Nada mais justo dentro de um segmento que sempre foi machista, homofóbico e cheio de preconceitos sobre o que é ou não válido comprar e admirar. Cara-Unicórnio, além de uma arte e uma narrativa em quadrinhos muito bem desenvolvida, é cheio de referências que fariam o Capitão América pirar. Mas elas acontecem de uma forma que quem é discreto e fora do meio também possa curtir bastante. Por vezes até se esquece que o Cara Unicórnio é gay. Afinal, a gayzice não faz uma pessoa, ela é só um pedaço de todas identidades que nos compõem. Leiam Cara-Unicórnio!

JULorixasORIXÁS EM GUERRA, DE ALEX MIR, AL STEFANO, ALEX GENARO E OMAR VIÑOLE

Neste novo álbum das mitologias dos Orixás, Orixás em Guerra, Alex Mir continua estudando a cosmogonia dos mitos africanos. Depois de ter passado por dois outros álbuns Orixás: Do Orum ao Ayê (que conta histórias da origem do mundo dos bantus e iorobás) e de Orixás: O Dia do Silêncio, esse novo álbum aborda histórias com mais ações e mais lutas místicas nos reinos africanos. São duas histórias. A primeira, Xangô: Justiça, conta como o grande rei Xangô conquistou o patamar divino. Da mesma forma, um campeonato de arquearia para livrar um reino de convidados indesejados, acaba alçando o guerreiro arqueiro Oxóssi em divindade, na história As feiticeiras Iá Mi Oxorongá. Financiado pelo catarse, esse álbum, com dois desenhistas diferentes, Alex Genaro e Al Stefano, ganha unidade pelas competentes cores de Omar Viñole. As histórias, educativas, seguem a mesma qualidade dos álbuns anteriores, que a ajudam a compreender mitos que fora durante anos silenciados e, hoje em dia, ressurgem transformados e inseridos dentro de uma cultura bastante diversa da que encontraram nesse continente pela primeira vez.

JULvidaA VIDA É BOA, SE VOCÊ NÃO FRAQUEJAR, DE SETH

Em primeiro lugar preciso elogiar o acabamento e a adaptação gráfica da Editora Mino nessa edição brasileira. Impecável em todos os termos, enquanto editoras muito maiores e com mais cacife fazem trabalhos bem fracos nesse sentido. Se a apreciação já começa com um trabalho gráfico vistoso, totalmente retrô, é preciso dizer que esse trabalho de Seth (o segundo publicado no Brasil, mas com certeza o mais famoso), é uma viagem para o passado. Uma viagem para o passado tanto de Seth quanto para o de Kalo, o cartunista ficcional que mescla a sua busca biográfica por Seth com a própria vida do autor deste quadrinho. Seth, em sua busca que nunca aconteceu, vai analisando vestígios da vida de Kalo, através de suas obras e dos relatos de sua família na cidade onde ele – e também Seth – viveram. Isso leva o cartunista a fazer não só uma análise na vida de Kalo, mas também avaliar a sua própria existência em busca dos motivos que levaram Kalo a parar de publicar seus cartuns em revistas especializadas. A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar, é uma bela demonstração de como se faz um trabalho autobiográfico, mas mais que isso, um trabalho autoficcional, que mescle elementos reais com ficcionais.

Leia uma resenha completa de A Vida é Boa Se Você Não Fraquejar, de Seth, neste link.

JUlraizRAIZ, DE DUDU TORRES

Conheci o Dudu no último FIQ. Ele estava próximo a mim, lançando seu primeiro quadrinho autoral. Não demorou muito, ele havia sido elogiado por Dave McKean, o convidado internacional do evento, por seu trabalho com Raiz. Trocamos nossos trabalhos e hoje, finalmente, eu li Raiz. Pra começar, me chamou a atenção o traço detalhado de Dudu e a maneira singela como ele desenha crianças, que causa uma identificação imediata. Então, a história começa a ficar um pouco mais tenebrosa pois mistura a infância e o entendimento da primeira morte. Misture um pouco de terror aqui, sentimento de perda e acalento misturado, a busca pelo amor perdido na morte a qualquer custo. Então, um desfecho sensível e, quem sabe, que mude o rumo das coisas para melhor. Além disso vale destacar que o protagonista da HQ é uma criança negra. Não que haja qualquer discurso sobre visibilidade ou coisa do tipo, mas é legal saber que mais e mais quadrinhos assim estão aparecendo. Raiz é uma história singela, mas que não é simples, que conta e ajuda a entender coisas da vida que, enquanto crianças, não somos capazes de lidar. Belo trabalho de estreia!

JULastrocityASTRO CITY – VOLUME 8 – ESTRELAS BRILHANTES, DE KURT BUSIEK, ALEX ROSS E BRENT ANDERSON

Um dos melhores volumes de Astro City que já li até agora. Claro que o trio Busiek, Ross e Anderson nunca faz feio e até agora, dentro dessa série nunca me decepcionou. Aqui eles exploram ao máximo alguns personagens icônicos do universo de Astro City de uma forma que não foi feita antes na série: focando no herói. Explico: Astro City não é uma série de super-heróis. É uma série de pessoas comuns que, por acaso, vivem numa cidade infestada de super-heróis e super-vilões. Esse é o foco da série: trazer o mundano em frente ao fantástico e sobrenatural. Por isso essa série é demais. No especial do Samaritano, vemos o desenrolar incomum de uma relação entre super-herói e super-vilão. No especial de Beautie – a melhor história do especial – vemos uma boneca-humana indo atrás do seu criador. No especial de Astra vemos como a adolescente poderosa mais famosa do mundo lida com o fato de ser celebridade e possuir poderes fenomenais. Por fim, no especial do Agente de Prata ficamos sabendo como o primeiro herói de Astro City influenciou o passado e o futuro da maior cidade de heróis do mundo. Sensacional, amigos! Sensacional!

JULstarwars

STAR WARS: PRISÃO REBELDE (#3), DE JASON AARON, KIERON GILLEN, MIKE MAYHEW, ANGEL UNZUETA E LEINIL FRANCIS YU

Nesta edição, o destaque são as mulheres. Ao escoltarem a Doutora Aphra para uma prisão rebelde, a Princesa Leia e a ex-mulher de Han Solo, Sana Starros, acabam se deparando com uma confusão na prisão. Não é uma tentativa de fuga da prisão, como geralmente acontece, mas um homem mascarado pretende eliminar todos os priosoneiros, fazendo Leia, Aphra e Sana de fantoches. Ao mesmo tempo, do outro lada da galáxia, Luke Skywalker e Han Solo estão tentando recuperar o dinheiro dos rebeldes que Han perdeu no jogo. É uma edição divertida, mas eu achei que ela possui um ritmo muito mais rápido de leitura do que os encadernados anteriores e mesmo aqueles do Darth Vader. A arte de Leinil Francis Yu faz tempo que tem me incomodado, dede que ele adotou esse novo estilo. Por fim, ficamos conhecendo um novo personagem da mitologia Star Wars e eu adoro quando esses autores novo inserem novas figuras neste universo através dos quadrinhos. Também nesse encadernado temos uma história do Obi-Wan Kenobi de meia-idade tentando fazer com a criança Luke se torne um aviador, mas o Tio Owen não vai permitir essa afronta.

JULlikepunioLUKE CAGE & PUNHO DE FERRO: HARLEM EM CHAMAS, DE DAVID F. WALKER, SANFORD GREENE E ELMO BONDOC

Esse volume de Luke Cage & Punho de Ferro começou meio estranho, com um senso de humor um tanto questionável no primeiro encadernado. Mas depois, no segundo encadernado, linkado com a Guerra Civil 2, ficou bem interessante mesmo. Esse terceiro e último encadernado dessa fase mantém o ritmo, dessa vez envolvendo magia, o que eles chamam de “magia das ruas”, sendo manipulada pelo ex-líder e ex-vilão dos Fugitivos, Alex Wilder. Vale destacar a arte incrível de Sanford Greene e de Elmo Bondoc, que conferem um clima todo próprio para essas histórias. Durante toda essa run no título, o roteirista David F. Walker resgatou muitos personagens das histórias antigas de Luke Cage e do Punho de Ferro, dentre eles, sendo a maioria negros. Ele fez a mesma coisa trazendo muitos heróis e vilões negros da Marvel para as páginas da revista, como no caso do Irmão Vodu, o Garra Negra, o próprio Alex Wilder e o Homem-Aranha Miles Morales. Então, excetuando-se o esquisito primeiro encadernado da série, Luke Cage & Punho de Ferro é uma leitura bem aventuresca e cheia de entretenimento. Pode ler sem medo!

hq-alienALIENS: EDIÇÃO ESPECIAL, DE MARK VERHEIDEN, PAUL GUINAN, JOHN ARCUDI, SIMON BISLEY, MARK A. NELSON, ANNINA BENNETT E TONY AKINS

Queria começar falando do visual fálico dos Aliens criado por H. R. Giger. Depois disso, ao ler histórias em quadrinhos dos Aliens, ficou extremamente evidente para mim como Chris Claremont criou a Ninhada, os inimigos espaciais dos X-Men, cuspidos e escarrados nas criaturas alienígenas de Ridley Scott. Esse espercial traz as primeiras histórias dos Aliens publicadas pela Editora Dark Horse que, de sua fundação para cá, se especializou em marcas registradas do cinema. São cinco histórias nesse especial. A primeira é um relato sobre a espécie dos Aliens, escrito por Mark Verheiden. A segunda e a terceira são exploradores espaciais saqueando uma pirâmide infestada de Aliens. A quarta é uma divertida história ao estilo Juiz Dredd desenhada por Simon Bisley. E a última é como os grandes comandantes da Terras acabam evitando uma invasão de outros alienígenas se utilizando dos Aliens que Ripley deixou, inadvertidamente, na Terra após as explosões que provocou. Histórias antigas, mas bem escritas, dando uma nova dimensão para os enredos dessa franquia cinematográfica milionária.

Piores

JULtrindadeDC RENASCIMENTO: TRINDADE – VOLUME 2, DE FRANCIS MANAPUL, CLAY MANN, GUILLELM MARCH, CULLEN BUNN, ROB WILLIAMS, EMANUELA LUPACHINO

Bem, depois de ler esse encadernado, acaba ficando bem claro porque logo essa revista foi cancelada. Francis Manapul, por mais que possua uma narrativa belíssima, aliada a seus traços (e agora cores) sensacionais, não consegue desenvolver um enredo intrigante. Um belo exemplo é a história em três partes desse encadernado, Espaço Morto, que vai do nada para lugar nenhum e parece mais uma história da Liga da Justiça que da Trindade. O mesmo efeito tem a história que faz ligação com o arco Superman Eternamente, desenhado por Emanuela Lupacchino. Apenas o arco forjado por Cullen Bunn e Rob Williams que explora as trindades do Universo DC parece ter alguma efeito no leitor, ainda que bem básico. Ainda assim, a Circe que é apresentada aqui difere bastante daquela apresentada nas histórias da Mulher Maravilha por Greg Rucka. Pelo menos essa história consegue despertar no leitor a vontade por ler as próximas histórias. De qualquer forma estou percebendo que esse é um título bem dispensável dentro dos encadernados do Renascimento DC.

JULvampiVAMPIRELLA: GRANDES MESTRES – VOLUME 2, DE WARREN ELLIS, MARK MILLAR, JOHN SMITH, AMANDA CONNER, JIMMY PALMIOTTI, MIKE MAYHEW E MARK BEACHUM

Claro, não dá pra se esperar grandes coisas de histórias da Vampirella. Um personagem que é símbolo das “bad girls” e das “comic babes”, que sempre foram mais sinônimo de autoagrado do que de boas histórias. No meu caso é mais um guilty pleasure. Eu sei que a história não vai ser lá grandes coisas, mas a curiosidade é maior. Nesse encadernado temos Vampirella escrita por dois “Grandes Mestres”. Warren Ellis ao lado de Amanda Conner e Jimmy Palmiotti – num estilo irreconhecível – dá uma nova origem para a vampira dos anos 70, mesclando suas duas anteriores. Assim, além de alienígena, ela também é filha de Lilith e daí seu poder de sedução (o que explica o maiô-peça-única-estilo-Borat que ela usa). Depois, temos as histórias de Millar, com a arte realista de Mike Mayhew, em que Vampirella conhece uma cidade interiorana toda feita de vampiros (mas não são todas?). A cada roteirista que passa, a qualidade de histórias vai decaíndo, até culminar no terror (no sentido da qualidade do roteiro e não no teor ou gênero da história) que é a parte escrita por John Smith, mas que dá continuidade à bela arte de Mayhew. Chega a dar vergonha da trama. E assim, encerrei a leitura desse guity pleasure, que como vocês puderam ver, talvez carregue mais guilty do que pleasure.

JULrat

RAT QUEENS: OS TENTÁCULOS DE N’RYGOTH – VOLUME 2, DE KURTIS J. WIEBE, ROC UPCHURC E STEPHAN SEIJIC

Infelizmente esse segundo volume não seguiu o ritmo do primeiro que, por sinal, achei sensacional. Embora as histórias de background das personagens sejam interessantes, elas não fazem sentido para a história principal que está sendo contadas. Claro, a HQ continua com momentos hilários e divertidos. A arte de Rat Queens é sensacional e a sensação de estar lendo uma campanha de RPG de “Dungeons & Dragons” que você poderia ter jogado no final de semana passado é incrível. Mas não é suficiente para uma história em quadrinhos – nada contra RPG, tenho até amigos que jogam. Talvez essa incrível proximidade com o Role Playing Game a afaste dos quadrinhos no sentido de a história precisar de um propósito, enquanto campanhas de RPG tem apenas o propósito de ganhar experiência e divertir os jogadores. Leitores não são jogadores e eles precisam de um fio condutor para as histórias e, mesmo que os autores tenham mexido com o passado das protagonistas ainda falta explicar: “por que elas fazem o que elas fazem?”. De qualquer forma o volume valeu a pena porque temos o Sawyer pelado nele. E quando digo pelado é pelado mesmo.

JUljusticeiro

DEMOLIDOR/JUSTICEIRO: O SÉTIMO CÍRCULO (JUSTICEIRO #7), DE CHARLES SOULE, REILLY BROWN, MAST E SZYMON KUDRANSKI

Este crossover entre Demolidor e Justiceiro foi publicado originalmente em formato digital através dos Infinite Comics da Marvel, depois foi transformado em material físico e chegou no Brasil na edição de número 7 dos encadernados Justiceiro. Expliquei tudo isso para que vocês tenham ciência de como uma adaptação apenas de formato de exposição dentro de uma mídia, quase nunca funciona. Já que os quadrinhos digitais da Marvel e da DC Comics são feitos para passarem sensação de movimento em suas artes. Por isso, uma equipe maior de desenhistas é contratada. Uma para o storyboard e outra para a finalização/animação. E assim, transformados em quadrinhos impressos, por conterem muita ação, acabam se tornando qualquer coisa, um quadrinho genérico e sem graça. Mais uma vez eu repito que isso não é exclusividade dessa história, mas dessa prática. Só que a história não faz sentido, porque o Demolidor quer impedir o Justiceiro de matar um criminoso que vai para o Texas cumprir pena de morte. Então, ao invés de se discutir as “escolhas da lei”, os dois ficam trocando sopapos num perseguição besta por Nova York que, literalmente, não leva a lugar nenhum. Sinceramente eu esperava muito mais da equipe criativa envolvida na edição. Já havia lido críticas ruins a essa edição, mas não sabia que era TÃO ruim. Fué!

JULvenomVENOM: DE VOLTA PARA CASA, DE MIKE COSTA, GERARDO SANDOVAL, IBAN COELLO E JUANAN RAMÍREZ

Quando juntaram o simbionte Venom com o ex-fuzileiro naval Flash Thompson, e o tronaram um herói, finalmente o então vilão do Homem-Aranha se tornou um personagem interessante, com histórias interessantes tanto no seu gibi solo como em participações especiais. Depois, com a inclusão dele nos Guardiões da Galáxia, o seu nível de complexidade deixou a desejar, mas ainda assim era melhor que a versão anterior. Neste encadernado aqui, Venom volta a ser um assassino impiedoso, como o detalha que dessa vez o simbionte é que é manipulado por um ex-soldado inescrupuloso para matar, Lee Price. O que é muuuito estranho, de repente, o simbionte que sempre foi maligno se tornar boninho do nada. O encadernado é uma série de más escolhas e de roteiro ruim envolvendo o Escorpião, a Gata Negra e o Homem-Aranha. Acredito que também não agradou aos americanos na época em que saiu, porque logo no fim do encadernado, o simbionte acaba voltando para o hospedeiro original, Eddie Brock. Claro, isso também deve ter sido um ajuste necessário em face do filme do Venom que sairá em breve pela Sony e tem Eddie Brock como protagonista. Enfim, podem ficar longe desse encadernado, que vai fazer bem pra vocês!

Veja aqui uma lista de todos os hospedeiros do simbionte Venom!

JUlbatstspawnBATMAN/SPAWN: GUERRA INFERNAL, DE DOUG MOENCH, ALAN GRANT, CHUCK DIXON E KLAUS JANSON

Já havia lido o primeiro crossover dessa leva, Spawn/Batman, feito a duas mãos por Todd McFarlane e Frank Miller e, nossa, uma das piores coisas que já li. Então, se aquele primeiro crossover ganhava só uma estrelinha, esse segunda ganha duas. E olha que foi preciso três roteirista para conseguir esse feito! Que coisa! Ao mesmo tempo, nunca vi a arte de Klaus Janson tão bonita, usando e abusando do traço sujo, dos pingos de nanquim pela página, podemos ver que o artista estava no seu elemento. A parte mais interessante da história é dizer que Gotham City foi fundada sobre a colônia puritana de Roanoke, que desapareceu sem deixar rastro, a não ser pela inscrição “Croatan” em uma árvore. Se fosse bem utilizada essa lenda poderia render uma bela história climática de terror, mas desponta para a briguinha de heróis e a ascensão de um exército de mortos-vivos. Zzzzz! Soninho. Mas crossovers são assim. Devem ter tantas mãos editoriais mexendo neles que os roteiristas não tem muita para onde fugir e, por isso, a tal necessidade de se usar três carinhas pra escrever essa historinha bem esquecível. Boa noite!

JULbatsydarkTHE DARKNESS/BATMAN, DE SCOTT LOBDELL, JEPH LOEB, MARC SILVESTRI, DAVID FINCH, CLARENCE LANSANG
Saindo da leitura de outro crossover DC Comics e Image Comics, que era Batman/Spawn, aportei aqui nesse outro crossover sem muita esperança. Claro, todos conhecem o Batman (mesmo que só uma versão dele), mas poucos conhecem o The Darkness. Ele foi uma criação de Marc Silvestri (um popular desenhista dos X-Men), depois do sucesso de outra personagem sua, The Witchblade. Uma mulher que portava uma luva mística que lidava com a luz. The Darkness, é um assassino da máfia que possui um traje simbionte que faz com que ele controle a matéria da escuridão e os demônios relacionados a ela. Nisso, um mafioso o chama para matar o Batman, que está atrapalhando seus planos. Segue-se então uma maratona de cliches dos quadrinhos grim’n’gritty que se levam a sério demais em mostrar sangue e violência. Mas no fim é tudo histórias feitas por adultos para agradar adolescentes que curtem um massavéio e os seus próprios adolescentes massavéios internos. Ou seja, por mais que eles se levem a sério, qualquer um que não é eles (sejam esses caras desses quadrinhos ou os adolescentes em geral) vão rir sem parar da sua cara. Esse quadrinho é isso. Just bullshit.


E então, mergulhadores?! Como sempre pergunto o que vocês acharam das nossas mini resenhas, o que acharam legal e o que não gostaram? E esse mês, o que leram de bom e de ruim? Não deixem de comentar! Grandes abraços submersos!

 

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2 comentários sobre “Melhores e Piores Leituras de Julho de 2018

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