Arquivos Digitais: Por Que São Importantes Para Publicar Uma HQ?

Sempre quando um leitor, desses bem newbies, bem desavisados, ou ainda, uma daqueles bem raiz, bem perdidos no tempo, pedem um quadrinho absurdo para a Panini e outras editoras, – por exemplo a continuação de Shade -, é respondido que a publicação depende da disponibilidade de Arquivos Digitais. Muitos materiais que fizeram sucesso no Brasil, como algumas séries da Vertigo e materiais da linha Marvel 2099, não possuem arquivos digitais nos Estados Unidos, e isso resulta que as editoras brasileiras não tenham como publicá-los. Mas, afinal, o que são esses tais “arquivos digitais”, para que servem e por que ninguém nunca teve paciência para te explicar? Bem, eu vou te explicar aqui e agora, é só ler a seguir.

Para começar a explicar os arquivos digitais, eu preciso começar explicando os processo de impressão que vieram antes dele. Eu não vou começar com os primeiros processos de impressão do início dos quadrinhos, senão o post ficaria muito longo. Mas basta chamar a atenção de vocês, de como as revistas mais antigonas usavam da colorização em retícula, que é aquele pontilhado colorido que forma as demais cores. Se você colocar uma lupa, por exemplo, sobre um gibi antigo da EBAL, vai identificar os pontos da retícula. Muitas vezes a retícula está associada a impressões antigas, que querem trazer um ar vintage, em capas e conteúdos retro. Também está associada a quadrinhos antigos.

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Um exemplo de ampliação de impressão em retícula.

A verdade é que a impressão colorida evoluiu para a impressão offset, ali pelos anos 80, e já não precisava mais de retícula. Agora, o mundo era da sobreposição de cores. Mas a sobreposição de cores ainda dependia de uma coisa muito cara para sair. Esse elemento era chamado “fotolito”. O fotolito, vamos dizer, era o “molde” das impressões. Como a impressão era offset, era feito um fotolito para as cores CMYK (Ciano, Magenta, Amarelo e K, de preto, para não confundir com o B, de Blue, das cores RGB, as cores de tela). Assim, na gráfica se tinha quatro fotolitos para cada página de quadrinhos, ou página de uma impressão colorida. O fotolito, no começo, era feito de metal e, depois, era feito de plástico, em seus últimos anos de uso.

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Dois sistemas de cores: CMYK (impressão) e RGB (tela).

Então, você já viu: era cara fazer revista e nem todo mundo dispunha do dinheiro e do material para tanto. Imagine se alguém quisesse fazer um fanzine ou um quadrinho independente nos anos 80 e 90? Bem, no começo dos anos 90, começou a surgir softwares de desenho, de vetorização e de editoração, como o Photoshop, o Corel Draw, Page Maker e o Quark. O Photoshop, por exemplo, permitia que as revistas tivessem cores mais vistosas, com mais volume, menos chapadas. Contudo, era necessário que um profissional da colorização viesse depois e fizesse algo que é creditado nas revistas como “separação de cores”. A Editora Malibu foi uma das especialistas nessas novas e dramáticas cores. Depois ela foi comprada pela Marvel.

Leia um post que fala do Ultraverso, a linha de super-heróis da Malibu Comics.

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Prova de Impressão de uma revista.

O próximo passo na evolução do material impresso, foi tornar tudo digital. As gráficas agora poderiam receber um disco chamado Zip – que não era nem disquete e nem CD-Rom – que comportava muitos bits – para poder imprimir esses “arquivos digitais”, que na época eram considerados super-mega-hiper pesados. Se você já leu um pouco sobre tecnologia, sabe que a tendência dos aparelhos eletrônicos é a de se tornarem cada vez menores, mais leves e comportando cada vez um número maior de dados digitais.

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Um pequeno gloossário de elementos e práticas de impressão.

Assim, aos poucos, as editoras começaram a trabalhar com arquivos digitais, até para reimprimir seus trabalhos. Desses arquivos digitais, existem aqueles que são editáveis, ou seja, o texto pode ser alterado e também aqueles em que o texto vem “grudado” na imagem, e só se pode editar apagando o texto e reescrevendo-o. Também não existe um padrão de tipo de arquivo que as editoras usam para esses arquivos digitais. Eles podem ser um pdf, um formato vetorial, um formato de editoração ou em formato de mapa de bits.

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O processo de recuperação de cores de um quadrinho de Little Nemo in Slumberland.

Ok, eu falei e falei dos arquivos digitais. Mas e quais os motivos para termos algumas coisas em arquivos digitais ou não? Bem, precisamos fazer um parêntese aqui e dizer que essa tecnologia dos arquivos digitais se estendeu do começo dos anos 90 até o final dos anos 2000. Mas ainda hoje, as editoras americanas trabalham muito com letristas que compõem os textos à mão, uma técnica que no Brasil acabou nos anos 2000. Mesmo a nossa letrista mais famosa, Lilian Mitsunaga, compõe suas fontes de forma digital (e maestral).

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Repare na retícula na cor da pele do Capitão América e da chuva que cai atrás dele.

Então, grande parte dessas revistas terem ou não arquivos digitais depende da vontade das editoras, claro, e do potencial de venda que vêem nestes produtos. Mas essa janela cronológica dos anos 90 aos anos 2000 também deixou muita coisa para depois, como o caso dos novos materiais de Shade, ou da Marvel 2099, ou ainda das fases menos populares de Monstro do Pântano e do Homem-Animal. Vale dizer que os materiais mais antigos sempre foram visados pelas editoras, tendo em vistas as linhas Visionaries da Marvel e Showcase da DC Comics. Esses foram os primeiros a serem redigitalizados. Os materiais de depois da metade dos anos 2000, praticamente já era todos feitos em formato digital. Então sobra essa lacuna que deixa aquela intersecção entre “materiais menos visados” e “janela cronológica entre analógico e digital” sem materiais disponíveis para republicação.

Leia aqui um guia de leitura das aventuras do Homem-Animal publicadas no Brasil.

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Repare nos defeitos dessa imagem: isso é consequência da pixelização, ou seja, a compressão de dados.

Claro, a tendência é que, muito em breve se tenha todo esse material digitalizado. Também importante: não basta apenas saber que tal e tal material existe em scan e então é só pegar e imprimir, porque não é assim que funciona. É bem provável que os materiais em scan estejam em baixa resolução, ou seja, a impressão fica pixelizada, granulada, cheia de ruídos quando produzida. Isso é feito de propósito para que, quem baixa esse material tenha um arquivo leve. Nas editoras, pelo contrário, quanto mais pesado e mais detalhado for esse material melhor, pois assim a editora pode utilizar as capas e a arte interna em outras partes do seu material, como por exemplo, recortar páginas para compor o design do material. Por isso, material feito por editoras também é sinônimo de qualidade artística, além, é claro de ser um motivo para que, ao comprar delas, as editoras disponiblizem mais materiais digitais para novas publicações.

Bem, agora que eu expliquei para vocês, quando tiverem dúvidas sobre se uma HQ vai ser lançada no Brasil, procurem primeiro se elas possuem arquivos digitais. Para saber disso, basta procurar em sites de venda, como por exemplo, a Amazon, se ela possui encadernados contendo aquelas edições. Assim você poupa a paciência e tempo dos editores que têm de responder perguntas repetidas e repetidas à exaustão e dos coleguinhas leitores que já viram essas perguntas em todo lugar que vão. Espero que assim todos fiquem felizes. Obrigado, de nada!

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8 comentários sobre “Arquivos Digitais: Por Que São Importantes Para Publicar Uma HQ?

  1. Muito legal saber. Mas sempre tive uma curiosidade: a Brainstore e a Metal pesado, quando publicaram a Vertigo no Brasil, publicaram materiais que para os quais não existiam arquivos digitais (algumas que não existem até hoje, como a série mensal de Livros de Magia, que nunca teve republicações – segundo a lenda urbana corrente, porque a Warner quer evitar comparações com Harry Potter). A Brainstore, então ainda usava fotolitos, mesmo já nos anos 2000?

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  2. Oi Guilherme, como profissional de TI permita-me fazer algumas sugestões de pequenas correções nesse texto.

    No trecho “Eles podem ser .PDF, podem ser em programas vetoriais, em programas de editoração ou ainda em programas de edição de imagens. ” acredito que ficaria mais correto “Eles podem ser um pdf, um formato vetorial, um formato de editoração ou em formato de mapa de bits”. Dizer que os arquivos pode ser “em programas” não faz sentido pois o que se está passando aqui não são os programas/softwares e sim os dados/formatos que os mesmos manipulam.

    No trecho “consequência da pixelização.” na verdade o efeito chamado pixelização aqui é a consequência do processo de compactação dos arquivos.

    Espero ter colaborado.

    Abraço!

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      1. Não foi nada Guilherme, se quiser pode apagar o comentário.

        Talvez você não entenda tanto de TI mas você parece entender bem do processo de editoração, eu particularmente gostaria de ler mais a respeito, principalmente no contexto dos quadrinhos. Fica aí a sugestão.

        Abraço!

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