Um Adeus a Marie Severin: Importante Presença Feminina nos Quadrinhos de Super-Heróis

Hoje faleceu Marie Severin, uma das mais atuantes mulheres da Marvel Comics em seu início, ao lado da influência da esposa de Stan Lee e da secretária da Marvel, Flo Steinberg. As três deixaram nosso mundo em um coincidente curto espaço de tempo. Embora os quadrinhos americanos e, principalmente os de super-heróis, foram um espaço masculino, sempre existiram mulheres que resistiram à essa tradição e representaram o sexo feminino. Marie Severin foi uma dessas figuras, dona de um fôlego incansável e de um humor que não poupava ninguém, produziu inúmeros trabalhos na Marvel, sendo mais conhecida pelo Incrível Hulk e a revistas de humor e paródias da própria Marvel, Not Brand Echh!, lançada nos anos 70, como uma resposta à MAD. Convido vocês para conhecer mais sobre essa pioneira dos quadrinhos de super-heróis feitos por mulheres, como uma maneira de prestar uma singela homenagem à sua existência.

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Marie Severin nasceu em 21 de agosto de 1929, no estado de Long Island, nos Estados Unidos. Seu pai era um imigrante norueguês e a família se mudou para o brooklyn quando Marie tinha apenas 4 anos de idade. Seu pai teve grande influência em sua escolha profissional quanto foi para seu irmão, John. Veterano da Primeira Guerra Mundial, o pai foi trabalhar como designer de uma companhia têxtil após a guerra.

SEV1960Nas páginas de Doutor Estranho, Marie co-criou o Tribunal-Vivo. Também foi co-criadora da Mulher-Aranha e do Doutor Bong. Foram seus desenhos que estamparam os papéis higiênicos do Hulk e do Homem-Aranha. Ela também desenhou a revista dos Muppet Babies para a Star Comics, a linha baseada em desenhos animados da Marvel nos anos 80. Em 2001, Marie foi incluída no Will Eisner Comics Hall of Fame e ganhou o prêmio Inkpot da San Diego Comic Con em 1988 e se tornou um dos ícones da Comic Con Internacional em 2007.

 

Em sua longa carreira na indústria dos quadrinhos americanos, Marie Severin foi uma multitarefa, um pau para toda obra. Ela começou como arte-finalista auxiliando seu irmão John Severin, na extinta editora de terror EC Comics nos anos 50. Lá ela foi contratada por Harvey Kurtzman, de quem começou a colorir alguns quadrinhos de guerra. Pouco tempo depois, Marie já era responsável pela colorização de quase toda a linha dos quadrinhos de guerra da EC Comics.  

Já na Marvel, ela desenhava, arte-finalizava, coloria, letreirava, respondia cartas, e desenvolvia paródias da redação e dos personagens Marvel. Dizem que quando tentou um emprego na Marvel, Stan Lee nem olhou seu portfólio, e a mandou direto responder ao supervisor de produção. Seu jogo de cintura com os homens que a circulavam no Bullpen Bulletin da Marvel, a redação da Casa das Idéias, ficou notório pelas caricaturas que Marie fazia de seus colegas. Esses desenhos, entre outros, tiveram a chance de alcançar os leitores na publicação da revista de paródias Not Brand Echh, mas que não durou muitas edições.

Não foi Stan Lee quem reparou nos seus dons para o desenho. Muito pelo contrário. Fora o próprio dono da Marvel na época, Martin Goodman que reparou no seu talento enquanto desenhava super-heróis para a revista Esquire. Assim, Marie ganhou a oportunidade de desenhar algumas histórias do Doutor Estranho, Namor e Hulk aqui e ali. Contudo, talvez seu trabalho mais conhecido sejam as adaptações das histórias de Kull, o Conquistador, de Robert E. Howard, ao lado de seu irmão John Severin. Marie Severin também foi a primeira a anunciar à redação da marvel, em 1976, que Jack Kirby havia retornado à Marvel, depois de alguns anos na DC Comics.  

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Mas nem tudo era alegria e humor na redação. Stan Lee havia contratado Wally Wood para finalizar a capa de As Garras da Gata #1. O “esperto” artista fez o trabalho conferindo à Gata mamilos e pêlos pubianos para a personagem, dando a impressão de que ela estava nua. Marie Severin teve de passar a tinta branca para poder fazer seu trabalho de colorização corretamente. Segundo relatos no livro sobre sua carreira, há poucas dúvidas de que as insinuações sexuais no trabalho iam além do simples “esquecimento” da presença de mulheres na sala, de que comentários indesejados e avanços físicos eram direcionados a elas.

Marie Severin precisou cortar um dobrado para poder trabalhar com aquilo que gostava numa profissão raramente ocupada por mulheres na época e ainda hoje. A historiadora das mulheres nos quadrinhos, Trina Robbins a elogia como uma verdadeira feminista. Para ela, Severin tinha uma carreira em quadrinhos, mas que não foi em nada facilitada. Muito pelo contrário. Foi através de seu senso de humor que ela conseguiu brilhar. O escritor de quadrinhos de humor Mark Evanier bem sabia como as mulheres, nesta indústria, eram relegadas a papéis de menos destaque, e declarou o seguinte no livro sobre sua carreira:

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“As pessoas costumavam sempre dizer: ‘Marie pertence à revista MAD’. E ela pertencia mesmo.Odeio pensar que a verdade, que pode ser possível, de que a razão que ela não pertencia à revista era por ser uma mulher. Se você notou, enquanto Bill Gaines [dono da EC Comics nos anos 50] estava dirigindo a revista MAD, eles nunca tiveram uma artista mulher lá”. Já sobre a longa passagem de Marie na Marvel, Evanier declarou o seguinte: “Acho uma pena que a Marvel nunca tenha realmente feito um projeto em que permitissem Marie Severin trabalhar exclusivamente em humor, desenvolvesse mais seu estilo, encorajassem-na e a deixassem ser tão maravilhosa como ela poderia ser, porque ela tinha as habilidades e, obviamente, ela tinha o senso de humor. Tinha um ponto de vista único”.

SEVrevistaDepois de Kirby e Romita, Severin se tornou a terceira diretora de arte da Marvel Comics e passou a coordenar a produção a partir de 1978. Mas isso só durou até os anos 80 pois, com a chegada do editor-chefe Jim Shooter, Marie foi destituída do cargo e foi realocada na divisão de projetos especiais de Sal Brodsky. Seus trabalhos como coloristas foram minguando até o fim da década de 90, quando a Marvel entrou em falência, e Marie foi demitida em 1998, na época da polêmica iniciativa de Heróis Renascem.

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Um livro sobre a carreira de Marie Severin foi publicado pela editora TwoMorrows, a editora de John Morrow que começou em 1994 com o fanzine Jack Kirby Collector. O livro, escrito por Dewey Cassell com Aaron Sultan, se chama Marie Severin: The Mirthful Mistress of Comics. Acho que deu para entender a grande importância dessa mulher, pioneira dos quadrinhos, todos os percalços que teve de passar e que, talvez, se tivesse surgido hoje, sua carreira teria tomado outros rumos. Por gente como Marie Severin é importante lutar pela igualdade de direitos e posições no trabalho, independente do gênero. Direitos, posições e salários iguais. Abraços submersos, caros mergulhadores!

 

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5 comentários sobre “Um Adeus a Marie Severin: Importante Presença Feminina nos Quadrinhos de Super-Heróis

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