A Marvel Apresenta: “O Mundo Fora da Sua Janela”

Sim! Tem aqueles que reclamam que quadrinhos não deviam tocar em assuntos sociais. Que acham que é mimimi. Que quadrinhos devem ser apenas pura diversão e não precisam nem um pouco conscientizar as pessoas. Mas a Marvel Comics não pensa isso. Tanto que ela convida você a visitar “O Mundo Fora da Sua Janela” nesta nova coletânea da Casa das Ideias em que suas revistas tocam temas delicados da nossa sociedade contemporânea. “The World Outside The Window” é uma nova coletânea que reúne quadrinhos de super-heróis que falam sobre temas e problemas do mundo real. Neste post, vamos falar sobre as quase 15 histórias que este encadernado abridor de mentes encerra. E quem não não gostou rola pra baixo e curte o próximo bichinho que aparecer.

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AMAZING SPIDER-MAN (1963) #97

Essa foi a primeira revista da Marvel Comics a sair sem a aprovação da Autoridade do Código dos Quadrinhos. A associação anti-drogas dos Estados Unidos havia pedido a Stan Lee um quadrinho que abordasse os perigos do abuso das drogas, mas o Código não permitia que a palavra drogas fosse usada em um quadrinho. Assim, a Marvel preferiu não usar o símbolo do código e lançar a revista mesmo assim. Ela trazia uma história que mostra Harry Osborn lutando contra o vício nas anfetaminas enquanto o Homem-Aranha luta contra o Duende Verde. Foi uma história em duas edições. A revista foi lançada em junho de 1971 e além de Stan Lee como escritor, tinha Gil Kane nos lápis e John Romita Senior na capa.

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HOWARD THE DUCK (1976) #8

A próxima revista dessa lista é a louca oitava edição de Howard, o Pato. Sim, ele mesmo. Ela trata da candidatura de Howard como Presidente. Nessa época, como os Estados Unidos estavam muito desiludidos com o Escândalo Watergate de Nixon e a Guerra do Vietnã, muitos resolveram escrever o nome do Howard – que era um personagem popular na época – e escrever ele nas cédulas de votação. O quadrinho trata sobre uma tentativa de assassinato de Howard porque ele era candidato a presidente, concorrendo com Gerald Ford e Jimmy Carter. Depois de muitas maquinações do marketing e dos relações públicas da campanha de Howard e, claro de evitar seu assassinato, 48% dos estadunidenses querem sua morte, 30% votarão nele e 22% ficam indecisos. Foi a primeira revista a colocar um personagem fictício como concorrente de uma eleição real. A revista saiu em janeiro de 1977 e foi escrita por Steve Gerber e foi desenhada por Gene Colan.

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IRON MAN (1968) #128

A edição de número 128 de O Invencível Homem de Ferro tratou de outra droga que causa dependência, mas uma droga lícita: o álcool. Nela aprendemos que Anthony Stark, o Homem de Ferro tem problemas sérios de alcoolismo que acabam levando ele a ter sua vida pessoal, profissional e heróica devastada. E não por um mero supervilão, mas por seu vício em whisky e outros tipos de bebidas com alto teores alcoólicos. Tony Stark, conheça Tony Stark, seu pior inimigo! O vício de Tony começou a ser abordado aqui, mas volta e meia, em várias revistas ele retorna como tema da luta pessoa do Homem de Ferro contra sua vontade de destruir a si mesmo através de seu círculo vicioso. A saga Demônio na Garrafa foi apresentada ao mundo em novembro de 1979 por David Michelinie, Bob Layton e John Romita Jr.

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NEW MUTANTS (1983) #45

Escrita por Chris Claremont e desenhada por Jackson Guice, com capa de Barry Windsor-Smith, esta edição dos Novos Mutantes é uma das mais emblemáticas do Universo Mutante quando se trata do tema preconceito. Um dos colegas de escola dos Novos Mutantes pede ajuda ao X-Factor, revelando-se mutante. Por causa disso, ele é tão perseguido na escola onde estuda que acaba cometendo suicídio. A edição trata então, de como comportamentos e preconceitos radicais só levam a um caminho: a morte. Durante o funeral do garoto, Kitty Pryde e Magneto fazem discursos emocionados se colocando não como mutantes, mas como judeus e o preconceito sofrido por essa comunidade durante o Holocausto e muitos anos antes e depois dele.

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ALPHA FLIGHT (1983) #106

Escrita durante a década de 1990, quando a histeria com a Síndrome da Imunodeficiência Auto Adquirida, a AIDS, estava em seu auge, o escritor Scott Lobdell e o desenhista Marc Pacella, trazem uma história tocante, também sobre preconceito. Nesta história, a Tropa Alfa e mais especificamente o herói mutante Estrela Polar enfrentam um herói da Era de Ouro do Canadá que está revoltado com a morte de seu filho. No processo, acaba destruindo uma maternidade, onde estava um bebê soropositivo. Estrela Polar acaba adotando esse bebê e, no processo, acaba se revelando como homossexual. Na época, acreditava-se que a AIDS era causada pelos gays. Um quadrinho importante não apenas por desmistificar a AIDS, mas a homossexualidade.

Você pode ler uma resenha completa dessa edição neste link aqui.

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UNCANNY X-MEN (1981) #303

Se você não acredita, existia sim uma histeria sobre a AIDS nos anos 1990. na verdade a epidemia da doença ainda é massacrante nos dias de hoje, mas não existe mais tanto esforço da mídia em divulgar nem a doença nem seus tratamentos porque já se provou que ela não atinge nem somente homossexuais e nem somente heterossexuais. E mais que isso, que as pessoas possuem comportamentos sexuais fluidos. Ou seja, não são sempre homo e não são sempre hétero, como alguns poderosos creem. Essa constatação levou Scott Lobdell novamente confrontar o público com uma metáfora à AIDS na comunidade mutante: o Vírus Legado. Depois que Illyana Rasputin morreu vítima da doença que só acometia mutantes, logo fica sabendo que a médica que cuidava dela, Moira McTaggert também havia sido infectada. Ou seja, Legado não era uma doença só exclusiva de mutantes, ela também infecta humanos. Bela metáfora, não? Por isso, cuidado para onde apontas o dedo, tem mais três virados para ti!

Leia mais neste post sobre os X-Men e as analogias dos Anos 1990.

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INCREDIBLE HULK (1968) #420

Percebam como a epidemia de AIDS caiu como uma bomba sobre o mundo. Por que? Porque ela lidava com o comportamento sexual das pessoas e não tem nada mais curioso para qualquer um do que a vida sexual do outro. Some-se a isso o circo que a mídia fez sobre a responsabilidade pela epidemia e por todas as demais formas como se comportou durante essa histeria. Bem, claro que as histórias em quadrinhos também são uma mídia e elas não escaparam de abordar o tema, direta ou indiretamente. Nesta edição de Hulk, escrita por Peter David e desenhada por Gary Frank, o Hulk precisa salvar Jim Wilson, o sobrinho da Falcão Sam Wilson, de uma horda que quer linchá-lo. Jim fica fraco, pois já estava nos últimos dias da AIDS. Ele revela ao Hulk que é gay e implora para ele para fazer uma transfusão do seu sangue irradiado. O Hulk nega, preferindo ver seu amigo e ex-parceiro morrer de AIDS do que trazer o sofrimento de mais um Hulk no mundo.

Essa é uma história que rende muitas discussões, assim como o posicionamento da Marvel acerca da AIDS nos anos 1990. Você pode ler mais sobre isso aqui.

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AMAZING SPIDER-MAN (1999) #36

Esta foi a edição em que a Marvel Comics não deixou passar em branco o fatídico dia 11 de setembro de 2001, quando terroristas ligados a Osama Bin-Laden, outrora financiado pelos Estados Unidos, derrubaram as duas torres do World Trade Center em Nova York, através do choque de dois aviões contra elas. Foi o primeiro marco histórico do século XXI. A Marvel Comics fica em Nova York não muito longe do local do desastre. Assim, a editora resolveu fazer essa edição do Homem-Aranha em que os heróis sofrem pelas mortes das vítimas do ataque. Até aí tudo bem, mas vilões considerados terroristas também choram essas perdas, como Doutor Destino, Magneto e o Rei do Crime. Contraditório, não?

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CAPTAIN AMERICA (2002) #1

Na esteira do 11 de setembro de 2011, foi lançada uma nova revista do Capitão América, o maior símbolo estadunidense da Marvel Comics. A revista tinha como intuito trazer arcos de histórias em que Steve Rogers, agora com sua verdadeira identidade revelada para o mundo, lutasse contra células e atentados terroristas.Os primeiros números, escritos por John Ney Rieber e desenhados por John Cassaday foram impactantes, mas depois, ao se perceber que não era bem isso que o público queria, mesmo afetado pelo 11/09, a revista de distanciou desse propósito. De qualquer forma, esta revista foi um passo mais bravo feito pela Marvel do que simplesmente lançar a edição da capa preta do Homem-Aranha mencionada anteriormente.

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ASTONISHING X-MEN (2004) #51

Novamente Estrela Polar está no holofotes. Jean-Paul Beaubier foi o primeiro super-herói gay assumido na Marvel Comics, nada mais justo que ele fosse o primeiro super-herói gay a se casar. Embora essa “ousadia” e pioneirismo caiba à DC Comics, que em 2001 casou Apolo e Meia-Noite, esse foi primeiro casamento gay da Casa das Ideias. E não para por aí. Além de ser um casamento gay, ainda é um casamento interracial entre um humano e um mutante, provando que a Marvel sempre prezou para a discussão de ideias e união dos povos. A edição foi lançada em 2006 e foi escrita por Marjorie Liu e desenhada por Mike Perkins. No Brasil, a edição foi lançada como um número “extra” de X-Men Extra. Mais uma vez provando o preconceito da Panini Comics em desagradar seu montante de leitores rançosos.

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MISS MARVEL (2015) #13

Em tempos em que o totalitarismo e o conservadorismo atacam e assustam cada vez mais os… hum… liberais, essa edição da Miss Marvel veio tocar em um assunto mais importante que diferenças políticas e ideológicas: a fato de exercer a cidadania. No Brasil, o voto é obrigatório, mas nos Estados Unidos, o voto é facultativo e, pasmem, é preciso fazer campanhas para que os estadunidenses vão às urnas e exerçam o direito de escolherem seus governantes. É isso que Kamala faz aqui nesta edição: campanha para seus compatriotas comparecerem às bancas e votarem. Ela dá uma aula de compromisso para aqueles que se exclamam “mas o que fizeram com o nosso país” e depois não votam ou ainda votam nulo nas urnas. Super-heróis se comprometem, seja o direitista Gavião Negro ou o esquerdista Arqueiro Verde, na Distinta Concorrência. Seja o Capitão América ou Homem de Ferro na Guerra Civil. Quem se exime de buscar algo melhor para o lugar onde vive também se exime de, depois, ficar fazendo campanhas contra. Como Kamala expressa nesta edição, a responsabilidade é de todos nós. Escrita por G. Willow Wilson e desenhada por Mirka Andolfo, duas mulheres, infelizmente, quando essa edição saiu nos Estados Unidos, Donald Trump já havia sido eleito. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Mas nem todos ouviram falar deste lema. Ou pior, fingem que não ouviram.

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CHAMPIONS (2016) #24

Por fim, a Marvel traz nesta coletânea outra história que toca fundo as discussões dos estadunidenses: o controle de armas. E logo, logo, vai começar a tocar fundo o Brasil também, podem esperar. Esta edição de Campeões trata mais especificamente sobre os tiroteios em escolas dos Estados Unidos, que vem se tornando um hábito daquele povo. Não obstante, as crianças são treinadas mensalmente com práticas anti-terrorismo ou sei lá como eles conceituam esses ataques hoje em dia. Mas nós sabemos que o grande responsável por esse massacre é a permissão de que armas sejam vendidas para qualquer pessoa em qualquer lugar daquele país. Essa revista não vai direto nessa ferida dos estadunidenses, mas ela traça algumas críticas sobre a maneira como o povo de lá encarar essas situações. Afinal eles se encontram dentro de uma cultura criada para sobrepujar e conquistar as outras e os demais e num sistema que põe de um lado vencedores e, de outro, perdedores.

Você pode ler uma resenha feita aqui no blog para a edição de número 24 de Champions.

A edição Marvel Comics: The World Outside Your Window, também inclui pequenas histórias publicadas em CAPTAIN AMERICA COMICS #2 e AMAZING SPIDER-MAN (1999) #583. Enquanto não conseguimos decifrar qual das cinco histórias da segunda aparição histórica do Capitão América a Marvel incluirá no encadernado, a edição do Homem-Aranha que ela faz menção é àquela em que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, é eleito e tanto a Marvel quanto o Homem-Aranha prestam homenagem à ele.

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Resta dizer que o compilado americano estará nas lojas especializadas dos Estados Unidos e nas lojas online ao redor do mundo a partir de junho de 2019. E então? Será que quadrinhos servem só para divertimento ou também podem ajudar a mostrar e a entender o que acontece além da tela do seu computador e da janela do seu quarto?

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