As Linguagens dos Quadrinhos e Suas Relações Com os Memes da Internet

Os quadrinhos abarcam diversas linguagens e é isso que o renomado e cultuado livro As Linguagens dos Quadrinhos, do pesquisador italiano Danielle Barbieri nos apresenta. Este livro influenciou diversas gerações de pesquisadores dos quadrinhos no Brasil, desde que foi publicado pela primeira vez, na Itália, em 1991. Mas no Brasil, chegou apenas nas comemorações dos seus 25 anos, em 2016, editado pela Editora Peirópolis. Muito celebrado, o livro é genial simplesmente porque estuda os quadrinhos a partir do legado de outros tipos de linguagens para esse tipo de mídia. Vou falar um pouco neste post sobre as ideias de Barbieri sobre a quatro classificações das demais linguagens com os quadrinhos, que o autor estabelece em seus estudos. Como exemplos, vou trazer os memes da internet, que também possuem ligações com a linguagem dos quadrinhos.

MEMEbarbieriAntes de começarmos, porém, muitas pessoas pensam que os quadrinhos são literatura, outros pensam que são arte, mas não param para pensar que na interseção de imagens e palavras existe uma coisa chamada comunicação: uma mensagem está sendo transmitida e, para essa mensagem ser transmitida, a comunicação precisa se ocupar de uma linguagem. A peculiaridade dos quadrinhos faz com que eles sejam mais que uma literatura, uma arte, uma mera comunicação, mas um veículo para tudo isso, portanto, os quadrinhos são uma mídia que opera através das diversas linguagens sensoriais que o ser humano têm a sua disposição. Já os memes, conforme o livro O Gene Egoísta, de Richard Dawkins, são definidos da seguinte maneira:

“Exemplos de memes são melodias, idéias, slogans, as modas no vestuário, as maneiras de fazer potes ou de construir arcos. Tal como os genes se propagam no pool gênico saltando de corpo para corpo através dos espermatozóides ou dos óvulos, os memes também se propagam no pool de memes saltando de cérebro para cérebro através de um processo que, num sentido mais amplo, pode ser chamado de imitação” (DAWKINS, 2007, p. 330).

MEMEgretchen

Dentro do contexto da internet, os memes são formas de comunicações e expressões que “viralizam”, ou seja se reproduzem, se replicam e se diferenciam mantendo a mesma estrutura de uma forma massiva, desenvolvida, disseminada e recebida por milhares de pessoas num curto espaço de tempo. “O que todos os memes, independente da origem, trazem em comum é o fato de surgirem e se multiplicarem de forma espontânea, além de se desenvolverem de forma orgânica e colaborativa, geralmente se espalhando pela internet na mesma velocidade em que caem em desuso, podendo sua presença online variar de alguns anos até poucos dias” (LUIZ, 2013, p. 94 e 95).

MEMEfaces

Retornando às linguagem dos quadrinhos, precisamos estabelecer uma diferença entre as demais linguagens e a forma como se apresentam para o receptor. A natureza dessas manifestações pode ser de natureza da linguagem das imagens, que embarcam o desenho, a pintura, a caricatura, a fotografia e o design gráfico. Pode ser também da linguagem das temporalidade, como a música e a narrativa (portanto, a literatura em prosa, mas também no ritmo da poesia). Por fim, a junção das linguagens das imagens e da temporalidade nos trazem o teatro e o audiovisual (como a televisão, o cinema e a animação), que nos confere um elemento muito importante para a linguagem dos quadrinhos que é o trabalho dos cortes e da montagem.  A partir dessas classificações, Barbieri estabeleceu quatro relações entre as demais linguagens e as linguagens dos quadrinhos. Irei citar as teorias de Barbieri e, em seguida vou tentar exemplificar elas através dos quadrinhos contemporâneos:

Inclusão (uma linguagem está inserida na outra, faz parte da outra): a linguagem dos quadrinhos faz parte da linguagem geral da narrativa, assim como o cinema e muitas outras linguagens que nos são familiares. Todas as linguagens narrativas têm obviamente algumas características em comum, enquanto fazem parte do mesmo grande ambiente”. (BARBIERI, 2017, p.19).

No caso da inclusão, podemos encontrar os memes de expressões que são levados aos quadrinhos de forma textual, como por exemplo o polêmico caso da expressão “meu corpo, minhas regras”, na revista da Turma da Mônica Jovem. Apesar do “meme” estar inserido no contexto da história em quadrinhos, promovendo um momento de referência e humor, muitos reclamaram porque a expressão teria a ver com a liberação do aborto. Outra maneira de inclusão, nesse caso de efeitos pictóricos, é a reprodução das “meme faces”, como as de “forever alone” ou a de “trollface”, ou ainda o “rage guy”.

MEMEmonica

Geração (uma linguagem é gerada por outra): a linguagem dos quadrinhos é “filha” de outras linguagens. Historicamente nasce como uma derivação de outras linguagens, como a da ilustração, da caricatura, da literatura ilustrada. Compartilha, em consequência disso, muitas das características dessas linguagens, mas é muito distinta de cada uma delas” (BARBIERI, 2017, p. 20).

Nesse caso, vemos uma inversão. Muitas vezes a própria linguagem dos quadrinhos é usada para construir memes. Um exemplo mais recente é a tirinha em que um homem evita que o outro se suicide, em que as pessoas nas redes sociais mudam o texto da tirinha conforme o que querem expressar. Outro exemplo, mais clássico, é a imagem em que Batman acerta um tapa em Robin, em que o motivo do Cavaleiro das Trevas para espancar o Menino-Prodígio é expresso no texto do balão.

MEMEwolvi

Convergência (duas linguagens convergem em alguns aspectos): existem naturalmente alguns parentescos horizontais, linguagens das quais os quadrinhos não descendem , mas com as quais são aparentados por terem antepassados em comum (como é o caso da pintura, da fotografia e da imprensa) ou de terem áreas expressivas em comum (como no caso da poesia e da música, do teatro e do cinema)” (BARBIERI, 2017, p. 20).

MEMElarga

Neste caso, peguemos por exemplo a pintura da mulher que segura um extraterrestre, que por si só, já é uma imagem alterada da original, em que muitas vezes o ET grita: “Me solta!…” e o resto é complementado com as intenções do meme. É uma forma de conferir a uma pintura uma linguagem dos quadrinhos, geralmente feita através da inserção de textos feitos na fonte Impact com cor branca em contorno preto.

Adequação (uma linguagem se adequa à outra): é o caso mais interessante. Acontece quando os quadrinhos acham mais simples imitar, reproduzir em seu interior outra linguagem, para utilizar dela suas possibilidades expressivas, do que buscar construir dentro de si possibilidades expressivas “equivalentes”. É o caso em que, dito de outro modo, os quadrinhos “citam” outra linguagem” (BARBIERI, 2017, p.19).

MEMEreferencia

Dessa vez a linguagem dos quadrinhos é usada nos memes para simplificar a linguagem audiovisual, Isso acontece quando se copia um frame de alguma produção audiovisual e se insere, geralmente, uma linha de texto acima e outra linha de texto abaixo, para simular um ritmo e uma movimento para a imagem, ao estilo dos quadrinhos. Um exemplo desta utilização é o meme do “Entendi a referência!”, do Capitão América de Steve Rogers, mas também existem inúmeros tipos destes memes, por exemplo os que usam a cantora Gretchen em seus momentos no reality show A Fazenda. Não por acaso, a “rainha do bumbum” é a rainha dos memes e foi contratada pela popstar Katy Perry para fazer uma versão de seu clipe “Swish, swish”, que você pode conferir abaixo.

Como pudemos ver, os quadrinhos, além de possuírem intrínsecas relações com outras linguagens, eles ainda lançam mão de seus recursos para construírem e estabelecerem novas linguagens, como aquelas envolvidas nas confecções de memes. Os memes, por sua vez, devem muito à linguagem dos quadrinhos e, pode ser que, de certa maneira sejam uma evolução ou ainda o futuro dos quadrinhos. Isso claro, só o tempo dirá. Espero que tenham gostado do post! Não deixem de comentar! Abraços submersos em notificações das redes sociais.

Referências:

BARBIERI, Danielle. As linguagens dos quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2017.

LUIZ, Lucio. Os quadrinhos na era digital: HQtrônicas, webcomics e cultura participativa. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial Editora, 2013.

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