Com “Aquaman”, a Hipermasculinidade Está de Volta? Sério?

Esta semana, para divulgar o filme do Aquaman, o jornal espanhol El País lançou uma matéria intitulada”De Khal Drogo a Aquaman: a hipermasculinidade retorna com Jason Momoa”. Um título bastante estranho, em se considerando os viéses que o jornal costuma dar a suas matérias. Mais estranho ainda é a matéria com esse título ser assinada por uma mulher, Noelia Ramirez, que só conseguiu enxergar músculos no filme do herói submarino. Neste post quero discutir algumas falácias que a mídia costuma divulgar sobre a masculinidade e as masculinidades e examinar um pouco o caso de Jason Momoa como Aquaman.

A matéria abre dizendo que o ator de Entourage estava cotado para ser o Aquaman. Na verdade, isso foi uma piada interna do seriado, onde ele acaba incorporando o personagem em um episódio. A verdade é que com tantas mudanças étnicas nos personagens em suas versões para o audiovisual, não seria necessário que o Aquaman fosse um loiro de olhos azuis que usa um uniforme laranja e verde. Também os estúdios queriam se afastar da imagem cômica do personagem difundida pelo Cartoon Network, como um homem que monta num cavalo-marinho rosa gigante e que fala com os peixes. Outra verdade é que o Aquaman nunca consegui atingir a importância e a seriedade que seu análogo na Marvel, o príncipe submarino Namor, que foi criado anteriormente, teve naquele universo de histórias.

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Isso não quer dizer que o personagem não seja interessante, mas como imagem é tudo neste mundo, a mudança para a encarnação de Momoa foi necessária para dar o estofo de “seriedade” que Aquaman precisava. Em sua nova versão, o herói submarino lembra um pastiche de Thor, dos filmes da Marvel, que é uma espécie de bárbaro beberrão e boa-vida, que gosta de dar porrada. Isso se repete em outros personagens de Jason Momoa, como Conan e o Khal Drogo citado na matéria. Essa versão dos personagens fica mais distante do Aquaman ou do Thor e se aproxima do Hércules da Marvel, que sempre foi símbolo da tal “hipermasculinidade” da matéria, embora nunca tenha sido um personagem sério ou ainda heterossexual demais, muito pelo contrário. Hercules vestia saias desde sua primeira aparição nos Vingadores da Casa das Ideias.

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É preciso analisar essa palavra “hipermasculinização”. O que é masculino, já é hiper, algo másculo já vem acompanhado por quilos de músculos e dentes rangidos, o masculino já denota submissão por parte do feminino e também inferiorização das mulheres. Uma hipermasculinização, portanto, é uma hipérbole das hipérboles. Talvez a autora esteja se referindo a ela como uma nova retomada de valores “masculinos”, como beber e arrotar, fazer festa e pegar todas as mulheres a rodo, ser o bom em tudo que faz e ser admirado por isso, como algo de valor. O que eu não creio que seja. talvez a autora tenha confundido a expressão “hipermasculinazação” com virilidade, quando as duas palavras são parecidas, mas não iguais.

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Na série de livros sobre a História da Virilidade, Jean-Jacques Courtine (2013, p. 9) assume que a concepção de “masculinidade” sempre se baseou em um jogo semântico, pois durante muito tempo se assumiu que o “homem real” era o “homem viril”. Para ele, “que o ‘masculino’ tenha vindo suplantar o ‘viril’ é bem o sinal de que, decididamente, há algo que mudou no império do macho”. Dentro desta história da virilidade, solidificou-se o mito de que o homem viril tinha sua natureza no corpo, um misto de força física e potência sexual sublinhado por um ideal de autodomínio e de coragem. Estudar masculinidades, no plural, e não a virilidade, no singular, significa enxergar o homem – enquanto gênero – em todas as suas faces. Seja o homem gay, o homem trans, o homem cis, hétero, e todas variações queer. Também significa estudar o lado oculto da virilidade, como bem explicita Pierre Bourdieu:

O privilégio masculino é também uma armadilha […] que impõe a cada homem o dever de afirmar, em qualquer circunstância, a sua virilidade […]. A virilidade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão para o combate e para o exercício da violência, é antes de tudo uma carga. Tudo concorre para fazer do ideal da impossível virilidade o princípio de uma imensa vulnerabilidade (BOURDIEU, 2002, p. 75-76).

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Outro fato curioso é que, em nenhum momento a autora fala sobre a sexualização do personagem. Esse é um dos outros mitos da tal “hipermasculinização” sempre muito presente nas histórias de super heróis com seu oposto a “hipersexualização masculina”, presente em cada uniforme colante e cada herói sem camisa mostrando os pelos do peito. A feminista Laura Mulvey (2011) também encontrou esse lado oculto da dominação do olhar masculino sobre as mulheres. Ela acredita que “a figura masculina não pode suportar o fardo da objetificação sexual. O homem mostra-se relutante em olhar o seu semelhante exibicionista. Assim, a divisão entre espectáculo e narrativa mantém o papel do homem como o papel activo que faz a história avançar, que faz as coisas acontecerem”.  Mulvey considera que essa vulnerabilidade tem a ver com a identificação do espectador masculino com o protagonista masculino. À essa medida: “o espectador projeta o seu olhar sobre o seu semelhante, o seu substituto no ecrã, para que o poder do protagonista, enquanto controla os acontecimentos, coincida com o poder ativo do olhar erótico, dando ambos a satisfatória sensação de omnipotência” (MULVEY, 2011, p. 126).

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Esse é o feito que o Aquaman causou na jornalista. Reafirmou seu papel como mulher inferior, que deve aplaudir os homens a partir da sua onipotência e celebrar uma pretensa volta da “hipermasculinidade”, que nunca deixou de estar aí. A tal masculinidade, virilidade ou hipermasculinidade, permeia todas as relações humanas, porque ela envolve o poder. E não é o poder relativo aos super-heróis, mas à opressão dos homens sobre as mulheres, reafirmada em valores sócio-culturais ou em reportagens irresponsáveis como esta do El País. A conexão entre poder sobre o outro ou a outra e a forma com o fazer-se viril é o que queremos questionar: ela se dá através da submissão e da inferiorização de outros gêneros e não através da afirmação de critérios próprios da masculinidade. “Nenhum destino biológico, psíquico, econômica é capaz de definir a forma que assume dentro da sociedade o macho humano; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o homem e o super-homem que chamamos de viril”, nos diz Simone de Beauvoir (1980, p. 497).

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De que forma Aquaman trouxe a hipermasculinização de volta, se ela está presente com  o Superman Henry Cavill e sua montanha de músculos e pelos, quebrando o pescoço de seu inimigo? De que forma ela abandonou as telas, com o Batman falando naquela sua voz “rouca e poderosa” para se diferencial do requintado Bruce Wayne? A hipermasculinidade dos heróis acaba afetando ela própria a si mesma, com muitos deles sendo “shippados” como casais gays como é o caso de Capitão América e Soldado Invernal, de Capitão América e Tony Stark, de Stark e Bruce Banner e Thor e Loki, apenas na Marvel. Ao mesmo tempo em que se sustenta, a masculinidade e a virilidade se desestabilizam, pois são tão frágeis que não conseguem parar em pé sem determinados elementos que as compõem. Por isso, falamos em “masculinidades” no plural e não no singular, pois existem muitas formas de se exercer e de se representar o masculino.

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O mesmo pode ser dito sobre a forma de se representar os super-heróis em que podem ser encontrados muitos atributos associados à masculinidade, entre eles: “força física, virilidade, poder econômico, racionalidade, controle emocional, honra, lealdade e a predominância masculina na esfera pública. Estes valores coexistem, sobrepondo-se e dialogando, frequentemente em contradição” (BEIRAS et. al., 2007, p. 66).

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De acordo com Middleton (1992, p. 25), “quadrinhos de ação hipermasculinizada são oferecidos aos meninos como informações privilegiadas sobre a vida dos homens”. Lendo quadrinhos de ação, os meninos podem sublimar uma possível ausência masculina em suas vidas, ao mesmo tempo em que a substituem por uma representação extrema da masculinidade, que define não apenas um modelo físico, mas de conduta moral. Super-heróis, em grande maioria, são “altos e  de ombros largos. Apenas os patetas ou malvados têm corpos que não se encaixam nesse estereótipo. Formas roliças, gordura ou qualquer sinal de efeminação são todas claras indicações de fraqueza” (MIDDLETON, 1992, p. 31).

EXCLUSIVE: Jason Momoa and Amber Heard film Aquaman

Seria Aquaman e os filmes de super-heróis fantasias heroicas e eróticas sobre a masculinidade, das tais “informações privilegiadas sobre a vida dos homens”? A sublimação da ausência masculina – algo cada vez mais constante num mundo de mulheres que criam seus filhos sozinhas, pois seus machos foram viver sua masculinidade e virilidade mundo a fora com outras mulheres e sem responsabilidade – se torna importante ferramente de identidade para os homens através do heróis. Mas se ao mesmo tempo a estabiliza, também a desestabiliza, pois o olhar que admira, logo pode se tornar o olhar que deseja. E admiração e desejo são facas de dois gumes, o Complexo de Édipo está aí para provar isso.

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Então, se a hipermasculinização traz de volta valores da virilidade que segundo a autora estavam abandonados, ela também faz rebrilhar o desejo erótico sobre os protagonistas da mesma forma que ela conquista ações de assimilações e de reescrituras sobre esse fator de busca e formação do que a pessoa vai considerar seu gênero e sua sexualidade. Ninguém passa incólume pela massiva cultura pop. “O pop não poupa ninguém”, dizia a música dos Engenheiros do Hawaii. Não poupa hiperbrutos, nem hipersensíveis, nem hipermasculinizados, nem hiperafeminados. Tudo que é pop é de posse de todo mundo.


Para saber mais:

BEIRAS, Adriano, LODETTI, Alex, CABRAL, Arthur Grimm, TONELLI, Maria Juracy Filgueiras, RAIMUNDO, Pablo. Gênero e super-heróis: o traçado do corpo masculino pela norma. In: Psicologia & Sociedade; número 19, volume 3: páginas 62-67, 2007.

BOURDIEU  Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: volume 1. Fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

MIDDLETON, Peter. The Inward Gaze: Masculinity and Subjectivity in Modern Culture. Nova York: Routledge, 1992.

MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: MACEDO, Ana Gabriela e RAYNER, Francesca. Género, cultura visual e performance: antologia crítica. Minho, Portugal: Edições Húmus, 2011.

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