Quem Vai Ensinar Humanidade Para os Humanos? O Apelo do Visão de Tom King e Gabriel Hernandez Walta

Este mês saiu a conclusão da série do Visão por Tom King e Gabriel Hernandez Walta no Brasil. Foram 12 edições lá fora e dois encadernados de capa dura por aqui. A série lida, mais uma vez, com o sintozóide Visão tentando empreender e promover mais humanidade em sua vida. Dessa vez, ele cria uma família para si, com uma mulher, dois filhos e um cachorro sintozoides, que são robôs sintéticos, quase humanos. Para isso, e para serem aceitos, ele vão morar num subúrbio humano, como uma família estadunidense comum. Mas logo começam os problemas, ecoando a dificuldade humana para entender o que é ligeiramente diferente de si, como um robô, mas mesmo aqueles que, por enquanto – na visão da sociedade – são considerados humanos. Neste post vamos falar mais sobre essa incrível série, ganhadora de inúmeros prêmios, que eleva o gênero de super-heróis em quadrinhos a outro patamar.

“Que podemos saber? Que somos, ao fim e ao cabo?
[…] Aspiramos a ser anjos, mas temos instintos de bestas”.
Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes.

O plot da série do Visão é bastante inusitado e poderia afastar o leitor comum de super-heróis, desacostumado a ler histórias que retratam o cotidiano e que questionam a própria existência humana. Claro que existem histórias de super-heróis aqui e ali que tangenciam esses assuntos, como as metafísicas histórias de Jim Starlin e o problemas do dia a dia do Homem-Aranha. Mas nenhuma delas chega ao ponto que Visão chegou, embora ela também contenha as fatídicas e obrigatórias lutas de super-heróis, mortes, reviravoltas, socos e pontapés, e uma complicada e extensa cronologia.

VIShelp

O roteirista faz uso do artifício que Alan Moore considera o melhor a ser articulado numa história em quadrinho: os desenhos contam uma história, o texto conta outra e os dois juntos, acabam criando um terceiro significado. A diferença do texto de King para os demais quadrinhos que empregam esse artifício é que suas “captions” são literárias. Enquanto fala sobre as peculiaridades de seus personagens, Tom King aplica recursos próprios da literatura e nos dá a impressão de estarmos lendo um livro por cima de uma história em quadrinhos.Os quadrinhos do Visão de Tom King e Gabriel Hernandez Walta possuem uma dimensão que os quadrinhos de super-heróis não têm. E precisou de um quadrinho sobre um homem-robô para que esse gênero – enquanto um trabalho mainstream de uma obra voltada para todas as idades – atingisse um patamar filosófico/existencial mais sério e completo. O super-herói Visão, o cara que não é humano se questiona mais sobre humanidade nos quadrinhos do que os próprios heroicos seres humanos, tão abnegados.

VISsociedade

Os desenhos de Gabriel Hernandez Walta são perfeitos para a história, para o design frio e quadrado dos robôs sintozoides. Mas não é só isso, claro, porque o enredo que ele cria, as reviravoltas, os suspenses e, claro, o terror de se ter uma família de robôs tentando ser “normal” como vizinhos e colegas, também empolgam. Juntando a isso um assassinato encoberto, uma história de amor impossível, blackmailing, e temos – odeio essa expressão – um novo clássico. A verdade é que não dá pra negar que Visão traz e demonstra uma forma diferente de apresentar uma quadrinho de super-herói de todas as maneiras que vínhamos lendo até aqui.

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Tom King, nesta série, como em nenhuma outra escrita por ele que tive o prazer de acompanhar, foi tão filosófico, foi tão questionador e confundiu tanto o leitor a ponto de quem leu se colocar numa situação tal que adorou a leitura exatamente por esse desalinho mental que provoca. É o que costumam fazer as histórias de ficção científica que abordam a humanidade através da inteligência artificial, servil, porém sempre questionadora de um robô. Exemplos abundam nos trabalhos de Arthur C. Clarke, de Philip K.Dick e de Isaac Asimov, por exemplo, pais da ficção científica como a conhecemos hoje. Robôs que vivem com a família podem ser encontrados no conto e no filme O Homem Bicentenário, de Asimov; o robô que pensa que é homem, até que a chocante realidade artificial bate em sua porta, está no conto Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, que inspirou os quadrinhos de Hard Boiled – À Queima-Roupa e o filme Blade Runner: O Caçador de Andróides; Clarke teve êxito nesta empreitada com 2001: Uma Odisseia no Espaço, clássico escrito e audiovisual, dirigido por Stanley Kubrick.

VISbicentenario

Mas por que, na maioria dessas histórias, acabam sendo os robôs que questionam a sua existência, e não os humanos, ameaçados pela massa mecânica que pode substituí-los de forma mais eficiente? A resposta é que a maioria das histórias com robôs é uma crítica à humanidade e elas surgem, ou emergem novamente, quando humanos ameaçam destruir a si mesmos. Essa ameaça de aniquilação da raça humana pode vir, como comprovado historicamente, por diferenças idiotas como território, etnias, gênero, mas principalmente por causa de economia e de política.

VISnos

É curioso, mas assertivo, que a peça de Shakespeare, O Mercador de Veneza, permeie todas as 12 edições originais de Vision. Ela não somente acaba se tornando o livro preferido do filho do Visão, como dá nome para os dois encadernados. “Um Pouco Pior Que um Homem”, é o nome dado para o primeiro, tanto o encadernado original como o brasileiro; “Um Pouco Melhor do que Uma Besta”, é o nome para o segundo encadernado original estadunidense; e, por fim, “Eu Também Serei Salvo Pelo Amor”, para o segundo encadernado brasileiro. Não se sabe os motivos de a Panini Comics Brasil ter mudado o nome do segundo, já que faz parte complementar da citação original da peça. Acreditamos que tenham achado o nome “besta” forte de mais para certos brios, se é que me entendem. Optaram por outra citação da peça, que dá o título para a edição de número sete. Coisas assim já aconteceram na Editora Abril, quando o nome da graphic novel dos X-Men, “Deus Ama, o Homem Mata” foi substituído por “O Conflito de Uma Raça”.

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O Mercador de Veneza é uma peça famosa pelo arquétipo de judeu avaro, representado pelo personagem da peça, o agiota Shylock. Muitos acreditam que a peça tenha uma natureza antissemita, prefiro acreditar que ela apela à tolerância, da mesma forma que Tom King usa apenas as partes que fazem esse apelo – ainda que a partir do “vilão”, Shylock” – na boca de seus personagens.Um exemplo é essa passagem, ambígua, porém bela, e acima de tudo, reveladora da humanidade entre os humanos:

Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos,

dimensões, sentidos, inclinações,paixões? Não ingerem

os mesmos alimentos, não se ferem com as armas,

não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios,

não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem

e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos?

Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno,

não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?

Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito.

Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste?

Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser

a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança.

Hei de pôr em prática a maldade que me ensinastes,

sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.

William Shakespeare. O Mercador de Veneza. Ato III, cena I)

VIScita

Assim, é interessante que, apesar de utilizar O Mercador de Veneza, uma peça com interpretações tão ambíguas sobre antissemitismo, preconceito e até sobre homossexualidade, Tom King se utilizar justamente dos trechos dela que deixam para o leitor, ou levam a se questionar a favor de, uma mensagem de tolerância. Não por acaso o livro se torna o favorito do filho adolescente de Visão que acaba morto – por um dos seus, através do medo amplificado dos humanos. Nesse sentido, é um belo trabalho de King, que consegue expressar e produzir no leitor, o clima de medo e de pavor pelo desconhecido, produzido por máquinas sem emoção aparente, que é aquela família de sintozoides. Esse pavor, esse horror, vem da sensação de desconhecido que King aplica às intenções e sentimentos daquela família. Mas saibam que tudo, tudo que é desconhecido provoca um terror imenso sobre os seres humanos. Essa é geralmente a base das boas histórias de horror..

VIShorror

Além do terror da morte, existe um outro grande pavor que o ser humano guarda dentro de si. Se trata do medo do outro, de tudo aquilo que é diferente dele e diferente daqueles com quem está acostumado. E daí o preconceito. Nossa mente elabora diferentes situações em que esse desconhecido pode nos prejudicar, ao invés de pensar em formas de que essa situação nos seja beneficiária. O preconceito é o pensamento instintivo, não é o pensamento racional. O preconceito é o pensamento que não questiona, apenas toma o novo, o diferente, por ameaça e inimigo, sem reflexão. O preconceito é aquele pensamento folgado, acostumado, burro e preguiçoso. Ele não leva ninguém a se questionar, a refletir ou a se pôr a pensar se está agindo de forma correta.

VISrobotica

Dentro das histórias de robôs de Isaac Asimov, existem as leis da robótica. Três princípios fundamentais que toda inteligência artificial criada pelo homem deve seguir. A primeira lei da robótica é proteger o ser humano sobre todas as coisas. Sendo assim, a prioridade número 1 das Leis do Humanismo, filosofia que coloca os humanos em primeiro lugar na existência, provavelmente seja a de preservar a si mesmo.

Ao menos é assim que ocorre nas instruções de utilização das máscaras de oxigênio dos aviões. Será que essa ordem à bordo não está relacionada ao comportamento humano egoísta que coloca suas próprias necessidades em primeiro lugar?

VISoxigenio

Nas leis da robótica, somente lá pelo terceiro lugar está proteger a própria existência. Nos dez mandamentos da lei de Deus e, portanto, o criador dos humanos, segundo as religiões cristãs e judaicas, o mandamento “não matarás”, aparece em várias versões por volta da metade, na ordem das instruções divinas para os humanos. A coincidência é que essas duas formas de adoração divinas estão em constante brigas e desentendimentos, conflitos estes, mencionadas no Mercador de Veneza, por exemplo.

VISdeus

Os dois volumes de Visão nos mostram algo que anda faltando para homens (e mulheres, e as pessoas no meio dos dois gêneros) de todos países: questionar o quanto de seus atos são ou não são humanos, e o quanto coisificados estamos ficando, o quanto robotizados e alienados nos tornamos. O quanto dessa mentalidade de rebanho, “farinha pouca, meu pirão primeiro”, “além da queda, coice”, “cada um por si e Deus CONTRA todos”, estamos ávida e sedentamente perseguindo, por mais que nossas vidas estejam confortáveis se comparadas às vidas de milhares de miseráveis. Isso é ainda mais patente no Brasil, país criador do “jeitinho malandro e brasileiro” e da “Lei de Gerson”, que tem como princípio levar vantagem própria em tudo. Talvez, ao fim e ao cabo, esse comportamento é que configure um ser miserável, e não passar necessidade. A necessidade, como o quadrinho do Visão comprova, só nos torna mais humanos. A satisfação delas, cada vez menos.

VISgerson

Por muito tempo os robôs e os alienígenas foram os inimigos principais dos super-heróis nas histórias em quadrinhos. Mas quando os próprios humanos são tornados “outsiders”, são rejeitados pelos demais, acabam alienados uns pelos outros e alienígenas no próprio mundo que os criou. Por outro lado, outros “humanos” são robotizados pela mídia e pelas fake news, tornados exércitos em uma luta desumana contra as minorias: aqueles que os autoproclamados humanos acreditam que são as novas ameaças desconhecidas.

Nesse cenário, quem é que vai “salvá-los pelo amor”, que vai salvá-los da ameaça que eles mesmos provocam a si próprios? Serão os robôs, serão os alienígenas? Nos universos da DC Comics e da Marvel, talvez sim. Mas no mundo real, infelizmente, não temos nem robôs nem alienígenas para compreender e atacar na questão de ensinar – mesmo que por contradição – humanidade para os humanos. Logo em breve estaremos extintos pelas nossas próprias mãos se ninguém mais topar mais ser salvo pelo amor, a favor de exterminar os outros pelo ódio.

VISvolume2

A opção da Panini por substituir o subtítulo do segundo encadernado de Visão, diminui um pouco a força da obra, já que eram duas frases em oposição da peça de Shakespeare, O Mercador de Veneza. Estas duas frases ecoam esta citação do poeta português Fernando Pessoa: “O homem é um egoísmo mitigado por uma indolência. O animal é a mesma cousa”. As duas frases do bardo inglês, sobre homens e bestas, fazem referência ao judeu Shylock, que não é considerado nem homem, nem animal, mas algo flutuando no entrelugar destas duas coisas. Se Shylock não é homem e nem besta, ele nada é.

VISelenao

Essa analogia pode ser usada para muito bem para um robô, como é o caso do Visão. Ao usar o Visão, Tom King e Hernandez Walta conseguem descrever o mesmo conjunto de situações que acontecem para um negro, para uma mulher, para um nordestino, para uma pessoa queer LGBTQI+, para um cadeirante, pessoas com problemas de desenvolvimento, para um portador de síndrome de down ou portadores de outras síndromes, estigmas ou máculas que desumanizam os homens à vista da sociedade, todos desassistidos da humanidade dos humanos egoístas. A leitura de Visão e a situação eleitoral do Brasil, neste fatídico dia de eleições gerais neste país, reverbera mais outra frase, dessa vez do escritor francês Victor Hugo: “O egoísmo social é um começo de sepulcro”. E assim, enfim, desembocamos na frase de Oscar Wilde, dândi inglês que foi perseguido, julgado e condenado por ser gay: “Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos”. Para aqueles que sabem interpretar, um meio #elenao basta.

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