A Ascensão da Representação Trans nos Quadrinhos e Nas Artes

 

Nos últimos anos a representação de personagens transexuais nos quadrinhos e a representatividade de autores e autoras transexuais nos quadrinhos vêm aumentando. Muitos personagens já são reconhecidos do grande público e autores e autores começam a ficar conhecidos do público mainstream por seus trabalhos, com uma sensibilidade diferente da que estamos acostumados. Ao ler o livro “E se estivermos errados?”, de Chuck Klosterman, que pensa no presente como se fosse o passado, o autor tenta explicar essa ascensão como um dado não previsto de pessoas que pensavam o futuro há, digamos, dez anos atrás. Então vamos tentar falar sobre isso neste artigo e entender esse fenômeno. Sigam me os homens, as mulheres e aqueles que estão em processo de transição!

Neste escrito, quando falamos de representação, queremos falar de personagens, que, nos quadrinhos e nas demais artes de entretenimento, são calcados em um modelo do mundo real no fictício. Por outro lado, quando falarmos de representatividade, estamos falando de quando é ouvida a voz de um autor de minoria, sejam negros, mulheres, gays, lésbicas, transexuais ou outro componente da “sopa de letrinha” através de sua produção, seja ela com representação dessa minoria ou não.

Fizemos uma lista de quadrinistas transexuais que você precisa conhecer, e você pode conhecer neste link.

 

magdalene-visaggio
Magdalene Visaggio

Vemos nos quadrinhos, para pegar um exemplo, alguns autores transexuais começarem a ganhar um certo destaque, como é o caso de Magdalene Visaggio que, foi, inclusive, alvo das listas do Comics Gate, movimento de pessoas relacionadas aos quadrinhos contra a representação da diversidade nos mesmos. Magdalene tem tido um grande destaque tanto na Marvel como na DC Comics, encampando trabalhos na linha Young Animal e na Vertigo, tendo sido uma aluna de destaque na oficina para novos talentos para roteirista da Editora das Lendas, que é ministrada por Scott Snyder.

 

DREring
Nicole Moines

Personagens – modificados de sua forma original ou não – também vêm dando as caras e fazendo a representação de pessoas trans nas histórias em quadrinhos e nos seus derivados. É o caso da personagem Sonhadora, da Legião dos Super-Heróis, que vai ser adaptada para uma personagem trans na série da Supergirl e também será interpretada por uma atriz trans, Nicole Moines. Nesse caso, representação e representatividade acabam andando juntas no que tange à pessoas transexuais.

Você pode conhecer mais sobre Nia Nal, a primeira super-heroína trans da televisão, interpretada por uma atriz transexual.

Lilah-Sturges
Lilah Sturges

Também temos um outro movimento. Autores que anteriormente eram conhecidos como homens cis, agora se assumem como mulheres trans e continuam fazendo o mesmo, o talvez mais sucesso do que antes de sua transição. É o caso da genial cartunista brasileira Laerte e da escritora da Vertigo, Lilah (ex-Matt) Sturges, que escreveu A Casa dos Mistérios e co-escreveu com Bill Willingham muitos spin-off da série Fábulas, sendo o último, Para Sempre. Não necessariamente essas duas escritoras acabaram fazendo quadrinhos em que a representação estava presente, mas sim, acabaram sendo portas-bandeiras do movimento de libertação da identidade de gênero.

Leia mais sobre a transição de Lilah Sturges, escritora transexual da DC Comics/Vertigo.

laerte2Mas, agora, indo para o texto de Klosterman, que reparou que a ascensão de autores transexuais, seja nos quadrinhos ou na literatura, foi um fator não previsto pelos “futurólogos”, precisamos destacar algumas passagens. Ele diz que “Em 1999, era quase impossível de se encontrar um exemplo de pessoa trans na cultura popular; em 2014, uma série de TV dedicada exclusivamente a esta ideia venceu o Globo de Ouro de melhor série da televisão. Nesse espaço de 15 anos, não houve aspecto da civilização internacional que tenha mudado mais”. (KLOSTERMAN, 2017, p. 38)

Encontre neste link uma lista de personagens trans dos quadrinhos de super-heróis.

 

wachowskis
Lilly Wachowsky e Lana Wachowski

E então o texto de Chuck Klosterman se volta para Matrix. Talvez você não saiba, mas os diretores do cultuado filme de ficção científica foi dirigido pelos Irmãos Wachowski, hoje, elas são as Irmãs Wachowski. Lawrence se tornou Lana e Andy, Lilly. Lana Wachowski também se aventurou pelos quadrinhos, bem durante sua transição e escreveu a série com o nome sugestivo – para a nossa discussão – de Doutor Frankenstein, talvez como uma forma de expiar suas angústias da aceitação de outra identidade de gênero. Esse fator vai fazer o filme ser lembrado por seus efeitos bullet time ou vai fazer se lembrar de suas diretoras como pioneiras de representatividade trans na comunidade do espetáculo? Klosterman analisa da seguinte forma:

 

“Então, pense em como isso pode modificar a memória de Matrix: em alguma realidade distante, historiadores do cinema vão reinvestigar um filme de ação extremamente comercial que foi dirigido por duas pessoas que (sem o conhecimento do público) eram mulheres trans. De repente, o significado simbólico de um universo  com dois mundos – um falso e construído, o outro genuíno e oculto – assume um significado totalmente distinto. A ideia de um personagem que tem de escolher entre uma pílula azul que lhe possibilita continuar sendo um peso morto falso e uma pílula vermelha que lhe obriga a confrontar quem ele de fato é torna-se uma metáfora bem distinta. Pensando dessa ponto de vista, Matrix pode ser outro tipo de avanço. Poderia parecer mais reflexivo do que divertido, o motivo exato porque algumas coisas são lembradas e outras se perdem” (KLOSTERMAN, 2017, p. 39).

 

wachowslidoc
Doc Frankenstein, de Lana Wachowki e Steve Skroce

Eu não adorei inteiramente quando li esse livro de Chuck Klosterman, mas eu precisava escrever um post que compartilhasse essa brilhante análise com vocês. Para terem uma ideia, eu verti lágrimas quando li essa passagem. Eu também vivia um mundo em que eu era um peso morto. Mas eu resolvi tomar a pílula vermelha e mostrar que eu realmente era. Isso trouxe nuances sobre mim que muita gente desconhecia e pode conhecer e gostar, adorar até. O processo de descoberta e exposição da sua verdadeira identidade, quando ela é contestada pela sociedade, é absurdamente doloroso e horrível, por isso, muitos preferem da pílula azul. Melhor ser um peso morto que ninguém se incomoda, do que quem de fato você é corre risco de morte apenas por isso.

 

Assim, mais uma vez eu destaco como a representatividade da autoria trans é importante, no que tange a trazer novas sensibilidades para nossos quadrinhos e outros produtos de entretenimento e, quiçá, às ciências duras e exatas também. Como eu falei antes, até um quadrinho como Doutor Frankenstein, quando escrito por uma Lana Wachowski acaba ganhando contornos de interpretação e sentidos muito mais profundos que uma ação descabida. Da mesma forma que Matrix poderá ser encarado no futuro. Por isso, sempre antes de metralhar algum disparate por aí e na internet – onde tudo fica gravado para sempre – é bom sempre refletir: “E se estivermos errados?”.


Leia mais em:

KLOSTERMAN, Chuck. E se estivermos errados? Pensando no presente como se fosse o passado. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2017.

Anúncios

Um comentário sobre “A Ascensão da Representação Trans nos Quadrinhos e Nas Artes

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.