O Filme da Capitã Marvel e Os Recursos da Memória

Atenção! Este post pode conter traços de spoilers! Muita gente está empolgada com o filme de Carol Danvers, a Capitã Marvel, mas muita gente também está boicotando o filme. Muitos falam que o filme não tem roteiro e que é só mais um filme de origem da Marvel. Pode ser uma forma de disfarçar o seu machismo e sua misoginia enrustidas. Porque o filme tem roteiro sim, e não é mais um filme de origem. Ele tem um recurso próprio de roteiro, quase tão bom como no primeiro filme do Deadpool, e esse recurso é a utilização dos mecanismos da memória de Vers, ou de Carol Danvers, no filme. Neste post vou falar um pouco sobre isso.

O filme da Capitã Marvel é um busca. Mas não é uma busca por um artefato, como uma primeira e rasa leitura pode depreender. É uma busca por identidade. No filme fica claro que é a memória quem trabalha os conceitos de identidade do ser humano, que monta os flashs de lembranças que tem para compor uma memória autobiográfica que dá sentido à sua vida e diz a ele quem ele é. Dentro das opções identitárias à disposição da pessoa, ela escolhe aquelas que mais se encaixam com seu projeto de vida. Carol Danvers é uma piloto da força aérea, mas também é uma piloto freelance, uma amiga, e uma figura que serve de modelo para uma menininha.

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“É no mesmo momento que a memória vem confortar ou enfraquecer as representações identitárias, que estas vêm reforçar ou enfraquecer a memória”, nos diz Joël Candau. “Em todos os casos, esse trabalho de memória é coletivo desde sua origem, pois manifesta-se no ‘tecido das imagens e da linguagem’, que devemos à sociedade e que vai nos dar ordem ao mundo”. (CANDAU, 2012, p. 77 e 78). Segundo Candau, a identidade pode ser uma instância administrativa e burocrática, como no caso da representação na carteira de identidade, mas nas ciências humanas e sociais, ela é tratada como identidade individual (CANDAU, 2012, 25). Por estar ligada a sistemas de representação, ligada a sistemas de discurso e narração, a identidade possui estreitas ligações com relações de poder. Ao se identificar como kree, Vers é mais uma arma no poderio e nas manipulações daquela raça alienígena para atingir seus objetivos em sua guerra contra os skrulls. A mesma função Vers acaba adquirindo quando manipulada pelos skrulls.

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Assim, como Carol Danvers estamos sempre numa construção de nós mesmos, acessando nossas memórias para descobrirmos quem somos e como nos encaixamos nas possibilidades que o mundo nos oferece. Essa forma de nos projetarmos no mundo tem a ver com as primeiras histórias do título-solo em quadrinhos da Ms. Marvel, de onde se originou os poderes de Carol Danvers. Naquelas HQs, Carol Danvers vivia uma vida dupla. Ela mantinha um emprego em uma revista feminina do Clarim Diário, mas ao mesmo tempo atuava como Miss Marvel. Contudo, cada uma dessas personas não tinha consciência da atuação da outra. No filme, a Capitã do exército kree, vers, precisa empreender uma busca para entender suas ligações com o plante C-53, a Terra, e por que esse lugar é tão familiar a ela, sendo que ela sempre acreditou ser uma kree.

Leia aqui um post sobre a trajetória da Capitã Marvel nos quadrinhos.

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Assim, chegamos em um ponto em que podemos considerar que a memória também pode ser manipulada, como é feito com Vers tanto pelos skrulls quanto pelos krees. A memória humana também pode ser manipulada. A memória individual pode ser alterada através de lavagens cerebrais. Mas é a memória coletiva a que é mais manipulada durante a existência humana. Por exemplo, nossas noções sobre a escravidão e como se deu esse período na história da humanidade. Outra forma é por que razão determinados fatos, acontecimentos, notícias, acabam assumindo maior importância em detrimento de outras. Isso é manipulação da memória coletiva. Isso pode ser tão prejudicial para a humanidade quanto uma lavagem cerebral, porque configura uma lavagem cerebral em massa, omitindo e destacando determinados fatos da História.

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Dentro do filme da Capitã Marvel, quem representa a memória coletiva, é a Inteligência Suprema dos krees, que é formada pelo Coletivo, ou seja, a alma de todos os krees mortos. A Inteligência Suprema se manifesta na mente dos krees na forma da pessoa que aquele indivíduo mais admira. Essa concepção tem a ver com aquilo que Maurice Halbwachs falava sobre o conceito de memória coletiva:

“No mais, se a memória coletiva tira sua força e sua duração do fato de ter suporte num conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que se lembram, enquanto membros do grupo. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apóiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles”. (HALBWACHS, 1990, p. 51)

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É somente quando Carol Danvers, ou Vers, chega à Terra é que ela começa a se dar conta de que pode, de alguma forma, pertencer àquele lugar e que seu passado, na verdade, está escondido ali. Portanto, “a identidade só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto” (BAUMAN, 2005, p. 21). Se a identidade é algo criado, ela precisa ser transformada de algum lugar, afinal, ela não esteve lá o tempo todo. Ao começar a comparar os hábitos e valores krees com os terrestres, Vers começa a se dar conta que tem algo de errado naquilo que lhe ensinaram.  Desse jeito, a identidade que Vers começa a formar em sua mente depende de um sistema de comparações culturais, representações sociais e outras formas de estabelecer uma diferença para que possa ser averiguada. “A identidade, pois, não é o oposto da diferença: a identidade depende da diferença. nas relações sociais, essas formas de diferença – a simbólica e a social – são estabelecidas – ao menos em parte, por meio de sistemas classificatórios”. (WOODWARD, 2014, p. 40).

Leia aqui um Guia de Leitura dos quadrinhos da Capitã Marvel.

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Portanto, o roteiro de Capitã Marvel possui um artifício bem pensado, porque o espectador acompanha ao lado da protagonista a descoberta da sua identidade, de quem ela é e qual seu papel no mundo.  “Aquele que manipula o passado pessoal, familiar e regional cria-se a si mesmo ao mesmo tempo que cria seus adversários”. (CANDAU, 2012, p. 166). Vers foi atrás de seu passado, buscando as Rambeau e as memórias encerradas por elas em seus arquivos – a caixa que Mônica guardava – ao mesmo tempo, Vers foi manipulada tanto por skrulls como krees para criar a sua noção de pertencimento, família e principalmente de adversários. Para Henri Bergson, a memória “já não nos representa nosso passado, ela o encena; e, se ela merece ainda o nome de memória, já não é porque conserve imagens antigas, mas porque prolonga seu efeito útil até o momento presente” (BERGSON, 1999, p. 91).

Capitã Marvel nos cinemas em 2018!

Poderíamos estabelecer diversas associações da memória com o feminino, já que este é o primeiro filme com uma protagonista feminina da Marvel. Mas vamos nos ater à construção da identidade feminina, do mesmo jeito que Vers estabelece a segurança e a autonomia de aceitar quem é e lutar por si mesma. Temos a célebre frase da grande feminista francesa Simone de Beauvoir que diz “não se nasce mulher, se  torna mulher”. Isso quer dizer que as noções de feminino, de papéis de gênero e de feminismo, estão em franco desenvolvimento. E que a mulher precisa lutar para conquistar o seu lugar na sociedade porque é vista como um ser fragmentado, à parte dos demais, que não tem os recursos necessários para se instituir.

Vou lhes apresentar uma senhorita que nunca se viu: Miss Marvel 2000!

Vemos que Carol é vista assim, nas várias cenas em que cai e um homem vem dizer para ela que ela não serve para aquilo – seja aquilo o que for – e toda vez que ela levanta para tentar outra vez, ela está reconstruindo suas noções de identidade feminina, ela está tomando parte de espaços em que ela não é permitida, mas ainda assim ela está rompendo essa fronteira identitária e a assumindo para si. Percebemos, portanto que para a mulher, ou outras identidades assumirem terrenos em que não são permitidas sua atuação, existe uma constante luta, é preciso cair, para levantar e lutar outra vez. Cair, para levantar e lutar outra vez, para assim borrar as fronteiras identitárias e alargá-las, usando da memória como artifício de repetição e de reconstrução, seja a memória individual, mas principalmente na coletiva.

Esse é o serviço público que o filme da Capitã Marvel presta: ampliar as atuações do feminino, exatamente através da memória coletiva, que vai estabelece um marco em que o filme da Capitã Marvel mostra que, para a mulher, ou para qualquer um, não há nada errado em cair e levantar outra vez. Apenas para cair e levantar outra vez. Mas que a cada vez que você cai, você levanta. Você levanta mais forte.

Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.
BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2012.
HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1990.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: DA SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2014.

 

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