Como Foi o Seminário “O Negócio do Livro”, que Discutiu Inovação no Mercado Editorial

Aconteceu hoje o seminário “O Negócio do Livro”, no Goethe-Institut de Porto Alegre. O evento é organizado há mais de 10 anos pelo Clube dos Editores do Rio Grande do Sul e pela Papel Pólen. Neste ano, o tema foi inovação sob o título “Uma Nova Página Para o Futuro”. O elemento em comum entre todas as palestras foi a força das pessoas nesse negócio, tanto do público com um canal de divulgação quanto daquelas pessoas agentes das editoras como indivíduos multitarefas. Todos destacaram a necessidade de se ouvir o público e de produzir uma comunicação cada vez mais estreita com o consumidor final. Palestrantes de áreas de negócios, design, crowdfunding e customização trouxeram suas ideias durante um dia inteiro de palestras. Trouxemos um apanhado das principais ideias discutidas no evento.

livroO evento abriu com palestra de Danielle Machado, que substituiu Jorge Oakim para falar sobre a Editora Intrínseca. Como a maioria dos palestrantes, Danielle afirmou a importância das editoras se comunicarem diretamente para o leitor. Para quem vê de fora, parece uma obviedade, mas como o mercado editorial sempre foi tradicional e, de certa forma, conservador, a comunicação com o leitor ficava sempre à cargo do ponto de venda, como as livrarias físicas. Então, Danielle demonstrou os números das redes sociais da editora, que viu seu número de seguidores crescer a partir de 2007, com a publicação de A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zuzak e viu explodir com a publicação da trilogia Crepúsculo, de Stephenie Meyer em 2008.

A Intrínseca possui mais de 2 milhões de seguidores no Facebook, 160 mil no Twitter, 34 mil inscritos no YouTube, e seus stories no Instagram possuem mais de 30 mil visualizações. Danielle contou cases de pessoas que achavam o máximo ter um marcador de páginas da Intrinseca. Essa relação de proximidade com o leitor e essa maneira de ouví-lo, levou à criação de um clube de assinaturas chamado Intrínsecos, que vai trazer livros inéditos em acabamento luxuoso, brindes, uma revista da editora e, claro, o tão precioso marcador de páginas.

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Danielle contou o case da relação próxima da editora com os fãs dos livros de John Green. Disse que foi por causa do trabalho editorial da Intrínseca que o estúdio do último filme adaptado do livro do autor, e devido à base de leitores do mesmo que nosso país tem, que destacaram o próprio John Green para a pré-estreia no Brasil. Danielle acredita que para uma editora ir além, é preciso de agilidade e improviso de seus colaboradores e uma diminuição da burocracia. Ou nas palavras de Dory, “Continue a nadar!”.

A segunda palestra foi com a designer Tereza Bettinardi, que apresentou cases de sucesso de projetos gráficos de livros como O Alforje (Dublinense/Tag) e Dom Casmurro (Carambaia). Ela acredita que o trabalho do designer é estar em constante diálogo, seja com suas inspirações, mas principalmente como um mediador entre o cliente e o público. Ou seja, o designer também é aquele que fica negociando tanto com o departamento comercial, o financeiro, a gráfica e o departamento editorial.

alforje

Para Tereza, uma aposta para o futuro do design editorial é apostar mais na materialidade do livro, uma vez que as pessoas estão mais atentas a detalhes como hot stamping, verniz localizado e texturizado, prolan e tipos de papéis. Quando convidada para trabalhos como Dom Casmurro, um livro que já teve várias versões trabalhadas e retrabalhadas, ela gosta de pesquisar em sebos e em seções de livros raros de bibliotecas e institutos. Ao fazer essa pesquisa, ela se pergunta: “qual visualidade pode ser adicionada em uma edição tão republicada como Dom Casmurro?”.

Em seguida, foi a vez da palestra de Antonio Bitiati, diretor comercial da Editora Planeta. Antonio foi responsável por colocar 38 livros na lista de mais vendidos, além de ajudar a editora a subir da décima primeira colocação de participação no mercado, em 2014, para o quarto lugar em 2018. Antonio contou um pouco sobre estratégias para a diversificação do material editorial, sem perder o foco no público, buscando o menor prejuízo para a empresa.

alforge

Na parte da tarde, as palestras abriram com a fala de Raíssa Pena, líder de publicações da plataforma de crowdfunding do Catarse. Raíssa explicou os três eixos em que o Catarse pode auxiliar no fomento de publicações. Ela também destacou a importância de estabelecer relações com a sua comunidade de consumidores ou de futuros compradores. Quando sabatinada pelo público, que enviava perguntas para um número do Whatsapp, Raíssa foi inquirida sobre as marcas que uma campanha malfadada de crowdfunding pode gerar. A líder de publicações disse que o sucesso da maioria das startups se dá porque elas se permitem errar rápido e, a partir daí, tecer novas estratégias. Por isso, se uma campanha no Catarse der errado, é preciso se reinventar, mas não será nenhuma mácula para nenhum proponente.

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A segunda palestra da tarde foi de Diego Moraes, fundador da Dentro da História. A sua empresa cuida da customização de livros, como no case de sucesso do Dentro da História com a Turma da Mônica, sua primeira consignação. Através do aplicativo da empresa, a criança pode customizar um personagem parecido com ela para que estrele uma publicação ao lado do seu personagem favorito, como a Turma da Mônica, a Patrulha Canina ou outros personagens da Nickelodeon. Assim, Diego está investindo em experiências figitais, que é uma mescla entre o físico e o digital, que ele acredita ser um caminho para o futuro do livro.

Para Diego, quando as pessoa pensam em inovação, existe uma dissonância cognitiva. Na verdade, elas devem pensar em “inovação humana”. Assim, Diego apresentou uma pesquisa da Universidade de Stanford que chegou ao resultado de que a cada 1 dólar investido em competências sócio-emocional das crianças, 11 dólares retornam para a sociedade. Por isso, Diego acredita que a educação pode mudar realidades, como no projeto Dentro da História, que torna as crianças protagonistas da mudança.

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Diego também criticou o modus operandi das grandes redes de livrarias, que vivem de uma crise de gestão e um egoísmo a nível de mercado, por essa razão acabam perdendo para a Amazon.Esta última não abocanha 50% das vendas e ainda investe no marketing dos produtos das editoras. Por outro lado, Diego destacou que a Amazon está abrindo livrarias físicas, as Amazon Books. Para ele é porque as pessoas precisam experienciar em um nível físico também a proposta de valor do negócio, Contudo, nas livrarias Amazon Books, suas vitrines exibem o TOP 5 dos livros mais procurados no Google na região em que se situam. Também lá todos os livros são virados com as capas para a frente, na visão do leitor. Reviews são colados ao pé do livro, como se estivessem experienciando o site.

O último a subir ao palco foi Adriano Fromer, sócio da Editora Aleph, que fez ressurgir o gênero ficção científica no Brasil, apostando em novas tiragens e novas roupagens para obras esquecidas, porém clássicos do gênero. Adriano disse que o foco está abruptamente mudando para uma comunicação direta com o leitor, papel que antes era das distribuidoras e livrarias. Afinal, o leitor quer algo mais do livro, quer que ele faça parte de uma experiência muito maior que apenas o puro consumo e a pura leitura. Por isso a importância do design e da capa de um livro na recolocação de algo desvalorizado no mercado. Adriano citou o trabalho de padronização das capas dos livros da franquia Star Wars como um case de sucesso internacional.

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Também outro case citado por Adriano foi o brinde dos marcadores de página que vinham com os livros do Universo Star Wars. Eles simulavam sabres de luz, e foram uma febre entre os fãs, que acabou gerando até uma pessoa para cuidar do que eles chamaram de “SAC do sabre de luz”. Outro ponto que Adriano destacou é ter o cuidado de responder a todas as mensagens nas redes sociais, mesmo que seja com um emoticon apenas. Isso fez da Aleph ser uma das editoras mais queridas pelo público nerd, geek e assemelhados.

Adriano ressaltou o papel das feiras realizadas pelas próprias editoras estilo garage sale, que dispensam os gastos com distribuição em livrarias e permitem que a editora faça grandes descontos. A Aleph já promoveu algumas “Feiras Intergalácticas Aleph” e o resultado foi extremamente satisfatório. “Nossa última feira vendeu em sete horas o que demoramos para vender em um mês na Saraiva”, asseverou Adriano.

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Por fim, foram chamados ao palco novamente Diego Moraes e Adriano Fromer, para um pequeno debate sobre o futuro do livro, no Painel Papel Pólen. Para Adriano, a Amazon se cerca de um ecossistema editorial para que ela sirva seus parceiros com sua logística, o conteúdo, entretanto, fica à cargo das editoras. Para Diego, na cadeia do livro tem de se acabar com as grandes tiragens e apostar no on demand, onde todos têm a oportunidade de, em algum momento, serem autores. Longe de grandes inovações com impressoras 3-D ou realidade aumentada, para ambos, o que deve ser pensado em primeiro lugar é a relação com o público, conforme todos os palestrantes atestaram.

Assim acabou esse longo dia com esse ciclo de palestra sobre O Negócio do Livro, no Goethe-Institut de Porto Alegre. O ciclo de debates O Negócio do Livro ocorre todos os anos sempre organizado pelo Clube de Editores do Rio Grande do Sul. Para mim, enquanto ouvinte foi ótimo confirmar algumas certezas (o foco no público), ser contrariado em outras (como a absurda vilania da Amazon) e aprender tanta coisa nova (principalmente na palestra do Diego). Ficou curioso? Com vontade de participar? Ano que vem tem mais. Abraços submersos!

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