Os Melhores Quadrinhos Estrangeiros Que Li em 2018

Olá pessoal que segue o blog! Estou dando continuidade à lista de melhores e piores leituras do ano que passou. Nesta classificação eu preciso explicar uma coisa antes. Estrangeiros aqui são os quadrinhos que não são nem Brasileiros e nem Americanos, ou seja, de países que possuem menos representatividade comercial e menos representatividade em números de títulos publicados por ano aqui no Brasil. Bem, explicado isso, vou apresentar a lista para vocês! Vamos lá!

setpedac3a7oUM PEDAÇO DE MADEIRA E AÇO, DE CHRISTOPHE CHABOUTÉ
Pode um banco falar? Neste quadrinho “mudo” as known as sem palavras e sem nem diálogos, ele pode. Na verdade esse pedaço de madeira e aço, como diz seu título, pode muito mais. Nas mãos de Christophe Chabouté, esse banco ganha vida. Ele tem uma existência própria. Ele provoca risos, ele provoca lágrimas. Ele tem amigos e tem inimigos. Mas é apenas um banco sob um árvore em algum parque em algum lugar do mundo. Como todo ser animado, esse objeto inanimado tem um ciclo: nasce, se desenvolve, é usado pelo sistema, é “aposentado” e substituído e depois parte para – quem sabe – uma nova realidade. Ao redor do banco, decorrem também outras vidas e que ele acompanha com o passar do tempo: passantes frequentes, visitantes aleatórios. Se Will Einser e Frank Miller fizeram da cidade o protagonista de alguns de seus trabalhos, por que Chabouté não poderia utilizar para si um objeto tão corriqueiro como um banco de praça? Mas, ao contrário dos artistas citados, ele faz isso explicitamente e quase podemos depreender daquele ‘pedaço de madeira e aço” alguma emoção, embora ele não possua os músculos para demonstrá-las. Até agora, esse foi o melhor quadrinho da Pipoca & Nanquim que li. Recomendo!

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O CÃO DE CAÇA E OUTRAS HISTÓRIAS, DE GOU TANABE
Esse mangá, que traz adaptações em quadrinhos de três contos de H. P. Lovecraft por Gou Tanabe, tem uma arte linda, expressionista. Como eu ando num vibe bem “horror cósmico” e pegando pra ler tudo do Lovelove que vejo na frente para ler, foi interessante ver como alguém colocaria suas histórias numa mídia visual. Eu achei bastante bem realizado, uma vez que, pelo menos um destes contos, O Cão de Caça, eu já havia lido em prosa. E ele ficou muito bem adaptado com desenho em preto e branco de babar. O primeiro conto, O Templo, ficou lindamente ilustrado, mas demora um pouco para engrenar. O último conto do mangá, chamado A Cidade Sem Nome fica num meio termo. A verdade é que nenhum deles é ruim, mas bom mesmo só O Cão de Caça, contudo, a arte é de babar mesmo. Agora, se essa sua baba vai ser de gostosura, de admiração ou se serão cuspes e perdigotos de loucura cósmica, bem, aí é com você. Aqui do meu lado ficou num misto quente e saboroso das três coisas. Gostaria de ler mais adaptações de quadrinhos dos contos do Mister LoveLove. Se alguém puder e/ou souber e/ou quiser, me indica uma!

setkongKONG, THE KING, DE OSVALDO MEDINA
Quem lê o título deste quadrinho do português Osvaldo Medina, que dizem ser o autor mais prolífico da Europa, acredita que vai ler uma história do macaco gigante King Kong. Quem folheia as primeiras páginas deste quadrinho sem diálogos irá encontrar uma semelhança com o último filme do rei Kong, o macaco, realizado por Peter Jackson: a mocinha em perigo, o canastrão, o cineasta interesseiro e, claro, a famosa Ilha da Caveira. Mas as semelhanças ficam por aí. Kong, na verdade, é o grande rei da tal ilha em formato de caveira, um homem negro e gigante, de bom coração, que adora seu Tucano de estimação. Mas com a chegada dos estrangeiros na ilha, ele é convencido a ser levado para a metrópole para se tornar uma atração peculiar. A narrativa de Osvaldo Medina é sensacional, principalmente por fazê-la sem usar o artifício do diálogo por quase 150 páginas de história. Os tons de sépia e os traços lembram a linha clara europeia e alguns trabalhos de Will Eisner. Kong The King pode inspirar e ensinar muitos aspirantes à quadrinista sobre como controlar e expor a narrativa através de imagens. Mas também é uma boa “leitura” para o admirador casual e para o fã hardcore.

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DIABOLIK: VOLUME UM, DE MARIO GOMBOLI, ANGELA E LUCIANA GIUSSANI
Eu curto muito essa inciativa das editoras pequenas de trazerem material inédito de personagens que não são mais publicados no Brasil. Foi assim com a Editora Lorentz e seu Dylan Dog e, agora, com a Editora 85, que já havia trazido de volta Dampyr e em seguida trouxe Diabolik. Eu só conhecia Diabolik porque ele tinha um desenho que passava nos anos 90 no canal à cabo Fox Kids e, depois, porque ele inspirou o Fantomex, dos X-Men, criado por Grant Morrison. Nunca tinha lido suas HQs porque ele estava há mais de 25 anos sem ser publicado no Brasil. O material que a 85 traz neste especial de 4 edições é de 2015 e todos escritos por Mario Gomboli. Cada edição fica a cargo de um desenhista diferente que não são creditados na edição, apenas as criadoras, Angela e Luciana Giussani, um raro caso de persoangem antigo (1962) dos quadrinhos e de sucesso tendo sido criado por mulheres. As histórias seguem o ritmo dos Fumetti, mas são história bem interessantes de grandes assaltos, primazia de Diabolik. A revista, desde sua criação, é publicada em formato pocket, o que dá um charme à mais para a publicação. Das 4 histórias, achei uma muito boa, duas ok e uma mais ou menos. Então saímos no lucro. Sempre é bom se deparar com um personagem consagrado que não se conhecia! Esse é o caso do Diabolik da Editora 85.

Leia mais sobre o personagem Diabolik neste link.

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A ARTE DE CHARLIE CHAN HOCK CHYE, DE SONNY LIEW
Que quadrinho incrivelmente interessante! Nossa, adorei ele, tanto porque é um quadrinho que, através da história de um quadrinista fictício conta a história entre Malásia e Singapura, tanto pela miríade de estilos que Sonny Liew incorpora para mostrar o seu Charlie Chan Hock Chye. realmente me espantou que esses países tivesse alguma cultura de leitura de quadrinhos, quem dirá com pessoas fazendo eles, como é o caso de Sonny Liew (não de Charlie Chan), que já ganhou inúmeros prêmios no mercado americano, embora quase nenhum deles tenha chegado aqui no Brasil. A edição da editora Pipoca & Nanquim, para variar, traz um espero no capricho do objeto-livro. A parte que mais gostei mesmo neste A Arte de Charlie Chan Hock Chye foram as alusões e metáfora que ele constrói sobre a política do sudeste asiático através de animais das florestas locais e os jogos de palavras muito bem desenvolvidos em português pela tradutora Maria Clara Carneiro. Existem inúmeras outras homenagens dentro deste quadrinho, como às HQs de horror da EC Comics, os quadrinhos de patos de Carl Barks e até ao Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Esse quadrinho é um deleite para os olhos e para as pessoas que querem conhecer e entender a história do sudeste asiático, dois quadrinhos e como usar as inúmeras diferenças de estilo pelas quais passaram em seu próprio favor.

umairmaUMA IRMÃ, DE BASTIEN VIVÈS
Comprei este livro e sentei na praça de alimentação. Dez páginas depois, os gritos dos garçons, os choros das crianças, o blablabla dos comensais e transeuntes foram levemente se apagando. Meu cenário não era mais uma praça de alimentação de shopping. Era uma praia francesa onde um menino de treze anos conhecia as primeiras experiências do amor. Existem leituras que tem esse poder. Nos deslocar do nosso lugar, nos submergir dentro de um outro universo, tal o seu poder. Há cinco anos atrás eu me deparava com O Gosto do Cloro, primeira narrativa de Vivés, um cara que tem a minha idade (suspiro). O poder era o mesmo, só que dessa vez, com mais páginas e uma narrativa mais madura, menos lacunar. Uma irmã daria um belíssimo filme indie. A, digamos, direção de Vivés na escolha dos enquadramentos, da montagem do ritmo, é perfeita. Também consigo ver que o desenho de Vivés evoluiu bastante, por vezes até lembrando o mangá. Vale destacar também que é uma narrativa bem atual, em que os personagens usam whatsapp, facebook e as crianças desenham Pokémons. É muito legal a maneira como o autor constrói a relação entre os três personagens principais: Antoine e seu irmão, Titi, e a hóspede Hélene. Não é uma história cativante, nem tocante, nem de disparar a adrenalina. É uma história de cotidiano, que poderia acontecer com qualquer um de nós. E é aí que se encontra a sua força: uma cotidianidade explosiva, potente e que faz o mundo ao redor de nos entrar em um fade out. Nisso, li três quartos de Uma Irmã enquanto estava na praça de alimentação do shopping.

magicovento
MAGICO VENTO GRAPHIC NOVEL DELUXE – VOLUME UM: FORTE GHOST, DE GIANFRANCO MANFREDI, JOSÉ ORTIZ, BRUNO RAMELLA E GIUSEPPE BARBATI
Sempre tentei me interessar pelo universo dos Fumetti – os quadrinhos italianos -, mas toda tentativa que eu fazia acabava frustrada. Não consegui me interessar. Me parecia uma narrativa datada e com conteúdo datado. Ouvia aqui e ali vastos elogios para Magico Vento e Julia, mas suas HQs ou já haviam encerrado ou já estavam em uma centena de números. Isso mudou quando a Editora Lorentz, uma editora aqui do Rio Grande do Sul, resolveu trazer Dylan Dog de volta às prateleiras brasileira. Adorei a série. Isso me levou a comprar a série do Tex pela Salvat – que não consegui terminar um volume sequer, porque essa sim é datada e chata. Mas me levou a ler o Mágico Vento em sua versão Deluxe, agora saindo pela Mythos Editora. Fiquei bem satisfeito, então, com minha leitura. Embora a primeira história desse encadernado, Forte Ghost, cumpra a tabela de uma narrativa de origem, foi a segunda, Garras, que me fisgou, explorando os mitos (!) e lendas dos índios sioux. São histórias bem desenvolvidas, inclusive com subtramas, algo difícil de se ver nos quadrinhos atuais. Então sim, Magico Vento acabou me conquistando e, finalmente, pude ver o que muitos amigos e críticos de quadrinhos falavam tão bem deste fumetti. E vamos que vamos com os fumetti! Forza Italia!

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O ÁRABE DO FUTURO 2: UMA JUVENTUDE NO ORIENTE MÉDIO (1984-1985), DE RIAD SATTOUF
Este segundo volume de O Árabe do Futuro mostra as desventuras de Riad, um garoto loiro, na Síria de Hafez al-Assad. Esse al-Assad é o pai de Bashir, o atual ditador presidente da Síria e responsável pela guerra civil que já matou milhões. Seu pai, Hafez, ficou no poder por três décadas, claro, sendo magnânimo e oferecendo eleições ao povo, nas quais vencia com 100% de votos. ¬¬’ Riad passa o tempo entre o oriente e o ocidente, entre o mundo árabe e o mundo francês. E se podem ver algumas semelhanças e discrepâncias como a obsessão dos árabes com os judeus e dos franceses com os nazistas, a maneia como os costumes de comércio dos árabes acontecem, como poucos produtos à disposição e árduas negociações para se aceitar o dinheiro e na França, a maravilha de um supermercado à disposição de todos. O sistema escolar que, para Riad era muito mais difícil de se aprender o francês que o árabe (nisso concordamos). É embasbacante a maneira como Riad traduz em quadrinhos os árabes e seu próprio pai como pessoas ignorantes e tansas que, por definições culturais, fazem escolhas questionáveis. Como o tio e o cunhado que MATAM a própria sobrinha por ela ter engravidado de um homem sem ter se casado pela segunda vez. Esse quadrinho e quase todos que eu li sobre o Oriente Médio mostram como existe um enorme abismo entre nossas culturas e que nenhum lado está disposto a compreender o outro.

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A DIFERENÇA INVISÍVEL, DE MADEMOISELLE CAROLINE E JULIE DACHEZ
O que me chamou a atenção para esse livro foi o fato de ele tratar sobre pessoas com autismo. Mas não qualquer tipo de autismo, mas o da Síndrome de Asperger, que pode, em determinados casos, parecer invisível para as pessoas e elas são tratadas de modo norma pelas outras. Seu quadro clínico – manias esquisitas e peculiares – podem sermal vistas pelas pessoas como a boa e velha “frescurite”, o velho amigo “chilique” e a querida expressão “cheio de nove horas”. Coisas que eu tive de escutar durante toda a minha vida. Embora eu não seja autista e não tenha asperger (pelo menos não que eu saiba), mas tenho sim, fobia social, e muito muito tempo antes de eu me “consertar” todos me viam como uma cara fresco, chiliquento e “cheio de nove horas”. Essa expressão era do meu pai, e acho que só ele usa ela. Mas a verdade é que os aspies – os portadores de síndrome de asperger – são como os sociofóbicos: não suportam gritos, aproximações das pessoas, aglomerados de gente, e não gostam de que coisas os surpreendam e saiam do roteiro. Claro que estou lidando bem melhor com isso, fruto de muita leitura, exercícios, análise, terapia e o diabaquatro. Foi bom conhecer mais a síndrome de Asperger, porque pessoas próximas da minha convivência foram autodiagnosticadas com isso -por outras pessoas que não entendem nada dessa condição. Então, pra quem tem um quadro de fobia, é sempre bom saber mais sobre as coisas que ficam enquadrando as outras, porque já disseram que eu era esquizofrênico e estou bem longe disso. Ah, as pessoas leigas, burras e preconceituosas. Para combater isso, apenas com uma arma: o conhecimento!

novsenhor

O PROLONGADO SONHO DO SENHOR T., DE MAX
Você já pensou em uma história em quadrinhos com elementos de surrealismo? Eu pensava que seria impossível emular os pressupostos de Salvador Dalí, René Magritte e companhia para desenvolver uma narrativa que se aproximasse dos sonhos. Mas o quadrinista catalão MAX conseguiu. Ele realmente narra um sonho prolongado que, sim, tem toda aquela fluidez e sem-limitice dos sonhos, aquelas mudanças constantes, mas que, na nossa cabeça, parece fazer sentido. Christopher T,. o Senhor T. do título do quadrinho acaba se encontrando com diversos personagens que também sonham dentro do sonho dele. Mas o que tudo aquilo quer dizer e por que parece que todos aqueles seres dentro da sua cabeça possuem uma vontade de matá-lo de uma maneira ou outra? A explicação, quando chegamos ao fim de um sonho, somos nós, despertos, que damos a ele. O mesmo acontece com o Senhor T. , que, ao findar seus sonho, mas antes de acordar, acaba encontrando uma explicação desafiantemente psicológica para toda aquela aventura prolongada que viveu com seus personagens coadjuvantes. E a explicação é muito boa. Um ótimo quadrinho onírico e surreal!


Então, mergulhadores, tivemos quadrinhos franceses, espanhóis, japoneses, italianos, árabes, malásios e portugueses na nossa lista! Uma bela viagem pelo mundo, não! E vocês, que acharam da lista e quais os melhores quadrinhos de países diferentes que você leu no ano que passou?

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