Melhores Quadrinhos Americanos Que Li em 2018

Chegamos agora na lista de quadrinhos americanos que mais gostei de ler no ano que passou. Mas, peraí, o que são quadrinhos americanos pra ti, Guilherme? É bom eu explicar. Essa classificação de quadrinhos Americanos e/ou Estadunidenses, são quadrinhos feitos nos Estados Unidos que não são feitos nem pela Marvel e nem pela DC Comics e que também não são da linha Star Wars e nem do selo Vertigo. Eles não são Brasileiros, nem estrangeiros de outros países que não os Estados Unidos. Autores Canadenses e Ingleses que publicaram esses quadrinhos por editoras estadunidenses também são contabilizados nesta categoria. Explicado? Belezinha? Então vamos à nossa listinha de 15 HQs!

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WYTCHES – VOLUME UM, DE SCOTT SNYDER, JOCK E MATT HOLLINGSWORTH

Sem dúvida, Scott Snyder é um autor de quadrinhos polêmico. Suas HQs em personagens medalhões e em grandes eventos acabam envelhecendo muito mal. Mas a força de suas narrativas está no inesperado, isso quando ele pega títulos menos visados, como no caso do seu Monstro do Pântano, ou ainda no trabalho de terror e sci-fi que ele fez na série O Despertar. O que tem em comum essas duas narrativas? Muita e muita pesquisa, que a gente vê brotar pelas páginas dos quadrinhos. É assim que ele se dá bem e produz histórias consistentes e intrigantes. É o caso desse Wytches – uma outra forma de ver as bruxas, ou melhor, as brvxas. É uma história de terror bem enredada, inesperada, bem pesquisada, e que o clima do lidar ou não saber lidar com o desconhecido pesa bastante. As cores de Matt Hollingsworth dão um espectro surreal, difuso, narcótico para as histórias, parecendo que estamos sempre banhado por um raio de sol sobre vitrais de igrejas. Vale destacar a edição caprichada publicada no Brasil pela Darkside Books, em que usaram um papel couchê mais poroso no miolo, que deu um toque diferente para a revista: mais leve, porém ainda luxuoso. Então se você é meio desconfiado com os trabalhos de Snyder que nem eu, pode ler/comprar essa HQ sem medo, que o resultado é positivo.

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CIDADE DE VIDRO, DE PAUL AUSTER, PAUL KARASIK, DAVID MAZZUCCHELLI

Considero a adaptação do conto Cidade de Vidro, de Paul Auster, para os quadrinhos por Paul Karasik e David Mazzucchelli, o melhor trabalho de transcrição de uma outra mídia para os quadrinhos. Digo isso porque seus artífices conhecem profundamente o potencial da linguagem dos quadrinhos e isso pode ser verificado em outros quadrinhos seus, como o Asterios Polyp de David Mazzuchelli. De longe essa adaptação é que mais usa e abusa dos recursos gráficos e narrativos de uma história em quadrinhos para ampliar o sentido da leitura de uma escrita literária. De longe também, toda a Trilogia de Nova York, obra-prima de Paul Auster, não são narrativas de fácil transcrição para a linguagem gráfica, então essa é outra razão para reverenciar o trabalho de Karasik e Mazzucchelli com Cidade de Vidro, principalmente a iconicidade e a metalinguagem da história. Uma pena essa HQ estar fora de catálogo há muito tempo, desde que foi lançada pela primeira e única vez em maio de 1998 pela Via Lettera. Uma pena também que a edição que eu compre no sebo, para minha segunda leitura, continha várias duplas de páginas em branco, já que o valor investido nela não foi pouco. Fica um apelo às boas editoras para trazerem novamente esse incrível material para o Brasil.

Cidade de Vidro é a melhor adaptação de literatura para quadrinhos Veja neste link a razão.

outcinemaCINEMA PURGATÓRIO – VOLUME 1, DE ALAN MOORE, KEVIN O’NEILL, GARTH ENNIS, RAULO CACERES, MAX BROOKS, MICHAEL DIPASCALE, KIERON GILLEN, IGNACIO CALERO, CHRISTOS GAGE E GABRIEL ANDRADE

Cinema Purgatório é o mais recente trabalho de Alan Moore e e Kevin O’Neill nos quadrinhos. Trata-se de uma antologia do terror “na forma de filmes antigos”, preto e branco, como diz Moore em sua apresentação. Foi concebida como uma campanha no Kickstarter, plataforma de crowdfunding dos Estados Unidos, e foi editado pela Avatar. Também estão na HQ, escritores como Garth Ennis, Kieron Gillen, Christos Gage e Max Brooks, apoiados por desenhistas novatos que trabalharam na série de horror gore de Ennis, Crossed. Moore e O’Neill trazem uma história de uma mulher presa num cinema por toda eternidade. Ennis mostra uma dupla de policiais se encontrando com criaturas clássicas do cinema. Gillen traz uma disputa estilo Pokémon num mundo pós-apocalíptico e com grandes pitadas de bizarrice e terror. Gage dá uma nova interpretação para os kaijus, transformando eles no resultado de uma praga alienígena que se mistura com nossa fauna. Todas essas leituras têm o seu insight e conceitos bacanas e uma história interessante que captura o leitor. O ponto baixo é a história de Max Brooks, que se passa na Guerra de Secessão, a Guerra Civil Estadunidente, que só tem graça mesmo para quem tem uma ligação estreita com os EUA. Não é o meu caso. De qualquer forma, se uma de cinco histórias é ruim, significa que é uma publicação 4 estrelas. Ser 4 estrelas is not bad. Not bad at all.

Leia mais sobre a parte escrita por Alan Moore em Cinema Purgatório e uma crítica ao mundo dos super-heróis.

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PROVIDENCE: VOLUME 2, DE ALAN MOORE E JACEN BURROWS

Foi por causa da leitura do primeiro volume de Providence (que eu achei espetacular) que me aproximei mais das escritas de H. P. Lovecraft. E é incrível como Alan Moore utiliza bem os conceitos e histórias criadas pelo mestre do horror cósmico. Este segundo volume não é tão sensacional quanto o primeiro, mas é muito bom também. É nesse volume que a gente percebe a importância das declarações escritas nos diários de Robert Black, que compõem um anexo ao melhor estilo Watchmen para a leitura de Providence. Eles dão uma nova dimensão à leitura. Enquanto os quadrinhos mostram o acontecido em terceira pessoa, os textos mostram em primeira pessoa e num narrador não-confiável a história em quadrinhos através da prosa. Assim, os pontos ilusórios do quadrinho e do diário acabam confrontando um contra o outro e disso, depreendemos um terceiro sentido. vale destacar, claro, a arte imersa em detalhes de Jacen Burrows, que faz um trabalho competentíssimo. Neste volume percebemos que Moore não está se baseando somente na mitologia Lovecraftiana, mas também bos contos de Edgar Allan Poe, Lorde Dunsany e Randall Carver, autor do livro O Rei de Amarelo. Muito bom, e que venha a terceira parte!

Leia uma resenha sobre o primeiro volume de Providence, por Alan Moore e Jacen Burrows.

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B.P.D.P: INFERNO NA TERRA – VOLUME 1, DE MIKE MIGNOLA, GUY DAVIS, JOHN ARCUDI E DAVE STEWART

Eu tinha um certo ranço com as HQs do Universo do Hellboy de Mike Mignola, achava as histórias nonsense demais. Mas aquelas que eu havia lido eram protagonizadas pelo Hellboy e eram do começo da sua “carreira” nos quadrinhos. Resolvi me aventurar novamente no universo Mignoleano quando comprei o Frankenstein dele em uma promoção. E eu simplesmente ADOREI todo o pano de fundo do universo. Aí resolvi pegar uma outra HQ dele, mas não do Hellboy, mas do Bureau de Pesquisas e Defesas Paranormais, equipe da qual o Hellboy faz parte. Neste volume o garoto infernal não aparece, quem o protagoniza é Abe Sapiens, o melhor amigo do infernoso. Em meio a desastres naturais, animais híbridos, um homem de gás confinado em um estranho traje, lendas urbanas do pé-grande, Abe se vê envolvido em uma possessão demônica que está transformando os Estados Unidos (sempre lá!) em um Inferno na Terra. Um quadrinho muito bem elaborado e bem aventuresco. Gostei desta nova incursão ao Universo do Hellboy. Só não entendi um coisa: a publicação da Mythos. No quadrinho se refere a uma outra minissérie que se chama Hell on Earth, que veio antes dessa. E essa, se chama, originalmente, Hell on Earth: New World, que veio depois. Mas se essa é o Volume Um, como se chama a anterior e como se chamará o Volume 2, se é que existe? Hellboymaníacos podem me esclarecer isso? Obrigado!

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À DERIVA, DE BRYAN LEE O’MALLEY

Quando fui pesquisar sobre esta obra, o site da Superinteressante rankeava ela como o pior trabalho de Bryan Lee O’Malley. Veja como são as coisas dessas listas: após eu ler, achei o MELHOR quadrinho dele. E isso que À Deriva foi sua primeira tentativa no universo dos comic books. Para o meu gostinho peculiar ela me agrada mais que Scott Pilgrim e que Repeteco, embora eu ADORE as duas. É que À Deriva tem uma pega bem indie mid-2000 que me encanta, uma atmosfera intimista internalizada da garota protagonista Raleigh. Todo mundo se sente meio à deriva em alguns momentos da vida, como se o corpo fosse um carro sem destino, a mente perdida sem saber pra onde deve ir em seguida. E nada como os amigos pra consertar esse carro e colocá-lo no rumo certo. Mais que uma história sobre deslocamento, essa é uma história sobre fazer, manter amizades. Aprender a confiar, a contar com os outros, porque ninguém consegue resolver tudo sozinho. Amizade é compartilhar o que é bom e o que é ruim. E, bem, outro motivo para eu ter adorado é que é uma road story e histórias de viagem sempre me comovem, porque o deslocamento ocorre tanto externa como internamente. Talvez por isso eu goste tanto de viajar, porque é uma chance de deslocarmos nosso corpo e manter a mente e a alma abertas para novas pessoas e novas experiências, que, com certeza, nos modificarão de alguma forma, muito mais do que sentado na frente de um computador escrevendo resenhas de quadrinhos. Uuuuupsy!

AGOfrank

FRANKENSTEIN: ENTRE O CÉU E O INFERNO, DE MIKE MIGNOLA, BEN STENBECK E DAVE STEWART

Bem, falei mal de uma das HQs do saldão das bancas da Mythos Editora, mas dessa vez vou falar bem. Frankenstein: Entre o Céu e o Inferno é sensacional. Mesmo eu não sendo muito fã do Hellboy – e essa HQ se insere no seu universo – eu consegui entender direitinho a HQ e curti demais. Mike Mignola é campeão em utilizar conceitos, sejam eles visuais ou mitológicos de várias searas e aplicar no seu universo sobrenatural. Esse trabalho é feito de maneira incrível nesta edição. Quando comprei eu achei que seria uma adaptação da célebre história de Mary Shelley. Estava enganado, é uma coisa completamente nova, mas que respeita o clássico. Além disso, a trama envolve sociedades secretas, viagens ao centro da terra, mitologia cristã e é realizada de uma forma bastante instigante e cheia de aventura. Além disso, a arte de Ben Stenbeck é deslumbrante, o caderno de conceitos dos dois no final da publicação é um atrativo à parte. Frankenstein: Entre o Céu e o Inferno é uma história independente, que pode ser lida do começo ao fim sem precisar ler mais nada do universo Hellboy. É autocontida também. Então, no final das contas tive um aproveitamento de 100% da leitura e compra dessa edição. Ufa! Ainda bem!

RAGNARÖK – O SENHOR DOS MORTOS, DE WALTER SIMONSON

Neste segundo volume, Walter Simonson continua seu intuito de trazer uma história muito sua de um Thor zumbi após o Ragnarök, o dia do juízo final viking. O volume começa com Thor honrando os mortos não-enterrados de Asgard. Logo em seguida ele se depara com pai elfo-negro que jurou protegeu sua filha da morte ao assassinar o deus do trovão. Contudo, após uma batalha, os dois acabam se dando conta que querem ajustar as contas mesmo é com o Senhor dos Mortos, que passou a reinar nas Terras do Crepúsculo após o Ragnarök. O volume acaba prometendo mais histórias, mas mais delas não forma lançadas há muito tempo nos Estados Unidos, epla editora IDW onde saiu originalmente. Nesta empreitada Walter Simonson mostra que está atualizado e antenado no novo “pace” – o ritmo da narrativa – dos comics atuais, tanto na sua narrativa visual como nos diálogos que se utiliza. A história, nesse volume, se torna um tanto mais envolvente e chama mais a atenção, já que muitas “lendas” do Ragnarök são contadas nela e envolvem a história de nossos três protagonistas. Como já falei na resenha do primeiro volume, fãs de Thor e Simonson não devem perder.

Leia uma resenha completa desse quadrinho neste link

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A MARCHA: LIVRO UM, DE JOHN LEWIS, ANDREW AYDIN E NATE POWELL

Depois de quase dez anos sem grandes premiações externas aos quadrinhos para os quadrinhos, A Marcha deu um novo start para esse re-reconhecimento. Esta graphic novel foi a primeira série em quadrinhos a receber o National Book Award e, claro, seguiram-se as velhas e chatas polêmicas se quadrinhos são ou não são literatura. Não são, mas são livros, afinal são vendidos nesse formato. Outra polêmica que o livro ressignificou foi a do racismo, numa época em que assassinatos de negros por policiais varriam o país dos Estados Unidos, porém continuavam impunes. Este quadrinho fala da luta dos negros por direitos iguais, isso sob a óptica do parlamentar demoracrata John Lewis, que conta a sua história para duas crianças e, de que maneira a sua vida acabou se cruzando com a do pastor Martin Luther King Jr.. É um quadrinho lindo pela maneira como a luta silenciosa de não-violência dos negros soou e repercutiu país afora, mas também é um quadrinho triste porque a gente percebe o quanto a sociedade foi e ainda é segregada de maneira inaceitável. Um coisa que eu não conhecia dessa parte dos movimentos foram os “sit-ins” em que dezenas de negros sentavam-se em balcões de lanchonetes – em que não servia-se “pessoas de cor” – e ficava lá esperando até que alguém, ou a polícia os pusessem para fora. Ou então, alguém se dignasse a servi-los da mesma forma que os brancos. Isso é que é coragem. Isso é que é luta por direitos igualitários e humanos. E sem violência. Bem, essa foi apenas a primeira parte desta HQ, ainda tem mais duas. Só não posso acabar essa miniresenha sem antes exaltar a narrativa dos layouts e desenhos de Nate Powell que conferem uma dinâmica ainda mais dinâmica à leitura.

melmariaMARIA CHOROU AOS PÉS DE JESUS, DE CHESTER BROWN

Chester Brown com certeza é um artista desafiador de muitas certezas. Em seu desafio ele costuma se voltar contra a moral e os bons costumes principalmente naquilo que se refere ao sexo. E ele usa os quadrinhos como essa ferramenta. Quem lê uma obra de Brown vai ter a certeza de quadrinhos não são coisa de criança. Muito antes pelo contrário. Em seu primeiro quadrinho, chamado A Playboy, Chester contou a sua relação com o título epítome do erotismo e como ele lidava com a masturbação tendo sido criado em uma família extremamente cristã. Essa criação cristã ao extremo o perseguiu em outro livro em quadrinhos que fez sobre sexo, Pagando Por Sexo, em que analisava sua relação de mais de uma década somente se relacionando com prostitutas esporádicas, escrevendo praticamente um tratado de defesa da prostituição, com um terço do livro feiro de notas. Este seu terceiro livro, Maria Chorou aos Pés de Jesus, mais uma vez é um tratado sobre a prostituição, porém, esse encara a prostituição que é mencionada na Bíblia. É um livro de leitura rápida, pequeno, mas mesmo assim não deixa de ter um terço dele feito das notas de sua pesquisa. Neste livro, Brown defende a prostituição pelo ponto de vista da Bíblia, desde a escrava Tamar até Maria Madalena/Maria de Betânia. Mesmo que esse livro seja menos intenso que os outros dois anteriores, ele também serve como um rompedor de paradigmas e de certezas, principalmente nos ensinamentos da “palavra de Deus”, tidos como dogmas na Bíblia seguindo sempre a mesma interpretação. Neste livro, Brown dá uma nova interpretação polêmica sobre eles. E o faz de maneira cuidadosa, respeitosa, porém inquietante. Muito bom!

MELblackhammer

BLACK HAMMER: ORIGENS SECRETAS, DE JEFF LEMIRE, DEAN ORMSTON E DAVE STEWART

Fazia tempo que eu não lia um material realmente bom de Jeff Lemire. E digo isso me referindo mais ao seu material colorido, que não é independente, que é mainstream. Este quadrinho fica no meio termo entre as duas modalidades, como ele mesmo atesta no epílogo. É uma grande homenagem aos super-heróis de todas as épocas. Grande parte desse tipo de homenagens, seja feitas por Alan Moore, por Warren Ellis ou outros artífices, costumam lograr grande êxito. Claro, existem também as evidentes exceções. Na história de Black Hammer, uma “família” formada por super-heróis deslocados no tempo e no espaço tenta conviver numa fazenda no interior escondendo seus segredos e seus poderes da população em geral. O mais legal de se trabalhar super-heróis para um público adulto são as ambiguidades e as analogias que podem ser traçadas e nisso, Jeff Lemire se sair extremamente bem. Na verdade, a HQ toda é muito muito bem construída – nem parece o mesmo Lemire de Extraordinários X-Men. A arte de Dean Ormston fica num algo entre Mike Mignola, Frank Quitely e Francesco Francavilla e sua narrativa segue um ritmo ótimo de acompanhar. Portanto, ler Black Hammer é garantia de satisfação para fãs novos e antigos de super-heróis numa linda e tenebrosa homenagem.

Leia uma resenha completa deste quadrinho neste link.

melmundoMUNDO INVERNAL, DE CHUCK DIXON, JORGE ZAFFINO E BUTCH GUICE

Chuck Dixon é um cara controverso. Embora ele sempre faça histórias instigantes, bem engendradas, com personagens cativantes, ele possui um posicionamento político questionável e conservador. Talvez, na minha humilde opinião, seja esse posicionamento que o impeça de estar um patamar acima nos grandes escritores de quadrinhos. Embora neste Mundo Invernal, aqui e ali e traça algumas críticas ao mundo moderno, como a poluição e o efeito estufa, o que deixam uma HQ que se passa num futuro pós-apocalíptico congelado mais interessante e atual. O desenhista Jorge Zaffino, que fez as duas primeiras partes em preto e branco da HQ dá um show de narrativa. Entretanto eu preciso confessar que a parte que ADOREI desta HQ foi a última, que é desenhada por Butch Guice. Creio que muito dessa impressão foi o desenvolvimento mais atual da narrativa e a presença de cores. As partes de Zaffino foram publicadas no final da década de 80, enquanto que as de Guice foram feitas no início dos Anos 2000. Embora a chamada da HQ chame a atenção para a cruza de histórias de O Dia Depois de Amanhã e de Mad Max, eu diria que ela se parece mais com filmes de zumbi, como A Estrada e Extermínio, mas claro, SEM os zumbis, o que traz mais verossimilhança à história e um terror mais humano, ou seja, provocado pelo egoísmo e mesquinharia da nossa espécie. E é nisso o grande acerto da HQ. Sabemos que as situações de pressão fazem aflorar a extrema bondade ou a extrema maldade das pessoas, revelando sua verdadeira natureza. Um mundo pós-apocalíptico em que quase toda a Terra está sob um frio extremo catalisa essas situações. Recomendo a leitura.

melcamposCAMPOS DE BATALHA, DE GARTH ENNIS, RUSS BRAUN E PETER SNEJBJERG

Garth Ennis sempre tem o poder de me surpreender. Quando acho que já sei o que esperar dele – BOOM! You drop the bomb on me! Seus temas favoritos são a crítica à religião, a camaradagem masculina e as guerras, principalmente as duas grandes. Nesse álbum, publicado pela Dynamite, Ennis nos apresenta a guerra por uma outra óptica: a das mulheres. Esse é o tema em comum entre as duas histórias contidas aqui, Bruxas da Noite e Querido Billy. Embora as mulheres, em sua maioria, não tenham lutado nas guerras, elas também sentiram e muito o poder que ela tem de marcar, aterrorizar, traumatizar e transformar. A primeira história, mostra um esquadrão russo de pilotas de avião composto inteiramente de mulheres, enquanto do outro lado, uma tropa nazista enfrenta a neve e a desolação da neve bolchevique. O encontro entre essas duas forças promete surpresas, reviravoltas e feridas na alma através da natureza humana. Essa natureza também está presente na história Querido Billy que, embora não se passe no front, é mais horrorosa e contundente e muito bem escrita, deixando o leitor numa dúvida moral. Ele conta a história de Carrie, que vira enfermeira após ter sofrido na guerra e se apaixona por Billy, um piloto inglês. Mas a visão distorcida dos dois sobre a guerra pode ser um problema para o seu relacionamento tão bonito. Um problema dessa história, entretanto, são as cores, que poderiam ser melhores e mais apropriadas para a arte. Mesmo assim, Ennis trouxe, meio que na surdina, porque pela capa e descrições desse quadrinho, eu não apostaria um centavo, uma das melhores leituras que tive até agora em 2018.

ninjak

NINJAK: VOLUME UM: ARMEIRO, DE MATT KINDT, CLAY MANN, BUTCH GUICE E JUAN JOSÉ RYP

Quem lê a primeira história de Ninjak, com certeza não vai ser convencido a continuar lendo, entretanto, aqueles que insistem um pouco mais vão ser recompensados com uma história de espionagem e formação incrivelmente saborosa. E digo saborosa também no sentido dos desenhos de Clay Mann que faz homens e mulheres estonteantes. Vale dizer que a história corre em três linhas do tempo: uma no presente, na missão de Ninjak, que antes que você possa supor, não é um ninja, mas um agente secreto; outra, e a melhor delas, se passa no passado distante do garoto Ninjak, que era preso em sua propriedade com um tutor violento; e por, fim, a última, com desenhos de Butch Guice, que mostra um passado recente e conta como Ninjak se tornou quem é. Além disso tudo, temos uma história desenhada por Juan José Ryp, que conta a história de deuses ancestrais, monges e pactos de uma grande inimiga de Ninjak. Ou seria aliada? Bem, a verdade é que Ninjak é mais um quadrinho da bola leva da Valiant Comics, uma editora que carece de mais materiais no Brasil, uma vez que vários de seus personagens estarão em diversos filmes a partir do ano que vem. Tomara que a editora tenha mais sobrevida deste vez nas mãos da Jambô Editora. Essa é a nossa torcida.

faithFAITH, DE JODY HOUSER, FRANCIS PORTELA E MARGUERITE SAUVAGE

Faith Herbert, a heroína conhecida como Zephyr, ficou conhecida fora das páginas de Harbinger, da Valiant Comics, a revista onde aparecia, por ser uma heroína fora dos padrões. Ou seja, ela não é peituda e nem bunduda e nem tem cintura de seriema. Ela é gordinha e com muito orgulho. Orgulho nerd diga-se de passagem. Nos diálogos de Faith, podemos nos identificar com coisas nerds que ela cita, sem cair na vergonha que esses diálogos ficam na boca de um Sheldon de The Big Bang Theory. A trama da minissérie de Faith não é lá tão original, mas a maneira como ela é desenvolvida é que é interessante, como o disfarce de Faith como uma jornalista de um site estilo BuzzFeed. Aliás o quadrinho da Faith é um produto cultural super antenado na era digital, dos smartphones às redes sociais, o que torna ele um quadrinho ideal para as próxima gerações, mais antenadas e desencanadas de preconceitos bestas. Além disso, os desenhos de Francis Portela e Marguerite Sauvage são lindos e combinam muito com o tom da história. Um tom que poderia cair na galhofa, devido ao formato do corpo da personagem, mas que, por sorte, não é o caso. But you gotta have Faith, Faith, Faith!


Eae garotíneos e garotíneas de fora da escotilha, que acharam da lista de melhores do ano? Você leu alguma dessas e o que achou? E se não leu, quais gostaria de ler? Não deixe de comentar! Abraços de fora da clarabóia!

 

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