Aquela Vez em que um Quadrinho de Alan Moore Virou um Poema Épico Gay

Ah, os anos 80! Eles eram muito parecidos com o que estamos vivendo agora, né? A ascensão de uma direita extremista no mundo todo e as minorias em risco de morte. A desinformação e a contrainformação reinando forte nas ruas e nos meios de comunicação (formais ou informais). Os quadrinhos também se tornaram mais radicais naqueles tempos sombrios. Era uma época em que distopias em que a direita extrema reinava foram escritas para os quadrinhos. Duas dessas obras se chamavam Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Elas mudaram para sempre o cenário dos quadrinhos. Para o bem e para o mal. E ao mesmo tempo que esse cenário caótico e desesperador era admitido no coração das pessoas, um grupo de artistas resolveu falar. Entre estes artistas estava o mago de Northampton, Alan Moore.

Nem todo mundo sabe, mas Cavaleiro das Trevas e Watchmen não querem confirmar que um homem tem que ser macho. Na verdade as duas obras querem desconstruir os valores de virilidades vigentes e que fazem homens se comportarem como psicóticos violentos como Rorschach e Batman. Mas a mensagem recebida foi interpretada errada. Alan Moore nunca disse que um super-herói tem de ser macho. Ele desconstruiu eles mostrando que eram falhos exatamente porque discorda desta visão machista da sociedade. Por isso fez do Dr. Manhattan um insensível, do Coruja um impotente, do Rorschach um paranoico e do Ozymandias um indivíduo sedento pelo poder. Essas características dos heróis são características masculinas que dão origem às guerras e aos conflitos avassaladores de vidas. Dos quais Alan Moore era terminantemente contra. E Alan Moore também era terminantemente a favor da homossexualidade.

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O grande trabalho de Alan Moore depois de Watchmen foi o de editar e organizar uma coletânea de quadrinhos contra a cláusula 28, proposta por alguns deputados que apoiavam “valores familiares” do governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher. Moore, que vivia com duas mulheres naquela época e as duas se relacionavam entre si, via aquela proposição como um ataque direto ao seu modo de viver:

“Na época… tinha eu, tinha minha esposa, e tinha nossa namorada e todos morávamos juntos de uma forma bem aberta em um relacionamento meio diferente. Durou uns dois ou três anos. Na época é óbvio que éramos muito próximos da cena gay e lésbica e quando vimos essa legislação passando achamos aquilo alarmante, porque era fato que nunca havia aparecido uma legislação especificamente legislada contra um grupo em particular. Era uma legislação nazista, ainda mais quando se tinha vereadores da direita entusiasmadíssimos, que falavam em levar as bichas para as câmaras de gás como solução definitiva… Então decidimos mobilizar todos os amigos que consegui encontrar e lancei uma HQ beneficente cuja arrecadação seria inteiramente revertida para organizações de manifestações gays e lésbicas” (MOORE in PARKIN, 2016, p. 254)

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Quadrinho de Neil Gaiman e Bryan Talbot para a AARGH!

Moore e suas esposas lançaram então a revista AARGH! (Artists Against Rampaging Governamental Homophobia!, ou em tradução, Artistas Contra a Homofobia Governamental Descarada!). Essa antologia trazia artistas de peso de diversas mídias além dos quadrinhos como Frank Miller, Robert Crumb, David Lloyd, Neil Gaiman, Kevin O’Neill, Garry Leach, Brian Bolland, Kathy Archer, Dave McKean, Bill Sienkiewicz, Posy Simmonds, Alexei Sayle, Oscar Zarate, Harvey Pekar, Bryan Talbot, Dave Sim, Dave Gibbons e Art Spiegelman. Praticamente todos os grandes e mais badalados roteiristas e artistas dos quadrinhos dos anos 80 embarcaram no movimento de Alan Moore e deram suas mãos contra o governo homofóbico. Veja abaixo, por exemplo, a história de três páginas feita por Frank Miller:

Moore montou uma editora chamada Mad Love apenas para lançar essa coletânea. Também eram editoras Phyllis Moore e Debbie Delano, as duas mulheres que também se relacionavam sexualmente com Moore. Elas também escreveram o posfácio da publicação. A história que Moore escreveu para essa compilação foi The Mirror of Love (ou O Espelho do Amor) e se tratava de uma extensa pesquisa que ele havia feito sobre a história da homossexualidade e que era contada na forma de poesia. A arte era de Steve Bissette e Rick Veitch. A HQ foi lançada em março de 1988 na mesma época em que A Piada Mortal chegava às bancas dos Estados Unidos. A Titan distribuiu a HQ de graça e a Mad Love doou o dinheiro arrecadado, mais de 17 mil libras, para a OLGA (Older Lesbian, Gays and Trans Association). A lei, contudo, acabou sendo promulgada, e as organizações gays e lésbicas ficaram desmazeladas. Na introdução da coletânea de V de Vingança, de 1988, Moore indica uma grande preocupação com o futuro sob esse cenário:

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“Minha filha caçula tem sete anos e um tabloide circula com a proposta de campos de concentração para quem tiver AIDS. Os pelotões de choque agora vestem visores negros, assim como seus cavalos, e suas unidades móveis tem câmeras de vídeo rotativas, o governo expressou a vontade de erradicar o homossexualismo (sic) até como conceito abstrato e podemos apenas especular qual minoria será atacada na próxima legislação. Tenho pensado em pegar minha família e sair logo deste país, quem sabe nos próximos anos. O clima está frio, arisco e não estou gostando do que vejo. Boa noite, Inglaterra” (MOORE in PARKIN, 2016, p. 257)

Tirando o clima frio, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, certo? Errado. Estamos vivendo, seja aqui no Brasil, seja nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia, um clima muito parecido com o de 1988 e que levou uma massa de conceituados artistas de quadrinhos a se levantarem contra o governo de extrema direita.

Abaixo duas páginas de Mirror of Love, de Alan Moore, Steve Bissette e Rick Veitch:

O fato é que a história em quadrinhos de Moore produzida para a AARGH! se tornou um livro editado pela Top Shelf (a mesma editora de A Liga Extraordinária), em 2004. Dessa vez não tínhamos quadrinhos, mas apenas o poema épico gay de Moore que falava sobre a história do amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte, então desta vez coube a José Villarrubia, um espanhol homossexual prolífico em trabalhos de colorização na indústria de quadrinhos e que colaborou com Moore em Promethea. No livro, Villarrubia se utiliza de foto montagens e ilustrações para compor o visual do livro. O livro tem capa dura, sobrecapa e 136 páginas em papel de qualidade.

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O artista José Villarubia e o livro Mirror of Love, editado em 2004 pela Top Shelf.

“Eu gostaria que as pessoas heterossexuais lessem este livro para perceber a incrível contribuição que  homens e mulheres gays fizeram para a cultura humana – para perceber o quão importante e vital, eles têm sido e continuam a ser”, disse Moore em entrevista para a revista gay The Advocate, em 2004. Com uma risada, ele acrescenta: “E eu gostaria que as pessoas gays lessem para perceber exatamente a mesma coisa. Se você está em uma certa situação em que você se sente oprimido por causa de sua sexualidade, eu não estou dizendo que o livro iria resolver tudo para você, mas pode ajudar se você perceber o sentido da cultura em que está inserido. Se você puder perceber a sensibilidade dos homens e mulheres do passado, rotulados antes de você – se você tiver um vislumbre do seu conhecimento, do que eles alcançaram, do que puderam ser capazes – então eu acho que isso pode fazer você se sentir mais forte”.

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O livro Mirror of Love, de Alan Moore e José Villarubia.

Portanto se você acha que as revistas escritas por Alan Moore, ou até mesmo por Frank Miller, Neil Gaiman, e toda essa gama de artistas que participou da coletânea anti-homofobia produzem alguma mensagem de violência contra homossexuais, está´redondamente enganado. O que essas HQs querem discutir, se é que discutem alguma coisa sobre papéis de gênero, é que eles estão em constante construção e que não são estanques como se pode pensar, de que menino veste azul e menina veste rosa e é isso mesmo. Não, elas estão contestando esse fato. Elas estão dizendo: “leitor existe um vasto mundo lá fora maior que sua bolha, se você vai se arriscar a viver nele, encare o que ele traz de diferente. Ou então não se arrisque”. Hoje você aprendeu que Alan Moore é contra qualquer tipo de homofobia. Parabéns! Suas definições do que é ser homem nos dias atuais foi atualizada!


PARA LER MAIS:

PARKIN, Lance. Mago das palavras: a vida extraordinária de Alan Moore. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial Editora, 2016.

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