O Dia em Que Lois Lane Foi Uma Mulher Negra

Vivemos uma época em que, para adaptar alguns personagens dos quadrinhos para outras mídias, alguns produtores mudam sua etnia. Foi o caso, por exemplo, de Johnny Storm, interpretado por Michael B. Jordan no último filme do Quarteto Fantástico, de Iris West-Allen, a série do Flash, interpretada por Candice Patton ou ainda de Josie, de Riverdale, interpretada por Ashleigh Murray. Essa mudança causa reações exageradas nos fãs de quadrinhos. Mas no início dos anos 70, quando o movimento negro estava bem no seu início, uma capa da revista Lois Lane Superman’s Girlfriend chamava atenção. Era Lois Lane entrando e saindo de uma máquina que a transformava em uma mulher negra. Por muito tempo eu achava que essa história poderia ser revoltante, mas ao lê-la, acabei mudando de ideia. Saiba o porquê neste post.

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Vamos falar da revista, que foi publicada nos Estados Unidos em janeiro de 1970, escrita por Robert Kanigher (Mulher-Maravilha, Ás Inimigo) e desenhada por Werner Roth (X-Men), dois judeus, escrevendo sobre a situação do negro nos Estados Unidos. A história abre, como era costume naquela época, in media res, ou seja, com uma parte “chocante” da metade da narrativa. Lois pergunta o seguinte ao Superman: “Eu sou negra e você é branco! Quero que me responda simplesmente um “sim” ou um “não”! Você se casaria comigo?”. A história, originalmente é intitulada I’m (Curious) Black, que no Brasil foi publicada como A Curiosidade Negra, e foi publicada em julho de 1971 na revista Os Amigos do Super-Homem: Lois Lane e Jimmy Olsen #15 pela EBAL (Editora Brasil-América). Foi a edição brasileira que tive a oportunidade de ler esta história.

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Tudo começa quando Lois Lane precisa fazer uma reportagem sobre situação do bairro negro de Metrópolis, Pequena África. Mas lá, ninguém quer falar com ela, porque ela é branca, ao mesmo tempo em que ela presencia o líder do movimento negro no bairro, Dave Stevens, identificá-la como uma branca que trata os negros como objetos e a força de trabalho. Depois desse tratamento, Lois acredita que, para conseguir a atenção dos negros de Metrópolis, ela precisa também ser uma negra. Por isso, nada como chamar seu amigo Superman, para colocá-la numa máquina modeladora de corpos kryptoniana e transformá-la numa mulher negra.

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Vivendo sua vida como uma mulher negra, Lois percebe que o taxista que ela costuma sempre pegar para o trabalho, não pára para ela. Quando ela entra no metrô, as pessoas a encaram de cima a baixo, hostis. Então, ela adentra um cortiço para entrevistar alguém e percebe que o lugar está em chamas. Ajudando uma moradora a apagar o fogo, a Lois é relatado que o senhorio não pede para recolher o lixo há meses e, às vezes pega fogo. A mulher diz à Lois que o reboco está caindo e que o prédio não é pintado “desde que Noé saiu da arca”. Quando percebem o choro de uma criança que, segundo a mulher, recebeu outra visita na nova “inquilina”, uma ratazana. Lois fica comovida e chora por causa da situação que aquela mulher vive.

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Então passa por uma rua, onde um professor ensina as crianças que “black is beautiful”, ou seja, que ser negro é lindo, um dos motes do movimento negro dos anos 70. Então ela é abordada pelo mesmo agitador Dave Stevens, que a acha familiar. Mas não dá tempo para conversarem, pois precisam impedir um grupo chamado “Os 100” de traficar droga. Nisso, Dave é atingido por uma bala, um pouco antes do Superman intervir. O Superman leva Dave e Lois a um hospital, onde o médico diz que ele precisa de uma transfusão de sangue. Seu sangue é “O negativo”, o mesmo de Lois, que aceita fazer a doação. Enquanto faz a doação, Dave acorda e olha para Lois, agradecido.

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Retornamos, pois, à situação que abre esta história, o diálogo entre Superman e Lois Lane, que reproduzo abaixo:

– Olhe bem nos meus olhos, Super-Homem, e me diga a verdade… Você me ama? Suponha que eu não pudesse mudar de côr de novo… Você se casaria comigo? Mesma (sic) que eu fosse uma intrusa no mundo dos brancos?

– Você perguntar (sic) isso a mim…, Super-Homem? Um ser de Krypton, outro planêta? Um intruso em tôda Terra? Não possuo nem mesmo pele humana… Ela é dura como o aço…

– Mas a côr da sua pele é branca!

– Sabe que eu não posso arriscar transformá-la em alvo dos meus inimigos! Êles tentariam me atingir, matando você!

– Estou cansada de ouvir essa história, Super-Homem! Você parece um disco arranhado quando falo em casamento. Ouça…

Nisso, Lois Lane começa a se sentir mal, como se estivesse mudando, e volta a ser branca novamente. A enfermeira chega e fica atordoada com a mudança, mas diz que o paciente quer falar com Lois. A jornalista fica preocupada com o que Dave vai falar quando reparar que ela é branca, pois assim a via como inimiga. Superman responde:”Você tem que vê-lo, Miriam, ou jamais descobrirá! Se êle ainda a odeia, com seu sangue em suas veias, então jamais haverá paz no mundo!”.

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A próxima e última página é muda, ou seja, sem diálogos. Lois entra no quarto e Dave olha para ela. Então ela percebe que as duas eram a mesma pessoa. Ele sorri, estende a mão para ela e os dois dão as mãos. Fim.

O site negro Afropunk criticou essa história com as seguintes palavras: “Esta história em quadrinhos é de Lois Lane 109 e foi escrita por um homem branco, Robert Kanigher, que provavelmente fantasiou como seria passar um dia como um negro. Porque, quero dizer, quem não fantasiaria isto? Você sabe, passar por racismo e tudo mais”. O escritor Chris Sims (X-Men ‘92), para o site Looper, declarou que ainda hoje essa é uma história ousada pelo tema delicado que ela aborda em uma revista de quadrinhos mainstream da DC Comics. Ele também afirmou que, sem sombra de dúvidas a história foi inspirada pelo livro Black Like Me, de Howard Griffin, que foi um sucesso comercial e um marco social.

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O livro Black Like Me foi publicado em 1961, por Griffin, que era um branco que viajou pelo Sul profundo dos Estados Unidos relatando a vida dos negros durante os tempos de segregação racial. Em 1964, um filme foi produzido sobre a história do livro e, provavelmente inspirou o escritor, Robert Kanigher. Sims também relembrou a história em que o Justiceiro se “disfarça” de negro para escapar da polícia como um reflexo da história da Lois, 20 anos depois (publicada nos anos 90). Caso tenham interesse, posso falar sobre ela numa próxima ocasião.

Leia uma resenha do quadrinho em que Lois Lane e Lana lang são Superwomen.

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Ayana Underwood no site Black Girls Comics, critica a história de salvamento de Dave por Lois da seguinte maneira: “Ele sobrevive apenas por causa dela. Esse meme, o “Complexo do Salvador Branco”, dá origem à falsa noção de que, apesar da comprovada resiliência e perseverança dos negros, ainda precisamos de uma pessoa branca para nos salvar no final do dia. Mas, estamos sendo salvos ou estamos nos tornando dependentes? E por último: os oprimidos são desamparados”.

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Em um artigo chamado Black Like Lois, de Christopher B. Zeichmann no livro The Ages of Superman, o autor informa que a retratação de Dave Steven como um agitador de multidões não é saudável e não representa a movimento Black Power. Também acusa a história de reforçar estereótipos dúbios sobre as pessoas afro-americanas, mesmo que não tenha sido essa a intenção de Kanigher. A continuação para essa história saiu em setembro de 1971, em Superman’s Girlfriend Lois Lane #114, marcando o retorno de Dave Stevens e com duas páginas dedicadas a figuras históricas negras. A história acaba com Stevens sendo contratado como “o primeiro colunista negro do Planeta Diário”.

Segundo o historiador, Dave Stevens e sua namorada Tina Ames passaram a aparecer regularmente nas revistas de Lois Lane ao longo dos anos 70, perdendo a caracterização racialmente marcada conferida por Kanigher no início. O autor conclui que o discurso promovido na revista em questão foi:

“uma tentativa de ressituar os caucasianos como aliados no desenvolvimento dos movimentos negros – movimentos com baixa aceitação e confiança na assistência branca, conforme  o corpo político afro-americano conquistava uma maior independência social” (ZEICHMANN, 2012, p.86).

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Por fim, cabe criticar que a pergunta de Lois para o Superman ficou no ar. Nós sabemos que ele costumava sair pela tangente quando o assunto era casar com sua pretendente, mas desta vez, a pergunta havia sido feita em um outro contexto. Vale lembrar também que, naquela época o casamento era uma obsessão muito maior para as mulheres, pois elas só se sentiam valorizadas ao lado de um homem e portando o seu sobrenome para terem alguma chance de serem alguém na sociedade, tal era o patamar das mulheres, quase tão desprezível quanto o dos negros. Então,muito pior era a situação de uma mulher negra.  

Leia uma post sobre Lois Lane que fala que Superman sem Lois Lane é um erro.

Lois com o ciumômetro; Lois cônica e cômica; Lois com o Superbebê; Lois a atrevidinha!
Lois com o ciumômetro; Lois cônica e cômica; Lois com o Superbebê; Lois a atrevidinha!

A obsessão de Lois e, às vezes de Lana Lang, nas revistas daquela época, era a de desposar o Homem de Aço. Em praticamente todas as edições de Superman’s Girlfriend Lois Lane, a intrépida e independente jornalista estava aprontando alguma para convencer o kryptoniano a se casar com ela, ou então lutando com Lana Lang e outras pretendentes ao coração do homem do amanhã. Outras, já imaginavam Lois casada com o Superman nos contratempos de uma vida com filhos superpoderosos, enquanto ela precisava “cuidar da casa e dos filhos”.

"Sou curiosamente negra!", diz Lois Lane!
“Sou curiosamente negra!”, diz Lois Lane!

Essa vontade louca de se casar e ser uma dona de casa com um marido “de porte” é chamada de “Síndrome de Mary Sue”. Mary Sue era o nome dado às donas de casa suburbanas dos anos 50 e hoje em dia nomeia um site feminista contra esse posicionamento das mulheres nos quadrinhos, o The Mary Sue (recomendo!). Atualmente, claro, seria ridículo lermos um gibi de uma “caçadora de maridos” ou uma “maria-super-herói”, pero que las hay, las hay. A pergunta, depois de quase 50 anos de publicação ainda permanece: “O Superman casaria com uma mulher negra?”.

 

Saiba mais em:

ZEICHMANN, Christopher B.. Black like Lois. In: DAROWSKI, Joseph J. The Ages of Superman. Jefferson: McFarland & Company, 2012.

 

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