O Cânone dos Quadrinhos: O Que é e Como Funciona?

Muitas vezes, em discussões, ouvimos os leitores de quadrinhos falarem: “é, mas isso não faz parte do cânone”. Ou ainda se perguntam “isso vai passar a ser cânone”? Mas eu acho que, em geral, a maioria das pessoas não sabe o que cânone significa dentro da comunidade de fãs e muito menos o seu significado geral. Neste texto vou falar sobre produções oficiais que configuram cânone, realidades alternativas, universos paralelos e a apropriação destes mundos ficcionais nas produções de fãs. Também sobre a relação dessas diferentes formas de narrar com o universo dos quadrinhos e, por fim, com elementos religiosos. Prontos para embarcar nessa viagem por universos? Então, se ajeitem nos seus assentos, que vai começar!

CANvitruvianCânone é um termo grego que designa uma medida representada por uma vara específica para aferir distâncias e comprimentos. Cânone também pode significar um conjunto de regras para determinado assunto. Como por exemplo na canonização dos santos católicos, cujos atos milagrosos precisam passar por uma série de comprovações para que sejam nomeados dessa maneira. No campo das artes, existem os tratados canônicos, que são modelos de acordo com uma determinada concepção de arte. A famosa figura O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci é um exemplo de cânone da figura humana, que serviu de modelo para diversos pintores posteriores e ainda hoje os influencia. Dentro da literatura, se fala do Cânone Literário do Ocidente, termo cunhado pelo crítico literário Harold Bloom para uma lista de clássicos da escrita humana.

CANcoyoteDentro da escrita humana, o termo Cânone foi usado pela primeira vez para se referir aos livros litúrgicos escolhidos para compor a Bíblia que conhecemos hoje, mais conhecida como Bíblia do Rei James. Os livros e evangelhos que não são utilizados pela Igreja Católica são considerados os Evangelhos ou Livros Apócrifos. Entre eles, está o Evangelho Segundo Maria Madalena, a prostituta que alguns – como Dan Brown, autor de O Código Da Vinci – dizem ter sido amante de Jesus Cristo. Apócrifo, em sua etimologia, quer dizer algo descoberto ou revelado, mas também algo propício a manipulações.

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Nos universos ficcionais, como em séries de televisão, franquias de filmes e até nos quadrinhos, procura-se produzir uma Bíblia do espetáculo, onde estão definidos os personagens, o tempo e o espaço onde ação do produto de entretenimento acontece. Isso dá uma direção a todos aqueles que trabalham com esse produto cultural do que pode ser feito e do que não pode ser feito dentro de um universo ficcional. O termo cânone para histórias ficcionais diz-se ter começado com os livros de Sir Arthur Conan Doyle, criador do personagem Sherlock Holmes. Era uma maneira de se distinguir entre textos criados pelo autor original, daqueles que eram adaptações ou homenagens. Mas o termos só foi se tornar popular com a expansão das franquias de Star Wars e de Star Trek, a partir dos anos 70.

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O cânone de um universo ficcional surge de uma aceitação subjetiva, das reações de seu público aliada com a anuência de seus produtores e donos dos direitos autorais de produção. Em alguns casos como os já citados Star Wars e Star Trek, existem os Universos Expandidos, uma forma de oficializar cronologias desenvolvidas em produtos como videogames, livros e quadrinhos, mas que não fazem parte da “história oficial”, por não terem sido apresentadas em suas plataformas originais, no caso, o audiovisual. Não devemos confundir Universo Expandido com Adaptações. As adaptações transferem o conteúdo de uma mídia para outra, como uma adaptação da história de um filme, como os do Marvel Studios para os quadrinhos.

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Mas o quadrinhos da Marvel e da DC Comics possuem outra peculiaridade, que são os Universos Paralelos ou as Realidades Alternativas. Embora semelhantes, não são sinônimos. Em realidades alternativas, temos uma mudança no passado de um universo que implica numa mudança no seu presente ou futuro. Temos com exemplo a saga Dias de Um Futuro Esquecido, dos X-Men, onde os personagens vivem numa realidade pós-apocalíptica, onde nessa “linha do tempo”, os mutantes são perseguidos e assassinados. Já nos Universos Paralelos, temos várias dimensões parecidas com as nossas, onde podemos existir de formas diferentes das que estamos acostumados. Exemplos disso são a Terra-2 e a Terra-X da DC Comics e do Arrowverse, por exemplo e a mega saga Crise nas Infinitas Terras, também da DC Comics.

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Contudo, diferente do Universo Expandido, as realidades alternativas e universos paralelos podem muito bem serem aceitas nos cânones das editoras de super-heróis, por exemplo. Contudo, isso acaba resultando em grandes problemas de continuidade ficcional fazendo com que as editoras apelem para a “técnica do botão de reset” ou ainda um “reboot”, como aconteceu, por exemplo, com a DC Comics nas iniciativas de Os Novos 52 e de Renascimento DC, mas que já havia feito antes em outras oportunidades com Crise Infinita, Crise Final, Zero Hora e a já mencionada Crise nas Infinitas Terras.

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Mas o cânone, ou cânon, também tem o seu direto oposto, que é o fanon, ou seja, as interpretações e produções dos fãs a respeito de um universo de entretenimento. No livro Invasores do Texto, do teórico de comunidades de sentido, Henry Jenkins, a pesquisadora Raquel Recuero definiu essa dicotomia da seguinte forma:

“Parrish (2007) discute a denominação de Jenkins de ‘invasores’ do texto, explicitando que há práticas diversas na produção dos fãs. Para o autor, há aqueles trabalhos focados na mitologia/obra original (canon) do fandom e as obras dos fãs, geralmente focadas em criações mais independentes, caminhos alternativos e ideias pessoais de outros autores, que estão apenas baseadas no quadro original (fanon). O termo ‘fanon’ é usado por vários autores e definido por Thomas (2007, on-line) como: ‘refere-se ao processo através do qual material criado que adiciona ou suplementa o cânon torna-se aceito e usado por outros escritores de fanfiction’.[…] Esse debate, também relacionado à apropriação do cânon nas produções dos fãs, tem recebido muita atenção, especialmente pela sua amplificação online e seus efeitos”. (RECUERO, 2015, p. 7 e 8).

CANcruzadeSe, mesmo em brincadeiras, alguns fãs chamam seus universos de Igreja, por outro lado, o nome fã vem de uma abreviação de fanáticos (JENKINS, 2015, p.32). E, da mesma forma que aconteceu durante as Cruzadas e na Guerra Santa, todos querem espalhar o evangelho que acham que está correto de seu universo favorito e, assim, converter os hereges. Assim, voltamos ao cânone como canonização não apenas de santos, mas de uma cronologia dogmática, que deve ser seguida à risca. As realidade apócrifas, pervertidas e portanto, não-religiosas (no sentido de re-ligar com o que é sagrado), assumem um lado demoníaco por romperem com o que está estabelecido, mas também por apresentarem versões dos personagens que diferem a sua intenção original. É o caso de produções de artes e escritas de fãs em que a orientação sexual dos personagens ou sua identidade de gênero é distorcida, para agradar aos anseios da comunidade de fãs.

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Assim, ao mesmo tempo que provoca uma apropriação do conteúdo de universos de entretenimento, partilhando de uma comunhão daquilo que considera sacralizado, o fã também acaba cometendo uma heresia, uma profanação, uma blasfêmia ao assumir o papel de “deus” daquele universo de entretenimento que, dentro do “cânone”, é relegado aos autores oficiais e às empresas detentoras dos seus direitos. Por isso, nada melhor que essa denominação canônica para o que é sagrado e importante na caracterização de um universo ficcional. Afinal, existem fãs mais dogmáticos e fiéis em universos ficcionais do que no nosso próprio universo real dentro de religiões oficializadas de diversos países.

Vão em paz e que o seu deus ficcional – seja ele qual for – os acompanhe, mergulhadores! Amém, irmãos da profundidade!

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