O Chama do Remorso, Alan Moore e os Filmes de Super-Heróis

Faz tempo que o grande escritor de quadrinhos, Alan Moore, vem difamando os super-heróis, bem como os filmes derivados delas. O autor de Watchmen, Monstro do Pântano, A Liga Extraordinária e tantos outros quadrinhos de sucesso, ainda se ressente do tratamento que a indústria de quadrinhos de super-heróis americana tratou os direitos autorais de suas criações, de forma que ele poderia estar ganhando muito mais royalties com seus trabalhos. Assim, ele começou a falar mal dos super-heróis que trabalhou por muito tempo, dizendo, entre outras coisas, que eles são “a catástrofe do século XX”. Em seu último trabalho em quadrinhos, Cinema Purgatório, Moore dispara novamente sua metralhadora contra os filmes de super-heróis. Ou ele estaria disparando contra si mesmo? Comentamos tudo isso, a seguir.

CinemaPurgatorioCinema Purgatório é o mais recente trabalho de Alan Moore e Kevin O’Neill nos quadrinhos. Trata-se de uma antologia do terror “na forma de filmes antigos”, preto e branco, como diz Moore em sua apresentação. Foi concebida como uma campanha no Kickstarter, plataforma de crowdfunding dos Estados Unidos, e foi editado pela Avatar. Também estão na HQ, escritores como Garth Ennis, Kieron Gillen, Christos Gage e Max Brooks, apoiados por desenhistas novatos que trabalharam na série de horror gore de Ennis, Crossed.

Moore e O’Neill trazem uma história de uma mulher presa num cinema por toda eternidade. Ennis mostra uma dupla de policiais se encontrando com criaturas clássicas do cinema. Gillen traz uma disputa estilo Pokémon num mundo pós-apocalíptico e com grandes pitadas de bizarrice e terror. Gage dá uma nova interpretação para os kaijus, transformando eles no resultado de uma praga alienígena que se mistura com nossa fauna. Todas essas leituras têm o seu insight e conceitos bacanas e uma história interessante que captura o leitor. O ponto baixo é a história de Max Brooks, que se passa na Guerra de Secessão, a Guerra Civil Estadunidense, que só tem graça mesmo para quem tem uma ligação estreita com os EUA. Não é o meu caso.

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Além das histórias interessantes, essa edição apresenta, em uma das três histórias da parte de Alan Moore, que também se intitula Cinema Purgatório, é uma crítica aos super-heróis.Como falamos antes, a série se trata de histórias curtas, em que uma mulher, presa ao cinema pela eternidade, tem de assistir filmes para “cumprir sua pena”. A primeira história mostra um filme antigo do cinema mudo, que fala sobre um crime. Mas logo as coisas fogem de controle e a polícia desfere uma matança contra todo mundo e fica com todo o dinheiro do banco. A segunda história, mostra um César conversando com seu tutor, um sábio grego, lembrando filmes clássicos no estilo Cecil B. DeMille e Joseph L. Mankiewicz. Contudo, os personagens vão percebendo aos poucos que não são bem quem acreditam ser, e se percebem como atores num palco para entreter os outros, mostrando a fragilidade do simulacro cinema, assim como na primeira história de Moore e O’Neill.

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Mas é a terceira história de Moore e O’Neill que mais nos interessa nesta discussão. Nela, os dois dois trazem o herói O Chama do Remorso, cujo arquétipo e histórias são bem calcados no Superman da Era de Ouro e, talvez, a intenção tenha sido decalcar o quadrinho nas cine séries do super-herói. O Chama do Remorso precisa, em diversas vezes salvar a mocinha Kay Terry do vilão Joe Casey (seria uma brincadeira, ataque ou homenagem ao escritor de quadrinhos com o mesmo nome?). Os poderes do Chama do Remorso são os de voltar no tempo e consertar seus próprios erros, à revelia do vilão Casey e com a ajuda da mocinha Kay Terry.

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A acepção de remorso, é um sentimento de arrependimento que causa sofrimento. Uma sensação de inferioridade que apela pelo código moral de cada um. A palavra remorso tem origem latina, vem de remorsus, particípio passado de remordere, que significa tornar a morder. Ou seja, quem sofre de remorso, está se ferindo novamente, ou como dizem, mordendo a própria cauda e remoendo erros do passado. Segundo a psicóloga Anna Wierzbicka, está nas mãos de cada um curar o próprio remorso. Por isso, talvez, O Chama volte no tempo para fazer o que não conseguiu antes.

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Então, será que usando essa alusão, Moore está criticando a si mesmo, por não ter assinado um contrato melhor com a Marvel e a DC Comics na utilização das histórias que ele criou, que hoje ganham cinemas e televisões do mundo todo? De que ele poderia voltar no tempo e consertar aquilo? Ou será que ele está criticando as Duas Grandes, que hoje se arrependem de não ter Moore em suas fileiras e que, se pudessem, usariam superpoderes de voltar no tempo para ter o escriba de volta?

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Em determinado momento, o vilão, Joe Casey, comenta que começa a sentir o calor da chama do remorso: “F-faz com que me arrependa do que cometi. Não aguento mais”. E Continua em outra página: “F-fizemos coisas terríveis. E não podemos mudar esse fato. Nossos pecados são imperdoáveis. N-não importa o que fizermos, ela vai nos seguir até o fim de nossos dias. Não há escapatória!”, quando o vilão se lamenta de torturar o herói e a mocinha e colocá-los numa câmara de gás.

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Então a narradora, que assiste a tudo atônita comenta que crianças não deveriam ver aquilo, com tanta violência. E completa: “A ideia de algo seguindo você e arruinando sua vida… algo que não pode morrer… é deprimente!”. Estaria aqui Moore fazendo uma metáfora para a sua situação, para a das editoras, ou ainda, para a dos leitores, colecionadores de quadrinhos e entusiastas de super heróis em geral? Na última página da história, a narradora toma uma conclusão sobre o que viu no cinema: “É engraçado… o Chama do Remorso… é o tipo de filme que gruda na sua cabeça… Entra no seu cérebro, e a atmosfera inteira fica colorida. Imagine fazer algo tão ruim na sua vida para receber uma punição como essa”.

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Moore também parece criticar o uso da repetição nas histórias em quadrinhos. Como sabemos, as histórias de super-heróis são histórias sem fim, que repetem e repetem o fato deles terem de salvar o mundo esta e outras vezes. E, com isso, não evoluem. Ficam sempre presos a um purgatório, onde tem de cometer as mesmas ações, repetir e consertar os mesmos erros. Essa, inclusive, é a definição grega do seu inferno, o Tártaro: uma sucessão de trabalhos infrutíferos. Um exemplo é o famoso trabalho de Sísifo, que tem de empurrar uma rocha gigante montanha acima, só para, quando chega no topo, ver ela rolar para a base novamente.

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Então, diferente da maioria das críticas do escritor barbudo inglês, essa ficou em aberto. A quem ele estava associando o remorso e os super-heróis? Se Cinema Purgatório continuar a ser publicado, saberemos? O curioso é que é importante falarmos de remorso em um tempo em que as pessoas parecem não sentir nenhum arrependimento pelas suas ações. Um bom exemplo é a ascensão de um candidato que apoia a ditadura – o maior desastre que o Brasil, um país quase sem guerras, enfrentou em sua história recente.

Muitos veículos de comunicação vieram a público, bem como o Vaticano e os Estados Unidos, 50 anos depois, se desculparem por terem apoiado a ditadura em nosso país. Mas, como diz um artigo de opinião da Folha de S. Paulo, não vai adiantar nada apoiar um candidato fascista e 50 anos depois vir pedir desculpa em público. Acho que é nesse ponto do remorso que Moore quer tocar: tomar cuidado com nossas ações e atitudes, para depois não querer retornar a um tempo passado e tentar consertar ações que nunca mais poderão ser reparadas.

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