Os Melhores Livros Sobre Quadrinhos Que Li em 2018

Este ano temos uma novidade entre as listas de melhores do ano. São os livros sobre quadrinhos, ou seja, livros de história e análise das histórias em quadrinhos.  Tenho que fazer jus ao meu mestrado. Mas não pense que essa lista só vai trazer livros complicados de entender. Nada disso, a maioria desses livros é voltado para o público corriqueiro de quadrinhos e não para o público pesquisador, mas, claro, podem ajudar ao pesquisador a rechear mais o seus trabalhos com referências importantes. Vocês vão ver exatamente do que estou falando quando lerem a lista deste post. Vamos lá?

livmarvelMARVEL COMICS: A HISTÓRIA SECRETA, DE SEAN HOWE
Hipocrisia e autobajulação. São essas duas palavras que resumem a “história secreta” da Marvel Comics contada por Sean Howe. Claro, creio que hipocrisia e bajulação esteja intrincadas na história empresarial da maior parte dos negócios ao redor do mundo. Mas para quem vê de fora, acha que a Marvel é um coisa coesa com seus personagens numa cronologia com mais de 50 anos (ou 80 anos, dependendo do ponto de vista), mas a verdade é que a empresa já passou por inúmeros donos, sempre com o sorridente Stan Lee e seu cheque mensal de cem mil dólares para falar bem da empresa – seja quem fosse o dono no momento. A trajetória da Marvel – bem como a da DC Comics – é marcada pelo descaso com os criadores, seus direitos autorais e royalties, muitos deles vindo a falecer ou por dedicação demasiada à empresa ou por puro desgosto gerado por ela. É interessante saber que grandes marcos da história da Marvel Comics para os leitores foram criados à toque de caixa, com decisões idiotas e espúrias dos editores e presidentes. É revoltante ver como o marketing funciona e funcionava na Marvel, com políticas de venda agressivas, com presidentes e editores dando de ombro para continuidade, personagens e criadores e mostrando que aqueles que realmente se importavam com essas coisas eram aqueles que mais sofriam tanto por não serem ouvidos, como em fatores econômicos e narrativos, como em seus direitos humanos e de criação. A história da Marvel Comics é mais uma prova de como o capitalismo se esconde sob uma capa voadora e fantásticas, capaz de convencer as pessoas de tudo, mas que por baixo dessa capa só existe sujeira e imundície, como um vilão que se veste de herói para convencer as pessoas de suas “boas ações”, mas que dessas tais ações benévolas o inferno está lotado. E a Marvel também!

livpancadaPANCADARIA: POR DENTRO DO ÉPICO CONFLITO MARVEL VS. DC, DE REED TUCKER
Eu já li essa história milhares de vezes desde que comecei a pesquisar quadrinhos (de super-heróis) mais a sério. Mas toda vez que pego um livro novo para ler sobre essa mesma história, surgem nuances e visões que não estavam lá. Seja no The Official History of DC Comics ou no Marvel Comics: A História Secreta, os fatos e as avaliações dos fatos variam. Não poderia ser diferente nesse livro que investiga e conta mais sobre a história da rivalidade histórica entre DC Comics e Marvel. Por mais que o escritor tente (ou não) ser imparcial, percebe-se que há um certo pendor para a Marvel, pelo menos através dos olhos de um criador de quadrinhos como eu. A DC é algo formal, duro, sombrio, rotineiro, controlado. Mas, claro, há quem goste dessas qualidades. A Marvel, é informal, maleável, colorida, louca, pirada. E também há quem goste disso. O mais legal nesse livro é ver que essas matizes não são tão separáveis assim e que existe mais permeabilidade e osmoses nessas membranas rígidas e nem tão rígidas. E também existem as assombrantes histórias de bastidores, que toda corporação, seja um negócio grande ou pequeno, sempre acabam tendo. Por isso, se você defende a Marvel e/ou a DC Comics com unhas e dentes é bom que leia esse livro para relativizar suas opiniões.

livcruzadaA CRUZADA MASCARADA: BATMAN E O NASCIMENTO DA CULTURA NERD, DE GLEN WELDON
Analisar a trajetória e a evolução do personagem e da ideia do Batman é, nada mais, do que analisar a própria trajetória da cultura nerd, da cultura de fãs, do fandom, seja como você quiser chamar. Afinal, o Homem-Morcego foi um dos super-heróis mais adaptados e readaptados para diversas mídias, produtos, histórias, realidades, se não O MAIS. O Batman, segundo a teoria de Umberto Eco, não é nada mais do que um “personagem flutuante”. Ele já deixou as páginas dos quadrinhos há muito, muito tempo. Hoje ele flutua no ar dos memes – do mundo das ideias de Platão – como algo que não pode ser definido, mas ainda assim está na cabeça das pessoas. Mesmo cada um tendo uma definição muito própria do que é o Batman ou, pelo menos, do que ele deveria ser. Este livro, portanto, não possui boas análises da trajetória do Batman. Ao mesmo tempo ele traça a forma como a cultura nerd evoluiu, ou melhor, involuiu ao longo dos anos e ainda não aceitou a ideia de que o Batman, ou quaisquer personagem dos quadrinhos não é aquela do “meu” Batman. Ele é de todos. Ou ainda, como a máxima romântica: “se você o ama, deixe-o ir”. Deixa o Batman viver suas aventuras por aí, no fim do dia, ele vai voltar todinho pra você e do jeito que você mais gosta. O meu Batman termina onde começa o Batman do outro, pra usar de outra máxima.

Leia mais sobre o Batman do seriado de 66 analisado pela óptica de Glen Weldon.

superSUPER-HOMEM E O ROMANTISMO DE AÇO, DE ROGÉRIO DE CAMPOS
“Super-Homem e o Romantismo de Aço”, de Rogério de Campos, um profissional mais do que timbrado da indústria dos quadrinhos brasileira – criador da revista Animal e das Editoras Conrad e Veneta, por exemplo – é uma magnífica análise sobre o mercado editorial e sobre a indústria dos super-heróis. Contudo, se formos pensar o livro como uma análise do Superman, ele falha bastante. Uma porque é uma análise contaminada de preconceitos acerca do fenômeno do super-herói e isso influencia qualquer análise que possa se dizer como descomprometida – o que não é o caso de Rogério de Campos que, em nenhum momento afirma isso. Outra coisa que compromete o livro é a afirmação do autor de que deixou de ler as histórias do Homem de Aço há décadas. Sabemos que para fazer uma análise de conjuntura é preciso saber do contexto atual do objeto de pesquisa. No caso do Superman, as análises ficam mais em volta das suas origens e contexto de criação do que em seu legado cultural seja nos quadrinhos ou ainda nos seus produtos derivados que, aí incluem o cinema. Super-Homem e o Romantismo de Aço é um livro muito bom de crítica à indústria dos quadrinhos, mas um livro falho de crítica ao Superman per se. De qualquer forma é uma leitura enriquecedora e cheia de dados importantes sobre os super-heróis e sua epítome, o Superman.

Leia aqui uma crítica a Super-Homem e o Romantismo de Aço, de Rogério de Campos.

livcuadroFUERA DE CUADRO: IDEAS SOBRE HISTORIETAS, LAURA VAZQUEZ
Comprei este livro na La Revisteria, ainda na minha primeira visita a Buenos Aires, lá em 2012. E sim, só fui ler ele agora. Shame on me! Mas no final das contas foi bom, porque eu o li depois de ter lido o Bienvenido, livro do Paulo Ramos sobre quadrinho argentino. O livro de Laura Vazquez, que é pesquisadora, crítica e quadrinista argentina traz muitos aspectos da história dos quadrinhos da Argentina que, seu tivesse lido ele naquela época, não teria entendido muito. Claro, algumas coisas me escapam ainda. Mas adorei saber, por exemplo, que Copí, célebre historietista de La Mujer Sentada era homossexual e militante. Coisa que a gente não vê muito no mundo, quiçá na América Latina no que se refere a quadrinhos. O livro é estruturado em três partes: “Lenguage: Escrituras y Sobreimpresiones”; “Agenda: Problemas y tensiones del campo”, e “Lecturas: Bordes, Historia y Política”. Para mim, a parte que mais valeu a pena foi a segunda porque contextualiza o estudo e o mercado de quadrinhos argentino, mas que pode ser aplicado a todo seu entorno (latino) americano. O que me faz pensar que deveria existir livros brasileiros que pensassem nossos quadrinhos brasileiros atuais de forma crítica. Fica o recado para a academia.

livcomicsCOMICS AND NARRATION, DE THIERRY GROENSTEEN
Não existe maior teórico dos quadrinhos maior que Thierry Groensteen. Will Eisner e Scott McCloud podem ser os mais populares porque uniram o fazer quadrinhos com o estudar quadrinhos. Mas nenhum estudioso foi mais fundo – ao menos no campo da linguagem dos quadrinhos – do que o francês. Este seu segundo livro mais famoso, além de ter sido inspirado pelo trabalho de Chris Ware, parece ter ficado mais fluido em sua forma. Enquanto o primeiro usava de estruturas, artrologias e formas bastante metódicas de apresentar a linguagem dos quadrinhos, este segundo possui um texto mais fácil -ainda que continue denso – de se compreender. Se no primeiro livro o autor deu mais ênfase à forma dos quadrinhos, aqui ele vai dar mais destaque ao conteúdo, sublinhando as características narrativas desse meio tão especial que são as histórias em quadrinhos. O Brasil ainda carece de muitas traduções no que tange ao estudo de quadrinhos. A Marsupial Editora fez um belo trabalho em trazer, em 2015, O Sistema dos Quadrinhos, primeiro livro do autor, lançado no longínquo 1999. Vamos torcer para que Comics and Narration não demore tanto assim também. Alô editoras!

livanti

ANTÍLOPE #2, DE VÁRIOS AUTORES
Antílope é uma revista sobre quadrinhos, com artigos e entrevistas e que também traz vários quadrinhos, produzidos no Brasil e fora daqui. A revista possui um cuidado gráfico vistoso e especial, parte duotone e parte colorida. Seus dois e únicos números foram financiados pelo PROAC/SP. Confesso que, quando eu comprei a revista em quadrinhos/livro de artigos, eu o fiz por causa dos textos. Uma entrevista com o sensacional Chester Brown (de Pagando por Sexo), um artigo sobre repetição nos quadrinhos e outro sobre quadrinhos silenciosos. Mas preciso confessar de novo que só gostei da entrevista com o Tio Chester, os artigos são dispensáveis. Gostei mesmo foi da miríades de pequenas histórias em quadrinhos apresentadas e selecionadas na publicação. Todos tão diferentes entre si, mas como diz aquele cigarro “com alguma coisa em comum”. Estar em contato com uma produção tão variada de expressões em arte sequencial é revigorante e faz brotar várias ideias no nosso (in)consciente. Gostaria de adquirir também o primeiro volume, mas na Itiban, durante a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, só tinha a #2. Quem sabe um dia acho a #1 e completo minha coleção?

livmateriaisMATERIAIS E TÉCNICAS DE DESENHO: CONCEITOS BÁSICOS, DE ARTHUR GARCIA
Quando eu era criança sempre queria aprender a desenhar melhor. Mas na minha cidade interiorana inculta e bela, não havia nenhum curso de desenho. O máximo que se conseguia lá era um curso de pintura. O tempo passou e eu desisti do desenho em prol da escrita. Agora quero tentar investir mais no desenho. Mas nunca me dei bem com arte-final e outros materiais e técnicas de desenho. Por isso, a necessidade de ler esse livro, que me esclareceu algumas dúvidas que eu tinha sobre o processo de desenho e ninguém teve paciência nem vontade de me explicar. O livro é bem básico e perfeito para aspirantes ao desenho encontrarem as técnicas que mais podem se adequar ao seu traço e suas intenções. Aprendi sobre papéis, sobre lápis, sobre pincéis e canetas tinteiro bico de pena, compasso, transferidor, e toda uma gama de materiais que a gente compra para a escola e usa uma ou duas vezes com professores de Educação Artística que não sabem desenhar um ovo. Pelo menos sempre foi assim na minha cidade interiorana inculta e bela, o que fez desenvolver um desagrado por pincéis e suas aplicações, sempre estragando meu desenho. Ok, hora de recomeçar!

livpesquisaPESQUISA ACADÊMICA EM HISTÓRIAS EM QUADRINHOS, DE WALDOMIRO VERGUEIRO
Fazia tempo que os brasileiros estavam precisando de um livro como este, que traçasse algumas orientações sobre como começar uma pesquisa em Histórias em Quadrinhos e que caminhos seguir. Principalmente agora, que os “bons” olhos da academia começam a encarar os quadrinhos como algo interessante e não algo ridículo e supérfluo,voltado para crianças e indigno de estudos, como a universidade brasileira sempre “acolheu” esse sistema de linguagem e essa forma de comunicação. Waldomiro Vergueiro é, hoje, depois da morte de Moacy Cirne e Álvaro de Moya, o mais representativo e prolífico pesquisador de quadrinhos brasileiros. Por isso, ouvir a voz da experiência e as experiências da voz que o diz é bastante valioso. Neste livro, Waldomiro presta algumas declarações pessoais que enriquecem o livro e deixa ele menos “quadrado” e “ultraacademicista”, o que o torna perfeito para quem está ingressando na pesquisa universitária em histórias em quadrinhos. A mim, ao menos, ajudou a conceituar e tentar justificar as metodologias e enfoques do meu trabalho de mestrado. Recomendo a todos os novatos que querem estudar e alçar os quadrinhos a outros patamares.

livbienvenidoBIENVENIDO: UM PASSEIO PELOS QUADRINHOS ARGENTINOS, DE PAULO RAMOS
Por mais que eu já tenha visto e lido alguns livros sobre quadrinhos argentinos, uma visão dos mesmos através de um brasileiro, para um brasileiro, é sempre melhor. Quando o livro é escrito por um cara que eu valorizo muito e curto muito os textos técnicos como o Paulo Ramos, melhor ainda. Aprendi muita coisa com esse livro, das semelhanças e diferenças na produção de “historietas” e “quadrinhos” aqui e lá. Das diferenças que poderíamos aplicar em nosso país é o sistema de distribuição eficiente que consegue até mesmo emplacar quadrinhos independentes em bancas, os kioskos deles. Também as belas coleções de quadrinhos elaboradas e encampadas pelos jornais portenhos poderiam vir a somar no Brasil. A valorização que os argentinos dão à sua produção de quadrinhos não encontra nenhuma porcentagem no Brasil. É algo realmente de tirar o chapéu. Por outro lado, me entristece em saber mais detalhes do “desaparecimento” do sensacional roteirista Hector German Oesterheld durante a ditadura argentina. Como Paulo Ramos fala no início do livro, o quadrinho argentino não é só Mafalda, é muito, mas muito rico que um brasileiro pode imaginar e muito mais maduro e avançado que nossas produções, tão antigas quanto, mas ainda na infância das possibilidades criativas e de mercado. Achei lindo o Paulo encerrar o livro falando sobre o Paseo de La Historieta, em Buenos Aires e retomando seus achados historietísticos. Também vale uma salva de palmas para o projeto gráfico do editor Carlos Martini, da Zarabatana, muito bem elaborado. Por favor, brasileiros, vocês precisam conhecer mais e valorizar a produção de quadrinhos de nossos hermanos argentinos!


E então, mergulhadores? Que tal a estreia de hoje? Gostaram? Acharam que não fez diferença? Querem mais livros desse tipo e de outros tipos resenhados aqui no blog? Me deixem saber! Não esqueça de comentar! Abraços submersos!

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4 comentários sobre “Os Melhores Livros Sobre Quadrinhos Que Li em 2018

    1. Oi Klauss! É verdade! Deve ser um baita livro mesmo! Fiquei bem curioso para lê-lo. Uma hora dessas quando me deparar com ele na minha frente devo comprar. Esse tipo de livro a gente precisa folhear para ficar (ou não) com vontade de ler. Mas só pra destacar, a minha lista de livros não é dos livros que foram lançados em 2018, mas que EU LI em 2018, beleza?! Abraços! =)

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