O Potencial Poético dos Quadrinhos

Existem alguns quadrinhos que, além de apenas contar uma história, uma narração, acabam trazendo um terceiro significado, que pode ser interpretado ou não, mas deixa o leitor com uma pulga atrás da orelha. Isso é aquilo que o grande teórico francês dos quadrinhos, Thierry Groensteen chama de quadrinhos poéticos. Ou seja, quadrinhos que ultrapassam a sua função enquanto prosa e alçam vôo para novos sentidos além da mera narrativa. Os quadrinhos poéticos, em um nível restrito, possuem uma significação que vai além do que está impresso na página e pode gerar um “terceiro” sentido. A presença de uma interpretação além do que está mostrado e ocorrendo em uma história em quadrinhos poderia justificar a dissonância cognitiva que existe na leitura de pessoas que não enxergam algumas mensagens humanistas em trabalhos como X-Men e Star Wars.

A definição de Thierry Groensteen para quadrinhos é de imagens justapostas que possuem uma solidariedade icônica. Essa definição é, para ele, o princípio fundante e fundamental dos quadrinhos: grafismos que, para serem totalmente compreendidos pelo leitor, precisam ser lidos em conjunto. Da mesma forma que os quadrinhos podem gerar uma narrativa inteligível, para o autor, também existem quadrinhos que se encontram em uma espécie de infranarrativa, ou seja, que “quebram o contrato” de narração com o leitor por não oferecerem uma coerência imediata ou de não fornecerem a possibilidade da formulação de hipóteses para a inteligibilidade daquelas narrativas. “É apenas quando essas tentativas falham que o leitor tomará a decisão de atribuir àquelas imagens a sempre improvável categoria de infranarrativa” (GROENSTEEN, 2011, p. 19)

POEsand

Para Groensteen, para que um quadrinho contenha narratividade, é preciso conter sequencialidade. “O que desaparece em uma versão do quadrinho em apenas um painel é a descoberta, o ritmo, o desfecho. Estas são precisamente as características indicativas de uma narrativa”. Mas, para ele, ainda pode haver uma exceção. “A exceção na regra ocorre quando uma única imagem encompassa diferentes cenas, assim é dito que ela interage em justaposição com seu próprio espaço”. (2011, p. 23). Por isso, Groensteen acredita que, quando estudado, uma narrativa em quadrinhos não pode ser analisada apenas através de um painel solto e fora de seu contexto. As próprias palavras utilizadas no texto de um quadrinho possuem uma “função de sutura”, produzindo uma ponte entre as duas imagens.

POEitsabird

Essa função de ponte entre imagens foi batizada por Groensteen como entrelaçamento, do qual se originam três formas: suíte, série e sequência. Suite, seria o entrelaçamento da infranarrativa: uma série de imagens sem correlação; série, é uma sucessão contínua ou descontínua de imagens unidas por uma série de correspondências, que podem ser de várias naturezas; por, fim, sequência, são imagens justapostas servindo a um projeto narrativo. O autor também entendeu que toda série está inclusa dentro de uma sequência narrativa. Sendo assim, “o entrelaçamento é uma relação suplementar, que jamais será indispensável para a condução e inteligibilidade da história, função esta que cabe à decupagem” (GROENSTEEN, 2015, p. 154)

POEliniers

POEdesaplanarAssim, a forma como os quadrinhos de uma narrativa são justapostos, sempre servem ao projeto narrativo do autor, ou seja, à sua intencionalidade, o sentido que quer que o leitor absorva de sua obra. Essa conclusão vai ao encontro da utilização da análise do discurso para interpretar certas obras de quadrinhos, sendo que o sentido do texto não pode ser considerado um ato isolado, pois, “os diferentes modos pelos quais o sujeito se inscreve no texto correspondem a diferentes representações que tem de si mesmo como sujeito e do controle que tem dos processos discursivos textuais com que está lidando quando fala ou escreve” (VARLOTTA apud FRANCO, 2005, p.13)

“Uma imagem é interpretável no sentido em que , dentro de uma narração sequencial como a da história em quadrinhos, ela está sempre próxima de outras imagens, situadas antes ou depois na trajetória narrativa” (GROENSTEEN, 2015, p. 134). Groensteen acredita que apesar de muitos quadrinhos serem de fácil interpretação, de onde se pode depreender apenas um sentido, muitos deles, sejam silenciosos – sem texto -, ou verbais – com texto – podem gerar uma polissemia, ou seja, múltiplos significados.

“Nos quadrinhos contemporâneos, em contraste, há uma corrente inovadora caracterizada por uma poética de reticência, ambigüidade e indeterminação. Alguns autores preferem se desviar do caminho estreito da “narrativa e nada mais”. Eles são atraídos por áreas cinzas, imagens que são cortadas à deriva, estratégias de interferência de mensagens de todos os tipos e, em geral, criam conexões entre painéis que trabalham através de harmonias, ressonâncias, correspondências, evitando o tipo de relações que são imediatamente decodificáveis ​​em termos de lógica narrativa e significado.[…] Esse novo tipo de arte nos quadrinhos rompe as expectativas e os hábitos dos leitores de quadrinhos tradicionais; está, claramente, ainda aguardando novos leitores. Sua condição minoritária e economicamente marginal qualifica-os como experimentais, mas seria mais apto descrevê-la simplesmente como poéticos” (GROENSTEEN, 2011, p. 30 e 31).

POEpeeters

Assim, Groensteen acredita que o registro pelo qual esse tipo de quadrinho opera é muito mais poético do que narrativo. Em seu livro Comics and Narrative, ele discorre sobre três planos de produção de sentido que o quadrinho pode ter. São eles:  o mostrado (le montré), o ocorrido (le advenu) e o decodificado (le signifié). Nos quadrinhos, geralmente o que é mostrado serve para entendermos o ocorrido, trabalhando em sua atividade cognitiva a mudança de tempo e de espaço.

POEcumbeQuadrinhos poéticos, contudo, não podem ser interpretado somente pelo que é mostrado ou pelo que é ocorrido, relegado a uma cadeia causal de eventos. Às vezes o que é mostrado pode pertencer a um outro nível de ação, envolvendo, por exemplo, a subjetividade do personagem, figuras de linguagem em estilo visual que o autor deseja utilizar ou ainda efeitos rítmicos e visuais que ultrapassem o propósito narrativo. Assim, os quadrinhos poéticos, “podem ser identificados precisamente pelo fato de a categoria do ocorrido não ser mais suficiente para explicar o que está acontecendo. O “ato deliberado” de leitura tem que se tornar um trabalho de interpretação no qual a categoria do decodificado entra em jogo” (GROENSTEEN, 2011, p. 40). Temos então, o seguinte esquema onde o decodificado engloba o ocorrido, que abrange o mostrado:

Producaodesentido

Groensteen acredita que essa reflexão pode encontrar eco na teoria do “fechamento” de Scott McCloud, cunhada em Desvendando os Quadrinhos (2005), em que o autor cria categorias para o estudioso dos quadrinhos compreender a dinâmica das elipses, ou como ele chama, transições, dos quadrinhos. Contudo, para Groensteen, McCloud não questiona a natureza desse mecanismo. “Os seis tipos de “transições painel a painel” que ele identifica não levam a nenhuma distinção entre os modos de leitura. Quando McCloud interroga a natureza da ligação entre duas imagens consecutivas, ele está preocupado apenas com o relacionamento que elas podem ou não ter com um referente comum” (GROENSTEEN, 2011, p. 41).

POEpessoaEsse terceiro nível de interpretação dos quadrinhos com um “terceiro” sentido, explicaria porque muitos leitores de quadrinhos possuem uma falha na sua depreensão da mídia. Eles chegam apenas ao nível do o ocorrido, sem lançar mão de suas propriedades cognitivas para entender o significado, o decodificado. Isso explicaria com certeza porque muitos fãs de X-Men e de Star Wars não compreendem as mensagens de fundo humanitário que esse tipo de quadrinho veicula. Claro que quadrinhos dos X-Men e de Star Wars estão longe da definição strictu sensu de quadrinhos poéticos trazida por Thierry Groensteen, que serviria mais para quadrinhos independentes, experimentais e undergrounds. Contudo, ela serve para que entendamos que pessoas com déficit de interpretação das mensagens, subliminares ou não, explícitas ou implícitas, denotadas ou conotadas, sofrem de algum tipo de dissonância cognitiva.

Leia mais em:

FRANCO, Laura P. B. Análise de conteúdo. Série Pesquisa 6. Brasília, Liber LIvro e Editora, 2005.

GROENSTEEN, Thierry. Comics and narration. Jackson: The University Press of Mississippi, 2011.

GROENSTEEN, Thierry. O sistema dos quadrinhos. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial Editora, 2015.

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: M. Books, 2005.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s