Os Campeões Discutem o Problema do Armamentismo e dos Tiroteios em Escolas

Este mês, na edição Champions #24, escrita por Jim Zub e desenhada por Sean Izaakse, a Academia de Visões do Brooklyn, onde estuda Miles Morales, o novo Homem-Aranha é atacada por um homem portando armas e disparando para todos os lados. Muitos alunos são vítimas fatais e outras vítimas acabam hospitalizadas, inclusive um grande amigo de Miles. Mas qual é o papel de um super-herói e das pessoas normais frente a tantas ameaças como o fim da segurança e da liberdade por pessoas que podem portar armas e dispará-las dentro de um sistema legal? É isso que esse quadrinho discute e hoje eu também quero discutir com vocês.

RCO001_wA edição começa com a nova equipe dos Campeões reconstruindo um prédio, que foi destruído durante uma batalha de heróis e vilões. Então, Miles Morales recebe uma mensagem em seu celular que o faz partir daquele lugar às pressas. Ele chega à Academia de Visões do Brooklyn, e a escola havia sido invadida por um homem armado que disparou nos professores e alunos. Essa situação é bastante comum nos Estados Unidos onde o porte e venda de armas por pessoas civis é liberado. Assim, milhares de estadunidenses mantém armas em casa para “se defenderem”. Mas esse porte também faz com elas caiam em mãos de crianças e de adolescentes, ou até mesmo adultos que, ao se sentirem injustiçados pelo mundo, decidem sair às ruas de armas nas mãos atirando em quem aparecer na frente. O alvo preferido destas pessoas são escolas, onde prolifera outra cultura bem típica dos americanos: a dos vencedores e dos perdedores.  

CAMcolumbineEsse fenômeno não é novo, ele vem sendo criticado desde 1992 quando o diretor de cinema Gus Van Sant trouxe à luz seu documentário Tiros em Columbine, retratando o ataque a uma escola na cidade homônima por motivos de bullying. Além disso, mais recentemente o tiroteio na escola californiana Sandy Hook, uma escola primária, em 2012, que matou crianças de todas as idades comoveu a população. Mais ainda esse ano, em Parkland, Florida, as crianças e adolescentes que estudavam na escola passaram a promover campanhas contra a administração de Donald Trump e o porte e o comércio de armas. Aqui no Brasil, o episódio mais famoso é o que ficou conhecido como Tragédia de Realengo, em que um homem armado invadiu uma escola no bairro de realengo, no Rio de Janeiro disparando contra crianças, adolescentes e professores.

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Assim que, nos Estados Unidos é comum submeter crianças e adolescentes em escolas públicas e particulares a simulações de atentados. Isso também é retratado na revista quando a escola de Kamala Khan precisa passar por uma dessas simulações. Isso deixa todos os alunos acuados e com medo, sem nunca saberem se é ou não uma simulação ou um tiroteio real.

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Podemos ainda citar outros massacres provocados por porte de armas por civis: o Massacre no Boate Pulse de Orlando, o Tiroteio na Maratona de Boston, o atentado em Oklahoma City, o tiroteio em Las Vegas ano passado (deixando 59 mortos), sendo o mais recente numa sinagoga em Pittsburgh, deixando 7 mortos. Dados confirmam que acontece um tiroteio de larga escala nos Estados Unidos a cada 64 dias, e que por volta de 30% dos tiroteios que ocorrem no mundo se dão naquele país. O site Mass Shooting Traker traz dados mais pormenorizados para os interessados. Enquanto os homicídios à mão armada diminuíram 50% desde 1993, os ataques em massa aumentaram quase na mesma proporção, com a exceção de que deixam mais mortos e feridos no seu lastro.

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Além do porte e comercialização de armas liberado, a cultura do bullying e da superioridade individualista, outros fatores também contribuem para esse fenômeno. O espalhamento das doenças mentais em pessoas que não buscam tratamento; o abuso doméstico, que ocorre em 57% dos casos; o desejo por buscar uma vingança que o Estado não é capaz de suprir; o desejo por fama e notoriedade e uma vontade de imitação a justiceiros autoproclamados, e falhas do governo na contenção de prisioneiros, de fazer a manutenção dos dados das armas em sua posse.

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A cultura das armas também chegou perto dos super-heróis no mundo real, quando durante uma sessão do filme Batman: The Dark Knight, um homem totalmente armado, camuflado e cheio de proteções no corpo invadiu uma sala de cinema e começou a disparar a esmo. Isso aconteceu em 2012 na cidade de Aurora, no Colorado. Outro dia, minha mãe estava assistindo ao Discovery Investigation e o caso, que ficou conhecido como o Massacre de Aurora passou na televisão, dramatizado. Isso é irônico, pois é justamente o Batman o super-herói que tem maior aversão por armas, tendo seus pais mortos por um ladrão de jóias à queima-roupa.

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Mas não é apenas o Batman que teve parentes mortos por armas de fogo. Peter Parker, o primeiro Homem-Aranha também perdeu seu querido Tio Ben, alvejado por um tiro de um bandido que ele se recusou a prender. Nesta edição de Os Campeões, quem relembra tiroteios na família é Riri Williams, a Coração de Ferro, que teve tanto o pai quanto o padrasto mortos em um tiroteio entre marginais e policiais. Foi um policial quem matou seu padrasto. Assim, como integrante dos Campeões, esse assunto deixa Riri ainda mais fragilizada.

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O amigo de Miles Morales que leva dois tiros é Fabio Medina, o ex-x-man conhecido por Bolas Douradas. Ele foi criado por Brian Bendis e Chris Bachalo em sua fase em Uncanny X-Men, dentro da equipe de Novos Mutantes de Ciclope. Como o personagem não foi mais usado em X-Men, Bendis o incorporou no elenco da Academia Visões do Brooklyn nas histórias de Miles Morales. Fabio, diferente da maioria dos super-heróis é um latino com sobrepeso e seu poderes são bizarros. Pode geral bolas de ouro que saem através de seu corpo e ficam quicando por aí.

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Ao ser atendido por uma conselheira na escola, Miles diz que não consegue lidar com aquela situação porque acha que poderia ter feito algo para ajudar seu amigo Fábio. A conselheira diz para Miles que ele não poderia ter feito nada, afinal, sem saber de sua identidade secreta, ela diz que ele “NÃO É UM SUPER-HERÓI”. O que deixa Miles ainda mais preocupado. Então ele busca a ajuda dos Campeões, mais especificamente de Kamala Khan, a Miss Marvel, que diz “o simples pensamento de que as pessoas estão sofrendo e morrendo e você tem o poder para evitar é terrível”. Mas na verdade, mesmo sem superpoderes, todos nós temos a chance de evitar que pessoas sofram ou morram. Seja aconselhando, conversando, doando seu tempo, doando seus dinheiro, abraçando, e também, claro, votando em nossos representantes.

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“Mas nós não podemos salvar todo mundo”, diz Miss Marvel. Não, nós não podemos. Por mais que queiramos, por mais que as pessoas tenham educação, alguns nunca vão olhar para o próximo. Ninguém pode salvar outra pessoa da sua própria ignorância. Ninguém consegue abrir os olhos de uma pessoa com palavras. Ninguém pode convencer uma pessoa egoísta a salvar outras pessoas. E Kamala continua: “precisamos aceitar as nossas limitações” e precisamos, infelizmente, aceitar as limitações dos demais. Então, Kamala estende a mão para Miles e pergunta: “Desespero ou Esperança?”. Ao que Miles pega na mão da amiga.

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Frente a pessoas que acham que a violência, que armas e brutalidade vão resolver as coisas, que é a tortura que traz a verdade para as coisas, só podemos nos resignar e conhecer as nossas limitações e as limitações de cognição e empatia dos outros. E manter a esperança que alguma chama de conhecimento vai iluminar essas cabeças para que não pensem individualmente, acabando com vidas com tiros disparados para todos os lados por causa de um desejo egoísta. Não devemos cair no desespero, pois o desespero nos torna vítimas, precisamos abraçar a esperança, que nos torna agentes da mudança, da resistência e traz força e resiliência a todos nós. Como Kamala fez com Miles e todos os Campeões também abraçaram essa causa: ‘NINGUÉM LARGA A MÃO DE NINGUÉM!”.

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4 comentários sobre “Os Campeões Discutem o Problema do Armamentismo e dos Tiroteios em Escolas

    1. Oi Márcio!
      Eu aceito, tanto que aceito que estou fazendo oposição, se estivesse negando essa realidade, porque me opor à ela?!
      E mesmo se não aceitasse, me colocariam no meu lugar (como você fez agora) e me obrigariam a aceitar.
      Mais uma coisa: peço que procure pelo significado de “mito”. Porque nesse sentido eu concordo completamente contigo. Ele, definitivamente, é um mito.
      Quanto à maioria do povo estar com ele, vamos ver isso no final de 2019. Foi assim em todos os governos, mesmo os reeleitos.
      Abraços! =)

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      1. O Mito é de “parmito” (pois o mesmo é possuidor de canelas compridas, finas e muito brancas). O mito já explicou várias vezes isso, inclusive. E fico feliz em saber que o amigo conhece o significado de se viver em uma democracia (onde vale a vontade da maioria da população que compõe um estado/nação).

        Abraços.

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