A Importância da Dimensão Física na Leitura de um Quadrinho

A leitura do quadrinho na sua forma digital – seja através de aplicativos, de motion comics, de layout fixo ou dinâmico ou até mesmo em scans – tem aumentado e se popularizado. Existem muitos entusiastas do quadrinho digital, mas, por outro lado existem aqueles que não dispensam o toque no papel e o peso de uma revista nas mãos. Eu me considero um entusiasta do quadrinho físico. Sou old school e gosto de ler no papel, afinal, a maioria dos quadrinhos foram feitos para serem experienciados assim. Neste post vou falar um pouco sobre a materialidade e a fisicalidade dos quadrinhos e sua importância para a leitura dos mesmos.

As estruturas e a parte física de um objeto são elementos importantes no design, dentro do qual isso deve ser estritamente levado em conta, afinal, essa é a plataforma onde o produto será apresentado para os consumidores. A materialidade, abordagem do design, diz respeito às propriedades físicas do objeto.

“Em design gráfico isso pode designar a natureza física de um livro, por exemplo, o modo como ele é impresso, encadernado, os materiais a partir dos quais é construído e sua condição de objeto, para além de seu conteúdo e funcionalidade como forma de comunicação. […] No contexto do design gráfico, a materialidade ou plasticidade também pode se referir a uma atividade que não inclua um objeto físico presente – incluindo ambientes interativos e virtuais, como a internet ou o ciberespaço” (NOBLE, BESTLEY, 2013, p. 160)

FISassassin

Dentro das propriedades de um objeto no design gráfico, além das propriedades visuais, como fotografias, cores, tipografias, entre outros, sua tatibilidade também fornece informações e significados da sua natureza ergonômica, embora, muitas vezes esse fator seja negligenciado em favor da mensagem que se deseja comunicada. Os componentes da materialidade de um objeto de design gráfico envolvem a tatilidade, que é a propriedade de algo suscetível ao sentido do tato; a tangibilidade, de algo que pode ser sentido ou tocado, que pode ser estendido à sua percepção ou aparência externa; a durabilidade, que é a forma do objeto resistir ao tempo, ou seja, sua resistência, utilidade e relevância dentro da dimensão tempo, que pode levar a desgastes e à deterioração; e, por fim, sua textura, que é a qualidade visual e especialmente tátil de uma superfície, bem como as sensações causadas por ela. Também pode ser um termo utilizado para descrever padrões utilizados, mas que acabam despercebidos.  

FIScharlie

Para o teórico dos quadrinhos, Thierry Groensteen, em seu livro Comics and Narration, a fisicalidade de um quadrinho é importante para a apreensão de sua leitura, já que esta é uma mídia pensada para ser lida em forma de layout de página.

“O que desaparece junto com a autocontenção do trabalho é a espacialidade da memória que estava associada a ele. Esse tipo de memória é extremamente ativa no caso dos quadrinhos, onde cada painel ocupa um lugar específico, não apenas na página, mas também no livro. Um quadrinho impresso pode ser percebido como uma coleção de imagens espalhadas pela página, organizadas de acordo com uma lógica posicional que é fácil para a memória recuperar. Além do fato de que a mídia digital é caracterizada pela remoção de conteúdo de um contexto circundante, quando uma história em quadrinhos é lida na tela, como cada página sucede a próxima também a substitui e apaga, impedindo a retenção mental do arranjo dos painéis”. (GROENSTEEN, 2011, p. 66 e 67)

FISpedacoAlém disso, a materialidade dos quadrinhos permite, segundo Groensteen, que os mesmos sejam lidos na ordem e da maneira que o leitor, de posse da revista ou do livro em mãos , o manipule de acordo com sua vontade.

“A arte dos quadrinhos é fundamentalmente uma forma de literatura na qual nada está oculto, que pode ser possuído em sua totalidade, sem deixar nada de fora – o leitor pode descobri-lo simplesmente folheando-o, pode navegar por sua superfície sem obliterar o que aconteceu antes, e enquanto olha em frente para o que vem a seguir. Uma hipermídia, com seus procedimentos complexos para revelar novos materiais em etapas e seus caminhos bifurcados, priva a arte dos quadrinhos de suas qualidades de transparência e imediatismo, que, para mim, estão ligadas ao prazer muito particular que ela induz”. (GROENSTEEN, 2011, p. 76)

Por isso, assim como os livros impressos, o fim dos quadrinhos físicos está longe de acabar. Até porque pouca gente está disposta a pagar por quadrinhos digitais, principalmente quadrinhos não-inéditos, como é o caso das traduções, que demoram muito  mais para chegar ao leitor, uma vez que suas versões originais já estão disponíveis – de forma oficial e de forma não-oficial – na internet e nos aplicativos, às vezes, anos antes.

FISconto1

Segundo Noble e Bestley, “necessidade, orçamento e velocidade de produção podem ter um grande impacto em restringir a gama de materiais selecionadas para um projeto” (2013, p. 164). Isso explicaria porque muitos materiais de quadrinhos não saem fisicamente por algumas editoras, embora possuam os direitos de sua publicação. Mas a tatilidade do físico pode mudar, segundo os autores, “por meio do desenvolvimento de interfaces sofisticadas para telas de toque” (2013, p. 164). Para eles, “a partir de uma série de testes relacionados à forma tátil e visual do resultado gráfico de um projeto, o designer pode ajudar a focalizar a mensagem pretendida de forma mais clara aos olhos (e mãos) do leitor” (2013, p. 164).

FIScapa

Uma editora de quadrinhos brasileira que aposta bastante na materialidade e fisicalidade de seus produtos é a Pipoca & Nanquim, que usa de diversas possibilidades de design tátil em sua produção de livros em quadrinhos. São texturas aplicadas desde o verniz (aplicado, texturizado, prolan, soft touch), ao tipo de papel (couchê, offset, pólen), cortes arredondados nas capas, guardas de capas, elásticos para manter a capa fechada, fitas de tecido para marcar páginas, entre outros, todos elementos para – e talvez você  não perceba – incrementar a experiência do leitor com os quadrinhos, através de sua materialidade e fisicalidade. Longa vida aos quadrinhos impressos!


Leia mais em:

GROENSTEEN, Thierry. Comics and narration. Jackson: The University Press of Mississippi, 2011.

NOBLE, Ian, BESTLEY, Russell. Pesquisa visual: introdução às metodologias de pesquisa em design gráfico. 2ª edição. Porto Alegre: Bookman, 2013.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s